Pedro Moraleida (1977 – 1999): Ave Quadrúpede, s/d.
Entrevista para o Boletim da Jornada EBP-MG
com Fabian Fajnwaks
(ECF/EOL - AMP)
L’Incs: Quais são as consequências da passagem do
discurso da diferença ao discurso da diversidade?
Fajnwaks: Antes de abordar as consequências da
passagem do discurso da diferença sexual ao discurso da diversidade, permita-me
sinalizar que essa passagem já é um efeito do declínio da ordem simbólica na
nossa civilização. Lá onde a diferença estava estabelecida pelo
binário falo/castração, binário na base da ordem simbólica, temos agora, já há
algumas décadas, uma civilização que se ordena diretamente pelo gozo, em curto-circuito
com
o semblante. No caso das teorias de gênero e queer, depois dos
anos 80, sobretudo com os trabalhos de Judith Butler, os semblantes de gênero
são desmascarados como uma "paródia", termo esse recorrente nos primeiros
trabalhos de Butler. Assim, temos a diferença tratada simplesmente em sua estrutura
de semblante.
A diferença é reenviada ao seu estatuto
de semblante como uma paródia e, então, os gêneros são, de agora em diante, propostos como formas de nomeações relacionadas ao gozo sexual. E essa maneira própria de
proceder das teorias "queer", (que em inglês é “raro”,
“bizarro”, designava-se antes aos sujeitos homossexuais), erige-se, de agora em diante, em uma insígnia com a qual o ser falante pode se
identificar, a partir de uma forma de gozo sexual. Isso aqui, de
maneira mais lacaniana, está
de acordo com a forma de nomeação borromeana que Lacan isola a partir do
seminário RSI, especialmente, e ainda no Sinthome. Só
que o "gozo", no sentido lacaniano, é para os sujeitos e as
culturas “queer” reduzido ao
"gozo sexual" que permite se identificar e encontrar um nome próprio
ao gozo, sexual nesse
caso. O que é claramente uma redução no uso do termo.
O termo "insígnia" de
Jacques-Alain Miller pode ser útil aqui para pensar essas formas de nomeação, na
medida em que a insígnia que J.A.M. isola em seu curso é um S1, um significante
mestre, sobre o objeto pequeno (a). O significante mestre aqui é a nomeação que
essas comunidades de gozo encontram para se nomear: os "Leathers" (couro,
para os homossexuais homens viris), as "fem" (lésbicas femininas), as "Butchers” (açougueiras, para lésbicas masculinas), etc. Temos aqui
uma forma de laço social que se estabelece a partir da forma privilegiada do
gozo sexual, que procura apagar a diferença sexual como binário simbólico
estruturante na sexuação do sujeito.
As consequências disso? Uma
referência para sujeitos que não aceitam entrar na ordem simbólica da diferença
sexual. Poderíamos citar aqui Lacan1 do "O aturdito" quando falava das mulheres: “eu não imporia às mulheres a obrigação de
toesar pelo calçador...”, ou seja, não obrigaria elas a calçar a medida fálica.
Aqui é o mesmo caso: a psicanálise
não pode obrigar um sujeito que rechaça a castração e a medida fálica de calçá-la. Então, os discursos "queer" propõem para esses sujeitos
a possibilidade de encontrar um enodamento do tipo "RSI" no social,
borromeano, em nomes que já existem no
discurso, em uma maneira de sintoma que funcione de maneira singular para cada
um.
L’Incs: Como fazer passar o gozo do corpo (que não
se apresenta condensado pelo falo) pelos desfiladeiros da palavra (da cadeia
significante)?
Fajnwaks: Em continuação com a pergunta anterior,
os nomes das comunidades "queer",
mas também o nome que um ser falante pode inventar para se nomear, permite um
tratamento da nomeação (o que implica uma dimensão simbólica no uso de um
significante erigido ao estatuto de "nome"), que permite bordejar e
não passar pelas "fourches coudines"
(desfiladeiros), como dizia Lacan, do significante e do gozo fálico. É esse aí
o método contemporâneo do ser falante, que não encontra no gozo fálico uma
medida para o seu gozo, e que nós conhecemos bem graças ao seminário de Lacan
sobre Joyce. As formas do nó que um sujeito pode encontrar, formas outras além
daquela em que o Nome-do-Pai opera como quarto nó, como nas neuroses.
Com o Seminário sobre Joyce, Lacan
antecipa o que seria as outras formas contemporâneas de enodamento que não a do Nome-do-Pai, isso que verificamos cada vez mais
hoje. E cabe a nós lacanianos aceitarmos e em nenhum caso pensarmos em
normalizar esses sujeitos que não passam pelo Nome-do-Pai e pelo gozo fálico em
suas maneiras de enodar os três registros: real, simbólico e imaginário. Assim,
Lacan nos possibilitou, com a perspectiva borromeana, separarmo-nos, em
definitivo, de toda perspectiva de normalização edípica de uma
análise. Nossa maneira de nos abstermos de toda perspectiva normalizante da
análise é aceitarmos essas soluções "queer”, raras, como invenções as
quais o ser falante encontra para fazer com o gozo. Principalmente, porque uma
análise orientada pela perspectiva do gozo reconhece que não há nada mais
"queer" que o próprio gozo!
Entrevista:
Elaine
Maciel
Revisão:
Elaine
Maciel
Jorge
Mourão
Referência:
1.
Lacan, J. “O aturdito” Outros Escritos, Campo Freudiano no
Brasil, Jorge Zahar Editor, 2003, Rio de Janeiro p.465

