Loading – Eduardo Fonseca
Samyra
Assad[1]
É
possível extrair três dimensões a partir de todo um trabalho que se emparelha à
formação do analista depois da proposição sobre o passe e do domínio do
simbólico na civilização. Isso é permitido ler e depurar, por exemplo, na
experiência de luta contra a regulamentação da psicanálise pelo Estado desde o
ano de 2000 – ainda que outras tentativas tenham sido feitas nas décadas
anteriores e posteriores a essa época –, em função de um projeto de lei
elaborado por um deputado e pastor evangélico.
Arquivado
esse PL, posteriormente surgiram outros e, com eles, os incêndios que
apagávamos a cada novo PL que envolvia a teoria e a prática analítica. Daí se
deduz uma repetição ou uma insistência indesejável, e sempre nos perguntamos o porquê
disso. Ou seja, a que essa insistência responderia, diante da sede de sentido e
de números inerente à era do Mestre Contemporâneo? Sobretudo, observa-se essa tendência
homogeneizante atingir também o campo da formação dos analistas.
Logo,
o Mestre Contemporâneo e a formação dos analistas estão em jogo. Porém, os
representantes institucionais dessa causa prosseguem – agora não em oposição,
mas acompanhando e intervindo na própria política – nas interferências desse
discurso homogêneo na prática analítica. Sobre esse aspecto, é possível dizer que
tudo permanece girando em torno de uma única e mesma coisa: manter a
psicanálise fora de uma ética moral e a serviço do Estado.
Isso
se manteve tanto no regime de uma interdição, do simbólico (séc. XX, metáfora, análise
leiga), quanto no regime do gozo, do real (séc. XXI, metonímia, caráter
ilimitado e universal da oferta quantificada de formação por internet). Ou
seja, a psicanálise se coloca sempre como avessa ao discurso do Mestre, dado o
caráter subversivo que lhe é inerente. O lado mais subversivo da psicanálise
será para sempre objeto de uma espécie de sufocamento por parte dos discursos
dominantes.
Uma
perspectiva atual que se apresenta aí é a de que, mesmo a psicanálise não sendo
regulamentada, o domínio de formadores religiosos está colocado e sendo
exercido há muito tempo, e, na maioria das vezes, em silêncio. Ao longo dos
tempos, portanto, percebeu-se que, à medida que íamos evoluindo no percurso
dessa batalha em nome da defesa pela ética da psicanálise, tal como Freud e
Lacan a deixaram como um legado, víamos crescer as indevidas apropriações de
conceitos analíticos, tais como o de “análise leiga” (em que todos poderiam
exercer a psicanálise, desde que obedecidos os critérios de alcance da carga
horária), de modo que, por outro lado, à defesa da psicanálise sucedeu a
necessidade de se formar opiniões. Era necessário informar (à sociedade, ao
poder legislativo, às universidades, às Escolas, às instituições
psicanalíticas, aos Centros de Saúde, à AMP, a Deus...), com fundamentos bem
elaborados, sobre o perigo que a prática analítica corre ao ser usada para
veicular ideais religiosos, ou mesmo o discurso religioso, o que hoje concluo
existir em todo lugar. Está tudo dominado... Aqui, o Mestre Contemporâneo e o
discurso religioso parecem se equivaler.
Mas,
pelo que pude acompanhar a partir do ano de 2000, e ao longo desses cinquenta
anos que se passaram depois da proposição de Lacan sobre o passe, em outubro de
1967, torna-se possível elencar três tipos de autorização na formação dos
analistas, quais sejam: a burocrática, a grupal e o passe.
