Enxame #3- 5. Ditos e Escritos


Relationship- Eduardo Fonseca





Ludmilla Féres Faria[1] entrevista Fabian Naparstek[2]:

Como  o discurso capitalista incide em sua clínica?







Três figuras do mestre grego antigo
 Teodoro Rennó Assunção[3]

https://www.dropbox.com/s/4qol9brb346ja54/Renn%C3%B3%20Assun%C3%A7%C3%A3o%2C%20T.Tr%C3%AAs%20figuras%20do%20mestre%20grego%20antigo.pdf?dl=0

 




“Os gregos, por consideração à vida, (...) refrearam seu impulso de saber, em si insaciável, porque aquilo que eles aprendiam, queriam logo viver.”

(Nietzsche, A filosofia na época trágica dos gregos)



            Como seria muito difícil, dada sua multiplicidade e variedade histórica, falar de um único ou do modelo ou figura do mestre grego antigo – compreendendo genericamente como “mestre” uma figura agente de um saber que seria transmitido a um ou mais “discípulos” (sem o segundo sentido de “senhor”, como na relação com o “escravo”, que é próprio do termo maître em francês) –, vou escolher, para fazer um esboço introdutório inevitavelmente redutor, apenas três exemplos possíveis (e algo paradoxais) de figuras do mestre grego antigo, mas que apresentarei na ordem histórica em que se sucederam (do mais arcaico ao mais tardio):

1) o aedo ou poeta que – assim como o adivinho e o rei que diz a justiça – é um “mestre da verdade” (segundo Marcel Detienne em Os mestres da verdade na Grécia antiga), porque sua palavra oral ritmada ou cantada realiza ou efetiva algo como uma ação (de presentificação do passado divino ou heroico por meio narrativo) para o ouvinte, que – embora a ser interpretada – contém uma viva dimensão moral;

2) Sócrates, que também foi um mestre da palavra oral (tanto que não deixou livro) e só conhecemos pelas versões escritas diferenciadas de seus discípulos (como Platão e Xenofonte) ou detratores (como Aristófanes), e que também não ensinava em uma “escola”, apesar de buscar de algum modo a transformação do pensamento ou da vida de seu interlocutor (examinado e posto à prova como ele mesmo);

3) Epicuro, que – assim como anteriormente Platão e Aristóteles (ainda que fora de uma tradição socrática direta, e apenas marginalmente via Aristipo) e utilizando como eles a escrita como meio – funda sua “escola” (conhecida como “Jardim”), vivendo em uma comunidade retirada com seus discípulos, a quem transmite uma doutrina e um modo de vida.

 Deixam, portanto, de ser objeto mais direto deste esboço não só Platão (e sua Academia) e Aristóteles (e seu Liceu), mas também Zenão e os estoicos (que frequentavam o Pórtico), compondo com a de Epicuro as quatro grandes escolas da filosofia grega antiga – assim como ainda Pitágoras e os pitagóricos; certos aristocratas únicos e distanciados, como os “pré-socráticos” Heráclito, Parmênides e Empédocles; e figuras mais isoladas como Antístenes e/ou Diógenes (de Sínope) e os cínicos, e Pirro e os céticos. 

Seja dito também rapidamente que um modelo, mais próximo ao do ensino universitário hoje, de estudo ou investigação não de temas a partir do diálogo ou do debate (ou exposição oral), mas das obras escritas do mestre, que passam a ser objeto de estabelecimento do texto e de comentários e interpretações, é algo mais tardio e que só surge nas escolas platônica e aristotélica já no período imperial romano (como nos informa Pierre Hadot no instrutivo livro O que é a filosofia antiga?), ainda que algo como sua prefiguração se dê antes deste período no Liceu aristotélico.



  1. aedo ou poeta (“mestre da verdade”)



Se quisermos pensar o modo como é representado o aedo (cantor) ou poeta, enquanto “mestre oral da verdade”, em Homero e Hesíodo, talvez seja preciso primeiramente lembrar que esta “verdade” se daria antes como “memória” ou “capacidade de presentificação” de algo acontecido em tempos primevos ou em um passado heroico (em um registro preferencialmente narrativo) do que como proposição argumentativa. E curiosamente o efeito do canto ou palavra ritmada sobre os auditores é descrito antes como o do prazer (ou o do alívio da dor) do que como o da informação ou instrução. A esfera em que, nesta representação homérica e hesiódica do aedo/poeta, ocorre um elemento ou evidência de ensino e aprendizagem é a da relação do cantor com a Musa (divindade do Canto ou da própria tradição poética), mas jamais é figurada uma relação concreta deste tipo entre um aprendiz de cantor e um outro cantor, ou mesmo entre cantores.

