LUIZ
HENRIQUE VIDIGAL
Singular!
Antônio Benetti
Eu não teria outro significante
para definir o modo de funcionamento, na vida, de meu amigo. Um
estilo!
E que nos deixou dessa maneira,
subitamente, sem se despedir, sem aviso prévio, sem falar nada...
Iria só até ali e voltaria para a mesa do restaurante, e voltaria
junto ao convívio da mulher e dos amigos. Sempre social, generoso,
amoroso... Desta vez, não voltou...
De 1978 até 1983, movimentos de
formação psicanalítica em Belo Horizonte aconteciam, introduzindo
e centrados no ensino de Jacques Lacan.
No início dos anos 80, ficamos
sabendo de um jovem psicólogo, brilhante, com mestrado em Filosofia,
muito próximo de alguns filósofos que vieram de Louvain, na
Bélgica, e se analisaram com psicanalistas alunos de Lacan na
E.F.P., antigos jesuítas.
Em 1984, lá estava Luiz Henrique
proferindo algumas palestras sobre o ensino de Lacan, numa dessas
instituições, assim como alguns daqueles filósofos. A partir daí
engajou-se no movimento junto à Instituição, o que perdurou cerca
de oito anos até sua dissolução. Um movimento rumo à Escola
Brasileira de Psicanálise, fundada em abril de 1995.
Nesse percurso, criamos juntos a
Editora Tahl, pela qual publicamos seis pequenos livros, um deles de
autoria de Luiz: Ensaios
sobre os quatro discursos.
Nesse livro, o então apaixonado pela lógica, ex-aluno de Engenharia
antes do curso de Psicologia, fazia a apresentação dos quatro
discursos a partir do Seminário de Lacan, traduzido entre nós como
O avesso da
Psicanálise. Luiz
resolveu, a partir de suas pesquisas, traduzir como “O Envesso...”,
partindo da origem da palavra em latim... Assim, apontava ali o
ensino de Lacan no campo do gozo...
É nesse momento que, juntamente
com dois outros colegas, é fundado, em 1992/1993, o jornal Opção
Lacaniana,
posteriormente revista, os quais não aconteceriam sem o trabalho
artesanal de computação, diagramação etc. com fundamental ajuda
de sua companheira Cristina.
Eram madrugadas adentro nesse
árduo trabalho, a partir da sua relação com a Causa analítica...
Foi sempre assim.
Sempre que convidava amigos e
colegas do Campo freudiano para um feriado de descanso em sua casa de
campo próxima a Belo Horizonte, a partir de significantes “iscas”,
S1, “enlaçadores”, aparecia o Mestre Gourmet, cervejeiro,
padeiro, marceneiro, tenista, jogador de bridge,
grande enxadrista, jogador de sinuca etc... para conversas e
problematizações sobre a psicanálise, o Campo freudiano, a Escola,
o ensino da psicanálise, a Orientação lacaniana e o trabalho de
J.-A. Miller. Foi assim que foi a Paris trabalhar com ele em
intensão...
Foi assim que viajamos inúmeras
vezes para o mesmo trabalho...
E foi a partir disso tudo que por
mais de uma década sustentou a transmissão da psicanálise em
seminário de próprio risco.
Além de se responsabilizar pela
transmissão na Escola a partir de todas as instâncias hierárquicas,
de ensino e direção na Escola.
Sempre com o estilo Luiz Henrique
de ser.
Singular!
Grande abraço, querido amigo.
Descanse um pouco.
Algo foi transmitido... diante do
impossível de ensinar, nesse Campo, onde trabalhamos no não seguro,
nessa nossa pastagem, a partir do Real.

