Em seu segundo
número, Sinapsy traz para você um pequeno resumo do que foi o primeiro
Seminário Preparatório para a XVIII Jornada da EBP-MG: “Psicanálise e ciência. O real em jogo”, que aconteceu no último dia 21 de março na sede da Seção Minas.
Ao acessar o blog da XVIII Jornada da
EBP-MG, o leitor irá encontrar um vídeo que reproduz alguns momentos do
Seminário Preparatório bem como a íntegra do texto de Frederico Feu, coordenador
da XVIII Jornada, texto que é norteador quanto aos principais aspectos das
relações entre psicanálise e ciência.
Sinapsy agradece aos colegas que colaboraram
com esta edição e convida a todos a acessarem o blog da Jornada: http://jornadaebpmg.blogspot.com
Boa leitura!
Yolanda Vilela
Trechos escolhidos do Primeiro
Seminário Preparatório
A abertura dos trabalhos, feita por Henri Kaufmanner , a intervenção de Frederico Feu de
Carvalho e os comentários de Gilson Iannini anunciaram o tom a partir do qual
serão examinadas, por ocasião da Jornada, as relações entre psicanálise em ciência.
Em seu texto de abertura, intitulado “O
pobre na festa”, Henri Kaufmanner
lembra que os avanços da ciência inauguraram uma era de novos direitos e que a
aliança do discurso do capitalismo com o discurso da ciência veio revelar a
face imperativa, superegóica desses discursos. Na era do consumo, diz ele, servir
às condições do mundo científico significa servir ao consumo de sua tecnologia,
de seus gadgets, sendo essa a
exigência social que se espalha produzindo, inclusive, evoluções ao redor do
planeta. Sendo assim, a função do corpo passa a ser o consumo em suas diversas
facetas.
O texto apresentado por Frederico Feu
deverá nortear os eixos de investigação da Jornada, pois além de trazer para o
centro da discussão os impasses envolvendo as relações entre psicanálise e
ciência, sua intervenção faz, igualmente, um amplo recenseamento das relações
entre esses dois campos do saber. Reproduzimos, a seguir, alguns pontos de sua fala:
“A psicanálise não pode prescindir da ciência; mas ela não é uma ciência, em
sentido estrito. Se tomamos como referência O
Seminário, livro 25, O Momento de
Concluir, lição do dia 15 de novembro de 1977, a derradeira posição
de Lacan é de que ‘a psicanálise não é de forma alguma uma ciência’. Nesse
momento de seu ensino, não cabe mais pensá-la nem mesmo como uma ciência
conjectural. Contudo, prossegue Lacan, ‘a psicanálise é para ser tomada a
sério’. Ela não é uma ciência, segundo Lacan, porque suas sentenças não podem
ser refutadas ou falseadas, conforme Popper já havia demonstrado e, antes dele,
Wittgenstein. Para Miller, a irrefutabilidade da psicanálise deriva do fato de
que tudo o que se diz em uma análise é, por princípio, sempre verdadeiro”
[...]. “No entanto, se a psicanálise não é uma ciência, ela só se tornou
possível ─ como observam Freud e Lacan, cada um ao seu modo ─ após o advento da ciência moderna nascida com Galileu, justamente por
recolher os efeitos de verdade desencadeados pelo discurso da ciência” [...]. “Mesmo
não sendo uma ciência, a psicanálise não é sem uma relação com a ciência, na
medida em que há um real em jogo na experiência analítica. Talvez por isso, no Ato de Fundação, de 1964, Lacan
considere que cabe à Seção de Recenseamento do Campo freudiano, à qual se liga
a Biblioteca, ‘a atualização dos princípios dos quais a práxis analítica deve
receber, na ciência, o seu estatuto. Um estatuto que, por mais singular que
afinal seja preciso reconhecê-lo, nunca seria o de uma experiência inefável’.
Em suma, o estatuto de ciência que a psicanálise reivindica, por querer ser
tomada a sério, não provém do método experimental, dos protocolos, dos
critérios e das normatizações da ciência, mas apenas do fato de que há um real
em jogo na experiência psicanalítica. É esse real em jogo, conforme indica o
subtítulo de nossa Jornada, que queremos trazer ao centro de nossos debates”.
Em seu comentário, Gilson Iannini evoca a pergunta
de Jacques-Alain Miller: “qual o lugar da psicanálise entre as ciências?”, pergunta
que Gilson responde resgatando uma expressão de François Regnault: “a
psicanálise é uma ciência êxtima”. A posição da psicanálise é de extimidade em
relação à ciência. “Mas extimidade não é uma não-articulação; é uma figura
topológica que dobra a intimidade do avesso. A psicanálise não é íntima da
ciência”.
Gilson
Iannini desenvolve o seu comentário considerando as relações entre psicanálise
e ciência a partir dos eixos epistemológico, político e clínico. Ele diz: “Se Lacan
chega a dizer que a ciência ‘nada quer saber da verdade como causa’, é para
dizer que, na ciência, a verdade como causa opera sob o aspecto formal. É nesse
ponto que a psicanálise se afasta da ciência, pois nela, a verdade opera como
causa material. O ponto que gostaria de sublinhar é o seguinte. Dizer que a
ciência não quer saber da verdade como causa é exatamente equivalente a dizer
que a ciência se interessa pelo aspecto formal da verdade! Em outras palavras:
o formalismo lógico-científico é uma maneira de não-querer-saber! Para a
ciência não existe real sem sentido, não existe verdade estruturalmente fora do
saber. Mas o ponto interessante é que essa forclusão (o termo é de Lacan) segue
o mesmo modelo da forclusão em geral: o que é rejeitado no simbólico retorna no
real. No caso poderíamos traduzir: o que é foracluído pela ciência retorna no
real da clínica”.

