Imagem: Giulia Puntel
A
MULHER FACE AO ESPELHO: NOVAS VIRILIDADES*
Maria Josefina Fuentes - EBP/AMP
Conversação do VII ENAPOL
Relatora: Maria Josefina Fuentes
Participantes: Graciela Bessa, Jésus Santiago, Lucila M. Darrigo,
Maria Inês Lamy, Teresinha Meirelles do Prado
A virilidade norme-mâle na
mulher
Na década de 30, o tema da sexualidade
feminina girou em torno da questão se a identificação masculina da menina ao
pai seria um obstáculo ou daria acesso à feminilidade. Enquanto Karen Horney e
Ernest Jones defendiam uma identificação feminina que repousaria na vinculação
inata e direta à mãe, em relação à qual a masculinidade seria uma defesa, Freud
e algumas analistas como Hélène Deutsch, insistiam na primazia fálica como a
normalidade para ambos os sexos – a norme-mâle,
segundo o Witz de
Lacan[1] que evoca o normal (normal) e
a norme mâle (norma
masculina). Apesar das críticas feministas, Freud foi irredutível em relação à
tese do falocentrismo no inconsciente que reconhece apenas um significante, o
falo, para designar a dissimetria dos sexos, sendo que uma identificação
própria à mulher é o que permanece ausente.
Na mesma direção, Lacan, em 1958, longe
de resumir a “assunção do sexo em termos de papel”[2], quando então criticava a nascente
clínica do gênero, situa a dissimetria em termos de ser ou ter o falo,
destacando o caráter viril intrínseco à estratégia feminina da mascarada: “para
ser o falo, isto é, o significante do desejo do Outro, a mulher vai rejeitar
uma parcela essencial da feminilidade”[3]. Daí, inclusive, o efeito curioso de que
“a própria ostentação viril pareça feminina”[4]. Contudo, afirma em seguida que “convém
indagar se a mediação fálica drena tudo o que pode se manifestar de pulsional
na mulher”[5].
Foi somente nos anos 70 que Lacan
adentrou o dark
continent freudiano para abrir a Caixa de Pandora com o
recurso da lógica, esclarecendo que a mulher é não-toda assujeitada à lógica masculina.
O falocentrismo, como função de gozo, impõe-se para todosno lado masculino da sexuação –
conjunto definido a partir da exceção de Um, que escapa à castração. “A
castração de fato dá prosseguimento, como vínculo com o pai, ao que é conotado
em todo discurso como virilidade” – esclarece Lacan[6]. Ao passo que, sem essência nem
existência, A mulher, definida em termos universais, não existe no
inconsciente. Foracluída do simbólico e do imaginário[7], permanece Outra, ausente de si
mesma, ao experimentar um gozo não-todo indizível,
encarnando, assim, na dialética falocêntrica, a alteridade do Outro absoluto.
Quando Lacan reafirma que,
“contrariamente àquilo em que se acredita, o falocentrismo é a melhor garantia
da mulher”[8], indica que a virilidade como norme-mâle, que implica a
castração como perda de gozo para ambos os sexos, protege o sujeito do
enlouquecimento de um gozo feminino que pode arrastá-lo, lá onde ele não se
encontra, tanto mais quanto se desgarra dos limites da castração,
apresentando-se de modo mortífero. Por outro lado, quanto mais a mulher se
agarra ao Um do gozo fálico universalizante, ao império das identificações
imaginárias, mais segrega o feminino que nela habita, e cujas condições de gozo
só podem ser enunciadas no singular, a partir das formas sintomáticas de cada
uma.
Assim, ao postular uma virilidade norme-mâle definida
em termos lógicos – que não se confunde com os semblantes imaginários
masculinos que uma mulher pode assumir –, e que em toda identificação sexuada
há um impossível que não recobre o real do sexo para o ser falante, a
psicanálise se diferencia de uma prática retrógrada que visaria restabelecer o
domínio do binarismo homem/mulher. Pelo contrário, com a conceituação do não-todo, aponta uma saída
para os impasses do ser falante quando enclausurado sob o regime do gozo todo
fálico, que segrega o feminino, não sem angústia.
