Pedro Moraleida (1977 – 1999): O ser humano
enquanto metáfora, s/d.
As identidades, uma política, a identificação, um processo e a
identidade, um sintoma
Por Marie-Hélène
Brousse
O século XX viu crescer um movimento de reivindicação que tinha
suas raízes no que chamarei a revolução universalista: o feminismo. O século
XXI vê o desdobramento de um novo movimento de reivindicação que mobiliza outro
significante, um significante novo: o gênero. O termo não é novo. Pertence à
língua desde a antiguidade e designa a classificação de conjuntos relacionados
por algumas similitudes. Quase universalmente presente na gramática das línguas
– masculino, feminino ou neutro – associado ao nome, inscreve a marca da
diferença sexuada no funcionamento das línguas chamadas naturais. Se o termo,
polissêmico, é antigo, o uso que se faz atualmente do mesmo e os estudos que o
promovem não os são.
Conseguiu impor-se e reorganizar o conjunto dos discursos. Este potencial
obriga, com efeito, levá-lo em conta de maneiras muito diferentes e inclusive
antagonistas. Está ligado a outros dois significantes de crescente importância
no discurso: identidade e minoria.
Identidade e
gênero: algumas referências
Sou psicanalista e, portanto, abordarei o gênero e a identidade a
partir desta disciplina. Algumas referências são necessárias. A primeira
concerne à linguagem. Nossa matéria, essa com a qual operamos, é a linguagem, -
e Lacan a põe em evidência de maneira retroativa em sua leitura de Freud - a
língua falada de todos os dias, a linguagem corrente em sua materialidade, o
som. Porém, essa linguagem está moldada por um discurso que Lacan formalizou, o
discurso do mestre. O inconsciente, tal como se manifesta na análise, é seu
oposto. A psicanálise não é uma ciência das profundezas da psique, é uma
disciplina do que retorna. A cadeia da palavra do analisante, tomada na
estrutura do discurso do mestre, segundo uma topologia de banda de Moebius, dá
a volta. Como as línguas naturais, os discursos se transformam e os significantes-mestres
que orientam os efeitos de sentido, de sentido comum, surgem e declinam. O
gênero substituiu o sexo como significante mestre (Sexe/Gender). Esta
substituição tem, evidentemente, implicações e consequências.
Os
discursos de gênero têm sido introduzidos majoritariamente pela língua inglesa
e têm conhecido primeiro um êxito crescente nos USA. Os assuntos da vida sexual
sempre tiveram nos USA, assim como no Reino Unido, uma incidência política mais
forte que na França. Sem dúvida as raízes puritanas e protestantes presentes no
discurso em língua inglesa têm efeitos diferentes dos engendrados pelo catolicismo.
A dificuldade para traduzir nesta língua, de maneira adequada, o termo
lacaniano de Gozo, é prova disso. O termo gênero evita o equívoco sempre
presente no sexo que, masculino ou feminino, assegura uma função
classificatória e, indissociável de Eros, tem sempre um valor erótico na
língua. Além disso, o termo gênero sai do binário construído com a reprodução
para introduzir um terceiro termo, o neutro. Poderia sustentar cada uma dessas
afirmações em elementos da psicopatologia da vida cotidiana: utilização de banheiros
públicos, reivindicação de neutralidade sexual escutada há três anos ao vivo em
um evento paralelo sobre The Empowerment
of Women na ONU, na entrevista com o professor Jack Habelstram do
departamento da American Studies and
Ethnicity, Gender Studies and Comparative Literature de la Universidade do
Sul da Califórnia, especialista em estudos Queer.
O enunciado da disciplina, sem dúvida bastante complicado, que acabo de citar
por inteiro, mostra que o significante “gênero” está em correlação com o de
“etnia” e o de “minorias” e o “Queer”.
Esta entrevista está publicada no nº 2 de The
Lacanian Review, “Sex all over the
palce”, título dado por outra universitária estadunidense, Joan Copjec,
muito conhecida por ter introduzido e publicado Lacan nos USA – particularmente
Televisão – na revista que ela
dirigia então, October. Se o gênero já não determina o sexo na suposta
diferença, reduzida à anatomia, entre homem e mulher, surgem então duas
perguntas:
O gênero substitui a identidade sexual? Onde se muda a função
erótica que os “sexos masculino ou feminino” situavam, ou pretendiam situar, a
serviço dos sistemas de parentesco, sob o controle da anatomia? Resposta: ”all over the place”.
