Registro fotográfico da vídeo instalação – Vendo-me passar – Giulia
Puntel
Conexões
e Consultório de Rua da PBH: um encontro preparatório
Cristiane
Barreto
Um título tenta dizer da construção instigante
e bonita do trabalho que a equipe do Consultório de Rua da Prefeitura de Belo
Horizonte sustenta, recolhendo restos e falas que configuram um mosaico de
fazer política do um a um: “Se esta rua fosse minha: Fragmentos”.
Os profissionais do Consultório de Rua: Daniela
Ramos Garcia, artista plástica e arte educadora-, Flávio Ricardo – redutor de
danos, e Júnia Vanessa Costa– enfermeira, que iniciou recentemente sua formação
em psicanálise (participante do Núcleo de Psicanálise e Medicina do IPSM-MG)-,
escolheram dois casos paradigmáticos da aridez dos sintomas e enigmas da
sexualidade presentes nas parcerias que se formam nas ruas. Graves e agudos,
dos ruidosos tempos de sobreviver a um estilo de vida que empurra ao pior.
Para comentar os recortes de casos duas
psicanalistas que partilham da construção da psicanálise de orientação lacaniana
na cidade o seu quinhão: Ludmilla Féres Faria, coordenadora da XXI Jornada da
EBP-MG, membro da EBP e da AMP, e Juliana Motta, psicanalista, aderente da
EBP-MG, e, atualmente, diretora clínica
do Instituto Raul Soares/ FHEMIG.
Escolhemos um local: o principal
auditório da Secretaria Municipal de Saúde de BH para trabalhar, numa
transmissão que se abriu à conversação, os casos que são elevados à dignidade da
construção política que presa por não segregar o que abriga.
E, então, a tarde não poderia ser outra
que não a de uma conexão entre a cidade e o que a EBP-MG trará a público, em
sua XXI Jornada, do seu trabalho em torno do tema do inconsciente e da
diferença sexual, interrogando com a psicanálise sobre o que há de novo.
Ludmilla Féres Faria, em um preâmbulo ao
seu comentário, localiza com generosidade, dizendo de forma clara e com
exemplos próximos a todos, alguns conceitos que serviram de baliza à leitura
que desenvolveu do caso, possibilitando, desta maneira, que os não
psicanalistas pudessem participar com espontaneidade da discussão. Citando um texto do Almanaque 09, de Rosimeire Silva
(in memoriam, psicanalista, que integrou parte a equipe de “Conexões”,
responsável pela implantação do Consultório de Rua de BH): “Pagamos o preço por
introduzir, no coro dos aflitos, uma nota dissonante”, lança uma primeira pergunta: “como trabalhar com esse impossível, sem cair na
impotência”, “seria possível construir uma politica que considerasse o
impossível?”.
Se “os corpos atuais gozam de
atividades, de práticas, que não necessariamente tem a ver com o sexual; e mais,
às vezes gozam de praticas que vão contra o sexual (...): Corpos que se
mutilam, que se entopem de drogas, que não deixam entrar comida”, explicita Ludmilla,
para perguntar “que tipo de sexualidade existe para um verdadeiro toxicômano”,
qual a parceria do toxicômano?
A falta de conexão com o Outro, um dos
problemas contemporâneos, implica um grande desafio às políticas e à
psicanálise. Ludmilla destaca o limite tênue entre a finalidade
terapêutica e segregação, segundo explicou, “porque existe a autosegregação do
sujeito no uso da droga, mas existe também a segregação do Outro”. A segregação,
portanto, não está presente apenas nas instituições fechadas e totais, mas “também
nos lugares abertos, como a Cracolândia, onde sujeitos estão entregue ao
gozo até a morte”, o que coloca impasses
à política: o que fazer? É importante que a construção dessa resposta considere
a “função que o objeto-droga tem para cada sujeito”, pois a droga “pode
funcionar como uma invenção para se desembaraçar da castração, e como suplência
diante da falência do significante Nome-do-Pai”, aposta da psicanálise, conclui
Ludmilla Féres, “é no sujeito na civilização, mas não é certo que o sujeito irá
abraçar a vida, não é certo que ele abandonará o gozo mortífero”.
O viés das considerações políticas e éticas,
portanto, permearam o recorte do caso apresentado por Flávio Ricardo. Destacando
a acuidade clínica em jogo, assim como a saída encontrada no escuro da
inexistência da relação sexual e do meio da rua, possibilitou um casal enlaçar-se
em uma parceria sintomática, que tornou possível tratar de uma infecção,
sobretudo do gozo, envolvendo os cuidados com o corpo. Redução de danos do
sintoma.
