Apresentamos o primeiro número de
Sinapsy, o boletim que irá veicular, ao longo dos próximos meses, todas as
informações relativas à XVIII Jornada da EBP-MG, bem como os textos de
referência, indicações bibliográficas, entrevistas e vídeos relacionados ao
tema de trabalho deste ano: “Psicanálise
e ciência: o real em jogo”.
Em seu primeiro número, Sinapsy
traz o argumento geral da Jornada e os eixos temáticos que irão orientar as
nossas investigações. O leitor encontrará neste número, informações sobre a
apresentação de trabalhos e tomará conhecimento da comissão científica e das demais
comissões organizadoras da Jornada. Desde já, a coordenação da XVIII Jornada da
EBP-MG gostaria de transmitir os seus agradecimentos a todos os colegas que, com
muita determinação, se dispuseram a trabalhar em todas as frentes que envolvem
a organização da Jornada.
A equipe do Sinapsy convida a
todos a acessarem http://jornadaebpmg.blogspot.com/
para se manterem conectados! Boa leitura e novas sinapses a todos!
Yolanda Vilela
Argumento geral da XVIII Jornada da EBP-MG
Frederico Feu de Carvalho
O tema que propomos para a XVIII
Jornada da EBP-MG é um desencadeamento lógico da questão que estivemos
examinando em nossa última Jornada e que teve como título “A política da
psicanálise na era do direito ao gozo”. Referimo-nos ao fato de que o discurso
do mestre contemporâneo pode ser caracterizado como uma conjunção entre o
discurso do capitalista e o discurso da ciência.
É preciso, no entanto, distinguir
discurso da ciência e ciência. Classicamente, a ciência é o que resulta da
pesquisa científica, de suas hipóteses e descobertas, estando submetida à demonstração
e à validação experimental. Por sua vez, o discurso da ciência é um saber
exposto que se acumula nas bibliotecas e que se expande pelo mundo midiático, assumindo
uma pluralidade de semblantes. Especialmente quando se conjuga com o discurso
capitalista, o discurso da ciência pode se apresentar como uma palavra de
mestre, esquecendo-se das peripécias que cercaram o nascimento da ciência, ou
seja, a divisão estrutural entre o saber e a verdade.
Se, no campo da política, discurso
do analista e discurso da ciência com frequência se contrapõem, o mesmo não
acontece quando se trata da ciência pura. Há uma relação histórica entre
psicanálise e ciência da qual Freud e Lacan, cada um ao seu modo, dão
testemunho. Ambos reconhecem que a psicanálise não pode ser considerada uma
ciência, em sentido estrito, pois suas hipóteses não estão sujeitas à
verificação experimental. De fato, o axioma fantasmático, como, por exemplo, o
que Freud isolou como título no texto “Uma criança é espancada”, não é nem
verdadeiro nem falso, não podendo ser verificado experimentalmente. Em outros
termos, o que se diz em uma análise é sempre verdadeiro, correspondendo ao que
Freud chamou de “realidade psíquica”, e sua verificação se dá exclusivamente no
campo da palavra. No entanto, a psicanálise não é sem uma relação com a
ciência, na medida em que o seu estatuto epistêmico sempre depende do que
ocorre no campo da ciência. Para Lacan, a psicanálise só é possível depois do
advento do discurso da ciência moderna, estando, portanto, referida ao sujeito
da ciência, e é esse sujeito que é chamado de volta para casa, no inconsciente.
A ciência é certamente uma ficção
necessária e tem em comum com o discurso do analista o fato de eliminar completamente
de seu discurso aquele que diz “Eu”, como condição de emergência do desejo do
operador. Porém, o desinteresse do cientista, sua suposta neutralidade, é coisa
bem diferente da foraclusão que caracteriza a ciência. O que a ciência exclui
em seu statu nascendi, o objeto a como incidência de gozo, retorna então
no discurso da civilização como empuxo ao mais-de-gozar, instalando a fantasia
no poder.