Uma
modificação histórica do discurso
A psicanalista que sou aborda os debates e enfrentamentos atuais
sobre gênero e identidade de uma maneira não polêmica. A psicanálise sabe do
poder dos significantes mestres sobre os parlêtres,
porém sabe também que este poder se baseia em dois elementos: o poder dos
semblantes em geral e as condições para que um significante, sempre vinculado a
uma época, possa, mais além de seu surgimento forçosamente minoritário,
impor-se majoritariamente como dominante. A partir desse lugar tem, então,
função de verdade. Um estudo crítico da identidade e do gênero é a ocasião para
a psicanálise, não somente para continuar elaborando a noção do discurso do
mestre, mas também para estudar – em tempo real – sua modificação histórica em
seu percurso pelas ocorrências da palavra dos analisantes. É um dos modos de desdobrar
a psicanálise de orientação lacaniana em suas últimas inovações. Assinalo
assim, o estudo que Jacques-Alain Miller fez do ultimíssimo Lacan extraindo uma
modificação do discurso e da prática analítica sobrevinda neste último período
de seu ensino: o acréscimo ao inconsciente freudiano, obtido por decifrado e
transferência, de outro inconsciente nomeado como inconsciente real. É mais
acertado dizer que ao inconsciente transferencial se acrescenta o inconsciente
real, segundo a topologia posta em evidência do laço entre sexualidade fálica e
sexualidade não-toda fálica. O inconsciente real não está fora do valor fálico,
porém não está completamente regido pela metáfora. O sujeito do inconsciente
não é o único objeto em jogo na análise. O corpo falante também joga a partida.
Pluralização
da noção de identidade e fim da ideia de unidade unificadora
Estabeleçamos de entrada que o “gênero” designa uma das formas
compreendidas na identidade. De fato, este outro termo também está em voga. Se
digo “uma das formas”, implica uma pluralização da noção de identidade:
identidade sexual ou assexuada, porém também nacional, grupal, ética, racial,
religiosa, espiritual, econômica, política, etc. Esta pluralidade, que as
ocorrências do discurso do mestre atual faz patente, paradoxalmente é o
contraponto de uma concepção da identidade que caracteriza um indivíduo em sua
singularidade e em sua totalidade: uma identidade ideal, minha identidade, o
que sou, totalmente e em todo tempo e lugar; é pois, uma identidade unificadora
ou inclusive, como a orientação fenomenológica o desenvolveu, uma unidade
intencional. Em sua intervenção em um colóquio na Universidade John Hopkins em
Baltimore, em 1966, Lacan fala nesses termos: “Os grandes psicólogos e,
inclusive os psicanalistas, estão imbuídos da ideia de personalidade total. Em todos os casos trata-se da unidade
unificadora que é posta em primeiro plano. Nunca o compreendi, porque se sou
psicanalista, não por isso sou menos homem, e enquanto tal, minha experiência
me provou que a principal característica de minha vida de humano... é que a vida
é algo que, como dizemos em francês, vai à deriva... A ideia da unidade
unificadora da condição humana sempre me fez o efeito de uma mentira escandalosa”.
À deriva de que? À deriva dos significantes, para começar.
É o que demonstra esta explosão do termo identidade e sua
pluralização consequente. Além disso, desde Freud, a divisão subjetiva,
correlativa à introdução da hipótese do inconsciente e sua verificação pelas
manifestações que o produzem, opõe-se a esta identidade enquanto unidade
unificadora. Podemos então acolher a elevação da identidade e do gênero ao
nível de significantes mestres, em discursos com uma enunciação reivindicativa
ou angustiada, como a demonstração do que a psicanálise afirma sobre o sistema
psíquico desde os primeiros trabalhos da disciplina e que até agora só a
prática analítica verificava. Contudo, está
o eu e a cognição, objetos de sua disciplina que vão de vento em popa,
inclusive seu campo é difícil de definir, entre o cérebro e a lógica. O eu, no
ponto de vista da análise, tampouco pode pretender a unidade, já que ele também
consiste em “pensamentos com palavras” que escapam ao controle, mas não ao mal-entendido.
Quer dizer que não há unidade? Certamente não, mas é certo que não há que
esperar nenhuma unificação por esse lado.
É algo estabelecido desde a formulação do cogito nas Meditações,
do qual Lacan diz que a base epistemológica que constitui para a ciência é uma
das condições de possibilidades da psicanálise. “Eu sou” é válido no instante
de sua enunciação.
De
onde vem, que funcionemos como parlêtres
com a evidência de que somos sujeitos, desde sempre, sujeitos à dúvida, à
incerteza ou à crença, e não obstante mais ou menos unificados e tanto mais
assertivos quanto menos seguros? É aí onde a psicanálise pode dar uma virada
neste conceito mostrando que a identidade não está aí onde ela se pensa.
A identidade
é de papel
No curso, essencial, do ano de 2006-2007, Jacques-Alain Miller esclarece
uma solução de continuidade crucial no ensino de Lacan. Isto não quer dizer uma
anulação ou um repúdio do ensino anterior, mas sim, uma mudança de acento e inclusive
de dimensão. No curso de 17/01/07 faz um desenvolvimento da noção de identidade
que voltará a trabalhar nos cursos de 14/03/07 e de 30/05/07 a partir de
mecanismos de identificação. “Esta prioridade do Outro está marcada no mais
profundo da identidade do sujeito, a constitui. Podemos, inclusive, dizer que
Lacan se esforça em pôr unilateralmente do lado do Outro tudo o que é para o
sujeito constituinte”. A dimensão do imaginário por onde começou seu trabalho
inovador de leitura de Freud “dá à imagem virtudes simbólicas” e o
desenvolvimento da dimensão do simbólico, a partir do inconsciente estruturado
como uma linguagem, o reforça definitivamente. A identidade está do lado do Outro,
tanto das imagens rainhas como dos significantes mestres, não lado do sujeito,
efeito de linguagem. Escutava dois analisantes: um falava de um sonho, o outro
de uma lembrança de sua chegada à França onde depois fez sua vida, sendo hoje
cidadão deste país.
