Enxame #1- 4. Peças escolhidas





Inconsciente

Frederico Feu de Carvalho


O inconsciente se apresenta, em nossa experiência imediata, como um tropeço. Esse tropeço evoca um instante de abertura a algo que parece se destinar ao desaparecimento, pois o momento seguinte é de fechamento e cicatrização. Lacan evoca assim, em seu seminário, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise1, a função pulsativa do inconsciente. Essa fenomenologia evasiva se transfere à apreensão de seu conceito. Ele nos escapa, como o pássaro que queremos tomar pela cauda, tão logo fechamos as mãos sobre ele. Dentre as múltiplas portas de entrada para abordar o conceito de inconsciente me limitarei, aqui, a desenvolver a asserção “o inconsciente é discurso”, que perpassou a introdução feita por Simone Souto ao tema de nossa próxima Jornada2, focalizando a homologia estrutural entre o inconsciente e o discurso do mestre. Espero com isso construir alguns alicerces para que possamos, ao longo desse ano de trabalho, abordar os impasses atuais da psicanálise frente ao mestre contemporâneo.
Trata-se de uma asserção que percorre todo o ensino de Lacan. Sua formalização está no âmago do seminário O avesso da psicanálise3, que tomamos como texto de referência para a XXII Jornada da EBP-MG. Foi graças a essa formalização que Lacan pôde extrair uma topologia segundo a qual o discurso do analista é a passagem ao avesso do discurso do mestre.

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Como podemos compreender a homologia entre o inconsciente e o discurso do mestre, evocada por Lacan no seminário O avesso da psicanálise? Tal homologia demonstra, em primeiro lugar, que o inconsciente funciona como o capitalista ― fato que já havia sido apontado por Freud na Traumdeutung ― extraindo um mais-de-gozar de seu próprio funcionamento significante, tal como a mais-valia é extraída da cadeia social produtiva. Ao definir o saber como um meio de gozo, Lacan revela, nesse seminário, a consequência econômica, muitas vezes imperceptível e silenciosa, desse funcionamento discursivo. De fato, tomar o saber inconsciente como meio de gozo é bastante distinto do querer dizer que o caracteriza como mensagem a ser decifrada, e é esse deslocamento conceitual que está no fundamento da teoria lacaniana dos discursos.
Em segundo lugar, essa homologia revela que o inconsciente é uma dimensão transindividual4, desmentindo qualquer apreensão solipsista de sua essência. De um ponto de vista discursivo, o inconsciente não é um lugar psíquico, mas uma relação social. De fato, se Freud abordou o inconsciente a partir do “modelo” do Witz, foi para realçar o seu funcionamento discursivo como meio de obter uma satisfação derivada do trabalho do inconsciente e que envolve, necessariamente, o Outro. A mesma estrutura se revela no artifício da sessão analítica: é preciso que a palavra se enderece a um analista para fazer existir o inconsciente como um artifício de discurso. Essa dimensão transindividual do inconsciente, que Freud já havia demonstrado em ação também nas formações coletivas, é essencialmente política. Sua estrutura é comandada pelo significante-mestre que captura o sujeito, cujo agenciamento visa colocar o inconsciente a trabalho para dele extrair o mais-de-gozar. A asserção o inconsciente é discurso poderia ser igualada, nesse sentido, à asserção o inconsciente é a política.

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De um ponto de vista formal, dizer que “o inconsciente é discurso” implica tomar como referência a combinatória de termos e lugares que caracteriza o discurso do mestre, considerando-o a matriz da qual derivamos as outras formas de discurso. Isso nos permite destacar quatro versões distintas do inconsciente, levando-se em consideração a distribuição de seus quatro termos (o significante mestre, S1; o saber, S2; o sujeito-barrado, $; e o objeto mais-de-gozar, a) nos quatro lugares discursivos (agente, outro, produção, verdade)5:






Encontramos, em primeiro lugar, o inconsciente-sujeito, isto é, o $ em lugar da verdade como emergência do inconciente no discurso corrente, produzindo efeitos de ruptura na cadeia significante S1 → S2 que sustenta esse discurso, introduzindo o equívoco entre a intenção do falante e o que é efetivamente dito. A estrutura formal desse inconsciente-sujeito pode ser aproximada do Witz; sua condição exige o cruzamento da cadeia significada com a cadeia significante, produzindo a disjunção entre o significante e o significado e a emergência de um querer dizer outra coisa que se sustenta nesta materialidade significante. Sendo assim, o inconsciente-sujeito pode ser aproximado do inconsciente-intérprete, na medida em que essa emergência implica o corte e a equivocação.
Em segundo lugar, encontramos o inconsciente-amo, que corresponde ao S1 no lugar de agente do discurso do mestre, em sua vertente imperativa, que comanda o sujeito. A fenomenologia do inconsciente-amo corresponde àquelas manifestações que conferem um caráter de realidade ao inconsciente, no sentido de sua “solidez” (MILLER 2004, p. 190), frente às quais o sujeito se sente comandado e ultrapassado por alguma coisa mais forte que ele. Nesse sentido, o significante mestre é a marca que comemora uma irrupção de gozo no inconsciente. A partir dessa primeira irrupção, de acordo com o que Freud designa na Traumdeutung como a “experiência de satisfação”, busca-se reeditar essa experiência de gozo mediante a atualização alucinatória de um traço do objeto, jamais reencontrado enquanto tal, instaurando assim a defasagem que fundamenta a repetição no inconsciente. O funcionamento do inconsciente-amo pode ser aproximado da noção freudiana de realidade psíquica e se opõe ao inconsciente-sujeito como a inércia do que se repete sempre no mesmo lugar se opõe ao acontecimento irruptivo que intercepta em algum ponto, graças à materialidade do significante, o funcionamento repetitivo da cadeia que comanda o sujeito, produzindo efeitos de verdade.
A essas duas versões do inconsciente podemos acrescentar a versão do inconsciente-trabalhador, referido ao S2 no lugar do outro enquanto saber-meio-de-gozo. É o que nos mostra a análise das formações do inconsciente. Corresponde, em termos gerais, ao que Freud designa como o “trabalho do sonho” (Traumarbeitung). Trata-se do inconsciente astucioso, tomado como um artífice, um articulador de redes de significantes e de saberes, ao quais podemos atribuir as propriedades da metafóra e da metonímia e que sobrevive à margem do discurso da civilização como um saber “disjunto” e recalcado (LACAN 1992, p. 85). Esse inconsciente trabalhador, que Lacan compara ao “trabalhador ideal”, “aquele de quem Marx fez a nata da economia capitalista” (LACAN 2003, p. 517), está aqui não na posição de comando, mas na posição de escravo. Corresponde à metonímia infinita do inconsciente, não fosse pelo fato de que esse saber se encontra limitado, por um lado, pelo significante-mestre como marca particular do sujeito, em torno do qual gravita o saber, e, por outro lado, pelo seu produto, na medida em que a cadeia metonímica que caracteriza o desejo encontra seu ponto-de-basta na referência ao objeto mais-de-gozar, que designa a finalidade mesma do sistema (MILLER 2004, p. 192).
Referido ao mais-de-gozar no lugar da produção, o inconsciente revela seu propósito econômico. Nesse sentido, o S2, o saber inconsciente como meio de gozo, designa a cadeia significante a partir da qual o S1 se articula a esta finalidade que é a de sempre obter a satisfação, embora essa satisfação seja apenas um bônus, um pequeno suplemento pelo que se perdeu entre a primeira irrupção de gozo e sua repetição reiterada. Chegamos assim à versão do inconsciente gozador como destino do circuito significante. Mas, a produção do mais-de-gozar, como finalidade do sistema, carrega a peculiaridade de não ser jamais reintegrada ao próprio sistema. É o que designa a dupla barra entre a e $ no discurso do mestre: o furo do sistema, o impossível em torno do qual ele gira, a produção de uma pura perda. Em outros termos, o que se produz como satisfação do sistema não equivale a uma apropriação do lado do sujeito. É essa defasagem que parece relançar sempre o circuito do discurso do mestre. A verdade do discurso do mestre, excluída pelo domínio do S1, é o sujeito castrado e separado, enquanto tal, do mais-de-gozar.