Do aedo Demódoco na Odisseia Odisseu diz, após suas duas primeiras canções, primeiramente que a eles (os aedos como Demódoco) “a Musa ensinou (edídakse) caminhos de canto, pois ama a raça dos aedos” (Od. VIII, 481), e, pouco depois, dirigindo-se diretamente a ele, que “mais do que a todos os aedos eu te louvo:/ ou a Musa, filha de Zeus, te ensinou (edídakse), ou Apolo.” (Od. VIII, 487-488). E isso porque, apesar de cego e de nunca ter estado em Troia, Demódoco canta “o destino dos Aqueus”, segundo o próprio Odisseu (que tomou parte nesta história e por isso chora comovido), “como se de algum modo ele lá estivesse presente” (Od. VIII, 491). O próprio narrador da Odisseia dirá, quando da 1ª canção de Demódoco, que “a Musa, então, incitou o aedo a cantar as glórias dos guerreiros” (Od. VIII, 73), e, quando da 3ª canção (cujo tema é definido por Odisseu), que “este (Demódoco), impulsionado pelo deus, começou, e manifestou o canto” (Od. VIII, 499). Apenas em uma apresentação inicial de Demódoco por Alcínoo seria possível se pensar em duas motivações distintas (uma divina e a outra humana), mas também aqui a conjunção das duas é bem mais enfatizada do que uma distinção: “pois a este um deus deu, sobremaneira, a arte do canto/ para dar prazer, na direção em que o ânimo o exorte a cantar.” (Od. VIII, 44-45).

No caso de Fêmio (que o narrador jamais diz ser incitado pela Musa, pois cantava “sob constrição”, anánkei, devendo agradar aos pretendentes, uma formulação análoga é usada por Telêmaco para descrevê-lo “a dar prazer, na direção em que a mente o incite”, mas logo depois ele acrescentará que “os aedos não são responsáveis [pelo conteúdo de seu canto], mas de algum modo Zeus é responsável, que dá aos homens comedores-de-pão como queira a cada um” (Od. I, 347-349), retomando, portanto, a conjunção entre o plano humano e o divino. Na única ocasião na Odisseia (em uma fala de Fêmio que suplica para que Odisseu não o mate) em que um plano humano de aprendizagem do canto é explicitado, curiosamente não será mencionado nenhum outro aedo com quem ele o teria aprendido, mas – em direta oposição a isso (e contando também com a tradicional conjunção com a ação da divindade) – ele próprio, Fêmio, teria ensinado a si mesmo (autodídaktos): “Sou autodidata, e (/pois) um deus no meu espírito caminhos de canto/ de tipos variados implantou” (Od. XXII, 347-348), em uma proposição em que a partícula (“e”/“pois”) poderia muito bem ter um valor explicativo (como ocorre em várias outras situações em Homero).

No caso da cena de iniciação de Hesíodo (que também não será figurado como mestre direto de nenhum outro cantor/poeta) descrita no proêmio da Teogonia, são as próprias Musas, deusas dançarinas e cantoras (filhas de Memória e Zeus), quem – dando-lhe um cetro (signo de fala autorizada), além de inspirar (ou insuflar) uma voz divina em Hesíodo (vs. 30-32) – lhe “ensinam (edídaksan) a bela arte do canto” (v. 22). Mas o que surpreende mais nesta cena é não só o fato de que as Musas dirijam diretamente a palavra a Hesíodo (algo que nunca ocorre ao narrador homérico ou a um aedo odisseico), como também o conteúdo propositalmente ambíguo (e paradoxal) desta breve fala: “Pastores agrestes, infâmias vis e ventres somente:/ sabemos muitas mentiras dizer semelhantes aos fatos,/ e sabemos, quando queremos, verdades proclamar.” (Teogonia, 26-28).