Nas formações do inconsciente, estava em primeiro plano a
identidade sob a forma de “documentos de identidade” – carteira de identidade, cartão
de seguro social, cartão de crédito ou também passaporte do país de origem –
que um ato falho lhe havia feito esquecer, no dia de sua chegada, com sua
carteira no teto de um taxi no momento de pagar a corrida. A identidade do sujeito
são os documentos emitidos pelo Outro. Outra referência clínica: minha entrada
nos USA e o documento da imigração.
Isto
me leva a fazer uma precisão. Em uma entrevista, uma paciente hospitalizada
depois de uma tentativa de suicídio, desorientada, e que não sabia mais quem
era nem o que queria, evoca um momento de sua vida, a melhor época de sua
existência. Quando lhe pedi que me explicasse, respondeu: “eu lhe disse,
trabalhava em um bar como ‘garota alegre’ (fille de joie) então estava alegre
(joyeuse)”.
A identidade era sólida. Por que? Porque não havia metáfora. Porque
“garota alegre” é alegria (“fille de joie” é “joie”). Este elemento clínico
mostra ao contrário, que o Outro estabelecido por Lacan funciona a partir da
articulação mínima de S1 com um S2, permitindo a substituição de S2 a S1, de S3
a S2, etc. Em cada substituição se produz um efeito de sentido que é essa
deriva da qual fala Lacan em Baltimore. De tal maneira que a identidade, salvo
efeitos de sentido estrito ou de capitón, escapa e foge do sentido que faz às
vezes, em geral, de realidade.
A identidade, e o gênero como identidade sexual, são do Outro e estão
no Outro. Não se deriva daí nenhuma unidade, nenhuma unificação, tampouco. O que
é novo hoje é que tem aparecido receitas alternativas às que estavam em jogo no
laço social. Isto é tudo e muito. O avanço das identidades e do gênero, que
aspiram ao estatuto de significantes mestres no discurso contemporâneo, é a
consequência da perda de hegemonia do discurso do mestre em vigor nas sociedades
tradicionais, situadas sob a dependência do nome do Pai, semblante que tinha
uma função de poder. A ciência e suas técnicas, todavia, não transformaram a
reprodução humana. O nome do pai permitia definir o masculino e o feminino pela
reprodução da espécie no seio do sistema de parentesco, a identidade sexual era
definida pelo binário presente tanto no imaginário como no simbólico. Já não é
assim, porém a multiplicidade das identidades não modifica em nada seu modo de
funcionamento. Ainda estão no Outro e tentam propor novos modos de emprego do
laço social. É demonstrado pelo julgamento que Jaime Shupe ganhou em Oregon, a
que um juiz acaba de autorizar a converter-se na “primeira pessoa legalmente
não binária”. Declarou: “I am not male, I am not female”, “Não sou um macho,
não sou numa fêmea” e é fotografado com sua esposa depois de sua vitória
jurídica (1). Nega-se a ser representado por um significante para outro
significante: nem S1, nem S2. Não é transgender.
Nega-se porque crê nisso, o gender,
tentativa de reduzir o sexo ao significante e à função de semblante.
É aí onde se capta uma tendência que está produzindo uma
modificação do Outro ou no Outro. Lacan em uma conhecida nota a um Congresso da
Escola Freudiana em 1968, fala do “vestígio, a cicatriz da evaporação do pai”.
Há dois pontos nesta fórmula: o pai se evapora, seu domínio vai declinando.
Mas, também, posto que o pai está ligado à formula da metáfora, substituição
que produz o sentido, a metáfora perde potência no discurso e com ela o semblante.
Numerosos analistas das modalidades do discurso nas últimas eleições nos USA,
destacaram a desconexão entre o discurso e os fatos, os quais, como demonstra Jacques-Alain
Miller no curso de 2006-2007 ao que me refiro, estão no primeiro nível da
interpretação. Está se produzindo um corte radical entre o discurso e a
interpretação, efeito do triunfo da significação sobre o sentido e, portanto, do real do discurso sobre a
realidade. O real se emancipa “dos emaranhados do verdadeiro” e “é o que
permanece ao excluir o sentido”.
Em
psicanálise, identificação ao invés de identidade
Freud situava em Psicologia
de massa e Análise do eu, três níveis de identificação. Os três faziam do
Outro o principal ativo da identidade. O primeiro mecanismo deste processo de
identificação é ao pai pelo amor, estabilizando a realidade. O segundo processo
está definido por Freud a partir da histeria, sabemos de seu laço de discurso
com a psicanálise. Jacques-Alain Miller propõe chamá-lo, e é extremamente
esclarecedor, identificação participativa a um outro enquanto que este outro,
este semelhante, falta. A terceira é a identificação ao traço unário, não
importa qual, contando que esteja no Outro, que Jacques-Alain Miller define
como a identificação a um traço qualquer, aleatório, poderíamos dizer: Pai, S
barrado, Sq.
