terça-feira, 30 de junho de 2015

Quereres V

Quereres V está no ar! Nesta edição trazemos para vocês um resumo da II Noite Preparatória rumo à nossa XIX Jornada da EBP-MG. Assim como no evento anterior, o auditório da seção Minas estava bastante cheio e a conversa foi animada. Confira o vídeo com os momentos que selecionamos e a nota feita por Cristina Drummond, articulando os textos de Ana Lydia Santiago e Sérgio Laia, responsáveis pelas intervenções do dia 11 de junho.

A nossa colega de Minas, Lilany Pacheco (EBP/AMP), nos enviou sua contribuição "Maternidade: bastardia e salvação". A partir de uma vinheta clínica, ela lança algumas perguntas para trabalharmos durante a XIX Jornada: "o que é amor de mãe?", "ter um filho torna uma mulher mãe?"

Ainda nesta quinta edição do boletim Quereres, divulgamos os ecos da atividade do Cine Cien, ocorrida em março, que contou com os comentários de Cristina Drummond sobre o filme francês "17 filles", que narra a história de 17 amigas adolescentes que engravidaram ao mesmo tempo. O filme transmite o singular da experiência de cada uma destas adolescentes acerca da maternidade e os embaraços que as acometeram. Além dos comentários do filme, Mônica Campos, coordenadora do Cien Minas, nos enviou uma resenha da conversação que aconteceu após a apresentação do filme e dos comentários.


Ainda no tocante à maternidade e à adolescência, entrevistamos Adriana Cintra, coordenadora da ONG Manjedoura que atende gestantes e mães em situação de vulnerabilidade social. É neste encontro com os profissionais desta ONG que aparece a possibilidade de um tempo de compreender, em que cada uma, a seu modo, poderá elaborar as questões e as transformações que a maternidade lhes traz.

Finalizando esta edição de Quereres, trazemos mais curiosidades e notícias sobre o tema da maternidade na coluna "Você sabia?". Clique aqui


Lembramos que as inscrições estão abertas e podem ser parceladas em até 3 vezes!

Convidamos os colegas que queiram contribuir com o boletim Quereres que enviem seus textos, entrevistas ou reportagens para o e-mail miguelfigueiredoantunes@gmail.com

Desejamos a todos uma excelente leitura!

Miguel Antunes
Coordenador do Boletim Quereres



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II Seminário Preparatório




Neste segundo seminário preparatório para nossas jornadas pudemos avançar em nossa discussão que foi iniciada com uma visão histórica sobre a maternidade e a leitura de Freud a esse respeito. Agora a questão que nos orientou foi aquela levantada por Miller de interrogar se a criança seria a via mais autêntica da feminilidade.

Ana Lydia Santiago tomou como referência de sua fala o texto de Lacan “Os complexos familiares na formação do indivíduo”, datado de 1938, para pinçar ali uma concepção sobre a maternidade e pensar a atualidade dela. Esse desafio parece ainda mais difícil quando consideramos que nesse momento Lacan ainda não contava com conceitos que ele forjou ao longo de seu ensino, tais como o falo, o objeto a, o inconsciente estruturado como linguagem, o gozo, e que são fundamentais para pensarmos a relação de uma mulher com a maternidade.

Se nesse texto a mãe é tomada nas leis da filiação, na estruturação simbólica, Ana Lydia destaca que Lacan situa no complexo de desmame a função da mãe como corte, como separação. Ele também desfia distintas figuras da maternidade associando-as à relação da mãe com sua própria sexualidade e com a castração.

Assim, Lacan nos introduz ao que ele desenvolverá mais tarde: a metáfora infantil é um resultado da metáfora paterna, na qual ele buscou articular Édipo e castração e a operação de separação está no centro dessa construção.

Esses conceitos que virão mais tarde no ensino de Lacan têm seu ponto de partida nesse texto que diz que a criança é tomada como fruto dos complexos familiares e deverá atravessar passagens em sua constituição que não são da ordem do desenvolvimento, mas efeitos de sua relação com a falta materna e a lei paterna.

Se inicialmente Lacan toma a criança articulada ao falo, posteriormente, em “Nota sobre a criança”, ele poderá avançar em suas formulações e articular a maternidade ao feminino. Desse percurso podemos deduzir que a clínica da mãe é a clínica da perversão feminina e a criança, para além da posição de fetiche do falo, pode vir a realizar a posição de objeto na fantasia materna.

O que se abre é a possibilidade de leitura da clínica da maternidade para além da leitura de Freud de que o filho seria fruto do desejo de pênis numa mulher. Agora Lacan vai articular o filho à posição de tampão do gozo não-todo fálico da mulher. Se a criança pode fazer borda, localizar algo desse gozo feminino, ela também está sujeita aos excessos desse mesmo gozo sob a face da devastação e do deslumbramento.

Sérgio Laia também buscou extrair do texto de Eurípedes, Medéia, um ensino sobre a atualidade da pergunta de o que quer a mãe hoje. Sérgio trouxe uma leitura cuidadosa em que buscou situá-lo no contexto grego e traçar as características subjetivas dessa protagonista desmesurada de uma “tragédia de vingança”.

Assim, ele avança na pergunta sobre a maternidade a partir da falta de medida fálica para uma mulher. Tal como Lacan disse em Televisão, as mulheres são não-todas loucas e não têm limites às concessões que são capazes de fazer a um homem:  “de seu corpo, de sua alma, de seus bens”.

Sérgio parte da formulação de Miller em seu comentário sobre Medéia, “Medée à mi-dire” que diz que “de um impossível determinado por uma articulação de semblantes, pode-se concluir que existe, que há”. Assim, Miller interroga o que seria uma verdadeira mulher e, dizendo que não se trata da mãe, diz que uma verdadeira mulher é aquela que não tem e que desse não ter faz alguma coisa. Daí todas as afinidades que ela tem com o semblante.

