quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Quereres Final - Textos de Abertura, Encerramento e Fotos

Caros colegas, é com satisfação que após quase um ano de preparação, chegamos ao nosso último boletim Quereres, trazendo os textos de Abertura e Encerramento de Sérgio de Campos, Diretor-Geral da EBP-MG e de Cristina Drummond, Coordenadora da XIX Jornada "O que quer a mãe, hoje?".

O auditório do Dayrell Hotel & Centro de Convenções estava lotado com aproxidamente 600 inscritos! Foram dois dias de intenso trabalho com 05 Testemunhos de Passe, 03 Plenárias, 39 trabalhos apresentados em mesas simultâneas e 02 Conferência de nossa convidada Marie-Hélène Brousse.

Nossa convidada internacional mostrava-se muito animada ao trabalho desde sua intervenção na quinta-feira na sede da EBP-MG em uma atividade restrita aos membros, aderentes, correspondentes e às comissões organizadoras.

Foram muitos Quereres até a nossa XIX Jornada, que aconteceu nos dia 30 e 31 de outubro e foi um acontecimento! Feita por muitos e para muitos, em consonância com a orientação da Escola, como nos apontou Cristina Drummond em sua fala de encerramento, mobilizou nossa comunidade analítica em torno da pergunta "O que quer a mãe, hoje?"

Que os ecos e efeitos de transmissão se propaguem em cada um!

Obrigado aos colegas que atenderam ao pedido e contribuiram com o envio das fotos.

Miguel Antunes
Coordenador do Boletim Quereres
-------------//-------------

Abertura
O corpo falante da mãe
Sérgio de Campos
Caros colegas, Bom dia!
Bem-vindos à XIX Jornada da EBP-MG “O que quer a mãe, hoje”.
No dia 19 de outubro, último, o Estatuto da Família foi aprovado com polêmica pela Comissão Especial da Câmara dos deputados em Brasília, no qual designa que é apenas reconhecida como família a união entre homens e mulheres. O projeto é terminativo e, portanto, não será discutido no Congresso Nacional, mas encaminhado diretamente para ser aprovado pelo Senado. Em contrapartida, no Senado tramita outro projeto do Estatuto da Família bem mais amplo que define que todos têm direito à família e que o parentesco é determinado por vínculos de afeto e não apenas por laços consanguíneos.
Curiosamente, o Estatuto da Família proposto pela bancada evangélica, apenas vem ratificar a tese de Miller de que o Outro não existe. Se em pleno século XXI com tanta tarefas a fazer, o Congresso Nacional e o Senado necessitam se ocupar com a definição de família, a dedução é clara de que o Outro do pai se evaporou e que o Outro das referências e dos valores não mais existe. Portanto, a partir de uma reação nostálgica, se faz imprescindível à criação dos comitês de ética das mais variadas matizes que tentam a todo custo recompor o Outro que se esgarçou.
Entre rupturas e suturas, as consequências do Outro que não existe afetam diretamente a relação standard entre os sexos, os papeis parentais e a tríade pai, mãe e filho inscritos na sequencia patrilinear. O real transformou os semblantes que constituíam nossa realidade. Ainda não conseguimos mensurar todos os efeitos das mutações familiares. Portanto, os psicanalistas numa posição de exitimidade, não poderiam deixar de se inclinar sobre esse tema, pela razão ética de buscar estar à altura da subjetividade de seu tempo (LACAN, p. 322). Assim, a psicanálise por ser uma prática sem valor, ou sem referencias standards surge como instrumento capaz de manter a cunha aberta da subjetividade no contemporâneo.
Diante de tantas mudanças, a maternidade que se constituía como uma resposta standard ao feminino para Freud, se reconfigurou como uma pergunta na clínica lacaniana. No contemporâneo, a tese da criança como substituto fálico não mais responde à questão do feminino; pelo contrário, abre, razão pela qual se torna pertinente interrogar “O que quer a mãe, hoje”. A partir das tecno-ciências, das novas modalidades do gozo privado, da reconfiguração da ordem pública e das mutações familiares, vivemos situações inéditas, contudo, não revolucionárias, no que concerne à maternidade.