Agora,
o último ensino de Lacan modificou a situação dos mecanismos de identificação.
Já não se trata dos modos de identificação do sujeito enquanto que representado
por um significante para outro significante, nem do laço S1-S2. A linguagem e o
discurso seguem tendo a prioridade, porém o sujeito, categoria simbólica, dá
lugar ao parlêtre ou ser falante. Daí
deriva outro processo de identificação que surge não do Outro, mas de Um-Corpo
(Un-Corps), como o demonstra Jacques-Alain Miller. Evidentemente, isto conduz
ao tema do ego, em torno do qual Lacan faz girar seu estudo de Joyce e do qual
depreende seu ultimíssimo ensino.
Então
encontramos em um primeiro plano não tanto a noção de identificação, mas a “de
pertencimento, de propriedade”. Pela via do sentido, incluído o da bela forma,
o Outro apenas dá, pelos processos de identificação, falta-a-ser, enquanto que
Um-Corpo (Un Corps) não se captura mais que por sua consistência. No lugar do amor
pelo Outro, o pai vem à adoração do corpo, mistura de imaginário e de real,
Um-Corpo (Un Corps) produto do Um que escapa à tenacidade da metáfora e do
Corpo. Todavia, Lacan já havia construído uma teoria do narcisismo despojada
das vertigens do imaginário em proveito do real do vestígio. O passo seguinte
consiste em definir o corpo, não pela sua imagem e como consequência, o
sentido, mas como corpo gozante organizado pelos orifícios corporais que Freud
já havia destacado na correspondência com as pulsões. Esses buracos emitem
sentido enquanto provém das experiências de gozo e depois o aspiram, uma vez
que o gozo está fora de sentido. Localizados em Um-Corpo, funcionam como
marcadores, espécie de escritura indecifrável, porém inscrita.
Desidentificação:
a volta da identidade
Um passo adiante foi dado por Jacques-Alain Miller em 14/03/07 em
sua leitura do seminário seguinte ao 24. Irei à essência da fórmula e a
radicalizarei. A identificação ainda está no Outro e é um processo essencial.
Porém, o Outro não dá uma identidade única, mas dá ao menos duas. O Outro é a
condição da constituição de nosso marco, nosso acesso à realidade, fundada na
falta. Ele empresta os significantes que desfilam nas identidades de papel que
se atropelam, se contradizem e que em uma análise caem como pele morta.
A única identidade que se sustenta, que tenha uma consistência é o
que Jacque-Alain Miller propõe chamar a identidade symptomale, que não é do sujeito, mas do Uno, Um sozinho, do corpo
do qual não podemos escapar, de seus buracos, que a contingência dos
significantes pôs para funcionar em experiências únicas próprias de cada um,
experiências “triviais e sem igual”.
É
o sentido da expressão de Lacan “identificar-se a seu sintoma”. Como se produz
em análise este processo? Por extração e redução. Trata-se de desprender-se do
Outro, ficando ali, posto que não há outro do Outro, trata-se de extrair dessas
experiências as marcas indeléveis que nos deixaram e de alcançar, por redução,
o modo de gozo sintomático do sujeito. Extração dos momentos em que um dizer
marcou esse Um-Corpo, redução dos enunciados, desvelamento da enunciação, são
as condições para formular uma identidade a partir do sintoma, que não por ser
fruto do azar, não deixa de ser a única garantia de unidade. Uma vez posta em
evidência como significação fora de sentido, todos os impedimentos, os enredos
que produzia e que estavam feitos de sentido, caem. De alguma maneira, positivar
o sintoma, ao preço da queda do sentido e da interpretação.
1.
Le monde, sábado 11 de junho de 2016.
Tradução: Kátia Mariás
Revisão: Miguel Antunes
Nenhuma Mulher no século 21 (No Women in the 21st Century)
Por Natalie Wülfing
O que são mulheres no século 21?
Podemos mesmo dizer “mulheres”? É possível
usar este substantivo no plural ou ele está ficando sem sentido? Estas questões
sempre me intrigaram. Se o conjunto “mulher” não é um conjunto fechado, mas um
conjunto aberto, isso significa que há um número infinito de maneiras de ser
uma mulher. Nenhuma mulher é como a outra. Neste caso deve haver apenas
exemplos singulares de mulher, tal como a clínica revela. Isso coloca, então, a
questão do paradigma para mim, o principal exemplo que traz algo de um molde
para similaridades. Um paradigma, por definição, generaliza o que é diferente
para cada um e devemos ter isso em mente quando usamos o plural “mulheres”. Eu
chegarei a este ponto mais adiante.
A palestra do Pierre-Gilles Gueguen, no
mês passado, sobre as tábuas da sexuação e a subversão da lógica aristotélica,
mostrou-nos o que a própria subversão acrescenta aos limites da lógica em jogo
na tábua: quando há um conjunto fechado, há também uma exceção. A função fálica
dita a existência de uma exceção que organiza o conjunto. No lado masculino,
todos dizem “sim” à função fálica. Acontece que tal totalidade de conjunto não
existe. Nenhum conjunto é completo, nenhuma exceção realmente existe e nenhum
enunciado universal é possível. Em seguida, no lado feminino, temos a dupla negativa.
