Blader Runner 49 – o choque da língua
com o corpo
Lilany Pacheco[[1]]
Blade Runner 49
é continuação de Blade Runner – o caçador
de androides, filme de ficção científica “neo noir”[[2]],
norte americano, exibido em 1982, dirigido por Ridley
Scott e estrelado por Harrison Ford. Blade Runner – o caçador de androides,
transportou o expectador para a cidade de Los Angeles, no ano de 2019[[3]].
No
início do século XXI, uma grande corporação, Tyrell, desenvolve um robô que é
mais forte e ágil que o ser humano e se equiparando em inteligência. São
conhecidos como replicantes e utilizados como escravos na colonização e
exploração de outros planetas. Um grupo dos robôs mais evoluídos provoca um
motim, em uma colônia, e, de volta à Terra, são considerados ilegais e caçados,
sob pena de morte. A partir de então, policiais de um esquadrão de elite,
conhecidos como Blade Runners, têm
ordem de atirar para matar os replicantes encontrados na Terra.
A trama inaugural termina deixando o enigma quanto a Decard, (Harisson Ford) ser ele, também,
um replicante. Resta como enigma, também, o desfecho de seu encontro com
Rachael (Sean Young), uma replicante que Decard
deveria “remover” da terra e pela qual, supostamente, ele se apaixonara.
A cena final de Blade Runner – o
caçador de andoides, fez história no cinema com a excelente atuação de Hutger Haur, como Hoy Batty, um replicante que resiste em morrer.
“Eu vi coisas que as
pessoas não acreditariam. Naves de ataque rompendo em chamas na fronteira de
Orion. Eu vi raios-c cintilando na escuridão junto ao portal de Tannhauser.
Todos esses momentos vão se perder no tempo como lágrimas na chuva. Hora de
morrer...”[[4]].
Batty tenta, em vão, escapar a
inexorabilidade do tempo para o qual foi programado, e, como um sujeito
pensante desfere palavras que revelam o elemento pulsante da vida que brota no
corpo daquele que foi dotado de linguagem.
A
criança como objeto a elevado ao
zênite
Califórnia,
2049, os replicantes – seres humanos artificiais fabricados graças ao
desenvolvimento da bioengenharia – foram integrados à sociedade para
possibilitar a continuação da sobrevivência da espécie humana, sendo
responsáveis por fazer todo o trabalho pesado e atuar em ambientes hostis. Após
os problemas enfrentados com os “Nexus 8”, uma nova espécie de replicantes é
desenvolvida, de forma que seja mais obediente aos humanos. Um deles é K, o
replicante, caçador de androides da vez. [[5]][[6]][[7]]
Em busca de Sapper Morton (Dave Bautista), um
remanescente dos antigos modelos que deveria ser “aposentado”, K é levado a uma
fazenda de proteína, novo modelo do cultivo de alimentos após a falência do
ecossistema da Terra. Ao perceber que seria morto Sapper retoma com K um
diálogo, que assume o mesmo viés da cena final do antecessor – “vocês novatos
se contentam em limpar a merda, porque nunca viram um milagre”.
Após liquidar Sapper, K encontra em sua fazenda, ao lado
de uma árvore, uma caixa enterrada que parece ser uma urna com restos humanos.
Uma análise revela que se trata dos restos mortais de uma replicante que morreu
por complicações no parto, após uma cesariana de
emergência. Isto deixa K perturbado, já que a gravidez em replicantes era até
então tida como impossível[[8]]. A replicante Rachael (Sean Young) teve
um filho, mantido em sigilo até então. No processo, ele descobre
também que ela teve um romance com o ex-blade runner Rick Deckard (Harrison Ford).
A superior de K, a Tenente Joshi (Robin Wright),
lhe dá então ordens para destruir todas as evidências relacionadas ao caso e
“aposentar a criança”, acreditando que se outros replicantes souberem da
possibilidade de engravidar, causarão uma guerra civil,
uma vez que o mundo, segundo ela, era dividido por um muro, entre aqueles que
nascem e aqueles que são fabricados[[9]] e
que se qualquer um dos lados perceber que não há um muro, haverá uma guerra
civil ou um massacre.
De modo inusitado K responde que
nunca havia aposentado nenhum nascido. Ao ser interrogado pela sua chefe sobre
qual seria a diferença, K responde: “nascer é ter uma alma, eu acho”.
Enfurecido com o fato de ser incapaz de fazer seus
replicantes se reproduzirem, Wallace, no instante em que conclui a fabricação
de um novo modelo de robô, recebe sua assistente, número um, Luv (Sylvia
Hoeks). Ao examiná-la para verificar se ela poderia procriar ele enuncia um
lema que soa familiar na frigideira de nossa civilização contemporânea:
“Nós fazemos anjos a
serviço da civilização. Sim, já houve anjos maus, eu faço anjos bons, agora.
Foi assim que nos levei a 9 mundos. 9. Uma criança pode contar até 9, nos
dedos. Deveríamos ser dono das estrelas. Sim senhor. Cada salto da civilização
foi construído explorando uma mão de obra descartável. Perdemos a coragem de
escravizar, se não forem fabricados, mas só posso fazer um número limitado.
Esse pasto infértil, vazio e salgado, bem aqui (tocando o ventre da nova modelo
de robô), o espaço morto entre as estrelas. É este lugar que temos que trocar
pelo céu. Não consigo procriá-los e acredite. Eu já tentei. Precisamos de mais
replicantes do que jamais poderemos produzir. Milhões, para que sejamos trilhões
a mais. Poderíamos invadir o Éden e retomá-lo. A mágica final da Tyrell. A
procriação. Aperfeiçoada e perdida. Mas existe uma criança. Traga-a para mim.”