Se a mulher não existe, Lacan diz que existe a verdadeira mulher. A partir do comentário de Sérgio Laia pudemos pensar nas formulações de Lacan que toma Medéia como uma verdadeira mulher e introduz a partir desse ponto de existência a discussão da clínica do ser mulher, do tornar-se mãe, da mulher fálica, das mães e da mulher com postiço.

É a via da criança, para além de sua equivalência ao falo, mas na posição de poder realizar o objeto na fantasia materna que abre a via para nossa discussão sobre os sintomas contemporâneos da maternidade.

Cristina Drummond

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Maternidade: bastardia e salvação

Lilany Pacheco

“Eu vim através de um estupro. Então ela (a mãe) acha que eu tenho que carregar a culpa disso”. Os avós maternos lhe criaram desde pequena. “Minha avó era muito rígida, mas me cuidava bem.” Foi casada por 18 anos e teve três filhos que estão, hoje, com 16, 9, e 5 anos, respectivamente.

“A mãe nunca demonstrou afeto”. Quando ficou adulta, a avó contou que sua mãe tentou matá-la três vezes, “sufocada com remédios”, quando ainda era um bebê. “No momento em que mais precisei dela, ela me abandonou. Minha mãe não gosta de mim, porque meu pai a estuprou, ela me chama de filha bastarda". A mãe tem tentado se aproximar dela e de outros familiares. Acredita que a mãe está doente, provavelmente com câncer, pois ela consultou (um médico) e não quer contar para ninguém o que está acontecendo. “Amor de mãe nunca tive, agora ela tem mostrado mais carinho, mas não é amor de mãe”. Talvez, neste ponto, tendo em vista o tema de nossas jornadas, pudéssemos interrogar: o que é amor de mãe?

A avó criou-a até o momento em que engravidou, por volta dos 15/16 anos, quando expulsou a menina de casa. Ela passou duas noites no sereno. A avó rejeitou-a e disse que ela foi estuprada, reincidindo aqui o mito familiar de que é através de um estupro que uma gravidez acontece, excluindo-se, portanto, o desejo de uma mulher por um homem. A avó procurou o Conselho Tutelar e sua guarda foi dada para a mãe do rapaz e eles passaram a morar juntos na casa da sogra.

Ela e o companheiro brigavam muito com agressões mútuas. Ele batia nela muitas vezes. O primeiro filho do casal nasceu prematuro, aos 6 meses. Ela ficava nervosa, descontava tudo em seu filho e batia muito nele. “Eu era fora do meu inconsciente” - “eu não me importava com nada”.

Agride os filhos sem motivo e depois sente culpa. Relata crises frequentes de descontrole. Pensamentos a invadem, impulsos de agressão, mas se contém e imediatamente sente culpa. Teme que em seu descontrole faça uma loucura, se arrepende de seus atos, mas não se vê em condições de controlar-se sozinha. Sente impulsos de atacar a mãe quando ela lhe cobra que trabalhe. Sente-se muito oprimida - “se eu não estourar, eu passo mal”.

Enfiou a mão no vidro, se cortou e agrediu o marido com uma barra de ferro. Quebrou um rádio em sua própria cabeça após uma briga com o companheiro. Brigou com a irmã e a machucou muito, mas não se lembrava – “fiquei completamente fora de si”. Tomou remédios, pensou em se jogar na frente dos carros e chegou a ser encaminhada ao pronto-socorro devido à intoxicação exógena por medicamentos. Após a morte da avó, a mãe a maltratou demais. Gosta do pai de seus filhos, mas se separou dele por causa da sogra.

O convívio com a mãe é difícil, qualquer briga entre elas faz com ela se remeta à rejeição e por qualquer motivo pensa em morrer.  Ela dizia ter vontade de matar o marido, a si própria e aos filhos.

Sua avó faleceu quando tinha 23 anos e, logo em seguida, nasceu sua segunda filha. Iniciou tratamento neste momento. “Tive depressão". Aos 27 anos teve seu terceiro filho. Relata que o pai rejeitou a criança por duvidar da sua paternidade. No ano passado, o filho teve uma crise em que chorava muito, gritava, e ela pediu para tirarem-no de perto dela por não suportar vê-lo daquela forma. Desde que o filho teve uma crise mais grave, ela afirma ter decidido que não tentaria mais auto-extermínio. Após esta crise, passou a pensar nos filhos. "Eu só pensava em mim, nos meus problemas”. Quer morrer, mas não vai se matar por causa do filho. Quer ser mãe para seu filhos e se esforça para exercer essa função.

O caso traz à tona algumas questões: ter um filho torna uma mulher mãe? O que é ser mãe? Será que podemos pensar que ela encontra a maternidade, na proximidade de perder realmente o filho, como uma ancoragem para o seu ser, dando, portanto, um tratamento ao gozo ilimitado que a devasta?

Atendendo ao pedido do filho mais velho, ela fez mega-hair e pintou os cabelos esboçando-se aí, talvez, a divisão mãe/mulher. Poderíamos dizer que quando o Nome-do-Pai não produz essa divisão, o filho o faz?

Este caso transmite que algo da maternidade se torna possível pela transferência, rompendo com a repetição de um gozo mortífero, uma extração do mal, da maldição que ronda a maternidade, dentro da perspectiva deste mito familiar.

O percurso da filha “bastarda” à “maternidade que salva a vida” foi feito sob transferência e é testemunhado pelos vários que acolhem a ela e seus filhos mais novos em tratamento na rede de saúde mental de nossa cidade.


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Comentário do filme "17 Filles"

Cristina Drummond

Somos avisados de que a história que vamos assistir é baseada em fatos reais (que ocorreram em 2008, nos Estados Unidos, na Gloucester High School). O fato de o filme ser contextualizado na França nos indica que a questão que ele quer levantar não é local, e sim está presente por todos os lados em nossa contemporaneidade. Sabemos que a adolescência é o tempo em que o sujeito busca se separar de seu Outro e isso implica em que ele encontre novas respostas e que seu corpo seja colocado em questão de uma nova maneira. Se podemos tomar essa afirmação como um universal, como ele é tratado interrogado a partir de um acontecimento?

