Enxame #6 - 3. Zumzumzum do mestre


Giulia Puntel










O Trans-humano: Après le humain qui vient?
                                           
Sérgio de Mattos[1]

Em que termos é possível pensar uma Trans-humanidade?
Desde a perspectiva da psicanálise, o humano se caracteriza por ser o vivente no qual os efeitos da linguagem interferem, perturbam a homeostase dos programas biológicos e dominam sua vida e especialmente sua vida sexual. Mais um passo e podemos dizer com Lacan que o humano é o vivente atrapalhado pela sexualidade, o vivente que goza mal.
Podemos pensar que todos os esforços da ciência e tecnologia seriam modos de consertar esse “defeito de nascença”, o defeito da incômoda relação das palavras com o corpo? Se aceitarmos essa tese, é possível que esse empreendimento tenha surgido vinculado à nossa tradição judaico-cristã, em que Deus, desde Genesis deixa ao homem a tarefa de dominar a natureza. Também não foi sem consequências para o destino do projeto ocidental e a ciência a ideia de um corpo glorioso existente antes do pecado original e a da transfiguração.
De fato, o Trans-humano, pós humano, etc., tem sido sempre tomado na perspectiva de uma mudança corporal. Pensa-se em geral que uma pós humanidade advirá de uma ampliação das competências e percepções do corpo. E, na verdade, cada vez mais vemos incríveis próteses anunciadas, algumas impressas em 3D, que não somente recuperam certas funções perdidas, mas as aperfeiçoam.
Longe de nós nos queixarmos desses avanços médicos e técnicos que pretendem diminuir o sofrimento e a pobreza humana. Aliás, essa é evidentemente uma tendência dominante e, à medida que o corpo toma a dianteira nesse assunto, é possível que nossos corpos feitos de Carbono, sejam progressivamente substituídos no todo ou em partes por outros de Silício, Nióbio ou Grafeno. É provável que a Inteligência Artificial baseada em computadores quânticos, por meio da introdução de micro implantes, torne-nos mais inteligentes e com enorme memória.
Num cenário talvez um pouco extremo, um outro tipo de ser poderia vir habitar o planeta terra com a percepção de campos magnéticos, infravermelho, ultravioleta, audição de tons acima e abaixo da nossa escala atual de percepção auditiva? Pensar em quatro ou cinco dimensões e, por que não, ter quatro pernas, além de dois braços, alguns tentáculos com olhos e sensores especiais?  Com o tempo esses super seres poderiam se reproduzir, ajustar o ambiente à suas necessidades e deixar para trás seus criadores limitados, tão limitados e perturbados.
Provavelmente antes disso nos tornaremos ainda mais híbridos do que já somos hoje e alguns robôs ou androides se tornarão nossos parceiros – nossos “Parças Robôs” – talvez em uma parceria não sintomática. Aliás, já se encontra no mercado, especialmente no Japão, todo tipo de bonecas e bonecos sexuais. Alguns, inclusive, portando sensores especiais e certos programas são capazes de aprender e dizer não ao parceiro humano dependendo de sua abordagem – palavra bastante provocante, nesse assunto, não é mesmo?
É possível que esses Dolls, ao se tornarem nossos parceiros e nos experimentar, ultrapassem-nos e aprendam que esse negócio sexual não funciona bem e deixem esse mal-entendido para trás, certamente se reproduzindo de maneiras muito mais eficientes. Hipoteticamente uma ultrapassagem nesses termos poderia levar a uma ruptura com o humano tradicional. Tal evento poderia acontecer lentamente, favorecido pelo capitalismo e o mercado.
Há estudos do professor do MIT, Max Tegmarck, diretor do Future of Life Institute, apresentado em seu livro “Vida 3.0”, que demonstram haver uma grande pressão econômica para tornar os seres humanos obsoletos. Outra possibilidade seria que essa ruptura ocorresse em função de uma guerra. Na guerra, todos os limites éticos e morais são relativizados em função da vitória da sobrevivência, e assim, essa seria uma ocasião em que os homens poderiam perder o controle de suas próprias criações e serem dominados por ela.
Sem considerar o gozo como esse efeito da palavra no corpo e suas implicações, o futuro pode parecer uma ficção científica de má qualidade, em que vemos super poderes, mas, por outro lado, indivíduos idiotas em relação a suas subjetividades e nas suas relações com os outros. Tomar o projeto de melhoria do humano pelo viés de uma pura engenharia fundada na materialidade físico-química-biológica terá grande chance de nos fazer sermos devorados por alguma espécie de gozo que dominará o vivente falante, talvez destruí-lo.
Há, entretanto, um outro cenário possível. Na entrevista concedida por Lacan a Emílio Granazotto, publicada nas revistas – italiana Panorama em 1974 e na francesa Magazine Literraire, fevereiro de 2004 –, Emílio escuta nas respostas de Lacan uma versão que ele considera bastante pessimista do que chamamos progresso. A resposta de Lacan é surpreendente:

Não, é algo completamente diferente. Eu não sou pessimista. Nada acontecerá. Pela simples razão de que o homem é uma porcaria, nem mesmo capaz de destruir a si próprio. Pessoalmente, acharia maravilhoso um flagelo total produzido pelo homem. Isso seria a prova de que conseguiu fazer alguma coisa com suas mãos, sua cabeça, sem intervenção divina, natural ou outras.

Granzotto insiste: “Dir-se-ia que o senhor está cada vez mais pessimista”. Lacan responde:

Não é verdade. Não me enquadro nem entre os alarmistas nem entre os angustiados.... É verdade, existem coisas horripilantes e devoradoras como a televisão pela qual uma grande parte de nós é fagocitada... E depois há outras coisas monstruosas devoradoras de outra maneira: os foguetes que vão à lua, as pesquisas no fundo do oceano, etc. Todas as coisas que devoram. Mas não há porque se fazer drama disso. Estou certo de que assim que estivermos de saco cheio de foguetes, de televisão e de todas suas malditas pesquisas no vazio, encontraremos outra coisa com a qual nos ocuparmos...
Minha resposta a tudo isso é que o homem sempre soube se adaptar ao mal.

Será então, que esse defeito em nosso gozo, que chamamos de não relação sexual, isso que nos faz ser essa porcaria, sempre capaz de se adaptar ao mal, seria ele também a nossa salvação? Nesse sentido, o que viria depois do humano senão mais humano? Cabe aqui a lembrança de que nós psicanalistas deveremos, desde nossa experiência, estar à disposição e formados para estar à altura de manter no horizonte esse benéfico fracasso.




[1] Membro EBP/AMP.



https://jornadaebpmg.blogspot.com/2018/10/enxame-6-4-pecas-escolhidas.html

Jornada EBP-MG