Juliana Motta abordou o segundo caso, de
contexto mais ainda drástico, que envolviam três parceiros atendidos por Júnia
Costa, em um texto construído em conjunto com Daniela Ramos.
A aproximação da equipe do consultório
com a mulher começa com o tratamento de uma ferida - “uma pequena lesão na
genitália, característica da Sífilis”, exibida ao olhar da enfermeira de quem
demandou cuidados, ao mesmo tempo em que apresenta seu incurável.
Patrícia, nome fictício, era explícita,
“espalhafatosa”, falava rasgado, descuidava do corpo, tinha dois companheiros,
era conhecida por todos da redondeza. A vida marcada por abusos e violências,
com o pai, traficante, teve uma filha. Ao todo pariu 07 vezes, matou os dois
maridos que atravessaram sua existência, cumpriu sentença pelos dois crimes, e
agora, vivia na rua, “em liberdade”, uma tríade amorosa. Um parceiro agitado e
violento, um outro, calmo, a protegia e acalmava sua nervosia. Seus nomes
começavam com as letras M e W, e utilizava-se de um gesto com os três dedos da
mão, ora para baixo, ora para cima, indicando um M e um W, para revelar com
orgulho que alternava de parceiros. Bem, o caso deu pano pra manga! E também para uma construção clínica do caso
de uma mulher psicótica e sua batalha para construir um corpo, incluindo auto
agressão, o corpo de um parceiro manco, as inúmeras gravidezes, e a tríade de
brigas e reconciliações, em “ter dois homens”.
Juliana Motta indicou os “arranjos
postiços para fazer o lugar d’A mulher”, e a impossibilidade daquela mulher em
sustentar os semblantes, era “desvestidas deles”, dos semblantes. Seu corpo
lançava-se em cenas cruas, “o gozo é cru”, revelando “seu modo de gozo
emblemático”, autístico, e a tentativa desesperada de fazer um corpo. Juliana
destaca que nessa tríade que possibilitava certa estabilização, revelava-se
ainda mais a “não relação”. Recortando os dois episódios cruciais que
possibilitou ler o funcionamento de Patrícia e sua forma precária de localizar
o gozo. Juliana Motta sublinhou a
importância de ofertar a fala àqueles que “possuem a aflição dos que não se
conectam”.
Assim, a mesa abriu-se para as questões
e comentários de uma plateia que do auditório (que estava cheio!) fez
perguntas, comentou e agradeceu o frescor da transmissão ocorrida naquela
tarde. Tarde de trabalho que esboçou alento para seguir sustentando o “duro
desejo de durar” do trabalho da psicanálise e das invenções das políticas
públicas que se descortina nas ruas da cidade.
Registro fotográfico da vídeo instalação – Vendo-me passar – Giulia
Puntel
CASO JOSÉ: EFEITOS EM UMA
COMUNIDADE DE TRABALHO
Por Juliana Motta e Henri Kaufmanner
Com a colaboração de Mynéia Campos
Em 18/09/17 aconteceu na Sessão Clínica do
Instituto Raul Soares em articulação com a Comissão Conexões da XIX Jornada da
EBP-MG, a discussão de um caso que tem colocado as equipes técnicas do hospital
a se interrogarem frente ao real bruto advindo das passagens ao ato do paciente
na instituição. Interrogações que ao mesmo tempo que se localizam em pontos
diagnósticos e de manejos terapêuticos oscilam em julgamentos morais e condutas
contensoras violentas, onde a operação da palavra frente ao sujeito, tem sido
rechaçada, opacizando e inflando situações imaginárias – produzindo temor e
silêncio.
Frente ao impasse que os efeitos dos atos do
paciente vêm causando no espaço institucional, decidimos que o caso José
deveria ser trabalhado semanalmente em reuniões, conversações e supervisão para
que fosse possível uma operação de esvaziamento deste imaginário e chegássemos
a um ponto onde o sujeito apresentado por José em seu discurso pudesse ser
escutado. Momento de a instituição silenciar e o paciente falar. Nada mais
oportuno que a atividade ofertada pela Comissão Conexões se apresentasse a nós
em uma posição extima na instituição representada por Cristiane Barreto para
nos pontuar clinicamente a lógica do caso, como esse sujeito frente à
convocação de ser A MULHER. Ao tentar fazer um homem irrompe, sem mediações
discursivas, agressividade.