Nenhuma mulher diz não à função fálica, mas alguma parte (nela), sim, diz “não”
à função fálica – que é seu gozo feminino. Esta “alguma parte dela” a faz
singular e apenas apreensível uma a uma. Nenhuma mulher é como a outra, mas
isso se refere a seu gozo singular, isso não se refere ao que, dela, diz “sim”
à função fálica. Nathalie Charraud1 esclarece o não-todo dizendo que
em cada mulher que há uma recusa a reconhecer a exceção em qualquer outra,
portanto nenhuma totalidade pode ser formada, delas, como conjunto. Assim, um
todo só é possível quando um ponto de exceção é conhecido por todos, e isso
nunca acontece.
Do ponto de vista da matemática pura ou da
pura lógica, esta é uma ideia muito difícil de se seguir, e eu não vou tentar
fazer isto, mas as questões que são abertas neste sentido dizem respeito ao
valor do significante “mulher” como tal. Sabemos com Lacan, e Pierre-Gilles
Gueguen deixou isso bem claro em seu artigo, que não podemos falar de “A”
mulher como um todo, como uma totalidade. A mulher não existe, da mesma forma
que o Outro não existe, mas isso não significa que tentativas de fazê-la
existir não sejam feitas.
Se não podemos falar da totalidade da
mulher, podemos falar de uma mulher, uma em particular? Isso também não está
tão evidente. Nós só podemos falar de gozo feminino como aquilo que é diferente
para cada uma, mas é muito difícil falar de gozo feminino do modo como o
encontramos na clínica, já que é definido como o que não pode ser dito. E na
clínica não se trata de um dado, mas de uma noção com a qual se deve estar
sintonizado (attuned to) e ser capaz
de acomodar (accommodate). Isso é o
que faz do analista, de fato, alguém que pode acomodar o gozo feminino e estar
sintonizado com ele à medida em que isso emerge como resultado do esclarecimento
das identificações que o obscurecem. Na doutrina lacaniana não se pode ser
analista até que se tenha reconhecido este ponto em si mesmo, e em seguida,
demonstrado isso através do Passe, por meio do qual o significante do Outro
barrado e o correlato gozo feminino recebem sua sanção.
No entanto, vou falar menos sobre o gozo
feminino do que sobre fenômenos gerais que se relacionam com as mulheres de
hoje, sobre os quais eu leio e também observo na minha própria realidade
psíquica, que é meu ambiente. Vou oferecer tais fenômenos a vocês, a fim de que
corroborem ou não, conforme o caso. Não se trata, portanto, de paradigmas, mas
de padrões que eu notei, e a particularidade destes só se manifesta na
diferença que pode ser observada quando comparados a padrões de outras décadas.
Relacionada à questão da feminilidade,
coloca-se, precisamente, a questão de como alguém pode ser universal em
psicanálise. De certa maneira, quando se trata de universal, não se trata de
psicanálise. Isso também inclui uma questão, a saber: se a mulher é uma
categoria, coletivisável, e eu penso que não. Com Lacan sabemos que ninguém
sabe o que é uma mulher e não podemos ter uma categoria que ninguém sabe como
definir. Isso me levou a avançar e a questionar se as mulheres sequer existem,
ainda – daí o
meu título “Nenhuma mulher no século 21”. Eu digo isso à luz do fato de que nós
estamos partindo da premissa de que algo mudou no século 21, e que, o que antes
era um termo usado pelo outro sexo – nomeadamente homens, para designar tudo o
que não funciona na sociedade, no sexo e neles próprios, fazendo, assim, das
mulheres, seu sintoma – agora não está ocupando tanto essa função, me parece. É
como se cada vez menos pessoas se preocupassem com a diferença sexual.
Então é bastante diferente agora. Haveria
ainda, de fato, o tradicional repúdio à feminilidade no trabalho, ou haveria,
antes, alguma outra coisa no trabalho que não se refere ao significante mulher?
A questão que estou colocando é se alguém ainda está interessado nas mulheres,
incluindo as mulheres, porque eu diria que, de certa forma, você precisa do
sexo oposto para fazer da mulher um sintoma, e este sexo oposto, os homens, que
fazem um conjunto organizado pela exceção, este sexo também está em decadência.
Nenhum homem no século 21.
Existem mulheres? Os seres falantes que se
posicionam no lado do não-todo, no que diz respeito a seu gozo, esses seres
falantes são mulheres? Não é o caso que só são mulheres se um outro chamar-lhes
de mulher?