A maternidade é um complexo que se processa em uma sucessão de fases que se inicia com a fecundação, segue pela gestação, parto, aleitamento, criação e se estende à educação até a independência do filho. A maternidade não é apenas um processo importante na vida de uma mulher, mas é uma mudança de um estado que implica um antes e um depois, e que constitui a diferença entre duas identidades, que é a passagem da filha e mulher à condição de mãe, o que endossa certa estabilidade fálica para a mulher. Contudo, a mãe em sua função de transmissão do dom e de uma linhagem, quando fracassa pode acarretar a devastação e um impedimento da passagem da menina à condição de mulher e de mãe (ELIACHEFF-HEINICH, 2002, p. 295).
As mães constituem como conjuntos. Pode-se agrupar esses conjuntos maternos em três grandes grupos: o primeiro, mãe e mulher; segundo, nem mãe, tampouco mulher; e por último, ou mãe ou mulher. Pode-se dizer que acompanhadas por um adjetivo se multiplicam e se conjugam no plural: as mães amantes e as mães mulheres; as mães estrelas, superiores e as inferiores; as mães abusivas, toxicas e invasivas; as mães trabalhadoras e as descansadas; as mães amorosas, as ciumentas e as invejosas; as mães assumidas ou as que abandonam os filhos e também as substitutas; as mães envergonhadas e as orgulhosas; as mães homossexuais, as narcísicas e as injustas, as más, as suficientemente boas e as ambivalentes; as benevolentes, as desafiadoras e as competidoras; as inseguras ou as autoconfiantes e as depressivas; as loucas e as sensatas, as maduras e as adolescentes, entre tantas. A lista é enorme. Você reconheceu a sua?
Embora a maternidade seja um tema universal e inscrito no registro fálico, cada mulher, a vive como uma experiência do real puramente singular e contingente. A expectativa de ter um filho engendra a renovação de esperanças, de fantasias, de sonhos, de mitos e verdades e até mesmo de frustrações. Ademais, a experiência da maternidade, particularmente, com o primeiro filho ganha tonalidades do inenarrável, do enigmático e do incompreensível. Portanto, não é por acaso que frequentemente algumas mulheres desencadeiam surtos psicóticos nos períodos do puerpério e outras lidam com sua prole mediadas por atitudes caprichosas e desarrazoadas.
Se a mãe é o Outro da demanda, da potencia do ter falo e do exercício do dom do amor, podendo inclusive se constituir como uma recusa do feminino. Em contrapartida, a mulher é o Outro do desejo, da falta, da castração, o Outro da queixa, do sofrimento e por vezes, objeto de perseguição masculina.
A maternidade é saída honrável para a mulher, entretanto, Miller indaga se ela é autêntica no que compete ao feminino (MILLER, 2015, p. 115). Se por um lado, a maternidade é concebida em parte como uma suplência do gozo não-todo da mulher; por outro, atualmente, ela não mais se inscreve como destino, tampouco como história, mas como uma escolha, uma contingência, fruto do inesperado que escapa à trama alinhavada dos acontecimentos (ALBERTI, 2014, p. 23).
Se alinharmos o tema dessa Jornada ao tema do Congresso da AMP, que acontecerá no Rio de Janeiro, em abril próximo, pode-se dizer que se há um corpo falante em jogo, como que será o corpo-falante da mãe? O mãe necessita ter um corpo para falar, para gozar e portar o seu bebê. Assim, o corpo serve para falar. Aliás, a grávida, como futura mãe, é uma unidade, uma espécie de monobloco de uma densidade especial na qual a linguagem aninha em seu corpo, assim como o feto está alojado em seu ventre. Então, o discurso e a substancia gozante incidem sobre o corpo da mãe e de seu feto, constituindo um Outro no qual o corpo da criança deve advir. Portanto, o significante oriundo do corpo da mãe, escava o corpo do filho e produz nesse binômio um reservatório de gozo.
Aliás, no que concerne ao gozo, enlaçado pela clínica borromeana, no âmbito imaginário, o falasser da mãe goza como suporte especular para o recém-nascido constituir sua própria imagem, a partir de seu narcisismo renascido na criança; na ordem simbólica, o corpo falante da mãe goza sob o desejo e a interpretação, ao recortar e incorporar o gozo pelo significante, constituindo para sua prole um baluarte que articula o código significante; e por fim, no registro do real, goza com o acontecimento de corpo, num sem porquê insolúvel, entre o falasser materno e o corpo de seu filho, onde o vivo se traduz por um sinthoma que resiste ao sentido, subsiste como mistério da vida e permanece como um vestígio indelével (MILLER, 2013, p. 15-16). É necessário sublinhar que é junto ao falasser da mãe que o neonato que constitui o seu. Aliás, o bebê conquista seu corpo na medida em que ele enoda os três registros mediante os nomes do pai que sob a inscrição da função materna, opera a separação.