Não-toda no
espelho e a resposta da histérica freudiana
Não-todo, o
corpo sexuado da mulher não encontra representação nem no significante, nem na
imagem do espelho, que se constitui “como uma identificação, no sentido pleno
que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no
sujeito quando ele assume uma imagem”[9]. Entretanto, quando a função fálica opera
e o objeto a é
extraído do corpo, ainda que a identificação com a imagem ideal conferida pelo
discurso do Outro fracasse em escrever a relação sexual, serve de vestimenta
para a pura vacuidade d’A mulher, dando consistência fálica aos semblantes por
meio dos quais uma mulher pode identificar-se ao seu corpo.
Essencialmente carente de uma
identidade, contrariamente ao que Freud acreditava, a mulher não é narcisista
senão secundariamente[10]; ou seja, o narcisismo como amor de si,
comum aos dois sexos, surge na mulher em resposta ao que Lacan designou como
“narcisismo de desejo”[11]. Este é a expressão do amor feminino ao
desejo do Outro, do qual uma mulher extrai a consistência corpórea fálica
quando responde ao modo fetichista do desejo masculino, desde que consinta em
ser tomada como objeto de um desejo singular. “A mulher só pode ocupar seu lugar na
relação sexual, só pode sê-lo, na qualidade de uma mulher. Como acentuei vivamente –
prossegue Lacan – não existe toda
mulher.”[12]
Frente à foraclusão do significante d’A
mulher no inconsciente, a resposta emblemática da histérica consiste em
transformar o furo da estrutura em enigma a ser desvendado por um Outro no
lugar de exceção, que lhe entregaria a identidade d’A mulher. Ou seja, mobiliza
a significação fálica como suplência à relação sexual que não existe, fazendo
do fracasso desta[13] seu triunfo para reinar sobre o
mestre, classicamente encarnado pelo pai, com o qual se identifica. “O que a
histérica articula, certamente, é que, em matéria de bancar o todohomem, ela é tão capaz
de fazê-lo quanto o próprio todohomem,
ou seja, pela imaginação.”[14]
Ávida por uma identificação que a
proteja da inexistência, a histérica convoca um Outro que a alivie de sua
própria divisão, refugiando-se na norma fálica do todo viril. Basta um
“minha mulher não é nada para mim”, como confessava o Sr. K, para que o mundo
de Dora caísse, junto com o ideal da feminilidade encarnado na Sra. K., que
passa a ser nada nas
redes da significação fálica. Quando, nem tudo nem nada, uma mulher pode
ser Outra,
inclusive para si mesma[15], desde que consinta com sua divisão de
gozo.
O declínio do pai e o apelo
a Um-todo
Tal como propõe J.-A. Miller, no
processo de feminização na civilização nos tempos em que o Outro como ponto de
basta não existe para deter o empuxo-ao-gozo sem limites – queda da função
paterna e do regime edipiano fundado na lógica masculina da exceção –,
contrariamente ao que se pensa, são as próprias mulheres as defensoras mais
ferozes do regime da lógica masculina. “O regime do todos iguais não
somente não escapa ao regime edípico, mas, propriamente falando, também o
constitui.”[16]
Contrariamente à série infinita na qual
cada mulher é excepcional, as novas formas do discurso histérico clamam por um
universal feminino – nós,
as mulheres, como todo
mundo – que corresponderia em espelho à lógica masculina[17].
Interessa-nos aqui, portanto, isolar
algumas formas das novas virilidades que se apresentam como uma defesa contra o
feminino na contemporaneidade, ou seja, não como uma divisão de gozo na mulher,
mas como sintomas que rechaçam o não-todo,
quando o amor ao pai em declínio, parceiro clássico da histérica, não se
sustenta mais no lugar da exceção, que antes garantia uma armadura para o corpo
que a resguardava do feminino pela via da identificação com o seu sintoma.
A mulher
como sintoma para elas mesmas
Segundo Brousse[18], Lacan interpreta o movimento feminista
com a pluralização dos nomes-do-pai, esclarecendo que, à série da inibição,
sintoma e angústia, A mulher como universal também pode funcionar como um dos
nomes-do-pai, um sintoma, quando a função paterna já vacilava na cultura.
Tal interpretação pode ser aplicada
tanto ao primeiro movimento feminista, que lutou pela paridade de direitos da
mulher em relação ao homem – todos
iguais –, quanto ao feminismo francês dos anos 70 que, a
partir de uma leitura equivocada das teses de Lacan, buscou no gozo feminino
uma essência que qualificasse a mulher, promovendo, paradoxalmente, um
“Todo não-todo”.