Minha ideia é a de que estamos
caminhando em direção a um mundo no qual o significante mulher é um
significante como qualquer outro, uma parte de lalangue e não de qualquer discurso comum. De
forma parecida ao que acontece com o falo – que está perdendo seu poder e seu
valor –, o significante mulher também
está entrando em uma época na qual o fato de um dia ter sido um enigma com
relação ao o que é uma mulher, agora é tão enigmático quanto qualquer outro
substantivo abstrato. Isso significa que
ele não é mais enigmático para muitas pessoas. Este é um efeito do declínio da função da castração. Quando o gozo decorre do fato de que a castração deixou um
resto, o objeto a, este está
doravante implicado na maneira singular como alguém goza, sendo que atualmente este plus de gozo
está diretamente ligado à pulsão. Não há perda de gozo decorrente do fato de se estar na
linguagem. Há agora um modo de gozo que não reconhece os limites da linguagem e
este é o lado feminino da sexuação. Nenhum limite é reconhecido, apenas o
limite do demais e do excesso.
E se o gozo feminino não é
limitado por um objeto, mas infinito e constituído em relação ao Outro da
linguagem, então é um gozo que tem proliferado nos últimos 10 anos. Tal gozo não está, de modo algum, ligado à população biologicamente
feminina, como sabemos. É um gozo denominado feminino e que está se alastrando
como fogo. Cada vez menos seres falantes
parecem estar assolados pela falta de gozo em suas vidas. Isso tem consequências e manifestações específicas, consequências com relação ao modo como amamos ou se amamos,
consequências para o conhecimento, consequências para o corpo e para a
linguagem.
Um pequeno resumo muito
conciso dessas consequências encontra-se em um discurso recente que Jacques
Alain Miller fez diante do Senado francês como parte do debate sobre o
casamento gay. Eu cito: "Cada menininha ou menininho tem que inventar
sua maneira de imaginar, de se aproximar ou de fugir de seu próprio sexo ou do
sexo do outro". Vou parafrasear o restante de sua fala: isso se dá porque
há um buraco no programa de qualquer vida sexual tal como vivida por cada ser
falante. Eles (os seres falantes) não podem
viver suas vidas sem incessantemente interpretarem tal programa, devido a este
buraco central, que diz respeito à relação sexual. O fato é que a linguagem não nomeia a coisa, pelo menos não
de uma vez por todas, porque o gozo se intromete, mas nunca corretamente. Não
havendo programa, nenhum plano pode ser
chamado de "natural" e nenhuma boa intenção se torna passível de
organizar a existência – a não ser o elemento único que é o seu modo singular
de gozar e que distingue você de todos os outros.
Então, inventamos nossa
maneira de imaginar, de abordar ou de fugir do outro sexo. Esta
é uma elaboração do que Lacan fala em Televisão.2 Parafraseio: A questão do amor, seja ela morosa ou divina, é
traída naqueles jovens dedicados a relações sem repressão. Então, Lacan
está se referindo a algo muito próprio daquela época, que era questionar a
família pensada como paternalista e imaginar outra forma de fazê-la – como se fosse possível se safar do impasse sexual. Lacan continua e afirma que o
mito do "apagamento familiar" é uma necessidade, o que significa
dizer que é um sintoma, um sintoma no sentido de haver algo ereto onde uma
outra coisa não está funcionando ou não existe. Enquanto a ordem familiar se
constitui como a tradução do fato de que o Pai não é o progenitor e de que a
Mãe continua a ser a contaminadora da mulher para a prole do homem. A mãe contamina o que é da mulher no ser falante, que dá à
luz os filhos de um homem.
Lacan prossegue e afirma que o
sexo é tão impossível quanto sempre foi e que nenhuma utopia ideal de não
repressão ou de sexo livre resolverá este problema, porque trata-se de um
problema lógico, não baseado no inconsciente – podendo ser solucionado até certo ponto. Mas Lacan se refere ao
capitalismo, à estrutura social que se estabeleceu e que se sobrepôs à
descoberta de Freud, e à tentativa fracassada de livrar o sexo da repressão por
parte dos que eram jovens nos anos 60 e 70, que queriam criar alternativas para
a família e para o modo como o sexo era veiculado. Quando se tenta liberar o sexo, provoca-se o efeito oposto –
você acaba com ele. O sexo volta à estaca zero,
diz Lacan, e este foi o ponto de partida do capitalismo: livrar-se do sexo. Então, o destino da mulher e o destino do sexo estão
correlacionados, ou é assim que leio Lacan nestas páginas de Televisão.
A menos que você atribua um
caráter positivista à questão e faça dela uma substância, a mulher, assim como o sexo, não passa de uma pergunta. Quando
você tem uma substância, não sobra pergunta, e a coisa se torna sem sentido ou
perversa. Desde a pergunta freudiana,
"o que quer uma mulher?", destacada por Lacan, até a constatação de
que não há representação da mulher no inconsciente a não ser como mãe – estamos
no reino da ausência, do semblante. Por
outro lado, temos o fato de que um homem se aproxima de uma mulher apenas como
objeto parcial, como objeto a, ou
como uma parte destacada do corpo, o fetiche, para nomeá-lo.
