Giulia Puntel
“Interpretação: a
heresia do analista”[i]
Sérgio Laia[ii]
Em
sua proposta do quinto eixo de trabalho para a XXII Jornada da Seção Minas
Gerais da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP-MG), designado como
“Interpretação: a heresia do analista”, Souto (2018) se vale de um termo – heresia – que, no dia 13 de maio do ano
passado, foi destacado por Miller (2017a) em suas proposições sobre a política
da psicanálise em Madrid. De imediato, esse termo, como o próprio Miller (2017
[2018], p. 36) disse dois meses depois em Turim, tornou-se “um fenômeno de moda
no Campo Freudiano”. Por isso, após Miller (2017b) pronunciar, nessa cidade
italiana, o “Elogio dos heréticos”, ele decide também, em uma segunda conferência
(Miller 2017 [2018]), ser herético falando de “ortodoxia” que, bem sabemos, no
sentido comum e generalizado, é justamente o oposto da heresia.
A
seu modo e, a meu ver, para não fazer da próxima Jornada da EBP-MG apenas mais um
efeito de tal “fenômeno de moda”, Souto (2018), nos convida a tematizar a
“heresia do analista” ou, pelo menos, um dos seus modos de apresentação, como
sendo a interpretação. Esse convite
se pauta pela relação da heresia com a escolha, conforme Miller (2017 [2018] e
Laurent (2011), em ocasiões distintas, destacaram valendo-se da leitura de
Joyce por Lacan (1975-1976 [2017], p. 16). Mas, ao ser conjugada com a interpretação, a heresia do analista é
destacada como um ato do analista na chamada experiência analítica. Afinal,
logo depois de se referir a como, no mundo do mestre contemporâneo, o sintoma,
cada vez mais refratário ao sentido, exige dos analistas “intervenções capazes
de incidir sobre o gozo e não apenas sobre o sentido”, aproximando a
interpretação mais “de um fazer que de um saber”, Souto (2018) oferece-nos um
fio que, neste Seminário de Preparação para a próxima Jornada da EBP-MG,
procurarei seguir. Este fio é designado
nos seguintes termos: “se a interpretação pode ser considerada a heresia do
analista, é porque ela atualiza, a cada vez, sua escolha pelo real” (Souto,
2018).
Não
pretendo, aqui, trabalhar todos os desdobramentos de Lacan sobre a
interpretação, ao longo de seu ensino. Vou me ater a algumas formulações e, no
final, apresentar uma hipótese ainda a ser melhor investigada. De início, em um
momento, se posso dizer assim, mais fundador, Lacan define a interpretação
analítica separando-a especialmente do que, entre vários analistas
pós-freudianos, foi praticado como “interpretação da resistência”. Procurarei
também demonstrar o quanto essa formulação inicial da interpretação por Lacan
se mantém e se transforma no contexto do que Miller (2006-2007 [2013]), há
algum tempo, tem chamado de “o ultimíssimo ensino de Lacan”. Por sua vez, a
hipótese apresentada no final não deixará de ser uma conjugação de diferentes
proposições de Lacan sobre a interpretação analítica. Minha ousadia ou, para
retomarmos um dos dois principais termos nos quais se pauta este meu texto,
minha heresia será defender que a
“escolha pelo real”, associada por Souto (2018), tanto à heresia quanto à
interpretação, é uma espécie de pivô em torno do qual, desde o início de seu
ensino, Lacan fez gravitar a interpretação analítica, embora, essa referência
ao real vá de fato se explicitando, tornando-se cada vez mais incontornável, à
medida que esse ensino avança.

