Boletim da XX Jornada da EBP-MG "Jovens.com Corpos & Linguagens"
Trazemos o Boletim #qqpega 05 contemplando a juventude e as ocupações das escolas pelos estudantes. Conversamos com 03 jovens secundaristas de São Paulo e lhes perguntamos "Qual a marca da juventude?" A resposta, vocês poderão conferir logo abaixo, tanto em vídeo quanto em texto.
Na sequência das entrevistas com os jovens, vocês poderão conferir a reflexão de Rômulo Ferreira da Silva, diretor do XXI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, sobre o tema das ocupações. Clique aqui acessar o texto.
Finalizando o Boletim #qqpega 05, compartilhamos uma entrevista que foi publicada no jornal "O Tempo" no dia 22 de junho, com a psicóloga, mestra e doutora em letras, Ludmilla Zago sobre "Pixo, arte e resistência política" que vale a leitura!!! Acesse a reportagem.
Lembrando que o prazo para envio de trabalho é dia 30 de junho! E que as inscrições podem ser feitas parceladas e com desconto. Não fique de fora!!!
Desejo a todos uma boa leitura!
Miguel Antunes
Coordenador do Boletim #qqpega
Impossível não lembrar da música de Gonzaguinha neste momento tão pulsante em que vários jovens têm, a cada dia mais, tomado a palavra e posicionado-se ética e politicamente em várias cidades no Brasil: "Eu ponho fé é na fé da moçada/Que não foge da fera, enfrenta o leão/Eu vou à luta com essa juventude/Que não corre da raia a troco de nada".
Perguntamos a 03 jovens de São Paulo que participaram das ocupações nas escolas contra a Reorganização proposta pelo governo do Estado "qual a marca da juventude?" E as respostas vocês podem conferir logo abaixo:
Na sequência das entrevistas com os jovens, vocês poderão conferir a reflexão de Rômulo Ferreira da Silva, diretor do XXI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, sobre o tema das ocupações. Clique aqui acessar o texto.
Finalizando o Boletim #qqpega 05, compartilhamos uma entrevista que foi publicada no jornal "O Tempo" no dia 22 de junho, com a psicóloga, mestra e doutora em letras, Ludmilla Zago sobre "Pixo, arte e resistência política" que vale a leitura!!! Acesse a reportagem.
Lembrando que o prazo para envio de trabalho é dia 30 de junho! E que as inscrições podem ser feitas parceladas e com desconto. Não fique de fora!!!
Desejo a todos uma boa leitura!
Miguel Antunes
Coordenador do Boletim #qqpega
Impossível não lembrar da música de Gonzaguinha neste momento tão pulsante em que vários jovens têm, a cada dia mais, tomado a palavra e posicionado-se ética e politicamente em várias cidades no Brasil: "Eu ponho fé é na fé da moçada/Que não foge da fera, enfrenta o leão/Eu vou à luta com essa juventude/Que não corre da raia a troco de nada".
Perguntamos a 03 jovens de São Paulo que participaram das ocupações nas escolas contra a Reorganização proposta pelo governo do Estado "qual a marca da juventude?" E as respostas vocês podem conferir logo abaixo:
"A marca da juventude é a ousadia e a pureza, a crença de que é possível mudar o mundo. Eles não foram contaminados ainda pelo cinismo e indiferença do mundo "adulto".
A marca da juventude é a capacidade de sonhar um estado de coisas diferente daquele que é herdado das gerações anteriores. Sua força vem da ousadia para sonhar um futuro melhor e lutar por isso, arriscando-se e apostando num mundo onde exista esperança, alegria.
Os jovens ainda não foram contaminados pelo cinismo do "mundo adulto", pela indiferença em relação ao estado das coisas, que eles normalmente consideram "normal".
Um defeito do jovem: eles se sentem tão donos de si que acreditam que podem fazer tudo sozinhos, que não precisam de ninguém".
A marca da juventude é a capacidade de sonhar um estado de coisas diferente daquele que é herdado das gerações anteriores. Sua força vem da ousadia para sonhar um futuro melhor e lutar por isso, arriscando-se e apostando num mundo onde exista esperança, alegria.