Esta foi a tentação de pensar uma diferença feminina autorreferente, fora do
falocentrismo, que poderia ser recuperada através de uma escrita feminina,
quando A mulher que não existe não
cessa de não se escrever.
Hélène Cixous e suas
personagens: O retrato de Dora e
Clarice Lispector
A partir da referência de Lacan à
histeria rígida[19] e do extenso comentário de Eric
Laurent[20], bem como das discussões do VI ENAPOL
sobre as versões contemporâneas da histeria, analisaremos as personagens da psicanalista,
feminista e escritora, mencionada por Lacan na aula 7 do Seminário 23, Hélène
Cixous, por aportarem aspectos esclarecedores e atuais relativos ao tema da
nossa investigação.
A Dora de Cixous e a
homossexualidade na histeria contemporânea
O inusitado no Retrato de Dora que
Cixous apresenta em sua peça de teatro, distante da paciente histérica Dora, de
Freud, é que ela não se interessa em absoluto por aquilo que o psicanalista,
seu antigo mestre, teria a dizer sobre ela. Não somente não se presta à
interpretação de Freud – e ele mesmo aparece bastante desorientado e
constrangido –, como desdenha do que ele teria a dizer-lhe, tal como, por
exemplo, aparece notadamente nos diálogos finais da peça:
“Freud: Eu diria que você não sabia o
suficiente.
Dora: Ou talvez você se ame um pouco
demais? […] Você me faz rir. […]
Freud: Eu teria te ensinado o que eu
aprendi com você. Eu teria gostado de fazer algo por
você.
Dora: Ninguém pode fazer nada.
Freud: Mantenha-me informado sobre o que
eu estou fazendo. Escreva-me.
Dora: Escrever?… não é comigo!”[21]
Se Freud não está na posição de
interpretante, da exceção paterna, contudo, é a Sra. K. que encarna a figura do
Outro não castrado, depositária do saber sobre o enigma feminino. Com razão,
Laurent[22] questiona se esta personagem, a
Dora de Cixous, seria um bom exemplo da histeria rígida que Lacan apresenta
no Seminário 23 –
a histeria que se sustenta sem seu parceiro, prescindindo do quarto aro
suplementar do Nome-do-Pai e do sentido fálico com o qual a histérica clássica
interpreta seu sintoma. A Dora de Cixous, embora não tome o pai como objeto de
amor e despreze Freud, elege outro parceiro como interpretante, a Sra. K.,
supondo-lhe um saber universal sobre a feminilidade idealizada, que adquire o
estatuto de sintoma, a partir da crença nA mulher que não existe. Quanto mais
procura na identificação alienante à Outra o suporte para si mesma, tanto mais
desconhece a “materialidade” do real do gozo singular que lhe concerne e que
insiste fora do sentido, atribuído ao sintoma.
“Dora: Diga-me mais, diga-me tudo, tudo.
Tudo que as mulheres sabem: como fazer geleia, como fazer amor […]. Você
não imagina o quanto eu te amo. Você é absolutamente tudo. E eu sou nada, nada.
Ninguém. Ouça-me: eu te amo mesmo você sendo Deus, alguém para quem eu não
existo. […] Tudo o que você sabe. Tudo o que eu não sei. Deixe-me dar-te este
amor…
Sra. K: Meu Deus! O que eu vou fazer com
você? […]
Dora: Deixe-me beijar-te. Deixe-me
tomar-te nos braços! Somente uma vez.”[23]
É bastante evidente também que, se a
relação homossexual da Dora de Freud com a Sra. K., recalcada, revelava-se como
efeito da interpretação analítica, na personagem de Cixous não há essa
barreira, de modo que o acesso ao Outro sexo é direto e aparece “a céu aberto”.
Desnecessário, ela não precisa mais do amor ao pai nem do homem para sustentar-se
através da identificação ao que considera ser seu gozo, como tampouco
sustentá-lo.
Bastou um passo a mais – ao ato – para
que proliferassem as relações homossexuais na histeria na contemporaneidade
que, segundo Brousse[24], correspondem a um novo sintoma, que
consiste em colocar A mulher que não existe como Outra, idealizada, no lugar
vazio da exceção deixado pelo pai em declínio. Deste modo, o sujeito permanece
na lógica masculina viril, dirigindo-se diretamente à Outra mulher, que
revelaria a própria feminilidade da qual o sujeito se furta de experimentar.