Os efeitos do significantes perfuram o organismo do vivente para que ele se transforme em um corpo. Portanto, o corpo falante da mãe é o responsável pela incidência fonética da lalangue que se precipita como letra sobre o corpo do neonato. É exatamente sobre o traumatismo da lalação, efeito primordial do significante sobre seu devir, que o neonato construirá seu corpo de linguagem, portanto, lá onde isso fala, isso goza (BONNAUD, 2013, p. 54). O recém-nascido ao emitir os primeiros fonemas, acompanhados de risos e choros, endereçados à mãe vai se apropriando da linguagem (BONNAUD, 2013, p. 79).
O corpo da criança pode convocar o insuportável da mãe, como o impossível à compreender. Com efeito, trata-se de um real que escapa a significação e, portanto, provoca efeitos de sintoma. O recém-nascido pode afetar o corpo da mãe, quando ela apresenta sua fórmula sintomática na enunciação “ele me faz....”. Ele me faz rir, ele me faz doente, ele me faz feliz, ele me faz dores de cabeça, ele me deixa nervosa, angustiada, aborrecida, louca (BONNAUD, 2013, p. 55). Portanto, a criança pode constituir um sintoma para a mãe, pois o bebe não vem com bula ou decodificador, por tanto será necessário interpretá-lo (SOLANO, 2015, p. 84).
Em contrapartida, as mães testemunham as dificuldades que implicam os cuidados com o bebê. Quando esses contratempos se transformam em enigmas para a mãe, abre a perspectiva para se produzir um corpo e um sujeito na criança. Com efeito, trata-se do mistério do corpo falante, no qual a criança acolhe o impacto do significante como trauma da linguagem, inaugurando o corpo falante (MILLER, J.-A., 1986).
As vezes, uma mulher pode fazer do corpo falante da mãe um escabelo. Inscrita no registro fálico, lá vai grávida furando as filas dos bancos, supermercados, dos ônibus, desfilando com sua barriga. Entre a sublimação sexual e o êxtase narcísico, lá vai grávida, vaidosa, exibindo sua barriga com orgulho. A grávida faz de seu barrigão, seu pequeno escabelo, fomentando “aquilo sobre o qual o parlêtre se ergue, sobe para fazer-se belo”. Afinal, o que promove o escabelo, seria o corpo falante da mãe, no qual sua face de gozo traduzida pela esperança no devir, em cujos dizeres originam os grandes ideais do bem, do verdadeiro e do belo (MILLER, 2014, p. 28).
Em “Note sur le Père” Lacan ressalta que o pai se evaporou (LACAN, 2015, p. 8). Sem dúvida a evaporação do pai acarretou incidências sobre o corpo da mãe A ciência com suas inovações tecnológicas configura um novo cenário de que tudo é possível ou de uma maternidade a todo custo, particularmente, quando o desejo de ser mãe ou do casal não surge em cena. Em recente entrevista MH Brousse ressalta sobre o entrecruzamento do discurso da ciência e do capitalismo sobre o qual a criança emerge como objeto a, como mercadoria destinada ao consumo de um “direito a todos” e não como uma metáfora do amor dos pais ou como um significante que inscreve o sujeito em uma linhagem.
Se por um lado, algumas mulheres desejem ter filhos, mas jamais se imaginaram mãe; outras desejam se tornarem mães, contudo, pode haver uma recusa do inconsciente de se engravidarem. O desejo de se tornar mãe, distinto do desejo da mãe, quando se manifesta nas mulheres é totalmente incomparável com o desejo de se tornar pai no homem, já que desejo de maternidade no sujeito feminino vem para recobrir a falta na mulher, de tal sorte que a criança se torna um substituto fálico. Ademais, se por um lado, o corpo falante da mãe pode ser tomado como o index do mistério da vida; por outro, pode emergir como sintoma na economia de gozo seu parceiro amoroso, de sorte que o viril declina quando o feminino se apaga no corpo materno (MILLER, p. 119, 2015).
