Giulia Puntel
O Trans-humano: Après le humain qui vient?
Sérgio
de Mattos[1]
Em que termos é possível pensar uma Trans-humanidade?
Desde a
perspectiva da psicanálise, o humano se caracteriza
por ser o vivente no qual os efeitos da linguagem interferem, perturbam a
homeostase dos programas biológicos e dominam sua vida e especialmente sua
vida sexual. Mais um passo e podemos dizer com Lacan que o humano é o vivente atrapalhado
pela sexualidade, o vivente que goza mal.
Podemos
pensar que todos os esforços da ciência e tecnologia seriam modos de consertar esse “defeito de nascença”, o defeito
da incômoda relação das palavras com o corpo?
Se aceitarmos essa tese, é possível que esse empreendimento tenha surgido
vinculado à nossa tradição judaico-cristã, em que Deus, desde Genesis deixa ao
homem a tarefa de dominar a natureza. Também não foi sem consequências para o
destino do projeto ocidental e a ciência a ideia de um corpo glorioso existente
antes do pecado original e a da transfiguração.
De
fato, o Trans-humano, pós humano, etc., tem sido sempre tomado na perspectiva
de uma mudança corporal. Pensa-se em geral que uma pós humanidade advirá de uma
ampliação das competências e percepções do corpo. E, na verdade, cada vez mais
vemos incríveis próteses anunciadas, algumas impressas em 3D, que não somente
recuperam certas funções perdidas, mas as aperfeiçoam.
Longe
de nós nos queixarmos desses avanços médicos e técnicos que pretendem diminuir
o sofrimento e a pobreza humana. Aliás, essa é
evidentemente uma tendência dominante e, à medida que o corpo toma a dianteira
nesse assunto, é possível que nossos corpos feitos de Carbono, sejam
progressivamente substituídos no todo ou em
partes por outros de Silício, Nióbio ou Grafeno. É provável que a Inteligência
Artificial baseada em computadores quânticos, por meio da introdução de micro implantes,
torne-nos mais inteligentes e com enorme memória.
Num
cenário talvez um pouco extremo, um outro tipo de ser poderia vir habitar o
planeta terra com a percepção de campos magnéticos, infravermelho, ultravioleta,
audição de tons acima e abaixo da nossa escala atual de percepção auditiva? Pensar em quatro ou cinco dimensões e, por que não, ter
quatro pernas, além de dois braços, alguns tentáculos com olhos e sensores
especiais? Com o tempo esses super seres
poderiam se reproduzir, ajustar o ambiente à suas necessidades e deixar para trás
seus criadores limitados, tão limitados
e perturbados.
Provavelmente
antes disso nos tornaremos ainda mais híbridos do que já somos hoje e alguns robôs ou androides se tornarão nossos parceiros –
nossos “Parças Robôs” – talvez
em uma parceria não sintomática. Aliás, já se
encontra no mercado, especialmente no Japão, todo tipo de bonecas e bonecos
sexuais. Alguns, inclusive, portando sensores especiais e certos programas são
capazes de aprender e dizer não ao parceiro humano dependendo de sua abordagem –
palavra bastante provocante, nesse assunto, não é mesmo?
É
possível que esses Dolls, ao se
tornarem nossos parceiros e nos experimentar, ultrapassem-nos e aprendam que esse negócio sexual não funciona bem e deixem esse mal-entendido
para trás, certamente se reproduzindo de
maneiras muito mais eficientes. Hipoteticamente uma ultrapassagem nesses termos poderia levar a uma ruptura com o humano
tradicional. Tal evento poderia acontecer lentamente, favorecido pelo
capitalismo e o mercado.
Há
estudos do professor do MIT, Max Tegmarck, diretor do
Future of Life Institute, apresentado
em seu livro “Vida 3.0”, que demonstram haver uma grande pressão econômica para
tornar os seres humanos obsoletos. Outra possibilidade seria que essa ruptura
ocorresse em função de uma guerra. Na guerra, todos os limites éticos e morais
são relativizados em função da vitória da sobrevivência, e assim, essa seria
uma ocasião em que os homens poderiam perder o controle de suas próprias
criações e serem dominados por ela.
Sem
considerar o gozo como esse efeito da palavra no
corpo e suas implicações, o futuro pode parecer uma ficção científica de má
qualidade, em que vemos super poderes, mas, por outro lado, indivíduos idiotas
em relação a suas subjetividades e nas suas relações com os outros. Tomar o
projeto de melhoria do humano pelo viés de uma pura engenharia fundada na materialidade
físico-química-biológica terá grande chance de nos fazer sermos devorados por
alguma espécie de gozo que dominará o vivente falante, talvez destruí-lo.
Há, entretanto, um outro cenário possível. Na entrevista concedida
por Lacan a Emílio Granazotto, publicada nas revistas – italiana Panorama em 1974 e na francesa Magazine Literraire, fevereiro de 2004 –,
Emílio escuta nas respostas de Lacan uma versão que ele considera bastante
pessimista do que chamamos
progresso. A resposta de Lacan é surpreendente:
Não, é algo completamente diferente.
Eu não sou pessimista. Nada acontecerá. Pela simples razão de que o homem é uma
porcaria, nem mesmo capaz de destruir a si próprio. Pessoalmente, acharia
maravilhoso um flagelo total produzido pelo homem. Isso seria a prova de que
conseguiu fazer alguma coisa com suas mãos, sua cabeça, sem intervenção divina,
natural ou outras.
Granzotto
insiste: “Dir-se-ia
que o senhor está cada vez
mais pessimista”. Lacan responde:
Não é verdade. Não me enquadro nem
entre os alarmistas nem entre os angustiados.... É verdade, existem coisas
horripilantes e devoradoras como a televisão pela qual uma grande parte de nós
é fagocitada... E depois há outras coisas
monstruosas devoradoras de outra maneira: os foguetes que vão à lua, as
pesquisas no fundo do oceano, etc. Todas as coisas
que devoram. Mas não há porque se fazer drama disso. Estou certo de que assim
que estivermos de saco cheio de foguetes, de televisão e de todas suas malditas
pesquisas no vazio, encontraremos outra coisa com a qual nos
ocuparmos...
Minha resposta a tudo isso é que o
homem sempre soube se adaptar ao mal.
Será
então, que esse defeito em nosso gozo, que chamamos de não relação sexual, isso
que nos faz ser essa porcaria, sempre capaz de se
adaptar ao mal, seria ele também a nossa salvação? Nesse sentido, o que viria
depois do humano senão mais humano? Cabe aqui a lembrança de que nós
psicanalistas deveremos, desde nossa experiência, estar à disposição e formados
para estar à altura de manter no horizonte esse benéfico fracasso.