O filme se inicia com uma exibição dos corpos de várias adolescentes que estão indo para uma avaliação médica de rotina na escola. Tatuagens, corpos magros, risos, brincadeiras. Esse clima de rotina, no qual se pesa e se mede o corpo, é quebrado com a declaração de uma jovem à enfermeira, de que ela pensa estar grávida.

Dentro de sua mochila, um teste de gravidez e o gadget preferido pelas adolescentes: celular com fone para ouvir música. Na aula de educação física ela e as amigas se escondem no meio da corrida para enrolar a professora e fumar. Atitude típica e comum por todas as escolas do mundo. Nesse momento, ela conta da gravidez às amigas que tomam o fato como um desastre e pensam que ela deve abortar para não ficar gorda e ter que deixar a escola, nem tampouco ficar presa com uma criança e um trabalho de merda. Ela ainda não contou nada à mãe porque quer decidir sozinha. Ela diz às amigas que se sente diferente e que elas não podem saber nada do que ela experimenta.

Neste momento ela já se apresenta como aquela que sabe algo que as outras não sabem. É dessa posição que vamos acompanhar essa adolescente. Ela se coloca como uma exceção que tem acesso a um saber que as outras não têm.

Quanto ao pai da criança, ela diz que isso não tem nenhuma importância e que tudo foi um acidente de uma noite em que a camisinha rompeu. As amigas dizem que continuarão inseparáveis e ficarão ao lado dela. Aqui também a jovem se coloca como aquela que quer dar conta de sua experiência sozinha, dispensando a opinião da mãe, das amigas e do pai da criança. Ela busca se afirmar como responsável por seu ato.

A jovem vive num prédio popular, cozinha e come sozinha, já que o irmão não aparece e a mãe tem que ir trabalhar. É uma rápida visão da vida familiar. Não há pai, não se sabe o que aconteceu, e a mãe funciona como arrimo de família e se ocupa em sustentar a casa, sem tempo para cuidar de mais do que isso. Com as amigas ela come no refeitório e elas excluem uma colega da mesa. Essa colega tem nome: Florence, porque até agora todas as demais que formam um grupo de cinco, não são sujeitos nomeados nem separados.  Fala dos enjoos com a comida que vão passar depois dos 3 meses e as amigas compreendem que ela vai dar sequencia à gravidez. Sua intenção é continuar na escola e ter uma vida que valha por duas: uma com o bebê e outra na escola, uma contabilidade que indica um plus de vida. Ela terá alguém que a amará por toda a sua vida. Ao mesmo tempo em que ela discute isso com as amigas, ela quer convencê-las, como também a si mesma, de que esse acaso é uma escolha por uma vida mais interessante e melhor.

O nome da jovem aparece na boca de Florence quando a enfermeira lhe diz que terá menstruação durante muitos anos, a menos que resolva ter dez filhos. Ela pergunta-lhe se Camille Fourrier está grávida. A notícia se espalha pela escola e Florence, que era rejeitada pelas colegas, buscando ser aceita no grupo, diz a Camille que também está grávida.

Ao conversar com sua mãe, esta fica furiosa com a notícia e julga a filha incapaz de cuidar de sua própria vida e até mesmo de seus peixinhos. Camille diz que se sente capaz de cuidar de um filho melhor do que a mãe. A mãe diz que teve que deixá-la sozinha porque tinha que trabalhar para sustentar os filhos e que ela havia crescido apesar de tudo. A mãe diz que ela pensa que é esperta, mas que ela é na verdade uma idiota e que desta maneira ela vai ter que deixar a escola. Camille diz que tem certeza de que não vai falar dessa maneira com seu filho, que vai cuidar dele e não o deixará sozinho. Ela supõe que vai ser uma mãe diferente da que teve e que desta maneira poderá ter uma família. A mãe diz que não quer se ocupar dessa criança, que quer viver. Camille diz que ela também quer viver, mas que essa é a última das preocupações da mãe.

Nesse sentido essas jovens nos apresentam as novas manifestações da impossibilidade do encontro entre os sexos, são falasseres que se defrontam com o furo do real, furo que deixa o Um sem o Outro. O modo de gozar na atualidade encontra seu fundamento na impossibilidade de escrever a relação sexual entre os seres que não se ligam pelo laço pai-mãe, mas apenas pela linguagem e pela fala. A ausência de relação sexual se apresenta, mais do que nunca, sem as vestimentas do pai e das exigências familiares.

A fala de Camille nos permite pensar que ter um filho se apresenta para ela como uma chance de ter uma família construída num molde distinto dos tradicionais e ao cuidar do bebê, cuidar de si mesma, ter uma vida separada do abandono que sente. O bebê vem como um objeto que supriria sua falta e resolveria as consequências de sua experiência de abandono e devastação. Entretanto, é interessante percebermos que esse bebê não se inscreve numa solução edípica, ele não é tomado como a metáfora do falo que poderia ser dado pelo pai, tal como Freud nos propõe. Ele é imaginado como um objeto que permitiria a ruptura da relação mãe-filha, sem uma mediação fálica.

Florence se oferece para ser a parceira de Camille no cuidado com as crianças e Camille aceita sua aproximação e que ela lhe pague uma coca-cola. As relações podem ser inscritas num mercantilismo ainda que de custo baixo.

Camille ainda não contou ao irmão e diante dessa questão de ter que enfrentar os representantes do sexo masculino, ela propõe às amigas de ficarem grávidas juntas. “Vamos ser livres, felizes, responsáveis”. Desta maneira elas permanecerão sempre juntas. Ela, na posição de exceção poderia fundar o grupo das novas mulheres, numa espécie de sociedade protetora do falo feminino.