Autorização
burocrática
Até
hoje a psicanálise não foi regulamentada oficialmente, talvez pelo fato de a corrupção
geral no Brasil ter tomado o lugar de toda a cena política atual. Mas não. Antes
mesmo de concluir este texto, já estamos diante de outro projeto a fim de regulamentar
a psicanálise – que deve ser o 5º ou 6º desde o ano de 2000 –, elaborado pelo
deputado Telmário Mota, e outro que, felizmente, foi recentemente abolido,
introduzido sub-repticiamente na Universidade Federal do Espírito Santo para
que, dentro de uma universidade, pudessem ser distribuídos “títulos” de
psicanalista. Nada mais incompatível com o lugar do psicanalista, que provêm
das formações do inconsciente, de sua própria análise cujo tempo é sem duração,
fora e longe do enquadre de carga horária exigida para isso.
Há ainda
outro aspecto: uma autorização burocrática é dada basicamente via diploma, ou
seja, a psicanálise é exercida por muitos que se formaram numa instituição
presidida por um pastor evangélico, criada em 1996, denominada SPOB (Sociedade
Psicanalítica Ortodoxa Brasileira). Desde aí, a cada dois anos, dois mil alunos
são “formados” e, com seus diplomas e carteiras profissionais, ganham o “título
de psicanalista”. Por conseguinte, cada um desses alunos funda outra
instituição, tal como o presidente objetiva permanecer em sua posteridade e
também como se deduz de um suicídio na eternização do ser de gozo do sujeito[2],
como Lacan explicita na tragédia de Antígona.
Parece se tratar de um suicídio (ou assassinato) duplo: tanto da religião
quanto da psicanálise.
Quanto
à religião, esse “suicídio”, de certa forma, já foi apontado por Freud em 1929,
em seu texto “O mal-estar na civilização”[3],
quando se refere a ela como uma das saídas para o sofrimento – entre outras
saídas, drogas, sublimação, ciência, isolamento, amor sexual, estética e fuga
para a enfermidade neurótica. Assim, em relação à religião, Freud se refere ao
fato de que esta traz a formação de um sentido para a vida, mas, ao mesmo
tempo, enfim se desmorona com o sistema religioso.
Quanto
à psicanálise, esse indesejável destino burocrático-religioso tomado aqui como
um suicídio, ou exposta a um determinado assassinato, se coloca no sentido de
permitir que isso aconteça, que seja regulamentada, e mais, sob a égide da
causa de ideais religiosos (o sacrifício e a culpa) e em nome do domínio do
poder econômico ou de algum empreendimento particular.
Autorização
grupal
Outra
perspectiva é a de que a psicanálise já pode estar regulamentada pela
autorização grupal de algumas sociedades psicanalíticas. Mantém-se uma
hierarquia que facilmente pode se pressupor. Trata-se de um contraponto trazido
pela distinção de uma orientação lacaniana, a saber, ao que se deduz da frase
de Lacan “tudo deve girar em torno dos escritos que surgirão”.
Ainda
assim, diferentes instituições, com suas respectivas orientações, de modo
inédito, se juntam em torno de uma causa comum e inegociável: defender a
psicanálise dos tentáculos burocráticos e religiosos. É um movimento constante[4],
necessário, que abre espaço para outros discursos e alcança uma boa
representatividade social e política, ainda que o enfrentamento com as
autoridades estatais seja contingente.
Conclusão:
autorização pelo passe
Reafirmo
a aposta de que a psicanálise pura (autorização pelo passe) também possa
intervir sobre os ideais sociais e políticos, explicitando o laço libidinal de
cada sujeito com a formação analítica, singular por excelência, em detrimento
dos analistas de papel. Outro tipo de prova para o desejo em relação à causa
analítica.
[1]
Samyra Assad: EBP/AMP
[2]
LACAN, J. “O Seminário” In: A Ética da Psicanálise,
vol. VII. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1988, p. 342.
[3]
FREUD, S. “O mal-estar na civilização”, vol. XXI, Obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora,
1969, p. 94.
[4]
Trata-se do Movimento da Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras,
com reuniões semestrais na cidade do Rio de Janeiro. Represento a EBP nesse
movimento com outras quinze instituições psicanalíticas.