Pois o que as Musas estão propondo diretamente aqui – antes que Hesíodo inicie o seu inverificável relato sobre a origem divina do mundo – é um duplo saber, cujo também duplo e aparentemente contraditório objeto (“mentiras semelhantes aos fatos” – “verdades”) jamais é desqualificado ou criticado explicitamente em seu primeiro elemento (verso 27), como se Hesíodo pudesse estar, por exemplo, se referindo nele à tradição homérica (sobretudo porque uma mentira verossímil de Odisseu para Penélope é descrita de forma bem semelhante, cf. Od. XIX, 203), em oposição a uma tradição hesiódica de verdade representada apenas pelo segundo elemento (verso 28), e coincidente com um conteúdo de verdade revelada que seria próprio a uma poesia religiosa como a da Teogonia. Muito antes pelo contrário, é o primeiro elemento o que parece mais genérico (como bem viu Jacyntho Lins Brandão em “As musas ensinam a mentir”), sugerindo também uma forma de mentira que é mimética da “realidade” (étyma, “as coisas tais como são”) e que, por isso, parece antecipar o nosso conceito de “ficção”, enquanto o segundo elemento seria menos usual e dependeria, para ocorrer, da vontade caprichosa destas deusas que, em toda a sequência da Teogonia, jamais confirmam se o que o poeta Hesíodo está dizendo é “verdade” ou “mentira”. Seguindo a lucidez destemida de Jenny Strauss Clay em Hesiod’s Cosmos, chegaríamos, então, à estranha conclusão de que estas Musas ambíguas de Hesíodo seriam não apenas “mestras da verdade”, mas também e necessariamente “mestras da mentira”.



  1. Sócrates

“(...) O que é filosofar hoje em dia – quero dizer a atividade filosófica – (...) se não consistir em tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de legitimar o que já se sabe?”

                                                 (M. Foucault, O uso dos prazeres)



Antes talvez do que dizer que de Sócrates (ou de seu ensinamento oral) provêm vários discípulos diretos que estabelecerão doutrinas e fundarão escolas eventualmente contraditórias ou não de todo compatíveis entre si (como, por exemplo, Aristipo de Cirene, que afirmava que o bem maior é o prazer, e Antístenes, precursor dos cínicos, que afirmava que o bem maior é a virtude), eu gostaria aqui – a partir, sobretudo, da versão apresentada nos diálogos de Platão (um de seus mais importantes discípulos diretos) – de indicar rapidamente o quanto haveria de paradoxal na figura de um “mestre” que, primeiramente, não se reconhecia propriamente como mestre de nenhum discípulo, e, em segundo lugar, que dizia francamente não ter uma doutrina ou um saber constituído para transmitir.

Na Apologia de Sócrates de Platão, Sócrates, ao dizer curiosamente que combateu pelo que é justo apenas em âmbito privado e não público (mesmo que não tenha se subtraído às suas obrigações básicas como cidadão), afirma nunca ter concordado “(...) com ninguém a respeito de nada que fosse contra o justo, nem mesmo com nenhum desses que meus caluniadores dizem ter sido meus alunos.” (Platão, Apologia, 33a, tradução de André Malta, negritos meus). E Sócrates, então, continua assim: “Eu nunca fui professor de ninguém! Mas se alguém deseja me ouvir e realizar o que me concerne – seja mais velho, seja mais jovem –, isso nunca neguei a ninguém. (...) Mas eu mesmo, se algum desses se torna prestativo ou não, não posso com justiça levar a culpa: nunca a nenhum deles nem prometi nem ensinei lição nenhuma! E se alguém afirma que alguma vez aprendeu ou ouviu de mim, em particular, algo que todos os outros não, fiquem sabendo que não está dizendo a verdade.” (Platão, Apologia, 33a e b, sublinhados meus).

 Em conexão com a recusa deste lugar ou função de “mestre”, vem também a recusa de um saber constituído (ou doutrina) a ser transmitido, em prol de uma investigação ou um aprender a fazer boas perguntas (ou ainda um colocar e colocar-se em questão) – que supõe, portanto, um interlocutor e um diálogo como meio de conhecimento – que seria, em princípio, mais importante do que dar respostas pretensamente definitivas. No princípio do que poderíamos chamar de um outro conceito de saber estaria, então, a admissão desinflada da própria ignorância, tal como relatada no começo da Apologia de Sócrates de Platão: a indicação (a Querefonte, companheiro de Sócrates) pela Pítia de Delfos (mensageira do deus Apolo) de que não haveria ninguém mais sábio do que Sócrates leva este último, intrigado e certo de não ser ele mesmo sábio, a interrogar as figuras pretensamente sábias dos políticos, dos poetas e dos artesãos em Atenas, chegando em cada caso à mesma conclusão a que chegou quando interrogou o primeiro deles – “Sou sim mais sábio do que esse homem; pois corremos o risco de não saber, nenhum dos dois, nada de belo nem de bom, mas enquanto ele pensa saber algo, não sabendo, eu, assim como não sei mesmo, também não penso saber... É provável, portanto, que eu seja mais sábio que ele numa pequena coisa, precisamente nesta: porque aquilo que não sei, também não penso saber.” (Platão, Apologia, 21d, itálicos de André Malta).