Todas decidem que vão tentar engravidar numa festa. Ali Camille encontra o pai da criança. Quando ele lhe pergunta se ele tinha alguma coisa a ver com sua gravidez, ela responde que não. Sua tentativa é a de inscrever esse filho apenas no campo do feminino, uma decisão que dispensa a mãe e o pai, a repartição sexual. Quando a amiga pergunta se pode transar com ele, Camille responde que isso não tem nenhuma importância para ela, o que importa é que a amiga o faça. O mais importante para ela é que seu lugar de exceção, de A Mulher, seja reconhecido e sustentado pelas amigas. É essa a mascarada histérica que ela pretende bancar. A maternidade não se apresenta como uma consequência da contingencia do encontro amoroso, nem como um tratamento para o gozo feminino.

Na reunião dos professores, eles comentam o fato de várias alunas estarem engravidando. Um diz que isso é uma atitude típica das adolescentes que buscam se apropriar de seus corpos. Umas se tatuam, outras se mutilam, outras param de comer. Essa seria uma atitude de desafiar os pais que não concordam com essa decisão. Se esse ponto de vista tem seu fundamento de verdade, a adolescência realmente é um tempo no qual o falasser busca se relacionar de uma nova maneira de seu corpo, isso está longe de ser uma pura relação de apropriação. Se encontramos com frequência nesse momento da vida a presença de cortes, de automutilações ou de distúrbios alimentares, esses sintomas são índices de uma dificuldade e de uma angústia de difícil tratamento.

Perante a lei os pais não podem forçar as filhas a abortar e essa é uma situação em que as adolescentes são tomadas como responsáveis juridicamente.

Uma professora diz que é um progresso que as jovens possam dispor de seus corpos. Outra diz que isso é um passo para trás, já que essas adolescentes só terão como perspectiva de vida futura serem mães. Outro professor diz que é preciso compreender politicamente o gesto das adolescentes. Alguns querem convencer as adolescentes a tomar pílula e a enfermeira diz que elas estão muito certas do que estão fazendo. A pergunta é de se aos 16-17 anos podemos fazer uma escolha de tal ordem, se se é capaz de fazer uma escolha.

Essa é uma pergunta de difícil resposta, mas que deve ser colocada em cada caso particular, pois não há como responder pela condição de cada falasser poder se responsabilizar por seu ato. Na situação do filme é difícil determinar se o que cada uma delas escolhe é verdadeiramente ser mãe.

As adolescentes verificam o dinheiro que podem receber do governo e pensam que com ele elas podem se organizar e, sobretudo, ficarem livres das ordens maternas. O projeto é o de serem diferentes de suas próprias mães, já que por serem jovens serão mais próximas dos filhos. Não haverá choque de gerações e elas serão como irmãs dos filhos, uma grande família. Uma comunidade só de mulheres com seus filhos, ou ainda uma comunidade de irmãos.

De qualquer maneira, o saber dos professores parece insuficiente para orientá-los a intervir e a se posicionar na situação. O diretor passa um filme onde uma mulher está tendo um filho de parto natural e os alunos riem de certa maneira constrangidos. Podemos pensar que ele buscava mostrar a realidade da situação que elas teriam que enfrentar, mas o faz de maneira pouco clara como se ter um filho, ser mãe, fosse passar por um parto. Além disso, em nenhum momento a palavra é dada às autoras da decisão. As jovens, sem chance de fala, entendem que o que o diretor quer é assustá-las. A posição da escola é muito mais a de querer coibir a ação das adolescentes do que a de promover uma oportunidade de discutir o que se passa com elas, se perguntar sobre o que estaria em questão naquela situação, no lugar de incluir o que estava se passando num saber já pronto. Quanto às adolescentes, elas não sabem como usar um teste de gravidez e nem muito bem o que terão que enfrentar. Só sabem que juntarão suas moedas e que seguirão em frente em sua decisão. E que o saber oferecido pela escola não lhes serve para tratar do que acontece com elas.

Uma das adolescentes, que não consegue encontrar um parceiro, porque é mais jovem que as outras, oferece dinheiro para um colega e este aceita. Novamente o fato se inscreve de modo mercantilista, o que parece reduzir a situação a uma situação de compra. Nesse comércio, ninguém precisa saber exatamente o que compra nem o que vende e as personagens não têm ainda nome.

Camille faz um ultrassom e pode ver o bebê mexendo em seu ventre. Ela não quis saber o sexo da criança e essa visão é diferente do que ela e as amigas podem ver no livro. Ela conta à enfermeira que anteriormente ela não podia imaginar o bebê e no ultrassom foi esquisito porque ela o viu, e agora ela está morrendo de medo. Aqui podemos claramente ver como o discurso da ciência que antecipa as imagens da criança pode perturbar a estabilidade da jovem angustiando-a ao apresentar o bebê como um corpo real. Essa imagem tem um efeito muito diferente daquele provocado pelas imagens do filme projetado pelo diretor. A imagem do ultrassom concerne ao corpo de Camille, e lhe apresenta algo vivo e real de que ela ainda não tinha querido saber e que a angustia. A enfermeira diz que não tem outro jeito senão seguir em frente.

Na comemoração de natal a mãe não a deixa beber e ela tem que contar ao irmão que está grávida. Ele pergunta brincando se eles terão um soldado ou uma desempregada, isto é, se a criança será como eles. O irmão oferece seu quarto para o bebê, mas a mãe diz que Camille tem a intenção de ir para um pequeno apartamento e isso será melhor para todos. Não fica muito claro de quem é a decisão, já que nada é muito discutido. O irmão lhe dá de presente um urso do Afeganistão onde ele luta na guerra e a mãe lhe dá um curso de direção. O irmão e a mãe lhe ensinam um pouco a dirigir para que ela não tenha que pagar tantas aulas. Dirigir um carro não a habilita a dirigir sua vida, ainda que pareça que irmão e mãe reconhecem que ela já pode dar um passo.