Os jovens ainda não foram contaminados pelo cinismo do "mundo adulto", pela indiferença em relação ao estado das coisas, que eles normalmente consideram "normal".
Um defeito do jovem: eles se sentem tão donos de si que acreditam que podem fazer tudo sozinhos, que não precisam de ninguém".
Rômulo Ferreira da Silva (EBP-SP/AMP) diretor do XXI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, nos envia sua reflexão sobre o tema das ocupações das escolas protagonizadas pelos secundaristas paulistas. Além de ter emocionado e comovido a todos, o movimento se expandiu por vários estados do país.
A ocupação juvenil das escolas secundaristas
Rômulo Ferreira da Silva
Quando assistimos ao início do Movimento de Ocupação dos estudantes de São Paulo, pudemos escutar um levante de indignação e insatisfação que não se resumia à proposta do governador dessa cidade. Demonstrou-se uma crítica acirrada à situação da Educação no Estado. As iniciativas revelaram o quanto os jovens são capazes de tomar para si questões fundamentais que dizem respeito a todos os cidadãos do Brasil. Se a Educação é um problema enorme já denunciado nos quatro cantos, por que ainda não foi levado a sério?
Por que os jovens se calariam diante das
respostas repetidas e alienantes de que “sempre foi assim”? Ou de que o ensino
público no Brasil vai de mal a pior e não há perspectivas de melhora?
Só eles, que estão na idade de colocar tudo em
questão, podem responder de maneira inusitada.
Vale introduzir aqui dois elementos
fundamentais: 1 - a proposta em si, que altera rotinas familiares, que diminui
número de salas de aula, dentre outras coisas, sem que temas cruciais sejam
abordados, como por exemplo, o sucateamento dos prédios públicos, as péssimas
condições de instalações, a violência nas escolas e a precariedade do entorno.
Essa precariedade não diz respeito apenas à falta de iluminação e de transporte
para o acesso às escolas, diz respeito à falta de alternativas sociais e
culturais, principalmente na periferia. Enfim, todo um conjunto de fatores que
não se resolverá, nem de longe, com a proposta apresentada.
Mais importante do que isso, trata-se da forma
com que tudo foi articulado e imposto. Diante de situação tão pungente, o
estado trata a todos: estudantes, professores e os cidadãos em geral, como se
fossem crianças que devem ser conduzidas. Como se não tivéssemos ainda o Estatuto
da Infância e da Adolescência que nos diz exatamente o contrário, que os
jovens, inclusive, diga-se de passagem, devem ser levados em consideração
diante de situações conflituosas.
É impressionante que ainda se possa crer que a
imposição vertical tenha efeitos na contemporaneidade. Para que isso ocorra é
preciso estar inserido em um regime autoritário, no qual, a intolerância e a
violência estejam postas de maneira explícita. É o que estamos constatando,
segundo havia nos adiantado Jacques Lacan, através do Estado Islâmico.
Talvez tenhamos outras perspectivas a partir
dos vários acontecimentos no país que revelam os sistemas de corrupção e de
tentativas de hegemonia de um ou outro grupo (partido). Certamente não
conseguiremos remontar à época de Pero Vaz de Caminha para esclarecermos que o
que se apresenta hoje não começou há poucas décadas, mas alguns passos poderão
ser dados para que uma democracia seja instalada de maneira mais inclusiva.
O fato de que a medida tenha sido imposta é
realmente relevante, porque instiga uma resposta mais incisiva, uma reação
normal do jovem diante de velhos padrões que lhe são impostos.
Como abordar a mobilização dos adolescentes
paulistanos diante da tentativa de mudança na estrutura do ensino público
estadual que pudemos observar nos últimos meses?
A validade da proposta, as consequências
positivas ou negativas da implantação
não estão em discussão aqui.
Privilegio a forma com que foi feita e a
resposta dos jovens para pensarmos o que mais nos interessa.
Nossas atividades preparatórias para o XXI
Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, nas quais vamos nos aproximando, a
articulação do desejo com o tema da adolescência é o que me orienta nesse
episódio.