Retornando à fazenda de Sapper Morton, K encontra
entalhado no tronco da árvore uma data que é a mesma de uma memória artificial
de infância que ele tem implantada: uma data encravada em um pequeno cavalo de
madeira. Logo, K encontra este mesmo cavalo em um orfanato, o que sugere que
suas memórias são reais, e não implantes artificiais. Joi insiste que isto
prova que K é especial e uma verdadeira pessoa, passando a chamá-lo de
"Joe". Enquanto vasculha registros de nascimento daquele ano, K
descobre uma anomalia: dois gêmeos nasceram naquele dia e possuem DNA idêntico – algo impossível –
exceto pelo cromossomo que determina o sexo; apenas o menino consta
como vivo. K decide então procurar a Dra. Ana Stelline (Carla Juri), uma
designer de memórias que lhe informa que é ilegal implantar memórias reais em
replicantes, levando K a crer que ele é o filho de Rachael. Subsequentemente,
após falhar num teste psicológico para replicantes, K é suspenso por Joshi,
explicando que tal falha simplesmente ocorreu por ter cumprido sua ordem
anterior. Joshi, deduzindo que K é a criança perdida e sabendo que ele será
perseguido por ter falhado no teste, lhe dá 48 horas para desaparecer.
Perseverante, K leva o cavalo de madeira para uma análise
e descobre sinais de radiação.
Estes sinais o levam às ruínas de Las Vegas, onde ele encontra Deckard, que
revela que os registros de nascimento foram deliberadamente manipulados para
ocultar a criança, e que ele teve de deixar o corpo de Rachael e a criança
recém-nascida com os outros replicantes para protegê-la. Enquanto isso, Luv
assassina Joshi e logo encontra K e Deckard, sequestrando este e deixando K à
beira da morte. Posteriormente, K é salvo por um grupo de replicantes que luta
pela liberdade, e a líder Freysa (Hiam Abbass) lhe conta a história de Rachael,
que morreu em seus braços após dar à luz a uma menina, e não um menino. Para
impedir que Deckard dê a Wallace informações sobre o paradeiro da criança,
Freysa pede que K mate o ex-blade runner para o bem maior de todos os
replicantes. Diz ela: “o bebê significa que nós não somos escravos, que somos
donos de nós mesmos”.
Made
or born, no meio do caminho há o furo...
Ao receber ordens para esquecer tudo que o viu e soube e
“aposentar” a criança, K, pensando ser ele a criança que procura se dirige a
serviços de rastreamento de dados com restos de Rachael. Em mais de uma fonte de
informação recebe a mesma informação: “esse é das antigas”, “é da era
pré-proibição”, até encontrar alguém que lhe pergunta de forma explícita.
“Todos se lembram onde estavam no dia do blackout, e você”. K responde que isso
foi um pouco antes da sua época. O responsável pelos arquivos responde:
“Eu estava em casa
com meus pais. Foram dez dias de escuridão. Todas as máquinas congelaram.
Quando as luzes voltaram, tudo tinha apagado. Fotos, arquivos, todos os bits de
dados sumiram. Extratos bancários também... Curioso, só restou o que estava no
papel. Nós tínhamos tudo em drives. Tudo, tudo, tudo! Minha mãe chora até hoje
a perda das fotos dos bebês.”
Me interessei, especialmente, nos vários planos de
leitura do filme, pelo blackout e seus efeitos sobre o reinado da ciência e da
tecnologia, ferramentas do mestre contemporâneo. Ele evidencia o ponto do saber
que não se deixa significantizar, o que não cessa de não se escrever, ou, o
inconsciente real e sua relação ao furo, como formalizou Lacan, em seu último
ensino ao evidenciar os efeitos do choque da linguagem com o corpo e seu
traumatismo para todo ser falante.
Retomamos, recentemente, em 2016, para o Congresso da AMP realizado no
Rio de Janeiro, o texto de Jacques Alain Miller[[10]],
“Uma fantasia”, no qual esse autor destaca a convergência, em nossos dias, do
declínio do pai e a ascenção do objeto a
ao zênite social. Nesse texto, Miller formaliza que esse objeto a, enquanto causa do desejo, uma vez
elevado ao zênite, se impõe ao sujeito sem bússola, nos tempos do Outro não
existe e faz empuxo a um gozo sem limites que será nomeado por um S1 e seus
efeitos de faça-se!
Há um excedente pulsional, um gozo do corpo, que não se
inscreve na cadeia coordenada pela significação fálica, para todo aquele que
fala e que foi traumatizado pelos efeitos da língua. Nesse sentido, há sempre algo da carne que
resta fora da linguagem e precisa se situar via uma identidade e uma nomeação,
sempre insuficiente... Nexus 6, Nexus 7, Nexus 8, Nexus X. Não se pode advir,
senão desse furo. Apostemos, portanto, no traumatismo da língua e suas
consequências para que as lembranças, sempre ficcionais, não percam jamais sua
potência de despertar a vida, lá onde menos se supõe.
[[3]] Trama escrita por Hampton Fancher e
David Peoples, vagamente baseado no romance Do
Androids Dream of Electric Sheep?
Referências
Links
utilizados para leitura e construção dessa leitura de Blade Runner 49.


