35mm e linha –
Luiza Therezo
Sujeito
suposto saber ler de outra forma
Esthela
Solano-Soarez[1]
O sujeito suposto saber como pivô da experiência analítica
articula, segundo Lacan, “tudo o que acontece com a transferência”[2].
O sujeito não é suposto por outro sujeito, mas por um significante que o
represente para outro significante, precisa Lacan, com vistas a “desenlamear o
sujeito do subjetivo”[3]. A experiência analítica
levada a seu termo conduz à destituição subjetiva, em que “revela-se o
inessencial do sujeito suposto saber”.[4]
E o que acontece com a transferência quando Lacan, em
seu último ensino, como assinala Jacques Alain Miller[5], desloca a psicanálise
para o registro do Um sozinho e repensa a prática a partir do que há de
absoluto, o sinthoma do Um? Essa perspectiva do sinthoma, como Éric
Laurent ressaltou[6] após J.-A. Miller, é a
dos Uns separados, não articulados, sem Outro, enquanto a transferência supõe o
grande Outro. Disso se deduz uma constatação: “a transferência está ausente no
último ensino de Lacan, ao menos nos Seminários O Sinthoma e L’une-bévue.”[7] Assiste-se, ao mesmo
tempo, no decorrer do último ensino de Lacan, a uma radicalização do real
borromeano, concebido como “sem lei”[8] e “não se ligando a
nada”[9]. Um real disjunto do
saber e que se caracteriza pela não relação ao sentido.
Somente no Seminário XXV, O momento de
concluir[10], Lacan retorna à
transferência, abrindo uma nova perspectiva. Ele se pergunta sobre o que pode
querer dizer o “suposto saber” e responde: “o suposto saber ler de outra
forma”, mas à condição de ligar também esse “ler de outra forma” ao grande S de
A barrado, que designa uma falta, um furo, uma perda. Como assinala Jacques
Alain Miller, ler de outra forma comporta alguma coisa de arbitrária, de
aleatória[11]. Com efeito, Lacan já
tinha posto que “o significante só se coloca como não tendo nenhuma relação com
o significado”, na medida em que o significante releva disso que se escuta, na
dimensão do sonoro, que “não tem nenhuma relação com o que isso significa”.
[12]
O analisante fala, lembra Lacan, e o analista corta.
Pelo corte ele equivoca sobre a ortografia e nisso seu ato participa da
escrita, fazendo ressoar por um outro modo de escrever, outra coisa do que isso
que é dito com a intenção de dizer. Isso indica que ler de outra forma demanda o apoio da escrita.
Lacan vai enunciar que isso de que se trata no
discurso analítico “é de dar ao que se enuncia outra leitura que a do seu
significado”.[13]
Essa perspectiva faz do corte o modelo do ato
analítico, corte que se encontrava no coração de sua prática. Por este ângulo,
ele queria colocar em prática uma dimensão do ato analítico que “não seria
débil mental”, no sentido de que ele não agiria por intermédio do pensamento,
que “confina à debilidade mental”[14]. É por isso que ele
propõe “elevar a psicanálise à dignidade da cirurgia”[15], esvaziando o sentido
para tocar o gozo fora do sentido, que não se liga a nada. O saber, nessa nova
perspectiva, releva do legível da letra, tropeçando no ilegível que faz furo.
[1] AME (ECF/ AMP).
[2] LACAN,
J., “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”, Outros
Escritos, Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2003, p. 253 e seguinte.
[3] Ibidem.
[4]
Op. Cit., p. 259.
[5]
MILLER, J.-A., “L’orientation lacanienne, Le tout dernier Lacan”, Seminário,
Departamento de Psicanálise da Universidade de Paris VIII, Lição do 14/03/2007,
inédito.
[6]
LAURENT, E. “Disruption de la jouissance dans les folies sous transfert”,
Intervenção no XI Congresso da AMP em Barcelona, Hebdo-Blog nº 133, 15 abril,
2018.
[7]
MILLER, J.-A., “L’orientation lacanienne, Le tout dernier Lacan”, Seminário,
Departamento de Psicanálise da Universidade de Paris VIII, Lição do 14/03/2007,
inédito.
[8]
LACAN, J., O Seminário, Livro XXIII, O Sinthoma, Jorge Zahar, Rio de
Janeiro, 2007, p. 133.
[9]
Ibidem, p. 119.
[10] LACAN, J., Le Séminaire Livre XXV, Le moment de
conclure, leçon du 10 janvier 1978, inédit.
[11] MILLER, J.-A., “Le tout dernier Lacan”, op. cit.,
Cours du 2 mai 2007.
[12]
LACAN, J., O Seminário, Livro XX, Mais, ainda, Jorge Zahar, Rio de
Janeiro, 2008, p.35
[13]
LACAN, J., Le Séminaire Livre XXV, Le moment de conclure, Op. Cit, Leçon du 2
mai 1978.
[14] MILLER, J.-A., “Le tout dernier Lacan”, op. cit.,
Cours du 2 mai 2007.