A mãe não deve responder a todas as demandas da criança, de maneira que ela deve preservar o lugar da falta, de sorte que a mãe suficientemente boa, retomada por Lacan é aquela que sabe se fazer desnecessária o filho, portanto, sendo aquela que se mostra não toda para a criança. Assim, é necessário que a criança suponha que haja uma mulher na mãe, de modo que haverá uma mãe para a criança e uma mulher para um homem, mesmo que esse homem seja eu como canta Marina, a música de Erasmo Carlos.
Por fim, em meu nome e em nome dos meus colegas de Diretoria da EBP-MG, Maria de Fátima Ferreira, Márcia Rosa e Wellerson Alkimim, quero agradecer em primeiro lugar a Cristina Drummond por ter aceitado o nosso convite para coordenar a Jornada. Em 2006, estávamos em posições opostas, Cristina era a Diretora da Seção e eu coordenava a Jornada “Ser pai, hoje”. Sentimos felizes e honrados com a presença de nossa convidada Marie-Hélène Brousse, AME da ECF/AMP a quem agradecemos imensamente. Agradecemos enormemente a Marina Recalde, AE/EOL pela sua presença. É necessário registrar a ausência de nossa colega da EOL Beatriz Udênio que por motivo de força maior, não pode estar entre nós. Agradecemos as presenças dos convidados Marcus André Vieira e Luiz Fernando Carrijo, os AE em exercícios da EBP/AMP. Agradeço a toda comissão organizadora da Jornada. O nosso especial muito obrigado para os nossos funcionários e a todos vocês que de maneira direta ou indireta contribuíram para que esse evento aconteça. Por fim, digo-lhes que estamos alegres e entusiasmados com a presença de todos vocês.
Declaro aberto os trabalhos da XIX Jornada da EBP-MG, “O que quer a mãe, hoje”.
Muito obrigado!
Referências bibliográfica:
BONNAUD, L’Inconscient de l’enfant, du symptôme au désir de savoir, Paris: editeur Navarin – Le Champ Freudien, 2013.
BROUSSE, M-H, “Le mystère de sa propre féminité, sa féminité corporelle”, In: Cause du désir, revue de psychanalyse, Paris: editeur Navarin, N. 89, 2015.
ELIACHEFF, NC; HEINICH, N. Mère-fillies, Paris: Albin Michel ed., 2002.
LACAN, J., Função e campo da palavra e da linguagem, Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, p. 322)
MILLER, J.-A., Producir un sujeto? In: Matemas, Buenos Aires: Manatial, 1986, p. 175-181.
MILLER, J.-A., Falar com seu corpo, In: Opção lacaniana, Revista Brasileira internacional de Psicanálise, São Paulo, n. 66, 2013.
MILLER, J.-A., In: Mèrefemme, In: La Cause du désir, revue de psychanalyse, Paris: editeur Navarin, N. 89, 2015.
MILLER, J.-A., O inconsciente e o corpo falante. In: Scilicet: o corpo falante, 2015, p. 28.
SOLANO, E., Maternidades Blues, In: Ser Mae, Escola Brasileira de Psicanálise, , 2015.
--------------------//------------------

O que quer a mãe, hoje? – abertura da Jornada
Cristina Drummond

Essa jornada é um tempo de colhermos frutos de um percurso de trabalho que envolveu toda a comunidade da EBP-MG em torno da pergunta: o que quer a mãe, hoje. Há muitos anos os antropólogos nos relataram que, muito distante de hoje e daqui, numa tribo africana, quando a mãe morria no parto, a criança era enterrada junto com ela. Essa relação quase que estritamente biológica de uma dependência que não é passível de substituição está longe de ser a da nossa cultura e contemporaneidade. E a maternidade, ligada ao corpo e à reprodução, foi exatamente o que Freud colocou em questão.
Essa pergunta nos fez percorrer as respostas propostas por ele e seus desdobramentos no ensino de Lacan. Assim, se para Freud ser mãe podia ser um destino da reivindicação fálica para a mulher, para Lacan esse caminho é mais tortuoso. Não apenas ele nos ensinou que o fálico para a mulher não ancora todo o seu ser, mas também que não podemos afirmar que um filho se reduza a ser uma metáfora do falo para a mãe. Se Lacan começa introduzindo na relação da mãe com a criança o falo, o que nos permite pensar em todas as consequências do édipo para uma mulher, aos poucos a questão da mulher e do para além do falo abriu um campo de investigação clínica que lhe permitiu abordar de maneira mais precisa as particularidades dessa relação que ultrapassa o simbólico e o imaginário. Se Freud introduziu a devastação como uma marca da relação primitiva da menina com sua mãe, Lacan vai indicar a devastação como um traço estrutural do gozo na mulher e que trará seus rastros na relação dessa mulher com a maternidade.
