sábado, 14 de maio de 2016

Boletim #qqpega 04

Boletim da XX Jornada da EBP-MG: Jovens.com: Corpos & Linguagens

Boletim #qqpega 04 está no ar!!!

Começamos esta edição do Boletim #qqpega fazendo um convite a todos os colegas para o II Seminário Preparatório rumo à XX Jornada. Acontecerá no dia 19 de maio, às 20h30, na sede da EBP-MG e contaremos com as intervenções de Ana Lydia Santiago, que nos falará sobre "O Saber do Jovem", e Sérgio de Mattos, que trabalhará a temática do "O Corpo Jovem". A coordenação da mesa ficará a cargo de Elisa Alvarenga.

Aproveitando a atividade preparatória da XX Jornada, lembro-lhes que já poderão se inscrever na XX Jornada. As inscrições poderão ser feitas presencialmente na secretaria da seção Minas da EBP ou por depósito bancário. Para saber mais informações sobre as inscrições, acesse nosso Blog.

Por ocasião do X Congresso da AMP, Maria José Gontijo Salum lançou duas perguntas à colega Tânia Abreu, da EBP-Bahia, sobre o tema da Juventude. A ideia da entrevista partiu da apresentação de Tânia na Jornada Clínica. A conversa rendeu tanto que continua por aqui... Leia a entrevista

Dando continuidade ao tema dos jovens, suas parcerias e invenções, Maria Rita Guimarães envia sua contribuição ao Boletim #qqpega. Uma linda homenagem ao jovem Freud que no dia 06 de maio completaria 160 anos. Trata-se de uma troca de cartas entre Freud e Eduard Silbertein sobre os impasses da juventude e o encontro com o sexual. O texto está logo abaixo deste editorial. Não deixe de ler!

Finalizando o Boletim #qqpega 04, Henri Kaufmanner nos envia a excelente resenha, a partir de sua leitura, do texto, imperdível, de Eric Laurent "Das crises identitárias aos triunfos da religiões" publicado na última Revista Curinga, lançada no X Congresso da AMP. Clique aqui para ler a resenha.

Todas as três contribuições tocam, ao seu modo, a temática da juventude. Se Maria Rita Guimarães resgata a juventude de Freud, Tânia Abreu nos traz contribuições muito atuais à clínica com os jovens, seus gadgets, o desbussolamento e a parceria possível com o analista. Já Eric Laurent faz importantes considerações sobre a escolha dos jovens pela via da religião muçulmana.


Desejo a todos uma boa leitura!

Miguel Antunes
Coordenador do Boletim #qqpega

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“Sturm und Drang” e o jovem Freud
Maria Rita Guimarães

