Perturbar a defesa
Lúcia Grossi dos Santos [1]
Esta
expressão se encontra no livro La
experiência de lo real en la cura psicoanalítica, livro que reúne as transcrições
das aulas do Seminário de Miller relativas ao período de novembro 1998 a junho
de 1999. O texto é estabelecido por Graciela
Brodsky que dá título a cada uma das aulas.
Com
seu estilo esclarecedor, Miller inicia a primeira aula definindo o real, e na
segunda trabalha a diferença entre o real e o semblante. No final desta aula
temos a seguinte afirmação:
“Ou bem a psicanálise é
impossível, quer dizer, só explora as relações do significante e do significado
que só valem como semblantes em relação ao real, ou bem a psicanálise é uma
exceção capaz de perturbar num sujeito a defesa contra o real” (p. 34).
O
que seria “perturbar a defesa” como matriz mesma da operação analítica? Não
teremos imediatamente a resposta, apesar da próxima aula ter sido, assim,
nomeada por Brodsky.
Miller
vai fazer todo um percurso estratégico pelos fenômenos que fazem obstáculo ao
poder interpretativo do dispositivo analítico. A resistência é retomada por ele,
a partir do caso de Miss Lucy, paciente de Freud que não se deixa hipnotizar. Depois
ele se vale das elaborações de Reich que aponta que a transferência negativa é
um obstáculo, e ainda que o analista é sempre o perturbador do equilíbrio
neurótico. Mas o que mais interessa Miller nas formulações de Reich é o
conceito de caráter, que “indica algo que se relaciona com o que Lacan
distinguirá como a barreira imaginária”. O caráter representa “a maneira de ser
específica de um indivíduo, a soma de todas as suas experiências passadas” o
que o torna, para Miller um “conceito global muito próximo de toda significação
para um sujeito, que Lacan isolou como a fantasia”. (p.69)
No
entanto, há uma diferença, pois o caráter enquanto obstáculo aparece em Reich
como sujeito objetivado. Em Lacan, a fantasia aparece como a relação entre o
sujeito e o outro, que configura o eixo imaginário. Miller vê aí um “parentesco
entre a teoria do caráter e o imaginário de Lacan” (p.70). Assim, durante os
primeiros anos do ensino de Lacan o real estaria no modelo da interposição e do
obstáculo.
Miller
não perde de vista o horizonte de sua questão que é o real na experiência
analítica, por isso teremos mais duas aulas, a V e a VI, onde há um esforço de
localizar o real nas proposições do primeiro Lacan. Nas aulas VII e VIII ele
retoma o tema da defesa. No início da aula VI ele declara: “No caminho da
experiência do real no tratamento analítico interrogamos a história da
psicanálise e o conceito de caráter como resistência”. Somos remetidos ao texto
de Freud, de 1916, “Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho
psicanalítico”, onde Freud isola 3 tipos de caráter: as exceções, os arruinados
pelo êxito, e os criminosos em consequência de um sentimento de culpa. Os tipos
de caráter não tem a ver com os sintomas que seriam o material a ser decifrado.
O caráter é um modo de satisfação da pulsão que não mobiliza o sintoma como
mensagem ao Outro.
Comentando
os 3 tipos de caráter, Miller nomeia as exceções como aqueles sujeitos que
consideram ter um direito imprescindível ao gozo, porque foram vítimas de
injustiça e reivindicam uma reparação. O fundamento desta posição é a
castração. O segundo tipo é o inverso, não pode desfrutar do êxito, o gozo é
impossível de suportar. No terceiro caso o sujeito é culpado por sua relação
com o gozo.
Devemos lembrar que a noção de defesa é
primária nas elaborações freudianas e nunca deixou de ocupar seu pensamento. Em
1894 ele escreve um texto denominado “As neuropsicoses de defesa”, onde faz uma
leitura das manifestações neuróticas e psicóticas considerando-as como modos de
defesa distintos. E o último texto escrito por Freud em 1937, intitulado “A
divisão do Eu nos processos de defesa”, vem confirmar a importância deste
conceito, é um conceito fundamental. O Eu se defende se dividindo, Miller faz
referência a esta Spaltung (divisão).
Perturbar
a defesa não quer dizer eliminar a defesa. No esquema que Miller propõe, o
sinthoma reúne o sintoma e o caráter, ou seja o que é decifrável e o que não é.
Alguma coisa de uma perda de gozo acontece nesta perturbação do caráter e na
decifração do sintoma, e que resta é o sinthoma, um modo de saber fazer.
Referências
MILLER,
Jacques-Alain. La experiencia de lo real em la cura psicoanalítica. Los cursos
de Jacques Alain-Miller. Texto estabelecido por Graciela Brodsky. Buenos Aires:
Paidós, 2003.