Se a psicanálise sempre trouxe à sua cena a mãe, ou o filho da mãe, os tempos mudaram e a articulação entre a mãe, o falo e a criança proposta por Lacan para pensarmos essa relação como uma relação não dual se mostrou insuficiente para dar conta do que a clínica nos apresenta. É na discussão de cada caso que poderemos pensar o que mudou, e que novos sintomas surgiram no campo da maternidade.
Pudemos percorrer em nossa investigação os caminhos do ter um filho e do ser mãe para uma mulher, e da multiplicidade de respostas singulares a essa questão que encontramos em nossa clínica.
De fato é uma constante clínica nos depararmos com mulheres que não sabem o que fazer com seus filhos. Há uma clínica da angústia na gestação, assim como a da angústia diante do objeto criança que realiza algo que havia sido apenas imaginado e fantasiado ou que às vezes nem mesmo pôde ser imaginado. Que uma mãe enfrente difíceis e longos tratamentos de fertilização não a impede de, ao finalmente conseguir ter seu filho, não se sentir para nada feliz e muito pelo contrário ser invadida de angústia ou de desinteresse pela criança. Que uma mulher só se dê conta de que está tendo um filho no momento do parto nos mostra como é complexa a relação da reprodução e do corpo. A ponto de uma mulher não se sentir verdadeiramente mãe porque teve um parto cesáreo. Os recursos da ciência que se colocam à disposição da reprodução parecem facilitar uma aspiração para se dispensar os limites do corpo. Uma aspiração inclusive de se dispensar a parceria amorosa, a passagem pelo corpo do Outro e o encontro com o gozo do corpo do Outro. A maternidade também é uma situação que pode colocar fim a parcerias que eram muito bem sucedidas num tempo anterior.
Nosso tema de investigação além de demandar uma leitura da teoria também toca nas mudanças de nossa atualidade e exige de nós, analistas, uma resposta que permita dar conta dos novos sintomas da maternidade decorrentes dessas transformações que podemos dizer serem consequências do declínio da função paterna e dos efeitos do discurso da ciência em nossas vidas.
Desdobramos a questão em múltiplas perguntas tais como: o que é a mãe, qual a articulação entre a mãe e a mulher, como a maternidade está articulada ao feminino, quem exerce essa função, o que é ter um filho, o que é ser mãe, quais as leituras da ciência, da literatura, do campo jurídico, da medicina, que vêm responder às novas configurações familiares, assim como a existência de famílias que não se formam a partir de um casal. Sabemos que no campo jurídico há no Brasil um projeto de se criar o Estatuto da família no qual se define como família apenas aquelas que são formadas a partir da união de um homem e uma mulher. No entanto, poderíamos dizer como Charcot, que isso não impede que se exista. A existência ultrapassa as propostas da ciência e do campo jurídico e é com esse real que temos que saber fazer.
Como propor essa definição de família, em tempos nos quais uma relação entre três mulheres é reconhecida juridicamente como uma união estável? Em tempos em que uma criança é registrada com duas mães e um pai, já que este como doador de esperma para engravidar uma mulher que tinha uma relação homossexual, quis fazer sua paternidade ser reconhecida no registro civil dessa criança? A partir desse fato, não podemos mais tomar as parcerias como fundamento da família e muito menos as parcerias heterossexuais.
Efetivamente, no início de outubro foi registrada no Rio a primeira união estável entre três mulheres. A tabeliã que se ocupou desse ato diz o seguinte: "Não existe uma lei específica para esse trio, tampouco existe para o casal homoafetivo. Isso foi uma construção a partir da decisão do STF, que discriminou todo o fundamento e os princípios que reconheceram a união homoafetiva como digna de proteção jurídica. E qual foi essa base? O princípio da dignidade humana e de que o conceito de família é plural e aberto. Além disso, no civil, o que não está vedado, está permitido".
Além da união estável em si, as três mulheres fizeram testamentos patrimoniais e vitais. O próximo passo delas é gerar um filho por meio de inseminação artificial. Por isso, a declaração da relação foi acompanhada dos testamentos, que estabelecem a divisão de bens e entregam para as parceiras a decisão sobre questões médicas das três cônjuges.