Com efeito, a indústria cinematográfica
soube captar o enredo que fascinaria as meninas e jovens de hoje, que
consideram a figura do príncipe encantado um clichê desinteressante. Basta
citar Malévola ou Frozen que dispensam
o amor ao pai ou ao príncipe encantado – ora ausente ou francamente um vilão –,
fazendo a apologia do verdadeiro amor, o materno, ainda que seja devastador, ou
entre as irmãs apostando na identificação horizontal, restando ainda a parceria
com a solidão do Um todo fálico, erguida num castelo de gelo onde uma mulher
pode permanecer lindamente inacessível.
Ainda em relação à peça O retrato de Dora, o que
chama a atenção de Lacan[25] é o modo como ela foi realizada. A
própria realidade dos ensaios domina os atores na peça, a pragmática da pura
repetição que se dá quase “fora da cena”, e não a narrativa do texto, ou seja,
a determinação do significante. São sessões de psicanálise onde a dificuldade
de expressão da protagonista, Dora, é acentuada em cenas paralelas que se
justapõem, nas quais o presente se mescla com o passado através de falas
superpostas e repetitivas. A linearidade do texto se perde e o sentido,
autorreferente, dissolve-se nas divagações e na voz longínqua do inconsciente
que ecoa ao longo da apresentação. Estes traços serão ainda mais
acentuados nos escritos de Hélène Cixous depois que ela conhece a obra de
Clarice Lispector – dois anos após a encenação da peça, ocorrida em 1976.
Hélène Cixous face ao
espelho: a identificação com Clarice Lispector
A tradutora e grande difusora da obra de
Clarice Lispector na França, fundadora em 1974 do Centro de Estudos Femininos
da Paris VIII, encontrou na obra da escritora brasileira a forma de se
expressar que por anos procurava, por quem desenvolve um fascínio arrebatador,
a ponto de dizer “Eu sou Clarice Lispector”, ou então, “Certeza que Clarice
Lispector me dá a minha semelhança oculta”[26].
Não muito distante do seu retrato de
Dora, declara francamente seu amor a Clarice em seu livro feminista, O riso de Medusa:
“No podemos vivir sin que existan
mujeres que presten atención a la vida […] Para conservar la vida necesitamos
sentir que las mujeres viven muy cerca de nosotros. Clarice es el nombre de una
mujer capaz de amar a la vida por todos sus nombres calidos y frescos. Y la
vida acude. Dice: soy. Y, al instante, Clarice es. Clarice es toda entera en el
instante en que se consagra a ser, viva, infinita, ilimitada en su ser. Cuando
digo: Clarice, no es simplemente para hablar de una persona, es para pedir a
Clarice una alegría – un miedo –, una alegría espantada. […] Sin embargo,
miedo? Miedo en la adoración? Miedo a adorar?”[27]
O estilo que tanto buscava fora da referência
falocêntrica para uma “escrita feminina” – termo cunhado por Cixous e que foi
adotado pelos estudos de gênero – é baseado em uma narrativa marcada pelo que
ela chama de “feminilidade libidinal”[28], cujo maior exemplo encontra no livro de
Clarice Lispector, Água
viva.
Para Cixous, a escrita de Clarice,
diferentemente de Joyce, “não tortura o significante, pelo contrário. […] Não é
no nível da palavra que ela opera.”[29]. Trata-se, para a feminista, de um texto
que inscreve a feminilidade no nível formal da escrita, com a abolição do
sentido através de falas soltas, desarticuladas, sem começo nem desfecho, sem
limite nem moldura, seguindo o ritmo do corpo como numa corrente de água viva
na qual é preciso mergulhar.
Na defesa de um feminino supostamente
vanguardista, Cixous, também especialista em Joyce, considerava-o um homem
“totalmente reacionário”[30] por ter desqualificado o lugar da
mulher em sua obra e permanecido dentro das estruturas familiares clássicas. A
crítica ao patriarcalismo conservador recairia também sobre Freud por não ter
saído da premissa fálica, advertida de que o falo é uma falácia.