E, no entanto, enquanto um bom questionador, Sócrates poderia ser creditado com uma outra espécie de saber: a de conduzir o interlocutor interrogado a admitir também que de fato não sabe o que pretendia ou julgava saber, colocando-se em questão e abrindo-se para um processo de aprendizado por natureza inacabado: o filosofar. Sócrates não é, portanto, um “professor” que transmite aos discípulos um saber definitivamente adquirido e um conteúdo já previamente formulado. Quando, n’O banquete de Platão, após ter se demorado a entrar (pois ficara parado meditando sozinho, junto à entrada da casa de Agatão), Agatão o convida dizendo: “Reclina-te ao meu lado, a fim de que ao teu contato desfrute eu da sábia ideia que te ocorreu em frente de casa. Pois é evidente que a encontraste, e que a tens, pois não terias desistido antes”, Sócrates, assentando-se, responderá: “Seria bom, Agatão, se de tal natureza fosse a sabedoria que do mais cheio escorresse ao mais vazio, quando um ao outro nos tocássemos, como a água dos copos que pelo fio de lã escorre do mais cheio ao mais vazio.” (Platão, O banquete 175 c-d, tradução de José Cavalcante de Souza).



Caberia, assim, ao interlocutor questionado por Sócrates encontrar por si mesmo, engajando nisso toda a sua existência (então colocada em questão), a sua verdade (em construção), que não pode lhe ser oferecida pronta e do exterior. Donde o papel – modesto, mas fundamental – de Sócrates como uma espécie de “parteira da alma” e a denominação de seu método como a “maiêutica”. No diálogo Teeteto de Platão, Sócrates diz, configurando bem os limites (e a natureza outra) de seu saber: “Minha arte maiêutica tem as mesmas atribuições gerais [que a das parteiras]. A diferença é que se aplica aos homens e não às mulheres, e é às almas que auxilia no trabalho de parto e não aos corpos. Mas o maior privilégio da arte que pratico é que ela põe à prova e discerne com todo o rigor se é aparência verdadeira ou mentirosa que engendra a reflexão do jovem ou se é fruto de vida e de verdade. Tenho, com efeito, a mesma deficiência que as parteiras. Dar à luz ao saber não está em meu poder e a censura que vários já me fizeram de que, ao colocar questões aos outros, não dou jamais nenhuma opinião pessoal sobre qualquer assunto, e que a causa disto é a nulidade do meu próprio saber, é censura verídica... Eu mesmo não sou sábio em nenhum grau e nunca encontrei por mim mesmo nada que o fosse, e que minha alma tenha de si mesma engendrado.” (Platão, Teeteto 150c-d, apud Francis Wolff em Sócrates da coleção “Encanto radical”, livrinho que aproveito para indicar aqui como uma excelente introdução).

Enfim, o que Sócrates visa, em suas inúmeras conversas com seus vários interlocutores na cidade de Atenas, é nada menos do que a transformação do modo de vida (ou existência) deles, concebendo a filosofia não apenas como um aprender a pensar, colocando-se em questão, mas também como um modo de vida (ou uma “arte da existência” para falar como Foucault) a ser constantemente reconstruído pela prática (ou exercício). Mais para o fim da Apologia de Sócrates de Platão, Sócrates diz: “Não me preocupei com aquilo com que se preocupa a maioria das pessoas: dinheiro e negócios, liderança do exército e liderança do povo, e demais postos e conchavos e agrupamentos que existem na cidade. (...) Por aí não fui (...), mas, me encaminhando para beneficiar cada um, em particular, com a maior benfeitoria – por aí sim (...) fui, tencionando persuadir cada um de vocês a se preocupar menos com seus próprios bens do que consigo mesmo, a fim de ser o melhor e o mais sensato possível.” (Platão, Apologia de Sócrates, 36b-c, sublinhados meus, tradução de André Malta corrigida a partir da de Pierre Hadot em O que é a filosofia antiga?, que nos serviu também de base na construção desta breve exposição sobre Sócrates).    

