Pedro Moraleida (1977 – 1999): Mulher, s/d.
O nu e as cabeças voadoras
Por Sérgio de
Mattos
Contemporaneidade
“O contemporâneo é o intempestivo”, anotava Barthes das
considerações de Nietzsche. Somos todos devorados pela febre da história e
deveríamos pelo menos dar-nos conta disso. Portanto pertencer verdadeiramente
ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo aquele que não coincide
perfeitamente com ele nem se adequa as suas exigências, assim ele é capaz, mais
do que outros de perceber e apreender seu próprio tempo. Estar à altura do
horizonte de sua época não é deixar-se devorar por ela.
A
cabeça voadora
No folclore brasileiro dos povos originários, destaca-se o mito da
cabeça voadora entre várias etnias: Kaxinauá,
Munduruku, Ajuru, Jabuti. Este mito ocupou dois importantes livros de
Lévi-Strauss: Origem das maneiras de mesa
e A oleira ciumenta. No clássico Macunaíma de Mario de Andrade o tema da
assombrosa cabeça se torna para nós familiar.
É curioso notar que entre este folclore encontra-se mitos sobre homens
sem mulheres e também de mulheres sem homens: as amazonas. Na coletânea de Bete
Mindlim Moqueca de maridos, composta
de narrativas indígenas de mitos eróticos, encontra-se vários exemplos dessas
cabeças que deixam o corpo junto ao marido que dorme na rede, e vai passear
para vorazmente roubar a caça em outras malocas, etc.
O retorno da cabeça ao corpo é sempre problemático, e nunca ocorre
um encaixe perfeito. A cabeça transforma-se na lua ou é queimada antes de retornar,
ou ainda o corpo é enterrado e a cabeça, busca-o aflitíssima, não encontrando o
resto de si-mesma. Na versão Macurap,
a cabeça ao perder o corpo, gruda no marido apaixonado, e não o larga mais. Ele
se torna um homem de duas cabeças. Onde andasse, lá estava a outra cabeça,
falando, observando, mandando, como se fosse parte dele. Mas a cabeça por estar
fora do corpo apodrece e torna-se insuportável. Os mitos com suas oposições,
neste caso, sugerem para Lévi-Strauss, valores simétricos entre a mulher grudenta
e outros mitos onde o que aparece são pênis descomunais. Por um lado, algo é
cortado, por outro algo busca distancias impossíveis, ambos sinais de um
excesso jamais imaginado; ou ávidos demais ou pegajosos. A mulher é louca, em
outras palavras, ela pode romper com o falo e sair por ai, “Lá dona é móbile”,
canta a ópera de Verdi. Neste excedente aloja-se tudo que é percebido pelos
homens como aberrações das posições femininas.
Na clinica é muito comum ouvirmos relatos de mulheres que ao se
deitarem com o parceiro estão com a cabeça em outro lugar. A busca de ser amada
por um homem pode ser tão devastadora que perdem seu corpo quando ele como
nunca, se comprazeria de estar em seu lugar. No quadro da sexuação encontramos
essas duas flechas implicadas no lado feminino. Uma se orienta para o falo,
outra para o excesso. O arranjo entre estas duas orientações é sempre singular
e pessoal, e dele depende o acesso da mulher a uma posição na linguagem e ao
seu gozo além, ou a sua fria ausência.
Levando em conta as mudanças da subjetividade de nossa época, com
o declínio da função fálica, podemos dizer que este outro gozo é estrangeiro a
toda regulação das normas identitárias fixadas pela tradição, no sentido do que
é permitido pela ordem fálica. Pois como nos lembra Rose-Paule Vinciguerra, o
não-todo no gozo fálico concerne não apenas às mulheres, mas também a segunda
metade de todo sujeito; ele, que segundo Lacan em L’étourdit, é “o singular de um confim”, aquele que o adivinho
Tirésias, que foi homem e mulher explorou. Assim, qualquer cabeça, homem ou
mulher, pode ser voadora, ou grudar-se tiranicamente como defesa dessa extravagância.