O paciente José encontra-se internado no
Instituto Raul Soares desde janeiro deste ano quando veio encaminhado pelo CAPS
de sua referência no interior de Minas. Devido a seu histórico de agressividade
e comportamentos obscenos, José passou grande parte de sua vida
institucionalizado em clínicas e hospitais psiquiátricos, permanecendo preso
durante 12 anos no Manicômio Judiciário em cumprimento de medida de segurança.
Desde sua entrada no hospital, a equipe de referência tem investido na escuta
do sujeito e na invenção de estratégias para dissipar o imaginário em torno do
caso junto aos serviços locais de saúde e para construir de forma responsável o
projeto de desospitalização do sujeito.
Cristiane nos apresenta em seu comentário, de
maneira minuciosa, os impasses que a experiência da psicose pode trazer para um
sujeito, afetado desde cedo em sua vida pelos excessos do gozo sobre seu corpo,
um gozo que não encontra no recurso ao falo uma moderação.
Ainda pequeno, e ao longo da vida, José se
depara com uma invasão obscena do gozo e ainda sem recursos para a construção
de uma solução delirante eficiente, ou seja, que circunscrevesse esse excesso.
Assim, estimulada pelo eixo de jornada:
“Psicose, enigma e sexualidade”, Cristiane se ocupa do caso clínico apresentado
pela equipe do Instituto Raul Soares. Um caso que marcadamente se caracteriza
por passagens ao ato muitas vezes violentas e que repercute via embaraço que o
paciente provoca nas instituições em que se vê inserido. Repetição as vezes
devastadora da trajetória mesmo que ele provoca a partir do enigma de sua
psicose. Enigma este não tratável pela referencia simbólica do pai. De tal
forma, Cristiane nos mostra como que um homem, não é coisa simples, e como
José, difamado e abusado em sua infância, buscaria fazer um homem, pela via
imaginária da difamação e das práticas violentas contra as mulheres que para
ele se apresentam como enigma. São invenções por demais precárias, que busca
José para bordejar um sentido, que faça contorno à experiência infinita que
invade seu corpo. Em José, a debilidade humana, apontada por Lacan naquilo em
que não há como falar da não relação sexual, incide de maneira contundente na
experiência do paciente e daqueles que não recuam diante de seu acolhimento.
Apostar na transferência significa reduzir os
excessos da erotomania e das ideações persecutórias, dirigindo sua paranoia a
uma versão mais regulada, menos invasiva e violenta. É inegável que a
instituição em alguns momentos alcança algo desses objetivos, e Cristiane o
assinala ao longe de seu percurso. Mas a psicose de José continua a
embaraça-lo, bem como àqueles que com ele se defrontam. Que outras invenções
poderiam tratar esse excesso em José?
Foi possível constatar um pouco destes
efeitos, após os comentários de Cristiane, quando algumas técnicas de
enfermagem começaram a relembrar frases de José de cunho sexual em relação a
elas. Como frente à erotomania e às respostas de sujeito a uma não reposta ao
apelo sexual, elas elaboram como José se angustia com esse não saber. Momento
clínico precioso em nosso cotidiano institucional. Não vamos recuar de
permanecer com a nossa pergunta desejante: e agora, José?
Resenha do filme O casamento de
Rachel: O declínio do pai e o gozo do corpo.
Cláudia Generoso
No dia 04 de agosto de 2017 foi exibido mais um filme da série “ Cinema
& Psicanálise”, dando continuidade à parceria entre a EBP/MG e a Fundação
Clóvis Salgado. O filme “O casamento de
Rachel”, do cineasta norte-americano
Jonathan Demme, foi comentado por Lilany Pacheco, diretora da Seção Clínica e
coordenadora do Núcleo de Toxicomania da EBP-MG, em uma sessão com lotação
completa de público.
Lançado em 2008, o filme traz uma sensível trama familiar regada por
conversas, conflitos e boa música. Trama
que se desenrola em apenas um final de semana durante as comemorações do
casamento de Rachel (Rosemarie DeWitt), irmã da perturbadora Kym (Anne
Hathaway), uma jovem que enfrenta problemas com o uso de drogas desde a
adolescência. Após vários meses de internação em uma clínica de desintoxicação,
a jovem é liberada para passar o fim de semana com a família para participar do
casamento em que será madrinha da noiva, vivenciando momentos reveladores de
conflitos pessoais e familiares.