Os pais de Clementine, a jovem que paga para engravidar, estão furiosos com ela que ainda é muito jovem e infantil. O pai lhe diz que ela é influenciada por Camille e lhe pergunta se elas querem mudar o mundo. Clementine diz que quer tentar e que não quer ficar como seus pais, idiotas. O pai diz que não vai tolerar aquilo e que vai levá-la ao hospital para que ela faça um aborto, mas ela responde que a lei está do seu lado. E ela foge de casa. Ela quer ficar com Camille. Apesar de Clementine ser uma adolescente que conta com um casal de pais, seu pai se apresenta impositivo e sem nenhuma condição para orientá-la ou fazê-la refletir a respeito da gravidade de sua decisão. Ele quer decidir por ela como se ela ainda fosse uma criança, coisa que ela recusa.

A ideia das meninas é que seus pais, assim como o diretor da escola, querem lhes causar medo, para que elas continuem na mesma vida de merda deles. Esse medo provocado seria apenas o reflexo do medo que eles próprios teriam de mudar de vida. No lugar de se intimidarem, elas querem demonstrar que podem sustentar sua decisão e resolvem encontrar um lugar para ficarem juntas e decidirem sobre suas vidas. E invadem uma casa abandonada na praia. Clementine gosta de ver seus pais preocupados com ela, mas Camille diz que elas têm que se virar sozinhas, dispensar os pais.

O ultrassom de uma das meninas parece apresentar alguma alteração. Isso ameaça a todas, uma pequena diferença que, além disso, é mais um problema a ser encarado por um grupo tão imaturo e que enfrenta tão mal o desigual. Aqui o medo é real e sua causa não pode ser imputada a um adulto ignorante e de mal com a vida. É no corpo de uma delas que as coisas acontecem.

Clementine, com medo de enfrentar uma chuva de vento naquela casa precária, chama seus pais. Quando chega ali, Camille vê que a casa está abandonada e sai de carro com o irmão. Esse lhe diz que isso era só o começo do que iria acontecer, que elas não iriam conseguir manter o projeto de criarem seus filhos juntas. Ele lhe diz que o projeto dele também era o de sair daquela vida e que se viu atirando em pessoas que não haviam feito nada contra ele. E que ele se encontrou sozinho, sem ninguém para ajudá-lo.

O que o irmão de Camille aponta é a solidão dos uns que de alguma maneira está na base dessa solução sintomática de uma gravidez em grupo. Apesar de elas buscarem uma solução comum, temos no fundo uma solução que indica a pluralização dos sintomas que concernem à maternidade na contemporaneidade, e a consequência do fato de que a existência, que anteriormente era sustentada pela função paterna, se deslocar da exceção para as múltiplas soluções. Os sintomas da maternidade são múltiplos. A existência se encontra para além dos ideais e dos modelos de família preconizados como adequados e bem orientados para a procriação. É como se não havendo a exceção paterna, todas as existências se apresentassem como exceções. O Um se apresenta como o cada um sozinho.

Por isso o irmão de Camille é descrente na possibilidade de mudança, o que ele encontrou foi decepção e solidão.

Também assistimos atualmente às tentativas do direito de construir novas ficções jurídicas que busquem dar lugar a essas existências na lei, a essas soluções particulares que não se universalizam. O fato de essas adolescentes serem responsáveis juridicamente por suas decisões e contarem com o amparo financeiro do Estado, não garante que elas possam se responsabilizar por sua decisão.

Na televisão um jornalista interroga se o fato de 14 adolescentes estarem grávidas seria a consequência de uma crise econômica, do fato de a atividade pesqueira e industrial terem entrado em crise na cidade. É uma leitura que diz que essa decisão não está separada da falta de ideais e perspectiva de vida nos tempos atuais. A falta de oportunidades é também o que aparece no caminho que o irmão de Camille encontra ainda tão jovem e brincando de Amelie Poulin no meio de uma guerra fervilhante de mortes.

O diretor convoca os pais para falarem do assunto e diz que agora são 15 adolescentes grávidas. Diante da acusação de um pai de que ele é responsável, o diretor diz que ele não é responsável pela vida privada dessas alunas, em todo caso não mais que os pais. O fato de ele não ser responsável pela vida privada das meninas, e de não ser o pai delas, não o isenta da responsabilidade de tratar dessa situação. A enfermeira diz que quer instalar uma máquina de preservativos na escola, mas que o uso de pílula é de responsabilidade dos pais. O diretor quer que os professores aumentem o controle e obriguem os alunos a trabalhar. Ele também pretende excluir a jovem que é a cabeça do grupo pensando que isso pode ser uma maneira de provocar medo nas outras. Vemos aqui a dificuldade da escola e dos pais dimensionarem suas responsabilidades e o alcance da tarefa impossível de educar. O que a escola quer é que isso acabe e que o real fique de fora de seus muros.

A enfermeira pergunta a Camille porque ela levou as outras pelo mesmo caminho, se era porque ela se sentia só ou tinha medo. Ela diz que isso não tem importância. Que no início teve medo e que estava feliz por suas amigas. Ela diz que foi apenas a primeira e a enfermeira diz que algumas não vão conseguir sair dessa experiência, Clementine por exemplo. Camille pergunta se os adultos tiveram melhores ideias. A enfermeira que confessa não ter filhos, diz que lhes era oferecida a possibilidade de estudar e viver melhor. Camille diz que há nos adultos uma mentira de não perceber que a vida deles é uma merda. O que ela denuncia é uma repetição da falta de perspectiva e de desejo e um saber que não leva em conta um furo, um saber que tudo sabe e que não dá lugar para a subjetividade e as singularidades. Ela tem certeza de que elas têm que tentar outro caminho. Camille diz que essa conversa com a enfermeira acabou com as dúvidas que ela tinha a respeito de sua decisão.