É por isso que vimos bater à porta
da ciência, não para entrar em sua mansão, mas para retomar uma conversa ao ar
livre, reabrindo a paisagem, segundo as regras de uma conversação que pretende
incluir o objeto a e o sujeito
dividido. À questão “qual o lugar da psicanálise entre as ciências” podemos
acrescentar, então, esta outra, formulada por Lacan: “o que seria uma ciência
que incluísse a psicanálise?”. Em outros termos: quais as condições para uma
conversação entre psicanálise e ciência que considere tanto o real da psicanálise
quanto o real da ciência?
Acreditamos que isso é o que melhor responde
ao espírito de nosso convidado internacional, François Ansermet, que há tempos
tem se dedicado a essa conversação, o que inclui um histórico de publicações,
algumas já traduzidas para o português. Seguiremos, dessa forma, sintonizados
com nossa época, no ano em que promete vir a público o DSM-V.
Fazemos, assim, um convite à
conversação da Escola e ao trabalho de todos, para estarmos atentos ao que se
expõe na mídia, ao que escutamos nos consultórios e nas instituições, de forma
a isolar e testemunhar as incidências do real na experiência analítica e
elaborar os efeitos do discurso da ciência sobre a subjetividade de nossa época.
Buscaremos, a partir de uma ênfase epistêmica, fazer ver que mesmo não sendo
demonstrável segundo os critérios da ciência experimental, a psicanálise dá
mostras de sua eficácia. É o que se poderá verificar pelos testemunhos do
passe, essas verdadeiras jóias de nossas Jornadas, mas também através de nossa
clínica cotidiana, na medida em que “nenhuma práxis, mais do que a análise, é
orientada para o que, no coração da experiência, é o núcleo do real” (J. Lacan,
O Seminário, livro 11, lição do dia
12 de fevereiro de 1964).
Eixos temáticos
1- O real da ciência e o real da
psicanálise
Se a psicanálise só se tornou
possível algum tempo após o advento da ciência moderna é porque Freud soube recolher,
no discurso da histérica, o que não encontrava lugar no discurso da ciência de
sua época. Em outros termos, o real em jogo na experiência analítica é um
efeito da foraclusão operada pelo discurso da ciência. Assim, a partir de casos
e fragmentos clínicos buscaremos, neste eixo, isolar o real em jogo na
experiência analítica e a maneira como a interpretação analítica toca o real. Como
é possível, partindo do real sem lei, que a experiência analítica se mostre
logicamente articulada? Nesse sentido, mesmo não sendo demonstrável segundo
critérios empíricos, a psicanálise revela-se eficaz. Tal eficácia é inseparável
do advento do sujeito como uma resposta ao real em jogo na experiência
analítica. É o que pretendemos demonstrar a partir dos textos que se inscreverem
nesse eixo temático.
2- Os efeitos da ciência sobre o corpo
Podemos dizer que o corpo se
constituiu gradativamente como objeto da ciência, sendo concebido ora como
natureza, ora como máquina, até tornar-se objeto de intervenções que vão além
de uma finalidade terapêutica. A psicanálise não poderia ficar alheia ao debate
contemporâneo sobre os limites e os efeitos dessas intervenções sobre o corpo,
especialmente quando elas visam a um “empuxo ao gozo”. Como o sem-limite do
gozo se articula às intervenções sobre o corpo? Em que medida as intervenções
sobre o corpo ou as manipulações da engenharia genética podem ajudar ou
dificultar a difícil co-habitação entre o sujeito e o seu corpo? Trata-se, neste
eixo, de isolar clinicamente elementos que nos permitam pensar a articulação
entre o corpo-objeto da ciência e o corpo libidinal, na medida em que esse
corpo libidinal é também um corpo submetido à castração e, como tal,
sintomático. Em outras palavras, como o discurso da ciência se articula aos
modos de gozo na contemporaneidade?