Como entender que o que está vedado, está permitido? Como lidar com o que é da ordem da existência e que não cabe nos semblantes que organizavam nosso mundo? Como entender a relação da lei e da ficção? Quais as consequências dessas mudanças na vida das mães e de seus filhos? As mudanças não se dão apenas nos regimes de constituição das parcerias, isso sempre existiu. O que é novo é a busca de incluir essas soluções na lei, apesar de seus recursos não serem suficientes para dar conta do que se inventa.
Como entender o projeto de lei aprovado esse mês que veda o atendimento no SUS às vítimas de violência sexual e que remove no atendimento de saúde a profilaxia da gravidez às vítimas de estupro? Se esse projeto é sem dúvida um retrocesso na luta das mulheres ele também nos fala de um absoluto desconhecimento da relação entre uma mãe e seu filho, quase como se o que estivesse em questão fosse apenas um fato biológico e um filho não passasse de um objeto do campo mercadológico.
Como entender que as mães viciadas em crack sejam afastadas de seus filhos como se fossem todas elas tóxicas para eles? Como pensar essas situações de modo não universal?
Em setembro passado, quando foi espalhada na mídia a imagem de uma criança síria de três anos morta na praia depois de um naufrágio quando viajava com sua família em busca de um lugar que acolhesse refugiados, ela provoca em nós angústia e nos traz também a dimensão de objeto que a criança encarna. Ou ainda quando escutamos que uma criança foi dividida em pedaços e colocada na geladeira, ou abusada, ou encarcerada, ou exemplos como o relatado por Gilberto Scofield Jr. relatado no Estadão da difícil adoção de uma criança, podemos nos dar conta da complexidade da situação.
Gilberto relata que PH, mal cuidado por pais alcoólatras, foi parar no abrigo Lar Mãe Dolores, em Capelinha, aos dois anos de idade, quando a mãe morreu aos 28 anos de complicações do vício. O pai decidiu que não queria mais criar o filho. Seis meses depois, uma mulher solteira em São Paulo o pegou para adoção, mas acabou denunciada pelo próprio irmão e por uma vizinha por maus tratos. A justiça interveio devolvendo-o de novo ao abrigo. Depois três casais heterossexuais há haviam visitado PH no abrigo e também o rejeitaram. Dois porque o acharam muito feio e o terceiro declarou que ele era negro demais. Foi então que PH pode ser adotado por Gilberto e seu companheiro que se preocuparam, em suas palavras, “em dar a ele a sensação de pertencimento e acolhimento que ele precisa numa família que nunca teve e os limites que um menino de cinco anos precisa num momento em que testa tudo em relação à autoridade dos pais”.
Estamos num tempo de mudanças e transformações nas famílias e, em nosso país, o percentual de famílias chefiadas por mulheres passou de 22,2% para 37,3% entre 2000 e 2010. E vivemos num tempo em que, apesar de nos sentirmos tocados pela foto do menininho na praia, os brasileiros tiveram sua xenofobia aumentada 600%, como foi divulgado no Globo, pelo fato do governo incluir famílias sírias no programa do bolsa família. Bolsa de R$175,00 reais e que contemplou 163 famílias que já tinham familiares no Brasil.
Se as propostas de inclusão mobilizam as respostas do jurídico, na realidade nos deparamos com o exato oposto: a violência e a intolerância.
A pergunta de quem se responsabiliza pelas nossas crianças é a outra face do que vamos trabalhar nessas jornadas a partir de nossa pergunta inicial, que deu origem e provocou todo esse tempo de elaboração coletiva em nossa comunidade de trabalho.
Essa pergunta que foi nosso ponto de partida nos fez trabalhar em seminários preparatórios, em atividades nos distintos espaços de transmissão de nossa seção, em nosso boletim, nos relatórios e nas produções individuais que serão trazidos aqui para nossa discussão. Assim, penso que buscamos fazer desse encontro uma oportunidade para tratarmos da pertinência da psicanálise em nosso mundo e da contribuição de sua leitura para avançarmos nos impasses de nosso tempo. Eles não são poucos.
Essa jornada não teria sido possível sem a participação de todos vocês e agradeço, em primeiro lugar ao nosso diretor, Sérgio de Campos que ao me dizer que eu lhe devia essa, soube colocar meu desejo a trabalho, mas agradeço, sobretudo, aos coordenadores das comissões que prepararam com tanto carinho e cuidado esse encontro. Que ele seja produtivo, e faça diferença para cada um que se dispôs a vir participar e contribuir com esse esforço de elaboração coletiva. É nossa maneira de manter vivo o discurso analítico em nosso mundo.