Com certeza Camille não tinha nenhuma condição de saber a respeito de sua posição de bancar A Mulher, de ser a exceção e a conversa com a enfermeira que não tem filhos a desautoriza, assim como aos outros adultos a estarem na posição de serem modelos para uma identificação. A enfermeira não sabe nada sobre maternidade, já que ela não é mãe. E por ter não vivido isso em seu corpo, ela é desautorizada por Camille. É essa destituição da posição de ideal da enfermeira assim como sua experiência que fazem Camille ter certeza de sua decisão.

Júlia acusa Camille de estar com ciúmes porque Tom está apaixonado por ela. Elas levantam a blusa de Florence e descobrem finalmente que ela mentiu o tempo todo que estava grávida.  Elas vão buscar Clementine para libertá-la. Cantam: viva o chocolate, a heroína e a vodca. Nem há lugar para o amor nem para o sentido. É como se nesse momento a autoridade e a lei estivessem diluídas e ausentes do mundo.

Agora os acontecimentos vão ser desencadeados para mostrar que a solução idealizada não pode ser realizada. Elas vão para a praia onde encontram os rapazes e ali continuam brincando com o fogo. Clementine perde o fôlego e Camille a leva de carro para sua casa. Mas depois Clementine lhe manda uma mensagem dizendo que seus pais não estão em casa e que ela perde sangue. Camille dá meia volta, mas tem um acidente. Ela avisa Clementine e tenta falar com as amigas, em vão. O carro não liga e ela avisa Clementine onde está. A ambulância chega. Camille teve um descolamento de placenta. Tom fica no quarto com ela. Mas não há retorno possível, o que foi decidido arrasta suas consequências.

Essa sequencia de fatos vem nos trazer o real que sempre irrompe ali onde não é esperado. A precariedade das adolescentes se apresenta, mas isso não invalida a decisão que elas tomaram.

Ninguém soube o que aconteceu com Camille depois que ela perdeu o bebê. Ela deixou tanto a cidade como sua mãe. Junto com o bebê ela perdeu seu lugar de exceção e fica impossível para ela permanecer no grupo. Ela continuou a fazer as amigas sonharem com uma outra vida, mas nunca voltou ao colégio. As adolescentes não criaram seus filhos juntos, mas continuaram a frequentar a escola. Tudo foi um sonho da adolescência, fruto de uma energia que ninguém pode conter. Afinal, mudar o que foi herdado é tarefa de difícil execução, sobretudo em tempos tão precários e com tão pouca esperança.

Nenhum happy end e o que encontramos no final também não é nada desastroso. As adolescentes continuam na escola, os bebês são cuidados e pouca coisa muda na vida daquela cidade. Um filme que poderia estar discutindo um fato único, nos mostra que todas as soluções são únicas, são tentativas de dar conta da precariedade do simbólico em nosso mundo. A maternidade é uma aposta, o grupo de mulheres que dispensam o homem é outra mais, o apoio no grupo dos iguais, encarnar a exceção ali onde não há ideal, o bebê como objeto tampão, a exclusão da vida, da escola e do saber, todas essas saídas são efeitos desse impasse dos falasseres encontrarem o como fazer sem o suporte de modelos que os orientem e, sobretudo, sem um lugar para a sua palavra.

Em nosso mundo, o falo se tornou um instrumento particular que serve simplesmente para marcar o fracasso, o ratear da relação. A única possibilidade é a de que as relações se façam pela fala e pela linguagem. Essa é a chance e a aposta da psicanálise.

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Cine Cien
17 Filles


Mônica Campos

Em 18 de março tivemos a primeira atividade do Cien Minas em 2015. O Cine Cien, coordenado por Maria Rita Guimarães, exibiu o filme 17 FILLES, permitindo-nos investigar o tema da Jornada Internacional do Cien, "Crianças Saturadas", que acontecerá no VII Enapol, bem como o da XIX Jornada da EBP-MG, "O Que Quer Uma Mãe Hoje?". A conversa se estabeleceu a partir da pergunta: o que leva dezessete meninas a engravidarem simultaneamente na mesma escola? Isso porque o filme encena o acontecimento em uma instituição de ensino na qual dezessete adolescentes ficam grávidas ao mesmo tempo.

Cristina Drummond inicia seu cuidadoso comentário apontando que há algo de diferente com a protagonista que se coloca como exceção, como um saber. Assim, observamos as novas manifestações diante do impossível encontro dos sexos, que no humano só se liga pela linguagem e pela fala. Camile, em sua adolescência, acredita que ter o bebê a levará a uma vida sem abandono e devastação. Cristina destaca que o filho, como tomado por Camile, está somente no campo feminino, sendo excluído desta cena a mãe e o homem. Teresa Mendonça em sua intervenção lembra que não é a falta de informação ou a condição social que produzem a gravidez na adolescência, já que há toda uma subjetividade a permear tal escolha.

Utilizando a referência de Stevens, observamos que na adolescência o sujeito busca uma resposta sintomática, não necessariamente patológica, para o real que se apresenta, sendo o momento de constituição de um novo sintoma e de reorientação da fantasia. É necessário que na adolescência se restabeleça o sentimento de vida, ou seja, que apesar do que muda em sua imagem corporal, seja possível reconstituí-la. O sintoma é, então, a escolha de um nome, de uma profissão, de um ideal, de uma mulher, de um homem. Assim, indagamos, em nossa conversação, se alguma questão em relação à maternidade ou mesmo ao ato se apresenta para estas garotas. Parece que de imediato não, e mesmo diante da descoberta da falsa gravidez de uma das meninas, o tratamento dado, embora cause um mal estar inicial, é delas brincarem com as penas da falsa barriga. O que significa então, estar ou não grávida? Uma cena indica que alguma angústia, diante desta questão, é vivida quando a protagonista vê a imagem do bebê, no ultrassom. Ao que parece a concretização da imagem faz algo cair, fazendo-a confessar que “antes não podia imaginar”.

