Pedro Moraleida (1977 – 1999): Dormindo eu posso quando estiver morto, s/d.
O
“ser” autorizado
Por
Bernardo Micherif Carneiro
“Autorizar-se de si mesmo”. Com esta expressão, Lacan franqueia um
momento de seu ensino em que a validação da posição do sujeito estava
condicionada à autoridade do pai. A lógica da sexuação foi a elaboração
decisiva para reconduzir a questão. No lado feminino da sexuação não há lei,
nem autoridade. Não há interdito. Tudo está permitido. Este gozo introduz cada
um em uma experiência de ausência de si mesmo. Exige que ele invente um modo de
se ligar ao corpo que tem, constituí-lo como corpo próprio, prender seu corpo
ao “si mesmo” no qual ele se satisfaz.
A sexuação, a eleição do próprio sexo, configura a via
privilegiada para fazer existir o corpo próprio. Mas isto coloca um impasse
para a legitimidade dessa escolha. Quem confirma sua validade? Lacan constatou
a inexistência do Outro neste campo em que se coloca a questão do gozo do corpo
sexuado. Justamente por isso, ele conclui que a sexuação poderia ser descrita
pela frase: “o ser sexuado só se autoriza de si mesmo”[1]
(LACAN: 1973-74, p. 52).
Com a lógica da sexuação, Lacan dá a eleição do próprio sexo um
estatuto de sintoma. Ou seja, podemos dizer, a partir desta perspectiva, que se
trata de algo incurável. Mas, podemos também considerar que, na sexuação, se trata
da construção de um semblante que recubra o real do gozo do corpo. Essa é a
dimensão que se evidencia no modo como a partilha dos sexos tem se configurado
nos dias de hoje. Dizer que a sexuação é uma construção pode levar a acreditar
que tudo que diz respeito ao sexo não passa de artifício significante. Como
indica Miller (2014), estamos em “uma época que nega, de boa vontade, o real,
para admitir apenas os signos, que são desde então igualmente semblantes” (p.
1).
Considerando que a eleição do próprio sexo é uma construção,
torna-se possível propor sua desconstrução. É o que se faz em uma proposta como
a da “cura gay”. A sexuação é reduzida a um artifício que pode ser desmontado
sem que isso desvele nada de insuportável. Não se considera que se trata de
algo que recobre o real e que, quando desfeito, pode romper a conexão do corpo
com o “si mesmo”.
Porém, apesar de Lacan constatar a autorização de “si mesmo” como
o fundamento da sexuação, ele não considera isso suficiente. O autorizar-se
poderia implicar que, a partir de agora, tudo está permitido. Por isso, Lacan
(1973-74) faz um acréscimo à frase inicial: “o ser sexuado só se autoriza de si
mesmo e, eu agregaria, ‘e por alguns outros’”[2]
(p. 52).
O corpo sexuado não basta em se localizar em “si mesmo”. É preciso
que ele se enuncie em algum lugar para que se autorize. Na tentativa de
resolver a questão, cria-se comunidades. Elas se expandem sob modalidades
diversas. Acolhem manifestações da sexuação que pluralizam posições e
questionam referências tradicionais. Resta uma questão: é possível fazer
conviver as soluções contemporâneas com antigos princípios que regulavam a
eleição do próprio sexo?
Neste mês de setembro, um episódio mobilizou opiniões na sociedade
brasileira. Em Porto Alegre, uma exposição chamada “Queermuseu: Cartografias da
diferença na Arte Brasileira” foi criticada e, posteriormente, suspensa. Dentre
as obras de arte expostas, algumas empreendiam um trabalho de sexuação de
símbolos cristãos, introduzindo elementos profanos em figuras sacras.
Após o fato, na mesma cidade, uma peça teatral intitulada “O
Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu” foi, inicialmente, censurada. A peça
retrata Jesus Cristo na pele de uma mulher transgênero. Enquanto isso,
disseminou-se por todo o Brasil uma onda de censura a obras de arte acusadas de
blasfemarem o sagrado ou desrespeitarem a moral e os bons costumes da sociedade.
Os ataques ainda não encontraram seu fim.
Em 2003, Miller (2006) acreditava que a construção da comunidade gay
como um estilo de vida poderia produzir a “erradicação da infâmia” (p. 18). Em
2015, a França foi assolada por um ataque de fundamentalistas islâmicos ao
jornal Charlie Hebdo. O semanário havia publicado charges que satirizavam Maomé
e o islamismo. No dia seguinte, Miller publicou um artigo no jornal “Le Monde”
intitulado “O retorno da blasfêmia”. Ele recoloca a questão, dizendo:
o sagrado não é um arcaísmo. Sem dúvida não é nada real. É um fato
de discurso, uma ficção, mas uma que há que manter unidos os signos de uma
comunidade, a pedra angular de sua ordem simbólica. O sagrado exige reverência
e respeito. A falta de o que se dá o caos. (...) Se o sagrado não é real, o
gozo que se condensa aí é. O sagrado mobiliza êxtase e furores. Se mata e morre
por isso. Um psicanalista sabe ao que se expõe quando provocamos no outro “o
impossível de suportar” (MILLER: 2015, p. 1-2).
Atualmente, o “autorizar-se de si mesmo” está na berlinda na
sociedade brasileira. Questiona-se se os gays podem se autorizar de si mesmos.
Questiona-se se a arte pode se autorizar de si mesma. Talvez, os setores
conservadores que atacam estas questões estejam colocando à prova em que medida
estas práticas fazem valer a segunda parte da frase, “e por alguns outros”.
Estariam respondendo ao “tudo está permitido” com um “tudo deve ser proibido”? Será
que estaríamos diante de um dilema entre curar os gays e curar os cristãos
conservadores? Resta-nos a questão de como lidar com a demanda de respeito.
Referências
Bibliográficas
LACAN, Jacques. O
seminário, livro 21: les non-dupes errent (1973-74). inédito.
MILLER, Jacques-Alain. Gays em análise. In: Opção Lacaniana. São Paulo: Eólia. n. 47, p.15-22. dez.2006.
MILLER Jacques-Alain. Em direção à adolescência. In: Minas com Lacan. jun. 2015. Recuperado em 15 de julho de 2015 de http://minascomlacan.com.br/wp-content/uploads/2015/05/EM-DIRE----O----ADOLESC--NCIA-vers.-final-2.
pdf.
MILLER, Jacques-Alain. Je suis Charlie. In: Opção lacaniana on line nova série. ano 6, n. 16, pp. 1-20, jun.
2015. Recuperado em 05 de agosto de 2016, de http:// www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_16/Je_suis_Charlie.pdf.
