Enxame Extraordinário
















SIMULTÂNEAS CLÍNICAS



Na XXII Jornada da EBP-MG, as mesas simultâneas terão um lugar especial, pois, será um momento de discussão somente de casos clínicos. Reuniremos em cinco salas simultâneas, cada uma com três mesas consecutivas, casos clínicos correspondentes aos cinco eixos de trabalho da Jornada. Nossa aposta é que a discussão desses casos nos mostre, através da nossa prática, o que pode a transferência na época do mestre contemporâneo, suas possibilidades e seus impasses.
Os casos enviados deverão ser endereçados a um dos cinco eixos da Jornada: 

Eixo I: As neuroses sem Édipo: qual lugar para o analista? 
Hoje em dia, observamos, cada vez mais, a existência de neuroses nas quais se, por um lado, é possível localizar uma inscrição da castração, por outro, constata-se que o gozo do sintoma não se deixa apreender pela significação edípica.  Prevalece nesses casos  a determinação significante sobre o corpo, trata-se do sintoma desatrelado do sentido e que não aparece encoberto pelas significações correlatas de uma primazia dada ao pai em outros tempos: o pai não é mais o detentor de um sentido capaz de resolver o enigma do gozo. Assim, somos levados a considerar uma estrutura neurótica cujo sintoma não seria mais tecido na trama edípica. É interessante notar que o próprio Freud, em sua conferência “O estado neurótico comum”[1], faz menção a uma neurose desse tipo, denominada “neurose atual”. Nela, os sintomas “se manifestam predominantemente no corpo”[2], mas, ao contrário das psiconeuroses de transferência, “não possuem nenhum sentido, nenhum significado psíquico”[3]. Freud a considera como uma espécie de núcleo da neurose, isto é, o substrato, o osso, o cerne de todo sintoma neurótico. Será que essa descrição das “neuroses atuais”, feita por Freud no início do século XX, pode nos ajudar a esclarecer as “neuroses atuais” do século XXI? Nessa mesma vertente, também Lacan, no Seminário 23, faz menção à “histeria rígida” como uma nova forma de apresentação da histeria na qual o sintoma se realiza “de um modo real”[4]. Esse modo real nos remeteria ao sintoma histérico, não mais em sua plasticidade derivada  de sua inserção nas significações, mas como iteração do mesmo, do Um-sozinho que não se liga a nada. Podemos situar, nessa mesma direção, algumas manifestações do gozo na neurose obsessiva: a agressividade e alguns mecanismos de defesa nela  encontrados, tais como o isolamento e o tabu de tocar que, hoje, não fazem apelo à decifração, colocando-se em perfeita consonância com nossa época.

Por fim, uma chave de leitura imprescindível para situar o que seria uma neurose sem Édipo diz respeito ao novo lugar que Lacan confere ao falo, não como resultado da metáfora paterna, testemunho dos efeitos de significação, mas como um semblante que dá testemunho de um real[5]. O falo nessa nova posição, conforme propõe Laurent, estaria “fora da metáfora paterna”[6], ou seja, separado de toda significação edípica.

Fora do Édipo e, portanto, das imagos parentais, que lugar dar ao analista? Podemos falar de uma “desedipianização” da transferência?     