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Onde situar o inconsciente real nessa trama discursiva? Ora, se o inconsciente como discurso está distribuído conforme as diferentes versões que os termos discursivos lhe conferem, o inconsciente real se encontra, por sua vez, em lugar nenhum. Melhor seria designá-lo, como faz Lacan, no “espaço de um lapso”, ali onde “já não tem nenhum impacto de sentido (ou interpretação)”. Só então, prossegue Lacan, “temos certeza de estar no inconsciente. O que se sabe, consigo” (LACAN 2003, p.567)6.
Assim, o inconsciente real se afigura como antinômico em relação ao inconsciente discursivo. Por habitar o espaço de um lapso, ele não se define como sujeito, não porta a marca do significante-um e não se articula a saber algum. Talvez pudéssemos localizá-lo entre o objeto mais-de-gozar e o sujeito barrado, no ponto de disjunção que comporta a falha do gozo impossível de se reintegrar no discurso do mestre.
Enquanto discurso, o inconsciente supõe um fechamento do que, de início, se apresenta como a “abertura infernal”, da qual fala Lacan (1985, p. 34) referindo-se à descoberta do inconsciente por Freud. O discurso do inconsciente, em sua homologia com o discurso do mestre, seria assim uma resposta ao inconsciente real, ao seu traumatismo. Neste espaço de um lapso, o significante cessa de representar o sujeito para um outro significante, abrindo a possibilidade para o advento de uma “nova escrita”, conforme o termo cunhado por Lacan no seminário O Sinthoma (LACAN 2007, p. 127).
O inconsciente real é o acontecimento do qual depende o advento dessa “nova escrita”. A dimensão ética do discurso analítico nos coloca assim diante de uma dupla alternativa: ou bem a verdade do sintoma é manejada por meio de um saber, qualquer que seja, e o resultado é alimentar o sintoma por meio do sentido, ou bem a armadura significante que sustenta o sintoma se desfaz por meio do jogo de equívocos que desestabilizam sua montagem discursiva, permitindo um novo arranjo. É o que nos resta sustentar por meio da transferência.
No entanto, o fato de que o discurso do capitalista, que caracteriza o mestre contemporâneo, tenha suprido essa hiância pela operação de consumo, fazendo convergir o objeto mais-de-gozar e o sujeito barrado, daria, assim, um sentido adicional à formulação de que esse discurso se define por um repúdio à castração, cuja consequência mais imediata é o rechaço do inconsciente. Os sujeitos contemporâneos se vêem assim à deriva, sem o suporte do inconsciente discursivo, assujeitados a um gozo sem esteio, fixados a um significante iterativo. O chamado “discurso do capitalista” seria, nesse sentido, um discurso paradoxal, com efeitos dispersivos e desarticuladores sobre o laço social e o regime de gozo agenciados pelo mestre antigo. Ou trata-se do advento de uma nova escrita, uma nova forma de laço social, ainda por esclarecer?
Concluo em torno de uma questão que suscita outros desenvolvimentos: se o mestre contemporâneo não é mais o mesmo, se a cadeia significante está quebrada e o significante-um prolifera sozinho, se o sintoma não mais se endereça ao analista como uma demanda de decifração, se o discurso atual da civilização adquiriu a forma do discurso do capitalista, como Lacan chegou a especular, elevando o objeto mais-de-gozar ao zênite social, o que significaria, hoje, passar ao avesso do discurso do mestre? Ou se trata de uma outra topologia dessa passagem?

REFERÊNCIAS:

LACAN, J. O Seminário, livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise(1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
LACAN, J. O Seminário, livro 17, O avesso da psicanálise (1969-70). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
LACAN, J. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorga Zahar, 2003.
LACAN, J. O Seminário, livro 23, O Sinthoma (1975-76). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
MILLER, J-A. Los usos del lapso. Buenos Aires: Paidós, 2004.
MILLER, J-A. Lacan e a política. Entrevista conduzida por Jean-Pierre Cléro e Lynda Lotte. São Paulo: Revista Opção lacaniana, n. 40, ago 2004
MILLER, J.-A. El ultimísimo Lacan. Buenos Aires: Paidós. 2014


1 LACAN, J. O Seminário, livro 11 (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, p. 46.
2 Refiro-me ao I Seminário preparatório para a XXII Jornada da EBP-MG, realizado no dia 08 de março de 2018 na sede da EBP-MG.
3 LACAN, J. O Seminário, livro 17 (1969-70). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
4 Termo sugerido por J-A Miller in: Lacan e a política. Entrevista conduzida por Jean-Pierre Cléro e Lynda Lotte. Revista Opção lacaniana, n. 40, 2004.
5 Tomo como referência o desenvolvimento proposto por J-A Miller em: Los usos del lapso. Buenos Aires: Paidós, 2004, p. 189 - 196.
6 Ponto ressaltado por J.-A. Miller na primeira lição de seu “Curso de orientação lacaniana: El ultimísimo Lacan” (2006-2007) , na aula de 15/11/2006 : El esp de um laps.



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