A conversação também localiza o tratamento dado pelo social e pela escola e as justificativas que estes tentam construir para o evento das dezessete adolescentes grávidas.  Neste sentido, vemos que a sociedade, incluindo o educandário, buscam respostas nas falhas econômicas e de informação, bem como de efeitos de grupo para tentar padronizar e normatizar o que aparece como furo.  A escola anseia que o real fique fora de seus muros.  Entretanto, podemos extrair que, mesmo sendo um evento coletivo, a pergunta sobre o que levou dezessete meninas a ficarem grávidas ao mesmo tempo, só pode ser respondida no um a um, sendo o um de cada um sozinho.

Mesmo frente à impossibilidade de formarem um conjunto, estas jovens criam um pequeno mito coletivo que serve como um sintoma coletivo, tomando o lugar de ordenador. Forjam, deste modo, um ideal de liberdade, felicidade, responsabilidade, com a formação de uma grande família.

Outro aspecto apontado na conversação é o fato de que contemporaneamente, com a queda dos ideais, o que se propõe aos adolescentes é que entrem no mundo do consumo. Sabemos que o mundo do consumo, dos objetos consumíveis, não permite facilmente restabelecer ideais, mas provoca o desejo de ter os objetos que são valorizados na sociedade, objetos consumíveis. Poderíamos pensar que a série iniciada com a gravidez de Camille seja esta?

O filme nos instigou ainda mais para nos dedicarmos aos temas de trabalho deste ano. Ao mesmo tempo em que revela a antiga questão da identificação e a formação de grupo sintomática entre os adolescentes, a apresenta de um modo muito atual, pois encena o declínio dos ideais e das referências.


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Finalizando esta quinta edição de Quereres convidamos a assistir a entrevista realizada por Miguel Antunes e Michelle Sena com Adriana Cintra, coordenadora da ONG Manjedoura, instituição que atende gestantes e mães em situação de vulnerabilidade social.


domingo, 7 de junho de 2015

Quereres IV

Quereres IV 

Boletim da XIX Jornada da EBP-MG

"O que quer a mãe, hoje? Sintomas contemporâneos da maternidade"

 

Quereres IV está no ar! Iniciamos este Boletim convidando a todos os interessados no tema da jornada a comparecerem no dia 11 de junho na seção Minas da EBP para assistirem à II Noite Preparatória onde será trabalhado o Eixo Temático "Ser mãe e os complexos familiares da atualidade". Nesta ocasião contaremos com as intervenções de Ana Lydia Santiago e Sérgio Laia com a coordenação de Cristina Drummond.

Sérgio Laia nos dá uma prévia do que irá trabalhar: 
"Título: O que MEDÉIA nos ensina sobre as mães de hoje?
Argumento: Tomando como base a tragédia MEDÉIA, escrita por Eurípedes, e algumas versões posteriores, trata-se de discernir por que Lacan pôde considerá-la “a mulher de verdade” e em que ela se aproxima e se diferencia do que o Seminário XX evoca com o termo “a patroa”. Em seguida, procurar-se-á averiguar o que ensina, com relação às mães de hoje, essa personagem, assim como a tragédia que ela encarna."

Assistam também ao vídeo do "Programa Opinião Minas" do canal Rede Minas que teve a participação de Sérgio de Campos, Diretor Geral da EBP-MG e Maria Inácia Freitas, coordenadora da comissão de parcerias onde puderam falar sobre o tema "Ser mãe hoje" além de fazer um panorama sobre a jornada.

Cristiana Pitella de Mattos nos envia sua contribuição. Em seu texto, ela trabalha a partir da pergunta "ter filho torna uma mulher mãe?". Ilustrando com algumas vinhetas clínicas esse tema que toca a subjetividade de cada uma quando se depara com a decisão em lançar mão da ciência.

Leiam também a coluna "Você sabia que?" com histórias e curiosidades sobre a maternidade.
Finalizando esta quarta edição de Quereres, trazemos a bibliografia da Jornada da ECF (École de la Cause Freudienne) "Être Mére" (em francês) localizando em Freud, Lacan, Miller, pós freudianos e colegas da AMP onde o tema da maternidade é trabalhado

Boa leitura!
Miguel Antunes
Coordenador do Boletim Quereres

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Vídeo do "Programa Opinião Minas" do canal Rede Minas que teve a participação de Sérgio de Campos, Diretor Geral da EBP-MG e Maria Inácia Freitas, coordenadora da comissão de parcerias onde puderam falar sobre o tema "Ser mãe hoje" além de fazer um panorama sobre a jornada.


https://www.youtube.com/watch?v=Ab7kDKmwmBk





Assista ao Programa completo Parte 01 e Parte 02

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Mamãe filha da ciência, mãe filha de um desejo

                                                      Cristiana Pittella de Mattos

             


As mulheres alcançaram há muito realizações possíveis para além da procriação, destinos pulsionais e objetos diversos de satisfação. O ato sexual e a fecundação uma vez disjuntos leva a mulher em sua constituição subjetiva a encarar a maternidade como uma escolha, colocando em jogo o desejo: ter filho torna uma mulher mãe?.


Algumas mulheres quando alcançada certa idade sem a realização da maternidade, querem conservar sua fertilidade e procuram o congelamento de óvulos para garantir o não envelhecimento do mesmo e a possibilidade de ser mãe, de ter filho, numa boa hora. Não importa para algumas se estão ou não com um parceiro, para outras é a chance de encontrar um dia algum e formar uma família e, também, a garantia da produção de um filho mesmo que independente.