Eixo II: O mito individual na psicose 
Alguns aspectos prevalentes nas psicoses nos dias de hoje como, por exemplo, a não inserção, o desligamento e a identificação ao dejeto, nos revelam a presença de um gozo não localizado, excluído do discurso e com o qual o sujeito se identifica. Trata-se justamente do que faz objeção ao laço social, isto é, de um gozo que se apresenta frequentemente como perturbador, inconveniente e insólito. Em contrapartida, observamos uma prevalência das nomeações ofertadas pelo Outro social, sustentadas em identificações horizontais que não se apoiam em uma identificação vertical referida a um ideal, tornando-se, por isso mesmo, propícias para a promoção da  inserção social a partir do que Lacan designou como “nomear para”[7]. São nomeações ligadas a uma função social, procedentes exclusivamente da identificação significante. Se, por um lado, tais nomeações podem servir à psicose como ancoragem, inserindo, de alguma forma, o sujeito em um laço social, em um grupo, por outro lado, como nos demonstra Miller[8], elas procedem por uma exclusão do gozo. Assim, o Outro social, apoiado no mestre contemporâneo e em suas instituições, tende a excluir o que há de mais próprio e singular em cada um, seu modo de gozo. A identificação reina sem divisão, é o que podemos chamar de adaptação que, não raramente, resulta no retorno do pior, pois o gozo excluído acaba por se alastrar no escuro. Se podemos pensar na identificação como uma orientação possível para o tratamento da psicose, isso não deve se dar às custas de uma exclusão do gozo. Miller, no texto “A salvação pelos dejetos”[9], esclarece de forma muito precisa a diferença entre as identificações produzidas unicamente a partir das nomeações ofertadas pelo Outro social e aquela que pode advir de um tratamento orientado pela psicanálise. Neste último, segundo ele, não se visa unicamente obter uma identificação ao significante mestre, trata-se também, de obter “uma identificação de gozo no lugar do Outro, quer dizer, o equivalente do que a fantasia proporciona tanto ao neurótico como ao perverso”[10]. Desse modo, é preciso “desprender do gozo uma parcela que possa constituir objeto e, inicialmente, objeto de uma narração, de um roteiro – como o roteiro de uma fantasia – de uma storytelling, de uma lenda, daquilo que Lacan chamava de ‘mito individual’ e que pode fazer as vezes de fantasia”[11].Nesse contexto, o que toma o primeiro plano são as experiências passíveis de dar lugar a diferentes modos de gozo e não as certezas obtidas das identificações[12].

Interessa-nos, portanto, recolher da nossa pratica com as psicoses essas pequenas inserções no discurso, que podem ser construídas sob transferência, esses pequenos enunciados do impossível, passíveis de localizar o gozo de uma forma diferente daquela oferecida pelo mestre contemporâneo e, também, da tentativa de criar um pai através do delírio. 

Eixo III: A pulsão fora da transferência e a causa triunfante 
Neste eixo, pretendemos discutir as manifestações da pulsão que não se encontram ligadas a uma fantasia ou mediadas pelo sintoma e que, portanto, apresentam-se como pura pulsão de morte. São situações que, como demonstra Miller[13], ultrapassam a zona do amor e do ódio inseridos de alguma maneira em um discurso, dando lugar a uma violência que não encontra nenhum substituto capaz de se interpor entre o sujeito e seu ato. Uma violência desligada de toda culpa, de todo tipo de mortificação ou castração e que, ao contrário, é acompanhada de uma sensação de triunfo que torna difícil e, por vezes, até mesmo impossível, qualquer intervenção. Podemos citar, como exemplo, os atos terroristas, assim como muitos atos racistas, os assassinatos imotivados, a violência do tráfico de drogas, etc... Embora de naturezas distintas, cada uma dessas situações apresenta a tirania de um gozo que, por atentar contra a vida humana, é inaceitável. Localizadas, pelo menos a princípio, fora de um campo transferencial, que posição esperar dos analistas com relação a essas formas de manifestação da pulsão?  O que pode eventualmente ser abordado pela psicanálise e o que só nos resta nos posicionarmos contra? 

