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Imagem: Janela – Giulia Puntel
Meninos
e meninas não são (ainda) homens e mulheres
Sérgio Laia*
Link para o texto completo:
https://www.encontrobrasileiro2016.org/sergiolaia
* Psicanalista;
Analista Membro da Escola (AME) pela Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e
pela Associação Mundial de Psicanálise (AMP); Professor Titular IV do Curso de
Psicologia e do Mestrado em Estudos Culturais Contemporâneos da Universidade
FUMEC (Fundação Mineira de Educação e Cultura).
Imagem: Marcia Schvartz – Batato -1989
O falo, uma
falácia1
Fernanda Costa2
A queda do viril e o desprezo do falo
Lacan
(1956-57/1995) também era atento às modas no campo da sexualidade. Em meados de
1957, no Seminário: a relação de Objeto,
ele comenta que, do ponto de vista sexual, Hans se mantém em uma posição
apassivada. Por isso, embora houvesse certa legalidade heterossexual da escolha
de objeto, Lacan questiona sua legitimidade, por Hans não ocupar essa posição
de forma viril (Miller, 1995/2017). Estilo de abordagem sexual, que Lacan
(1956-57/1995) sugere estar bastante difundida em 1957, a ponto de afirmar que
observa “profundas mudanças nas relações entre o homem e a mulher” (p. 432).
Nesse contexto, ele cita as elaborações do filósofo Alexandre Kojève em O último mundo novo.
Kojève (1956) afirma
que o “mundo novo” surge após Napoleão e a instituição da República. Com o fim
das grandes guerras e grandes revoluções, um heroísmo político, militar ou
social não é mais possível. Concomitante ao desaparecimento dos heróis, o
filósofo observa, a partir dos romances de Françoise Sagan, o desaparecimento
do homem viril e uma relevante transformação no campo da sexualidade.
Miller (1995/2017)
retoma essas observações em Bonjour
Sagesse, da seguinte forma: não existem mais homens, tudo o que se pode
obter dos homens é um semblante
viril. Para o psicanalista, essa observação “é de todo interesse” (p. 84),
pois, o que “explica o sentimento de desaparição do viril é o prejuízo causado
à função paterna” (p. 84). Declínio do pai que, como nos lembra Miller
(1995/2007), havia sido notado por Lacan desde 1938 em Complexos Familiares, a partir do enfraquecimento da imago paterna.
Logo, o que Miller (1995/2007) parece destacar da tese de Kojève é que, após o
desaparecimento do pai, observa-se uma vacilação dos semblantes (no caso, o
semblante viril).
Por que isso nos
interessa? O que a atualidade de 1957, o “mundo novo” de Kojève, tem a ver com
o nosso tempo? Para Miller (2013), em O
inconsciente e o corpo falante, a grande mudança na ordem simbólica do
século XXI é o fato de esta ser reconhecida como uma articulação de semblantes.
Para ele, o declínio do pai tem como consequência que “as grandes categorias
tradicionais que organizam a existência passam para o nível de simples
construções sociais, voltadas para a desconstrução” (Miller, 1995/2013, p. 6).
Assim, a característica do nosso tempo “
não é apenas o fato de os semblantes vacilarem, mas eles serem reconhecidos
como semblantes” (Miller, 1995/2013, p. 6).
Desta forma, o
que parece que Miller assinala no texto de 2013 _escrito, portanto, quase 20
anos depois de Bonjour Sagesse_, é
que hoje foi dado um passo a mais. Não poderíamos, pois, interrogar se quando
os semblantes são reconhecidos como tais não existiria aí certa desarticulação
entre semblantes e gozo? Ou seja, não estaria o semblante fálico enfraquecido
em sua função de “coordenar” algo do gozo? Talvez possamos pensar em uma
radicalização do declínio do viril, uma radicalização da desconexão dos semblantes
que organizam a existência, a orientação sexual, o que deflagraria uma
depreciação do falo como semblante.
Sérgio Laia
(2016), apoiando-se em Natalie Wülfing, aponta, entre as mudanças no século XXI,
para uma espécie de desprezo e má apreensão
do falo, que traz como consequência “o quanto a diferença sexual torna-se
cada vez menos interessante para todo o mundo ou é tematizada apenas como uma
espécie de equivalente da heteronormatividade” (p. 4). Não seria esse desprezo
do falo uma das marcas do nosso tempo?
1 O texto na íntegra estará disponível na próxima
publicação da Revista Curinga, n. 44: “Tempos de segregação”.
2 Psicanalista praticante. Mestre em Estudos Psicanalíticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (Bolsista CAPES).
Bibliografia
Kojève, A. (1984) Le dernier monde nouveau Françoise Sagan. Disponível
em:www.association-freudienne.be/pdf/bulletins/7-BF1_BIBLIOTHEQUE.pdf?phpMyAdmin=0k39wA0M-rYtTueZFUi-nHQMKb1
Lacan, J. (1995). O Seminário, livro 4: A relação de objeto (D.
D. Estrada, trad) Rio de Janeiro: Jorge Zahar (trabalho original publicado em
1956-1957).
Laia, S. Seminário Preparatório para a Jornada da EBP/MG 2016. Belo
Horizonte
Miller, J. A. (2017) Bonjour
Sagesse In: Virilités Revue de Psychanalyse no 95: Navarin Editeur. (trabalho
original de 1995)
Miller J. A. (2013) O inconsciente e o corpo falante .
Associação Mundial de Psicanálise. Disponível em: wapol.org/pt/articulos/Template.asp?intTipoPagina=4&intPublicacion=13&intEdicion=9&intIdiomaPublicacion=9&intArticulo=2742&intIdiomaArticulo=9
Miller J. A. (2015) Em direção à adolescencia . Disponível
em: http://minascomlacan.com.br/publicacoes/em-direcao-a-adolescencia/