Temos visto cada vez mais mullheres lançando mão dos recursos da ciência e suas técnicas para ter filhos. Seja pela inseminação artificial seja pela fertilização em vitro, essas técnicas elevaram as possibilidades de procriação. Todo um campo clínico nos é aberto pelas questões subjetivas que se colocam para cada uma quando estão diante da decisão, dos efeitos e consequências do uso dessas técnicas de reprodução.

Outras por motivos diversos de infertilidade, diante a impossibilidade de engravidar, recorrem à procriação medicamente assistida permitido-lhes uma superação da esterilidade. Outras ainda, procuram por uma questão de escolha sexual.

Em alguns casos não se consegue detectar as razões da dificuldade da mulher, ou do casal, para engravidar. Elas trazem a dor das diversas tentativas que geram um sofrimento tanto pelos procedimentos exigidos e executados em seu corpo quanto pela expectativa e espera de poder gerar um filho. Malgrada a promessa, o que sobrevém é sempre contingente. Um tempo é necessário na análise para que um trabalho de elaboração possa daí advir dessas experiências que lhes deixam marcas.

Ter filho hoje nunca foi tão possível e almejado, vemos a criança objeto causa de desejo tornar-se muitas vezes uma mercadoria exigida, um imperativo superegoico, para a constituição de uma família.
O discurso da ciência ao operar uma disjunção entre a sexualidade e a procriação, acaba também por destituir a autoridade e a tradição podendo dispensar os pais das funções de proibição e autorização junto a seus filhos. Lacan mostrou que a modificação que a ciência introduziu no discurso do mestre leva a uma tirania do saber e o discurso do capitalista mostra que o trabalho do saber científico está sempre produzindo objetos mais de gozar. 

Algumas mulheres, mães angustiadas, não sabem o que fazer com seus filhos, sentem-se impotentes, desorientadas e muitas vezes descrentes pois já recorreram a vários manuais, especialistas, objetos e staffs ofertados pelo mercado para cuidarem de seus filhos. Revelam-se mais consumidoras. Verificamos quão difícil é muitas vezes para essas mulheres encarnar o Outro da demanda e interpretar os apelos do filho, ou ainda, dispensar cuidados que portem a marca de um desejo que não seja anônimo. Ora são permissivas demais e se desresponsabilizam ora impera uma exigência autoritária, higienista, sem dar lugar ao desejo e ao gozo.
Um ponto em comum entre elas ao falarem de seus filhos e da dificuldade com eles, é o destaque que dão de que eles foram concebidos por procriação medicamente assistida, ou ainda, como nos apresentou uma delas, seu filho de 7 anos: “meu filho é um bebê de proveta”. O espanto do analista ao escutá-la permitiu-lhe falar desse filho inquieto e agitado que ela não conseguia acolhê-lo de um modo um pouco mais particularizado.
Muitas carregam consigo uma dor comum: sentem-se inferiores enquanto mulher por não ter podido ser mãe “naturalmente”.
Um dos primeiros desafios enquanto analista tem sido aquele de localizar as possibilidades de cada uma - de cada sujeito -, se descolar dos saberes prêt-a-porter , dos nomes petrificantes retirados do encontro com o discurso científico e interpretar o que lhe ocorre e também com seus filhos.
Ao encontrarmos essa possibilidade mostrou-se interessante delimitar como isso ocorreu em alguns casos, com cada mulher, pois, curiosamente, essa abertura para um saber inconsciente tem possibilitado a elas autorizarem-se mais enquanto mãe.
- uma delas vai interrogar o próprio modo como se apresentava “sou uma mamãe filha da ciência”. Ela não conseguia dirigir-se ao filho dando-lhe um lugar de sujeito - sempre achava que ele estava doente e levava-o de medico em medico. Ela vai articular seu desejo de filho à lembrança de ficar quando criança olhando o pai pediatra atender os pacientes em sua casa no interior. Ela remarca o quanto ele era afetivo e conversava com as crianças. Em seguida, enfatiza a importância de sua escolha por um homem - seu marido e pai de seu filho. É um médico renomado que ao conhecê-la disse-lhe que ela seria uma mulher com quem ele queria ter seus filhos. Haveria uma degradação do pai provocada pelo encontro com o discurso da ciência? Vemos que a filiação para a psicanálise não se esgota na concepção, nem no nascimento nem na família… Essa mulher ao conseguir articular seu desejo na rede dos significantes que a constituiram, e de um saber mais singular, pode proximar-se de seu filho e ter não só um outro olhar mas dispensar outros cuidados a ele. O dispositivo analítico parece ter permitido retificar e recuperar a dimensão simbólica do pai, pois ao retomar essa particularidade de sua história, uma filha de um pai médico e não da ciência, e mulher de um homem médico que faz dela mãe de seus filhos, ela pôde se autorizar no lugar de mãe. 
- Outra mulher cuja modalidade familiar é homoafetiva, vai conseguir encontrar um lugar e modificar a relação com seu filho. Ela associa em sua análise o fato de não ter encontrado palavras nem conseguir olhar o proprio pai ao decidir não mais esconder sua escolha sexual, à sua dificuldade em aproximar-se do filho concebido pela parceira com um amigo. Ela verifica que não havia realmente “adotado” seu filho e o “abraçado ainda como mãe”. 
- uma outra procura análise porque gostaria de ter outro filho mas não sabe se conseguirá passar outra vez pelos procedimentos exigidos para uma procriação medicamente assistida. Sua filha tem atualmente 3 anos e “o ideal” é que ela possa ter outro para que a família fique “completa”. Por trabalhar muito fica pouco com sua filha e quando tem tempo fica muito angustiada pois não tem paciência. Queixa-se muito do “marido que não participa”…pois “um pai tem que participar”. O marido que não participa localiza sua insatisfação enquanto mulher… e ela pode ver como a filha brinca com o pai. É essa divisão mãe / mulher que ela pode colocar em sua análise a trabalho e estar mais disponível para a filha.