Eixo IV: O amor que faz falar o sintoma: o parceiro analista 
Atualmente, encontramos cada vez mais, em nossa clínica, casos nos quais é possível identificar claramente o sintoma como uma presença real, um S1 isolado que fixa o gozo no corpo, apresentando uma forma de satisfação, um gozo enigmático,  que pode precipitar o sujeito até a análise.  No entanto, a via para o que poderíamos considerar “a solução do enigma”, ou seja, a via pela qual a experiência analítica se instaura e o inconsciente se realiza através da produção de um sentido torna-se cada vez menos evidente. Como resultado, nos deparamos, por exemplo, com uma dificuldade para localizar as entradas em análise e, consequentemente, uma eternização das entrevistas preliminares. 
Nesses casos,  talvez seja preciso reconhecer, na  ausência de um sentido inconsciente, a presença de outro estatuto do inconsciente nomeado por Miller a partir de Lacan como  “inconsciente real”[14].Trata-se do inconsciente tomado a partir de “lalíngua” e que nos coloca diante de uma diferença fundamental entre o que pode ser considerado a falta de um sentido e o que podemos constatar como a presença de um sem sentido a ser manejado. São casos onde não se nota uma crença prévia no Outro, mas, ainda assim, constata-se, da parte do analisante, um endereçamento da palavra ao analista e, em contrapartida, é preciso, da parte do analista, uma aposta na palavra do analisante, mesmo que esta não esteja apoiada no sentido. Nesse contexto, as palavras aparecem em sua materialidade, em sua atualidade e não como representações inconscientes recalcadas.
Para fazer falar o sintoma assim apresentado, isto é, como um gozo autoerótico que a princípio “não quer dizer nada a ninguém”[15], o analista conta apenas com o amor de transferência. A transferência passa, então, por uma inversão, na qual o amor é colocado em primeiro plano: não é o sujeito suposto saber que aparece como o pivô da transferência suscitando o amor, mas é a transferência que se torna o pivô do sujeito suposto saber: “para dizê-lo de outro modo, o que faz existir o inconsciente como saber é o amor”[16]. Colocando-se como um parceiro ao qual a fala pode ser dirigida, o analista suscita uma fala que, se, por um lado, implica um esforço para permanecer a mais próxima possível daquilo que se experimenta como gozo, por outro lado, convoca sempre e a cada vez à invenção de uma palavra agalmática capaz de atravessar o real do sintoma possibilitando, dessa maneira, “o transporte do inconsciente para fora da esfera solipsista”[17].
Trata-se, portanto, do amor que faz existir o inconsciente como falasser, permitindo a passagem do gozo do Um para o gozo da fala, o que não necessariamente resulta em uma produção de sentido.  Essa forma de conceber o inconsciente a partir do amor recoloca a importância da psicanálise no mundo do mestre contemporâneo porque, ao fazer ressoar a fala, a experiência psicanalítica pode oferecer outra maneira de viver a inexistência da relação sexual e o autoerotismo, uma maneira que não cura a solidão do Um, mas que comporta uma abertura para o encontro com algo mais, com um mais ainda..
Quais as implicações dessa forma de conceber a transferência? Quais são seus impasses? O que muda com relação ao lugar do analista? Como pensar a entrada em análise? E, os finais de análise, o que eles nos ensinam a esse respeito?    

Eixo V: Interpretação: a heresia do analista. 
Se o sintoma, na época do mestre contemporâneo, apresenta-se cada vez mais refratário à interpretação pela via do sentido, quais seriam, então, as possibilidades de intervenção do analista?

Conforme nos esclarece Miller[18], a psicanálise transcorre no âmbito do recalcado e de sua interpretação graças ao sujeito suposto saber. Mas, no século XXI, trata-se para a psicanálise de explorar outra dimensão: a defesa contra o real sem lei e fora do sentido. Segundo Miller[19], o inconsciente do último Lacan está no âmbito do real, de modo que, para entrar no século XXI, nossa clínica deverá pautar-se, como matriz da operação analítica, pela desmontagem da defesa contra o real. A defesa qualifica a relação inaugural do falasser com o real: diante do real, o falasser responde criando, como defesa, um sintoma. Mas, no que concerne ao sintoma, a defesa está do lado do gozo e não da representação recalcada. Nesse sentido, tomar a desmontagem da defesa como matriz da operação analítica significa operar a partir de intervenções capazes de incidir sobre o gozo e não apenas sobre o sentido. Por isso, no último ensino de Lacan, a interpretação ganhará um novo estatuto: sem sentido, sem valor e muito mais próxima de um fazer que de um saber. A interpretação torna-se “corte”, “equívoco”, “manipulação”[20], incidindo sobre a materialidade e a substância de lalíngua como um forçamento a partir do qual um psicanalista pode fazer ressoar outra coisa que o sentido.           

Portanto, podemos dizer que, em contraposição aos pós-freudianos, o analista lacaniano não se define por sua neutralidade, ele é habitado por “um desejo de alcançar o real, de reduzir o Outro a seu real e liberá-lo do sentido”[21]. Dessa forma, se a interpretação pode ser considerada a heresia do analista, é porque ela atualiza, a cada vez, sua escolha pelo real. Vinhetas e situações clínicas poderão nos ajudar, então, a esclarecer como o analista interpreta hoje.