  1. Epicuro

“Como poderíamos pensar, hoje, em buscar nosso Soberano Bem num mínimo de consumo?” (Gérard Lebrun, “Um materialismo démodé”)



O grande interesse em expor brevemente o tipo de mestre e de ensinamento propostos por Epicuro (século III a. C.) está em sua sensível diferença em relação aos de Sócrates, tanto pelo uso da escrita (em suas três “Cartas” e suas “máximas”) quanto pela admissão pacífica do seu lugar de mestre, com a aquisição definitiva de uma tranquila sabedoria e sua transmissão aos seus discípulos (organizados em uma escola retirada da vida pública), que se reconhecem todos de maneira semelhante e obediente em relação a um mesmo mestre (como deixam ver, por exemplo, as inscrições feitas por um tal Diógenes em Enoanda, na Lícia, no século II d. C., ou a obra-prima De natura rerum do poeta latino Lucrécio).

Tanto nas exposições mais detalhadas de sua teoria física, como na Carta a Heródoto e na Carta a Pítocles, ou de sua ética, como na Carta a Meneceu, quanto na exposição mais resumida e direta (e fácil de ser memorizada) das Máximas, Epicuro jamais visa a uma mera descrição ou compreensão desinteressada do mundo natural e humano, mas sempre a uma espécie de terapêutica e cura de um possível discípulo, que, convertendo-se à doutrina, seria liberado dos sofrimentos e das perturbações da alma e atingiria uma tranquilidade básica que lhe permitiria, enfim, semelhantemente aos deuses, desfrutar de uma vida contemplativa. A filosofia aqui, portanto, é compreendida como uma terapêutica da alma, segundo o modelo da medicina.

Vejamos, então, resumidamente como a doutrina epicurista, aparentemente simples e singela, se propõe a curar as angústias e perturbações. Diferentemente de Platão, a finalidade última da vida humana para Epicuro não seria o bem, mas o prazer, o que acabou levando à identificação superficial da sua filosofia com o “hedonismo”, já que o prazer a ser sobriamente buscado, segundo Epicuro, seria apenas aquele que coincide com a satisfação de necessidades naturais básicas como a sede, a fome e o frio (ou seja: o alívio dos sofrimentos daí advindos), e vindo em segundo plano a satisfação (a ser moderada) de desejos naturais que não são propriamente necessidades como o sexo ou a boa bebida e comida, e, enfim, como algo a ser desconsiderado como inteiramente supérfluo e não natural (e causador das maiores perturbações, dada a possível insaciabilidade justamente aí), os desejos de riqueza, poder ou glória. Eis o que dizem algumas máximas concisas e diretas (Épicure, Lettres e Maximes da PUF, com texto grego e tradução francesa de Marcel Conche):

 “Dos desejos, uns são naturais e necessários, outros, naturais e não necessários, e outros, nem naturais nem necessários, mas nascidos da opinião vazia.” (“Máximas capitais”, XXIX)

“A voz da carne: não ter fome, não ter sede, não ter frio; pois quem tem tais coisas, e espera haver de tê-las, até mesmo <com Zeus> poderia rivalizar quanto à felicidade.” (“Sentenças vaticanas”, 33)

“Nada é suficiente pra quem o suficiente é pouco.” (“Sentenças vaticanas”, 68)

Mas seria preciso também ver mais diretamente o que, segundo Epicuro, apenas no plano das opiniões (e sentimentos), é figurado negativamente como um grande mal possível, causando perturbações: os deuses (por sua imaginada intervenção no destino dos mortais) e a morte (como cessação ou perda da vida).

Quanto aos deuses, a primeira “máxima capital” nos adverte sobre sua indiferença e não ingerência no mundo humano: “O ser bem-aventurado e imperecível não tem ele mesmo cuidados nem os fornece a um outro ser; de modo que ele não está sujeito nem à cólera nem à benevolência: pois tudo isto é próprio de um ser fraco.” Já quanto à morte, que atravessa – enquanto mistério e grave preocupação – boa parte da tradição literária e filosófica grega (e ocidental), valeria a pena nos determos um pouco mais no que é dito exemplarmente sobre ela na Carta a Meneceu: “Habitua-te a pensar que a morte não é nada em relação a nós; pois todo bem e todo mal está na sensação: e a morte é uma privação de sensação. Portanto, o correto conhecimento de que a morte não é nada em relação a nós, torna desfrutável o ser mortal da vida, não acrescentando (a ela) um tempo infinito, mas retirando (dela) o desejo de imortalidade. Pois não há nada  de temível na vida para quem realmente compreendeu que não há nada de temível em não viver. (...) Assim o mais aterrorizante dos males, a morte, não é nada em relação a nós, uma vez que enquanto nós existirmos, a morte não estará presente, mas quando a morte estiver presente, nós então não existiremos.” (Epicuro, Carta a Meneceu, 124-125, tradução e sublinhados meus).

