Falsa conexão[1]
Marcela Antelo [2]
A falsa conexão, associação, ligação, enlace (falsche Verknüpfung) é a mais antiga das falsidades que a Psicanálise soube ler e a
mais moderna da qual sabe se servir, muito antes que o fake se tornasse o significante mestre, imperador dos discursos em
ação.
Frau P. J., Emma, Emmy de N., Cecilia M. constituem casos que levam Freud
a estabelecer a falsa conexão, mésalliance, como nome da transferência[3]. A
descoberta apresentou-se já no caso de Frau P. J., jovem cantora de vinte e sete anos,
apaixonada pelo marido viajante. Após três meses do casamento, quando
depositava no piano suas saudades, um emaranhado de acontecimentos de corpo a
levou a pensar que estava enlouquecendo. No dia seguinte, já dissipada a crise
de angústia, ouviu sua empregada relatar o enlouquecimento de uma vizinha.
Instala-se aí a obsessão acompanhada de angústia, que, para Freud, constitui a
essência do caso.
O Rascunho
J pertence à pré-história da psicanálise, tempo da sugestão como método e
de um Freud que sabia de antemão o que queria encontrar em um caso. Empenhado
em romper o duro muro da hipocrisia da moral sexual civilizada e não sabendo
ainda onde localizar a sexualidade, encontrava-a por todos os lados.
O que eu esperava encontrar era o seguinte. Ela alimentava um desejo
intenso pelo marido - isto é, o desejo de ter relações sexuais com ele; com
isso, veio-lhe uma ideia que excitou o afeto sexual e, depois, a defesa contra
a ideia; a seguir, ela foi assaltada pelo medo e fez uma falsa conexão ou
substituição[4].
Pressionando a testa de Frau P. J., que dizia nada lembrar do que antecedeu aos
acontecimentos, ele obtém os significantes ‘marido’ e ‘desejar’. Freud, perseguindo
o gozo, escava: Saudades de carícias sexuais. Ela consegue lembrar que cantava
a seguidilla do Ato I, cena 9 de Carmen, de Bizet, e quando finalizou o canto, o ataque teve lugar. Levada
pela letra, escreve Freud. Da letra da ária ao acontecimento de corpo.
Freud lhe explica que foi um extravasamento amoroso. Ele pergunta se ela
conhece a cançoneta do pajem do Ato II de Fígaro, de Mozart: “Vós que sabeis que coisa é
o amor, senhoras, vejam se eu o tenho no corpo...” [Voi che sapete che cosa è amor, Donne vedete s’io l’ho nel cor...] Freud
quer algo mais, até que obtém o acontecimento de corpo concomitante, um desejo
convulsivo de urinar, e, bingo!, conclui que tinha sido realmente um orgasmo.
Uma versão do “elas nada dizem” de Lacan, do Seminário 20, surge no texto: “A insinceridade das mulheres começa
quando elas omitem os sintomas sexuais característicos ao descreverem o que
sentem”[5].
Em uma instigante contribuição da EOL ao Congresso Internacional sobre a Transferência,
centrada no tema dessas notas, podemos ler a série que interessa investigar: “Eis
aqui os significantes que ordenam esse trabalho: Inconsciente, transferência,
falsa conexão, feminilidade”[6].
Freud, legitimando a conexão marido/desejo – “Nada do que uma jovem
esposa deva se envergonhar” –, obtém um: “pelo contrário, – opina ela –, é algo que deve ser assim”[7], pérola que ele deixa
passar, intromissão do dever gozar que também não poderemos abordar aqui.
Freud insiste: deve haver algo mais que causa o medo. Na sessão
seguinte, ele obtém a cena II, mas sem conhecer “justamente o ponto de
enodamento”[8].
A imagem mnêmica do orgasmo conduz a jovem quatro anos atrás, quando, ao voltar
de um ensaio em um teatro, tem a ‘visão’ de estar em uma briga com um tenor e
um outro homem. Dois dias antes da crise fundacional, já perturbada pelas
condutas licenciosas de ‘todo o povo do teatro’, um tenor colocou a mão em seu
seio, inaugurando a via da falsa conexão entre a letra e o corpo. Frau P. J. #Metoo voa do consultório de Freud: “Interrompido pelo sumiço da
paciente”[9].
Só uma falsa conexão librada à contingência pode desbaratar o ser
que goza sem querer saber de nada. Gozo fálico como anomalia. Uma falsa conexão,
regra da metonímia, não respeita o sentido, burla-se dele, é parente do
equívoco, da mentira primordial, a próton
pseudos, do engano, da verdade mentirosa, da méprise, da equivocação (l’une
bévue), do falsus do sintoma. “O
inconsciente não é que o ser pense, o inconsciente é que o ser, falando, goze e
não queira saber nada mais disso: não saber absolutamente nada”[10].
Lacan ensinava em “A terceira” que, na medida em que algo se
estreita (se restringe) no simbólico, tudo o que concerne ao gozo,
especialmente o fálico, também se estreita. Via do falsus.
[1] Texto escrito à
convite da Coordenação do Boletim Enxame, após intervenção no 1º Seminário
preparatório da XXII Jornada EBPMG, em
08/03/2018.
[2]
Psicanalista na Bahia. AME (AMP/EBP).
[3] Freud, Sigmund,
[1893-1895] “Estudos sobre a histeria”. IN: Strachey, J. (Ed. & Trad. J.
Salomão) Edição Standard Brasileira das
Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 2. Rio de Janeiro: Imago,
1986, p. 306. Primeira aparição do termo Übertrragung no sentido próprio.
[4] Freud, Sigmund, [~1895] “Rascunho J”. IN: Strachey, J.
(Ed. &
Trad. J. Salomão) Edição Standard
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 1. Rio de Janeiro: Imago, 1986, p. 162.
[5] Ibid., p. 162
[6] Vv. Aa, (EOL/BIP) “Las falsas conexiones”. IN: Las estrategias de la transferencia en
Psicoanálisis, Volumen preparatorio del VII Encuentro Internacional del
Campo Freudiano/Caracas, 1992, Asociación de la Fundación del Campo freudiano. Buenos Aires:
Manantial, 1992, p. 200.
[7] Ibid., p. 163. Tradução para o
português: “algo a ser aprovado”
[8] Ibid., p. 163. Tradução para o
português: “Mas eu não conhecia seu ponto de partida”.
[9] Ibid., p. 164.
[10] Lacan, Jacques,
“A terceira”. IN: Opção lacaniana, São
Paulo: Edições Eolia, n. 62, dez. 2011, p. 30.