Coordenadores das Comissões:
Boletim Quereres: Miguel Antunes
Comissão Científica: Sérgio de Campos
Comissão de Divulgação: Márcia Mezêncio
Comissão de Infra-estrutura: Alessandra Thomaz Rocha e Sandra Espinha
Comissão de Livraria: Mônica Campos Silva e Paula Pimenta
Comissão de Parcerias: Maria Inácia Freitas
Comissão de Secretaria e Tesouraria: Maria de Fátima Ferreira
--------------------//------------------
Encerramento
Sérgio de Campos
“O que quer a mãe, hoje”. Chegamos ao fim de mais uma Jornada da Escola Brasileira de Psicanálise, da Seção Minas Gerias, a XIXo. A EBP já foi comparada com uma locomotiva pela sua força, determinação, alinhamento e orientação. inclusive, a EBPMG tem a sua versão, particularmente, no que concerne ao nosso trem caipira, que se tornou famoso por inspirar Villa-Lobos.
A Escola é uma locomotiva, mas também um trem. Digo-lhes de um outro trem. Um trem bem conhecido entre nos, como um significante do linguajar do mineiro que não tem um significado único, mas que tem múltiplos significados, podendo designar qualquer coisa que o mineiro queira dizer. Você vai comer esse trem? Que trem é esse que você está na cabeça. Estou com um trem dentro de mim. Êta trem bao, o mineiro se referindo à mulher. As vezes o mineiro na estação, diz para a esposa, mulher, pega os trem que a coisa vem vindo.
Pois, é...Portanto, a Escola é um trem, no sentido de uma invenção na qual cada um se inscreve em nome próprio com seu sintoma e seu estilo, com sua experiência e sua clínica, com o seu modo de existir e de pensar, com a sua dedicação e o seu desejo, com o seu estudo e seu saber, e com o seu trabalho e a sua vida. A psicanálise em Minas é feita desses trens. Assim, o significado da Escola como trem está em aberto e sempre no advir como invenção, retomando a conferencia de Marie-Hélène Brousse. Entre a locomotiva e a trem, a Escola de Lacan marcha ritmada dentro dos trilhos nesses vinte anos.
No que concerne a preparação de uma Jornada, a imagem que vem a minha mente é de uma orquestra que para se apresentar ao público foi submetida a inúmeros e incansáveis ensaios. A Jornada como uma filarmônica, com seus instrumentos de cordas, madeiras, metais, percussão e teclas, e sob a regência da maestrina Cristina Drummond, cada um, contribuiu a sua maneira para esse acontecimento. Se a orientação lacaniana é única, cada um de vocês, respondeu ou tentou responder a questão: “O que quer a mãe, hoje?”
Ademais, é necessário registrar a publicação da revista Curinga, consoante ao tema da Jornada que certamente, será uma inestimável referencia para todos que se interessarem pelo tema da mãe. Na Curinga, vocês poderão ler os textos das quatro noites preparatórias e os relatórios apresentados na Jornada.
Agradecemos, a Marie-Hélène Brousse que nos honrou com sua presença nos oferecendo à Jornada suas inestimáveis e brilhantes conferencias que certamente contribuirão para o avanço da psicanálise em Minas Gerais. Nossos agradecimentos aos nossos convidados Marina Recalde, Marcus André Vieira e Luiz Fernando Carrijo e também a prata da casa, Jésus Santiago e Ram Mandil que souberam transmitir em suas experiências o real da clínica. Agradecemos os colegas que apresentaram seus trabalhos nas mesas simultâneas e nas plenárias com os relatórios, como um trabalho de muitos. Nossos agradecimentos aos colegas de outros de outras seções que nos prestigiam. Posso dizer que nessa Jornada participaram colegas de todas as Seções e de quase todas as Delegações. Os nossos agradecimentos às Comissões de Infraestrutura, Científica, Boletim Quereres, Parceria, Divulgação, Livraria e Tesouraria. O nosso muito obrigado aos funcionários da EBPMG. Agradecemos a cada um de vocês que estiveram conosco durante esses dois dias de intenso trabalho.
Dou por encerrado os trabalhos da Jornada “O quer a mãe, hoje?”. Até a XX jornada da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas Gerais.
Muito obrigado!