O comentário bem-humorado e provocativo de Gérard Lebrun (no artigo citado na epígrafe) – ao retomar também a ideia físico-biológica epicurista de que o nascimento de um ser humano se deve a uma reunião de átomos e a morte a uma sua necessária desagregação – é bem esclarecedor: “‘Não verei mais a minha mulher, não afagarei mais os meus filhos...’ – Que te importa isso, pobre louco, responde o epicuriano: tua alma é mortal, e tu não mais existirás, em nenhum lugar, para chorar a tua ‘solidão’. Na verdade, essas jeremíadas devem-se a uma segunda ilusão. Não conseguimos conceber seriamente que seremos aniquilados por completo. Parece-nos que perdurará algo de nós, e que nos restará uma consciência para ter saudade da luz diurna (...). Mas apenas os átomos são imortais – e não esses frágeis compostos atômicos que são os corpos e as almas dos vivos.” (Lebrun, G., “Um materialismo démodé”, Folha de São Paulo, 11/08/1985, os sublinhados são do autor).

Caberia, enfim, para voltar à questão inicial do mestre e do ensino, uma boa e elementar questão quanto a um mestre, como Epicuro, unanimemente reconhecido por seus discípulos: com quem teria ele, por sua vez, aprendido ou se curado? Devemos à erudição tranquila e incisiva de Francis Wolff (no memorável artigo “Três figuras do discípulo na filosofia antiga”)[4] 2 não somente esta pergunta, mas também a resposta a ela: “A resposta de nossos textos ainda aí é sem ambiguidade e reproduz um esquema clássico nesta figura: o mestre é autoformado e não reconhece, ele mesmo, mestre algum; além disso, seus próprios discípulos afirmam que o mestre absoluto não foi discípulo de ninguém: ‘Apolodoro diz dele (Epicuro) nas suas Crônicas que foi discípulo de Nausifane e de Praxifane. Ele próprio o nega na Carta a Euríloco e afirma que não foi discípulo senão de si mesmo. E ele e Hêrmaco (seu primeiro discípulo) negam mesmo que tenha existido um Leucipo filósofo, do qual alguns (...) dizem que foi o mestre de Demócrito.’ (Diógenes Laércio X, 13, tradução de André Laks).” [Os sublinhados são meus].







[1] Ludmilla Féres Faria (EBP/AMP). Coordenadora da Comissão de transmissão da XXII Jornada EBPMG (EBP/AMP)Entrevista feita durante o XI Congresso da Associação Mundial de Psicanálise , Barcelona, 6 de abril de 2018.


[2] AME (EOL/AMP)

[3] Teodoro Rennó Assunção, doutor em História e Civilizações pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Paris), é professor associado de Língua e Literatura Grega Antiga na Faculdade de Letras (FALE) da UFMG. Co-organizador do livro Ensaios de retórica antiga (2010), é co-editor da revista Nuntius Antiquus (do NEAM da FALE) desde 2010, e também autor dos seguintes livros de ensaios/ficções: Ensaios de escola (2003), Autociografias(2006) e Extra-vacâncias (2008). 

[4] Eu gostaria de lembrar, ao citar agora este artigo de Francis Wolff, que ele é de algum modo dedicado a Gérard Lébrun, de quem tive a sorte e o prazer de ser aluno na USP em 1986, e a quem, de algum modo, reconheço ainda hoje como um mestre. F. Wolff compara aí ironicamente G. Lébrun a Sócrates, por ter sido acusado de perverter a juventude brasileira, quando poderia – também como Sócrates – dizer que não teve discípulos e nem tinha uma doutrina. Quanto a este último ponto, valeria a pena citar uma proposição livre de G. Lébrun (num tempo de adesões fanáticas e partidarismos intolerantes) citada pelo próprio F. Wolff neste artigo: “A tradição se desdobra diante de nós, com seus conceitos manipuláveis e deformáveis ao bel-prazer do operador. Ela nada tem, portanto, a nos dizer... É-nos concedida a liberdade de trabalhar sobre os textos e jogar com seu conteúdo sem que seja preciso muito esforço para ouvir.”





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