35mm e linha –
Luiza Therezo
AJUDA CONTRA[1]
Jacques-Alain Miller
Então, por que vem você,
Jacques-Alain Miller, nos pedir que saiamos da caixa? Note-se que Lacan toma a mão
de Joyce precisamente aqui. Assim começa: Lacan toma a mão de Joyce como Dante
toma a de Virgílio para visitar o inferno, o purgatório e o paraíso. Acontece
que, dada a torção necessária, faz falta uma guia, uma ajuda. Eis aqui algo que
não aparece mais que uma ou duas vezes no seminário O sinthoma: o tema da ajuda. O que significa isso? Que ajuda? Em
algum momento Lacan dá a entender que o que mais ajuda é a “ajuda contra”, isto
é, a ajuda que não necessariamente lhes faz bem. Essa “ajuda contra” se
encontra na Bíblia. Para Adão, de fato, a dificuldade começa imediatamente. Deus
inventa para ele assim uma ajuda na pessoa de Eva. É mesmo muito bonito que o tenha
assinalado um ouvinte do seminário O
sinthoma: na versão da Bíblia feita pelo senhor Chouraqui se traduz que o
que Deus dá a Adão na pessoa da mulher é uma “ajuda contra”. Não tentarei
aperfeiçoar meu conhecimento do hebraico, cujos caracteres antes sabia
reconhecer, mas deveria perguntar de que se trata exatamente.
Uma “ajuda contra” na
pessoa de Eva... As pessoas de boa vontade dizem a si mesmas que não é possível
que Deus tenha feito algo semelhante, que isso tenha estado entre suas
intenções. Vocês têm a Bíblia de Jerusalém, feita de A a Z pelos dominicanos e
também defendida perante a justiça pelo meu advogado. Se dissermos que o homem
necessita de ajuda, imagina-se que estão todos de acordo. Temos, sem dúvida, um Sim unânime – exceto os
dominicanos, e inclusive... (Vejam que enquanto me deixo levar, faço troça, é
um fato). A Bíblia de Jerusalém traduziu então que Deus proveu o homem com uma
ajuda que o auxilia. A história do mundo permite constatar isso.
A “ajuda contra” aparece
duas ou três vezes no seminário O
sinthoma. Por que ir buscar Joyce como ajudante? Digamos simplesmente; se
não, me dirão que dou voltas sem ir ao ponto. Mas sim! Dar voltas, essa é a
questão! Digo e não em absoluto, mostro uma pontinha e depois, opa!, escondo-a outra vez, como um strip-tease.
Não me verão desfolhar o seminário O
sinthoma. Inclusive adicionarei algumas camadas. Mas aqui, para ser
simples, direi que Joyce está afetado por um sintoma – é o que supomos – da
ordem do pré-psicótico e que nunca se torna psicótico. Não há que
diagnosticá-lo; digo-o para que o esqueçam. Entre as frases do seminário não passa
de um suave murmúrio, uma ligeira vibração, leves flashes...
[1] Expressão
utilizada por Lacan, no Seminário 23, O
sinthoma. Este trecho foi extraído de: Miller,
Jacques-Alain.
Piezas sueltas – 1o ed. Ciudad Autónoma de Buenos
Aires: Paidós, 2013, p 131-132.
Tradução: Elaine Maciel
Revisão: Ana Helena Bezerra de Souza