O que pode ser dito das
mulheres no século 21, quando essa relação entre os sexos está perdendo
qualquer suporte sintomático, sendo que este suporte sintomático é a única
coisa que sustenta o semblante mulher. Eu penso que
retrocede-se para uma questão de Zeitgeist,
ainda que se os semblantes ainda operam oferecendo alguma sustentação. Este é um exercício que não corresponde à ideia de que a
mulher só existe como singular. É uma
tentativa de falar de mulheres no plural.
Gerard Wajcman fez
uma boa tentativa neste sentido com a peça intitulada Tarantino's Girls3. Wajcman fala sobre paradigmas, opondo-os a categorias, e ele
encontra mulheres paradigmáticas no cinema, especialmente por meio dos ícones
das telas que particularizam algo de suas épocas: Marilyn Monroe nos anos 50,
Brigitte Bardot nos anos 60, para citar dois exemplos de destaque. Mas o que distingue um paradigma de qualquer outra imagem
famosa, bela, marcante? Eu acho que é o
elemento transgressivo implícito no fato de que o gozo feminino – como aquilo que faz uma mulher específica ser paradigmática
do “clima” da época – diz respeito a um gosto pelo que vai além daquilo que ela
supostamente deveria simbolizar, nomeadamente uma versão de uma fantasia
masculina. Ela é mais do que isso porque ela fala (no cinema as pessoas
falam), e ela é mais do que uma mulher comum, porque ela é um objeto excessivo
que transborda. O que impulsiona Marilyn ou
Brigitte para um outro nível é o que nelas constitui o não-todo da função fálica. Este
é o nível do excesso, do demasiado ou de uma alteridade com relação a si mesma,
e de uma certa condição de falta de limites (limitlessness).
Eu recomendo muito este texto
do Wacjman a você, mas também espero que ele não esteja presente demais em sua
mente, pois ainda vou parafrasear mais algumas ideias dele. A
questão que Wajcman coloca é se as meninas, outrora objetos fetichizados dos
homens, se tornaram, elas mesmas, fetichistas. Este parece ser o caso das garotas de Tarantino, que, tal
como o criador, Quentin Tarantino, falam como bocas motorizadas. Enchentes de palavras equivalendo a enchentes de gozo. A abundância de palavras não tem outra função além do gozo
inerente à fala, do gozo na linguagem como tal.
Então, para as meninas de
Tarantino, a fala está no lado da pulsão e não tanto no lado do amor. Por
esse motivo, penso que o uso do termo "garotas" não é um acidente. Ao contrário dos ícones cinematográficos, mulheres muito
voluptuosas, que estavam em um relacionamento com um homem, que deram voz à sua
decepção, arrebatamento e decadência geral com palavras que falavam dessa
relação com o Outro, as meninas em Deathproof
– o filme de Tarantino que Wacjman eleva à condição de ser
capaz de retratar um paradigma do gozo feminino no século 21 – não se relacionam com qualquer
homem a não ser falando sobre eles e, particularmente, sobre como elas os usam. Isso faz delas meninas mais
do que mulheres. Este discurso é menos
relacionado a uma fantasia, para a qual Nora ou Hedda de Henrik Ibsen teriam
sido paradigmas nos séculos 19 e 20, mulheres cujo gozo estava enlaçado a uma
fantasia de aprisionamento e, em particular, à prisão da linguagem em relação a
um corpo que estava explodindo para além de suas bordas.
Falar do século 21 significa
dar-se conta de que a fantasia do século 19 que revestiu as mulheres de
Flaubert ou de Ibsen não existe mais. As mulheres do século 21 estão menos
sujeitas a uma fantasia que enquadraria, localizaria e pacificaria seus corpos;
estão mais sujeitas à satisfação direta de suas pulsões, limitadas apenas pelo
efeito mortífero da imagem que está ao redor delas.
Então, inspirada pelas
observações de Wajcman sobre as garotas de Tarantino, às vezes, eu observo e
escuto grupos de adolescentes – cruza-se com elas no ônibus e na rua, depois da
escola – e me impressionou que quando eu comparo o estilo delas se divertirem e
a conversa delas à da época em que eu era adolescente, bem, muito mudou. Não tenho a impressão de que essas garotas adolescentes
prestem muita atenção aos meninos. Elas
falam sobre meninos – muito – mas elas falam sobre eles de uma maneira em que não há
qualquer preocupação real com eles. Como Wajcman colocou: o homem, parecido com um objeto como o
carro fetichizado no filme Deathproof,
não é nada além do equivalente exato a um brinquedo sexual. Estamos falando de um tipo de fetichismo diferente, do
fetichismo capitalista de consumo, e não do fetichismo que vela o buraco. Nessas jovens e geralmente barulhentas bocas motorizadas das
garotas adolescentes, há mais papo do que ação, e não há preocupação em buscar
o encontro com o objeto de suas tagarelices. Isto seria precisamente um encontro com a castração e com uma
perda de gozo, e há pouco incentivo para experimentar isso.