[1] FREUD, Sigmund. O estado neurótico comum (1917). In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XVI. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 441. 
[2] FREUD, Sigmund. O estado neurótico comum (1917)..., p. 451.
[3] FREUD, Sigmund. O estado neurótico comum (1917)..., p. 451.
[4] LACAN, Jacques. O seminário. Livro 23: o sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 102.
[5] LACAN, Jacques. O seminário. Livro 23: o sinthoma (1975-1976)..., p. 101-114.
[6] LAURENT, Éric. Falar com seu sintoma, falar com seu corpo. Argumento para o VI ENAPOL. (22 e 23 de novembro de 2013). Disponível na internet (Acesso em 10 de dezembro de 2017):
[7] LACAN, Jacques. Le séminaire. Livre XXI, leçon du 19 mars de 1974 (inédito).
[8] MILLER, Jacques-Alain. Le salut des déchets. Mental, n. 24, avril 2010, p. 9-15.
[9] MILLER, Jacques-Alain. Le salut des déchets...
[10] MILLER, Jacques-Alain. Le salut des déchets..., p. 14.
[11] MILLER, Jacques-Alain. Le salut des déchets..., p. 14.
[12] Ver: LAURENT, Éric. O avesso da biopolítica. Uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016.
[13] MILLER, Jacques-Alain. Crianças violentas. Opção lacaniana, n. 77, agosto 2017, p. 26.
[14] Ver: MILLER, Jacques-Alain. El ultimísimo Lacan (2006-2007). Buenos Aires: Paidós, 2013.
[15] MILLER, Jacques-Alain. Sutilezas analíticas (2008-2009). Buenos Aires: Paidós, 2011, p. 106.

[16] MILLER, Jacques-Alain. Uma fantasia. Opção Lacaniana, n. 42, fevereiro 2005, p. 18.
[17] MILLER, Jacques-Alain.  Intuições Milanesas II. Opção lacaniana on line, nova série, ano 2, n. 6, novembro de 2011. Disponível na internet (Acesso em 10 de dezembro de 2017):
[18] MILLER, Jacques-Alain. O real no século XXI. Opção lacaniana, n. 63, junho 2012, p. 11-20.
[19] MILLER, Jacques-Alain. O real no século XXI...
[20] Ver: MILLER, Jacques-Alain. El ultimísimo Lacan (2006-2007)...
[21] MILLER, Jacques-Alain. O real no século XXI..., p. 17





ENVIO DOS CASOS
O prazo para o envio dos casos é 30 de agosto de 2018



Instruções para a redação dos casos: Letra Times New Roman; corpo 12; espaço 1,5; texto justificado; notas de rodapé na própria página(e não no final do texto); tamanho máximo do texto 5500 caracteres, incluindo espaços, notas de rodapé e bibliografia.
 




 




NOTAS SOBRE CARTÉIS
A coordenação da XXII Jornada da EBP-MG O inconsciente e o mestre contemporâneo: o que pode a transferência?  e a diretoria da Seção Minas, convidam todos os interessados a se organizarem em Cartéis com a finalidade de fazer avançar o programa de investigação teórico/clínica em torno dos 5 eixos de trabalho propostos pela Comissão de Orientação (disponíveis no Boletim Enxame).
Essa experiência já está em curso a partir da formação inicial de 5 cartéis e tem se mostrado bastante produtiva para o incremento epistêmico de nosso tema. Uma excelente bibliografia que, em parte, é fruto do trabalho desses cartéis, vem sendo divulgada nesse boletim.
Nossa aposta é a de que possamos compartilhar com outros colegas as questões, impasses e novidades fomentadas pelo tema da Jornada e, assim, amadurecer as discussões que, certamente, farão ótimas ressonâncias por ocasião de nosso encontro em Outubro.

Os interessados podem inscrever seus cartéis através do link: http://www.ebp.org.br/carteis/inscreva-seu-cartel/

Laura Rubião (Coordenadora da XXII Jornada da EBP-MG)

Jornada EBP-MG