Giulia Puntel
Heresia*
Maria Josefina Sota Fuentes[1]
Nas
notas dos Anexos do Seminário 23, J.-A.
Miller alude[2]
ao emprego que Lacan faz da palavra latina haeresis
logo na primeira lição do seu Seminário. Ali, Lacan menciona que Joyce, assim como
ele próprio, fizeram uma escolha e por isto são “heréticos de uma boa maneira”[3].
O termo em latim que se traduz em
francês por héresie é homofônico à
pronúncia francesa das letras RSI,
evocando a marca central do ensino de Lacan: a invenção dos três registros, Real,
Simbólico e Imaginário, título do Seminário
22. Neste Lacan explora distintos modos de sustentação da estrutura da realidade
humana, isto é, de mantê-los enlaçados. Elucida, por fim, que a amarração dita “normal”,
ortodoxa, baseada na crença do Nome-do-Pai, não é senão um regime particular do
que chamou de sinthoma, ao tomar não
mais a neurose, mas a via de Joyce, o herético por excelência na história da
literatura, como paradigmática. Marca da mudança no próprio ensino de Lacan,
uma vez que não há a priori a medida
da normalidade que manteria os três registros heterogêneos enlaçados, mas o
modo sinthomático de enodamento.
A haeresis
indica a ação de fazer uma escolha que, para a psicanálise, consiste naquela
que leva em conta a singularidade do sinthoma
desnudado em seu real e em sua estrutura, sem sacrificar o gozo sem-sentido. Justamente,
prescindir do gozo ligado ao sentido compartilhado é façanha de Joyce que não
se defende do real que lhe concerne, elevando-o ao estatuto de obra de arte.
Lacan, herético da boa maneira,
escolhe a via ética que convém na psicanálise para tomar a verdade. Com Joyce, Lacan
estende o uso lógico que este artista dá ao seu sinthoma, problematizando o gozo da decifração do sintoma por meio
do sentido que a ortodoxia freudiana exigiria. Ao contrário, via herética do sinthoma abre menos a perspectiva de
encontrar a verdade revelada como saber inconsciente recalcado, mas a do saber-fazer com o Real sem lei nem
sentido, avesso aos ideais adaptacionistas, que resta aquém da doutrina de um Simbólico
capaz de domesticar o Real do gozo.
A noção do sinthoma implica a primazia do Real que não se confunde com o
sintoma como retorno do recalcado. Os restos sintomáticos revelam a natureza do
gozo irredutível como puro acontecimento de corpo resistente ao sentido. Miller[4]
comenta que é justamente a esse gozo sinthomático
que a heresia lacaniana visa, contrapondo-se à análise ortodoxa que responde ao
enigma da sexualidade com a verdade que elucidaria a chave do mistério.
Foi preciso avançar sobre a noção de
sinthoma para que Lacan se
considerasse ele mesmo herético. Antes, quando acusado de heresia, dizia-se
freudiano. Engajado no retorno a Freud,
insistiu inúmeras vezes em revelar os desvios dos pós-freudianos deslumbrados com
o inconsciente como lugar das divindades da noite. Mas, de certo modo, Lacan
sempre foi herético. Laurent recorda
que ele não hesitava em chocar as opiniões estabelecidas da ortodoxia
psicanalítica, varrendo os standarts
da prática e da formação do analista, como o “sacrossanto tempo das sessões”[5].
Não por capricho, mas fidelidade à lógica da experiência psicanalítica.
Mas, ademais, a conotação religiosa
do termo heresia é luminosa a
propósito da maneira como Lacan interpreta os desvios da psicanálise, quando
esta se aproxima do discurso religioso. Assim se diz excomungado pela IPA que o
expulsa em 1964, indagando como a comunidade analítica pode se tornar uma
Igreja. De fato, a prática analítica que faz da interpretação uma hermenêutica,
buscando a garantia na letra morta de Freud-Pai por meio de um sentido
universalizante, vai na contramão da práxis
psicanalítica que tem a singularidade do caso à frente da teoria como uma
escolha incontornável.
Distante do genital love normatizante dos pós-freudianos, Lacan segue a via da
heresia do amor místico adentrando na lógica da sexualidade feminina até chegar
na haeresis da singularidade do real do
gozo sinthomático concernente ao falasser. Sempre fiel à sua escolha
(her)ética pela causa psicanalítica.
* Este texto foi publicado em Scilicet:As psicoses ordinárias e as outras sob transferência.São Paulo:EBP, 2018,pg. 204 a 206.
[1] AE (EBP/AMP)
[2]
Lacan,
J. Le Séminaire, Livre XXIII: Le sinthome,
Paris, Seuil, 2005, p. 208 [Lacan, J. Seminário 20: o sinthoma. Rio de
Janeiro, Zahar, p. 208].
[3] Ibid., p. 15
[ibid., p. 16].
[4] Miller, J.-A. Curso de 25/05/2011, inédito.
[5] Laurent, É. “Lacan,
hérétique”. La Cause freudienne,
Paris, n° 79, 2011, p.197-204 [Laurent, É. “Lacan, heretico”. Correio, São Paulo, EBP, n° 70, dez/2011, pp.
43-55].
[6] Lacan, J. “Discours aux Catholiques”, Le Triomphe de la Religion, Paris,
Seuil, 2005, p. 27 [Lacan, J. “Discurso aos católicos”, O triunfo da religião, Rio de Janeiro, Zahar, 2005, p. 23].