Em nossos tempos, tomando as
garotas de Tarantino e as adolescentes de Londres como exemplos, não há
evidência do que se costumava passar como inveja do pênis, a qual estava
imbuída da ideia de "não ter". Não ter não
é mais uma questão, já foi resolvida com o gadget
e com a imagem (só que não, obviamente). Como
consequência, tem lugar o pouco velamento (veiling),
já que o fetiche não é mais um objeto derivado da tentativa de velar o que não
existe, o falo da mãe. Em vez disso, há um gosto
pelo desvelamento (unveiling) e pelo
real tal como vemos na proliferação de reality
shows e de esportes radicais, atestando, em ambos os casos,
a prevalência da experiência em detrimento da sublimação. A experiência é, portanto, uma palavra que caracteriza o
acesso direto a um objeto de consumo. A
causa do desejo é obliterada.
Voltando às previsões de Lacan
– ou melhor, à sua leitura das estruturas contemporâneas que
estão tomando conta da sociedade –, o capitalismo e seu incessante comando de gozo buscam, como
ponto de partida, eliminar o sexo. Nós temos que parar aqui e perguntar como, por que você pode
se livrar do sexo? Eu penso que vemos o
efeito hoje. As adolescentes mencionadas
acima, aquelas pobres adolescentes britânicas que carregam o fardo do excesso
capitalista, aprendem na escola sobre tudo o que o mercado já jogou sobre elas –
sem qualquer preocupação com
a sua proteção ou felicidade. Em um projeto perverso, os excessos do mercado são aumentados
exponencialmente, ensinando-se, para as crianças sobre os perigos deste
excesso, o que não faz senão sancioná-lo. Elas
são, então, instruídas sobre os “perigos da internet”. Há aulas especiais dedicadas a todos os males do mundo. Psicólogos educacionais bons e não tão bons são contratados
pela escola, de forma extra curricular e curricular, para ensinar nossos filhos
sobre pornografia, mas também sobre suas consequências – embora não sejam reconhecidos, com isso, a depressão, a anorexia, a
automutilação e a agressão sexual, para citar apenas alguns exemplos. O apetite feroz do mercado
cria e prolifera seus próprios sintomas, responde com uma nova indústria
maciça, a da saúde mental, e segue em frente doutrinando os jovens.
"Nenhuma repressão"
tornou-se a norma, não como um ideal de quando novas estruturas familiares
estavam sendo negociadas em nome do "amor livre", na década de 60,
mas como forma de eliminar o sexo. Um colunista do The Guardian escreveu que as pessoas
hoje fazem sexo agendado e freneticamente pressionado, pois estão sempre
capturadas por alguma demanda externa que diz respeito às suas intimidades ou
que é de alguma outra ordem – frequentemente estão
em um ciclo de Fertilização In Vitro
ou tomados por alguma outra forma de se instrumentalizar o que antes passava
por "fazer amor". E no texto Televisão,
Lacan prevê ainda outras coisas que vemos tomar forma em nosso mundo atual. A imagem, tão importante para a perversão quanto para o
capitalismo, entendida como aquilo que observamos e que atravessa nossos
sentidos, não levará a novas formas de amor. Mas Deus, Deus é algo para o qual estamos retornando. Bem... Deus... O outro lado do gozo feminino, é outro
assunto.
O "empuxo-à-mulher"
psicótico pode ser observado em grande parte da cultura popular e de seus
derivados – o que costumava ser chamado de subcultura. Seria
este o destino d’A mulher: feita para existir? Eu indico a vocês o grupo pop CocoRosie ou Antony and the
Johnsons, cujas músicas eu gosto muito, estando inteiramente dedicadas à
questão d’A mulher, que não existe. CocoRosie são irmãs cujas letras e
música são suaves e de outro mundo. Elas cantam sobre espíritos e deus e
imagens extravagantes que envolvem sentimentos de contos de fadas. Além disso, ambas ostentam barbas em fotos, nas capas de seus
discos e em seus vídeos. Mas nada aparece
aqui que se assemelhe à questão histérica. Há, antes, uma expressão totalmente
única de gênero fluido e de identificação sexual fluida. Já Antony and the
Johnsons canta sobre como se tornar uma bela mulher e sobre outra
promessa espiritual, no além. É uma preocupação que diz respeito a uma
obliteração da divisão entre a mãe e a mulher, e um deus que fará dele uma
mulher.
Assim, nossas garotas adolescentes
padecem, por um lado, dos efeitos da perversão generalizada – sem novas formas de amor, com o capitalismo eliminando o
sexo – e, por
outro lado, elas escutam músicas que resistem ao ataque consumista com
respostas perfeitamente singulares que não reconhecem qualquer fator comum no
sexo ou na diferença sexual. À luz dessas observações sobre a cultura de hoje, ainda
existem mulheres no século 21?
LCEXPRESS 28/05/2013
Tradução: Júlia de Sena Machado
Notas finais:
1 Charraud, Nathalie; Cantor com Lacan (1) em Cadernos psicanalíticos,
edição 3, 1999, sem impressão. Originalmente publicado em francês em La
Cause freudienne, edição 38, 1998.
2 Lacan, Jacques; Televisão, traduções: Hollier, Krauss, Michelson, ed:
Copjec, J., Norton, Londres 1990, pp. 30-31.
3 Wajcman, Gerard; Tarantino's Girls, em Lacanian Ink, edição 37, 2011