3- O saber da criança e o saber da ciência
Como
em nenhuma outra época, a criança é objeto de um saber. Vários são os discursos
que buscam regular, orientar e disciplinar a criança. Vários são os discursos
que atravessam hoje as escolas como esteios de performances cada vez mais imperativas. Nesse contexto, se esquece frequentemente
que cada criança é um sujeito e que, embora muitas vezes silenciada por esses
saberes, ela é capaz de interpretar e expressar seus pensamentos e desejos.
Este eixo pretende privilegiar como o saber da criança se confronta e
interpela, por sua vez, os saberes sobre ela, saberes muitas vezes autorizados
pela linguagem das ciências e que, ao desconhecerem o sujeito na criança,
tendem a produzir, pela via da exigência de performances,
cada vez mais debilidade.
4- Ciência e delírio
Jamais saberemos onde situar o
limite entre a ciência e o delírio. O debate entre as ciências e as falsas
ciências é uma pequena mostra dessa dificuldade. Tudo pode vir a ser objeto de
um discurso científico, desde que se atribua ao objeto em questão um modo
qualquer de quantificação. A ciência se presta, assim, ao delírio, seja do lado
das neuroses, seja do lado das psicoses. Por outro lado, a prova de rigor da
qual se tornam capazes alguns psicóticos parece habilitá-los ao trabalho
científico. Em todo caso, psicótico ou não, o cientista se vê muitas vezes confrontado
com a angústia de uma experiência no limite entre o simbólico e o real, uma vez
que o avanço da ciência implica, algumas vezes, o franqueamento dos discursos
estabelecidos. Neste eixo, visamos recolher relatos e fragmentos clínicos que
possam testemunhar as articulações possíveis entre ciência e delírio e entre
discurso da ciência e invenção psicótica. Cabe ainda indagar como o sujeito
psicótico aprendeu a lidar e a se defender do real em jogo em sua vida de
sujeito.
Informações sobre a apresentação de trabalhos
Envio de textos: de 01 a 16 de agosto de 2013.
Responsável pelo recebimento:
Frederico Feu de Carvalho.
Os trabalhos devem ser enviados, simultaneamente, para os seguintes e-mails:
fredericofeu@uol.com.br
jornadaebpmg@gmail.com
Seleção e formato: A seleção
de trabalhos será realizada pela comissão científica da XVIII Jornada da
EBP-MG. Os textos devem ser enviados como anexo em formato Word , fonte Times
New Roman, tamanho 12, com clara referência ao eixo-temático ao qual o
trabalho se refere e identificando, no campo assunto, “Trabalho para a XVIII Jornada”.
Recomenda-se que os trabalhos possam enfatizar o real em jogo na experiência
analítica, isolando casos ou fragmentos clínicos. Lembramos que os trabalhos
deverão se limitar a 7000 caracteres incluindo espaços e notas.
Comissões da XVIII Jornada da EBP-MG
Comissão científica
Antônio Teixeira, Cristina Vidigal, Frederico Feu (coordenador), Henri Kaufmanner , Márcia Rosa, Sérgio de Campos,
Sérgio de Castro, Sérgio de Mattos, Suzana Barroso e Ram Mandil.
Comissão de infraestrutura
Elizabeth Medeiros, Cleyton Andrade, Marco Túlio Pellegrini, Margarete
Miranda, Mariana Vidigal, Maria Wilma Faria, Rachel Botrel (coordenadora) e
Renata Mendonça.
Comissão de parcerias
Ana Elisa Maciel, Adriane Barroso, Graciela Bessa, Joanna Ladeira, Lilany
Pacheco, Luciana Silviano Brandão (coordenadora) e Miguel Antunes.
Comissão de divulgação
Livraria
Débora Matoso, Júlia Machado, Letícia Soares, Luciana Silviano Brandão
(coordenadora) Marisa Vitta, Mônica Campos Silva (coordenadora) e Virgínia
Carvalho.
Boletim Sinapsy
Elizabeth Medeiros, Ernesto Anzalone, Marcela Brandão,
Márcia Mezêncio, Miguel Antunes e Yolanda Vilela (coordenadora).
Tesouraria
Ercília Gama, Helenice Saldanha de Castro (coordenadora) e Letícia
Soares.