Kym, personagem marcante ao longo de toda a trama, desperta um clima de
constante tensão naqueles que estão à sua volta ao mostrar sua posição de
insolência e denúncia. Ela é o membro da família que carrega a cicatriz da
destruição do lar que se revela, inicialmente, como culpada pela morte do irmão
caçula em um acidente de carro dirigido por ela quando estava drogada. Várias
lembranças infantis vêm à tona, como as constantes brigas dos pais, a separação
deles, o desmoronamento da família com a morte do irmão. Aos poucos os papéis
de cada um na família vão ganhando contorno no enredo: o pai frágil, se
ocupando mais pela nutrição das filhas, sempre lhes oferecendo algum alimento,
e por intermediar os conflitos entre elas; a irmã mais velha como a bem
sucedida; a mãe como uma visita que não consegue se haver com os filhos em sua
função materna.
Elementos de uma trama familiar que vão se desvelando ao longo do
filme, tal como em um tratamento analítico, conforme ressaltado nos comentários.
Se inicialmente a tensão era determinada pelo uso de drogas de Kym e a
destruição que ela causava na convivência com as pessoas, no desenrolar das
cenas se evidenciaram outros elementos subjacentes às experiências subjetivas
dos personagens, sendo este o ponto que interessa à psicanálise.
A mãe de Kym, que como uma peça solta mostrava-se apagada no começo da
história, passa a ganhar relevo a partir do momento em que a filha a questiona
em sua função de mãe, denunciando sua negligência ao deixar o filho mais novo
aos cuidados dela, uma drogada. Revela-se aí o que Lilany situou, em seu
comentário preciso, como um desejo de morte do filho na fantasia dessa mulher
que não conseguiu lidar com a divisão subjetiva aí implicada entre mãe e
mulher. Explicita-se, dessa maneira, um segredo familiar no qual Kym se aloja
encarnando o mau, a culpa pela destruição da família, o desejo de morte acenado
pela mãe e que ela tomou para si. Conflito apresentado em uma cena impactante e
decisiva de acerto de contas entre mãe e filha, entrecortada por agressão
física que deixa marcas no corpo de cada uma. Cena seguida por outra na qual Kym,
tomada pela verdade desvelada entre ela e a mãe, sai de carro, desesperada,
como que querendo alcançar algum limite, seja do insuportável dessa
"verdade”, seja da angústia, até da própria vida. Episódio que culmina em um acidente, como se
repetisse aquele que vivenciou com o irmão, mas agora demarcando uma separação,
um antes e um depois em sua vida. Conforme
o debate do filme, se configura a partir daí outro meio para lidar com o mal
estar. Ou seja, Kym, com o recurso à palavra, pôde dividir a responsabilidade
do desejo de morte com a mãe, revelando a verdade subjacente desse sujeito que
passa a consentir com a verdade do inconsciente. De posse de sua verdade
subjetiva, Kym poderá arranjar outros meios para lidar com o que rateia em sua
vida, não se restringindo ao ato de se intoxicar para anestesiar sua culpa,
estando liberada para construir outras relações menos mortíferas com a vida.
Com perspicácia, Lilany nos aponta a atualidade da trama para pensar as
relações no mundo contemporâneo perpassado pelo declínio do pai, dos ideais
simbólicos. Com isso, os efeitos são relações consumistas, aquelas do gozo
autístico, o gozo do Um sozinho, que
prescinde da relação com o Outro. Esse é o gozo do toxicômano que recorre ao
objeto droga como uma forma de defesa para lidar com sua divisão subjetiva,
abrindo mão do gozo fálico marcado pelo desejo, sobressaindo o gozo do corpo,
que se mostra na prevalência do ato em relação à palavra. É isso que Kym
evidencia com o seu corpo constantemente machucado, os seus atos transgressores
e as variadas passagens pela polícia, o seu reiterado ato de se drogar para
lidar com a vivência do mal estar. É esse modo de vida que define a sociedade
contemporânea que se destaca pela relação de todos consumidores de objetos para
tamponar a incompletude em detrimento à palavra para lidar com a angústia
inerente à condição do ser falante. É
nessa série que também entram os programas de tratamento, conforme destacou
Lilany, tornando as pessoas consumidoras de tratamentos, tal como a experiência
de Kym ao passar grande parte de sua vida em vários programas de recuperação.
Apesar de o filme demonstrar características próprias ao universo da
toxicomania, como reiterados tratamentos em clínicas de recuperação, programas
de autoajuda, a posição de vítima e denúncia comuns aos sujeitos toxicômanos, o
que se destaca é o segredo familiar que sela o destino de cada um modulando sua
caminhada na vida. Contexto subjetivo precioso ao tratamento psicanalítico que
considera as formas singulares de gozo de cada um e seus meios de se arranjar
no mundo com o que lhe foi transmitido pela verdade inconsciente.