O desejo, tal como podemos interpretar a partir
de Jacques Lacan, apresenta-se de forma intransitiva. Porém, o desejo em sua
forma pura não se sustenta, ele se engancha a algo que corresponde sempre ao
fato de que o desejo é o desejo do Outro. É preciso ceder um tanto de gozo para
que se possa encontrar essa via do desejo.
A discussão sobre o analista não ceder de seu
desejo de levar o analisando às últimas consequências de sua singularidade, nos
adverte sobre o fato de que o desejo aí incluído possa levar o sujeito a
situações desastrosas. Na prática, um analista não permitiria que Antígona
fosse às vias de fato sem que pudesse antes se desamarrar de suas sobredeterminações.
Nesse sentido é que a psicanálise não está do lado da produção de heróis.
No final da análise constatamos que há um
desprendimento do desejo do desejo do Outro pelo atravessamento da fantasia e
pelo despojamento do Nome-do-Pai, que fixa e encarcera. O que advém a partir daí,
para além do consentimento do gozo próprio ao sujeito, é uma liberdade em
relação ao desejo.
Como podemos verificar nos testemunhos do
Passe, o desejo aparece voltado para a psicanálise mesma, para a
responsabilidade em transmitir e interpretar a experiência analítica própria e a
Escola.
Na contemporaneidade há maior facilidade de que
ocorra algum tipo de despojamento do significante mestre que marca o sujeito,
possibilitando novas formas de identificação. A busca de outros S1, oferecidos
pela cultura de maneira mais permissiva e até imperativa, faz com que haja
enganches em movimentos que são oferecidos e seguidos mais livremente.
O ponto que se apresenta problemático em todo
esse movimento de São Paulo é que na contemporaneidade, como dito acima, há uma
maior facilidade em ir contra o S2 colocado na estruturação do sujeito, o que
podemos constatar nos sintomas contemporâneos, e se apegar aos S1 oferecidos
pela cultura.
Se o movimento iniciado pelos jovens tem algo
de inovador, ele deve assim ser considerado e validado. É a única forma de
possibilitar que a adolescência termine, ou seja, que suas propostas, seus feitos,
enfim, sua ocupação, seja incluída no mundo. Ele não pode ser cooptado por
discursos estabelecidos, ou interpretados como submetido a esses discursos,
porque são duas maneiras idênticas e em sentidos opostos, de invalidar o que
pode ser uma inovação.
A oposição a medidas autocráticas e
autoritárias, gerando a manifestação em ato que nos comunica o que pode ser
escutado como “esse espaço é nosso”, por parte dos jovens, não condiz com a
posição que aparece subsequentemente de que “eu não quero dialogar”. A recusa à
circulação da palavra nos diz que o movimento pode não ter voz própria. Ou ele
foi cooptado ou está sendo interpretado como tal. Se não existe a possibilidade
de que a conversa ocorra a voz do novo não será escutada.
Tivemos essa experiência durante a ditadura
militar no Brasil. Por um lado, o estado, e a sociedade de forma geral,
interpretando que as manifestações eram fruto de uma ideologia contrária ao
regime, externa e nociva, desconsiderando que havia algo legítimo e genuíno por
parte dos jovens. E por outro lado, sim, a cooptação desses jovens a partir de
ideologias refratárias ao respeito às singularidades.
Essa resposta, de um lado ou de outro, não dá
lugar àquilo que inova pois desconsidera aquele que se manifesta. Muitos dos
envolvidos na discussão que se coloca em São Paulo sobre a Educação, estiveram
envolvidos na luta contra a ditadura. Eles simplesmente repetem o que viveram
como vítimas, agora como algozes.
Uns pretendem calar as vozes dos jovens
imprimindo uma ideologia que nem sequer foi articulada por eles, outros
imputando a essas vozes uma influência nociva e externa.
É importante que outro caminho seja dado. Há
algo de novo nessa ação e que venham outras!
Em termos de Ação Lacaniana, cabe à psicanálise
buscar fôlego para acompanhar esses movimentos, sustentando lugares para que as
vozes sejam escutadas e que os laços sejam possíveis. Que os jovens possam nos
ensinar!