“Efetivamente, a infância era considerada “inocente” , isenta dos intensos desejos sexuais, e se pensava que a luta contra o demônio “sensualidade” se iniciaria apenas com o “Sturm und Drang” da puberdade”, diz Freud em 1925, em Um estudo autobiográfico. [1] Se a expressão “Sturm und Drang” em nossos dias pode nos colocar “numa variante contemporânea da representação romântica do processo de formação do jovem”[2], podemos reencontrá-la em Freud,- 50 anos antes do texto citado,- como parte de sua biografia. Sturm und Drang, expressão traduzida como Tempestade e Impulso[3], refere-se ao movimento literário da segunda metade do século XVIII, de curta duração, que teve como seus ilustres representantes Goethe e Schiller. Preconizava o valor da subjetividade individual assim como as emoções e seus excessos. Alguns estudos asseguram que Freud se serviu desse período literário e musical (Wagner foi um de seus nomes) como fonte para alguns conceitos que formalizou na psicanálise. Sem dúvida, há o “lugar relevante que Drang ocupa, considerada por Freud o elemento que está no âmago da pulsão, é sua própria essência. Ademais, na tradição cultural, Drang ocupa um importante lugar, basta lembrar o Sturm und Drang do Pré-Romantismo alemão.”[4] 
Exatamente na carta 41, de 7 de março de 1875, endereçada a Eduard Silbertein,[5] Freud, com dezoito anos, aconselha o amigo, no que diz respeito “ao assunto amoroso”, a por de lado seu resto de “Sturm und Drang”, após argumentar detalhadamente que __“ é evidente que estás fazendo com ela (a amada, de 16 anos) um ensaio para o papel de amante que, tempos atrás, tencionavas transformar em tragédia”. “Eis a minha opinião sobre toda esta questão”. É, de certo modo, pelo que sabemos através de suas cartas, uma “solução” dada a Eduard, mas o tema, “em tom de sermão”, como diz, vinha se desenvolvendo nas cartas anteriores. Assim, desde os 15 anos, Freud, sob a pele de Don Cipion, vai registrando, _ em código e amor à verdade pactuados entre ele e Eduard, únicos integrantes da secreta Academia Espanhola que fundaram sob inspiração de Cervantes, as exigências da puberdade e os efeitos sintomáticos apresentados em seu atravessamento. 
O primeiro amor, Gisela Fluss, “em vez de me aproximar, dela me afastei.” A inibição, chamada por ele mesmo de “meu absurdo hamletismo”, o impedia “na conversação tida com esta moça meio ingênua e meio instruída, de obter para mim também o prazer e o alívio”. Numa temporada em Freiberg , sua cidade natal, em que se hospedava junto à família da jovem _ que mantinha relações de amizade com seus pais_ , caiu doente, com dores de dentes , desmaios e vômitos, após Gisela viajar para outro destino[6].
Mas estava lá, na adolescência, o recurso à escrita que testemunha seu intenso desejo de saber sobre filosofia, poesia: sua admiração e respeito aos professores, dentre os quais se destacava Brentano. Também a invenção de uma sociedade secreta. O uso de uma língua estrangeira, o código das palavras. Não seria o caso de seguir enumerando, mas, na lista que se fizesse, nada para responder ao enigma feminino. “Se, para mim, a companhia de damas é uma coisa penosa, alegro-me que para ti isso seja tão mais fácil”. Demasiado vitoriano? Adolescente do século XIX? Tempos do Outro, sem dúvida, mas ressalta a nossos olhos como o jovem Freud “inventou seu truque” frente ao pulsional, ao real do Sturm und Drang - tempestade e impulso/pressão/ímpeto. Relâmpagos que tocam e inflamam o corpo púbere em seus desejos inconscientes e fantasias.

Mas, como citamos no início, Freud teoriza em 1925 que o “demônio da sexualidade” já estava lá, na infância. A marca estrutural aí deixada nos tempos do complexo de Édipo, na puberdade se reatualiza frente às mudanças e aos novos confrontos, próprios ao despertar. Tal como Freud, cada um põe algo de singular como resposta a essa etapa de um real orgânico, que é fato generalizável, como sustenta Susana Brignoni[7]. A partir da ilustração trazida por essas cartas da juventude de Freud, poderíamos pensar que as adolescências – no plural porque são tantas, uma a uma - se constituiriam como respostas sob efeitos dos semblantes de uma época, sob envoltório, roupagem atualizada pelos costumes, contrapostas ao invariável da não relação sexual?




[1] Edição  em língua espanhola: Folio Views, base de dados. Tradução minha.
Na edição brasileira : “A infância era encarada como “inocente” e isenta dos intensos desejos do sexo, e não se pensava que a luta contra o demônio da “sensualidade” começasse antes da agitada idade da puberdade”.
FREUD.S. (1925-1924) In; Um estudo autobiográfico, III,vol. XX, Rio de Janeiro,Imago, Edição standard brasileira das obras completas de S. Freud, p.46.

[2] Conforme Cosenza, Domenico: A Iniciação na Adolescência: entre mito e estrutura.Cien Digital 19. http://www.institutopsicanalise-mg.com.br/ciendigital/n19/hifen.html
 Igualmente no Almanaque Online : Jovens.com, n. 16.Acessível em http://almanaquepsicanalise.com.br/#/Home

[3] BOEHLICH,Walter.( org)  As cartas de Sigmund Freud para Eduard Silbertein , 1871-1881.Rio de Janeiro; Imago Ed.,1995. ( Série Analytica) ,p.116.


[4] Acessível em http://www.imagoeditora.com.br/hotsite_freud/imagens/criterios.pdf

[5] Ibid. Obra citada. p.116.

[6] Ibid, Carta 14, Setembro de 1872,p.31.

[7] BRIGNONI,Susana. Pensar las adolescencias. 2012. Barcelona, UOC Ed. p. 40.
 
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