Não extaríamos ai, nesta estrangeiridade, e não localizibilidade do gozo
feminino, diante de algo que nos levaria a reconsiderar os impasses da relação
sexual em nossa época e o fundamento por onde entender hoje os fenômenos Trans?
O
nu e o vestido
A nudez, em nossa cultura, é inseparável de uma assinatura
teológica. Conhecemos a narrativa do Gênesis, segundo a qual Adão e Eva, após o
pecado, percebem pela primeira vez que estavam nus. Antes da queda, estavam cobertos
por uma veste de graça. É desta veste sobrenatural que o pecado os despe, e
mostra ao homem um corpo sem glória, o corpo corrupto, com todos os signos da
sua sexualidade. O problema da nudez é portanto, segundo Agamben, o problema na
natureza humana na sua relação com a graça. A natureza humana é assim o
pressuposto, suporte obscuro e opaco de sua veste luminosa que o escondia e
ressurge à vista quando a censura divide novamente a natureza e a graça, a
nudez e o vestido. Isso significa, que o pecado não introduziu o mal no mundo,
mas apenas o revelou. A nudez, enquanto nua corporeidade, é um resíduo gnóstico
e insinua na criação uma imperfeição constitutiva.
Agostinho definia com o termo técnico Libido, a consequência do pecado, ou seja, a exitação incontrolável
das partes intimas (obscenae), sob a
base de um versículo de Paulo em Gal. 5,17, onde o pecado é definido como uma
rebelião da carne e do desejo contra o espírito, uma cisão irremediável. Se a
libido se define pela impossibilidade de controlar os genitais, o estado de
graça que o precedeu consistiria então no controle perfeito da vontade sobre as
partes sexuais. A um aceno da vontade, os genitais se moveriam como movimentamos
uma mão, e o marido teria fecundado a esposa sem o estimulo ardente da libido. Assim, o desafio supremo da
graça, é exibir o corpo sem véus. O
corpo mais gracioso é o corpo nu cujos atos o circundam com uma veste
invisível, embora exposto aos olhos dos espectadores.
Não poderíamos ao menos cogitar que há algo da graça, nesse corpo
vestido de linguagem, que o extrai da pura biologia o inserindo na história, o
corpo do falasser, corpo a um só tempo simbólico e libidinal, imperfeito como a
criação. Ofertar com o saber da psicanálise uma abertura outra para que o ser
falante, para que não emerja de forma imperativa a desgraçada cobiça de cobrir
todas as faltas?
Será
então que como diz Aristóteles o pudor esta nos olhos de quem, vê? E o pecado é
deixar de ver a graça em qualquer corpo? É provável que a nudez ritual dos
batizados expliquem a tolerância da nudez balnear em nossa cultura. E indo a um
extremo, uma praia de nudismo é vestida de um naturalismo anti-erótico.
É contra esta veste de graça que esta dirigida a estratégia do
sádico. E a encarnação que ele quer realizar é o obsceno. É restituir este controle
e olhar sobre a nudez de modo obcecado que o tirano pretende em nossa época,
nos museus, na arte, na rua, onde vocifera que “ Toda nudez será castigada”, como
revelava a cáustica peça de Nelson Rodriguez, sobre uma família tradicional
vivendo entre máscaras sociais e hipocrisia. O casamento entre Herculano (o pai
da família) e Gení (uma prostituta), traz à tona a verdade sobre os
personagens. O filho que tem uma relação edipiana com o pai, vinga-se deste
seduzindo a madrasta, depois se realiza no homossexualismo fugindo com um
ladrão boliviano, acontecimentos que levam Gení ao suicídio. A nudez deixa
entrever a imperfeição e o real incontrolável da libido, a ser domesticada a todo custo, “joguem pedra na Gení, “atirem
a primeira pedra”. Ela demonstra que o Rei está nu, ou como nos disse Duda,
criadora do projeto TransVest, a subversão começa no corpo.