“O falocentrismo é o inimigo. De todos. Os homens também
têm a perder, de maneira distinta das mulheres, mas também seriamente. Chegou a
hora de mudar, de inventar outra história.[31]
Ironicamente, quanto mais Cixous busca
sustentar-se identificando-se à Outra mulher idealizada, mais se distancia de
sua singular feminilidade, protegendo-se do real do feminino que procura na
escrita de Clarice. Assim, na apologia de Um-todo feminino autorreferente, a
feminista, paradoxalmente, segrega o não-todo e
a lógica própria da posição feminina elucidada por Lacan, protegendo-se do
que não cessa de não se
escrever.
Uma a uma, resta a cada mulher
reconhecer os modos de gozo que lhe concernem para identificar-se, nem ao pai,
nem ao falo, nem à Outra, senão ao seu sinthoma, inigualável.
Clarice Lispector e o abismo
no espelho vazio
Quanto a Clarice Lispector, talvez
possamos concluir com as palavras que o poeta Carlos Drummond de Andrade
escreveu na ocasião de sua morte: “Clarice veio de um mistério, partiu para
outro.”[32]
Muito distante do lugar ideal em que
costuma ser evocada, sobretudo pelas leitoras que tendem a se identificar com o
que sua escrita personifica, Clarice, ao contrário, era profundamente “estrangeira
na terra” [33], exilada no mundo, indescritível para si
mesma, cuja escrita, repleta de nomes perdidos, roubados, disseminados, dá
consistência ao que inexiste, nos confins do mundo humano, e a fragilidade da
existência compõe a tônica central em sua obra.
Lançada à desintegração, à ausência de
identidade do vazio da imagem, descrente dos artifícios humanos, afunda no
sem-sentido, conduzindo o leitor a habitar a precariedade de um mundo sem
referentes. Suas personagens se desintegram com uma narrativa que produz uma
dissolução extrema: “do narrador, do (a) protagonista, ou do próprio texto e de
seu aparente ‘enredo’ inicial” – segundo propõe T. do Prado[34] –, culminando na experiência da
pura dessubjetivação, ruína das identificações e perda das referências em um
mundo incompreensível.
“Morta”, era como se dizia quando não
escrevia, concebendo sua escrita como o acesso à ausência radical de si mesma:
“Escrever é tantas vezes lembrar-me do que nunca existiu […]. Nunca nasci,
nunca vivi: mas eu me lembro, e a lembrança é uma carne viva”[35].
Pelas passagens duras e estreitas dA paixão segundo G.H., a
escritora mostra o horror de quem só pode encontrar uma identidade para si
mesma na vida que por fim não lhe escapa: na barata à qual se reúne.
“Mas que abismo entre a palavra e o que
ela tentava…”[36], exprime quem certamente esteve profunda
e terrivelmente advertida de que o “‘eu’ é penas um dos espasmos instantâneos
do mundo”.[37]
[1] Lacan, J. “O
aturdito”. In Outros
escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 480.
[2] Lacan, J.
“Observação sobre o relatório de Daniel Lagache”. In Escritos. Rio de
Janeiro: Zahar, 1998, op. cit., p. 689.
[3] Lacan, J. “A
significação do falo”. In Escritos,
op. cit. p. 701.
[4] Ibid. p. 702.
[5] Lacan, J.
“Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina”. In Escritos, op. cit., p.739.
[6] Lacan, J. “O
aturdito”. In Outros
escritos, op. cit., p. 460.
[7] Cf. Brousse, M.
H. “Las feminidades: el Otro sexo entre metáfora y suplencia”. In Del Édipo a la sexuación.
Buenos Aires: Paidós, 2001, p. 60.
[8] Lacan, J.
“Conferência em Genebra sobre o sintoma”. In Opção lacaniana, São Paulo, Edições Eólia, n.
23, dez.1998, p. 16.
[9] Lacan, J. “O
estádio do espelho como formador da função do eu”. In Escritos,
op. cit., p. 97.
[10] Cf. Laurent, E. “Positions féminines de l’être”. In La Cause Freudienne,
Paris, Seuil, n.24, 1993, pp.107-113
[11] Lacan, J.
“Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina”, op. cit., p. 742.
[12] Lacan, J. Seminário, livro 18: de um discurso
que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Zahar, 2009, p. 133.
[13] Lacan em “O
aturdito” (op. cit., p. 459) esclarece que o fracasso é de estrutura: “a função
fálica […] é apenas um modo de acesso sem esperança à relação sexual”.
[14] Lacan, J. Seminário, livro 18: de um discurso
que não fosse semblante, op. cit, p. 134.
[15] Laurent, E. “Positions féminines de l’être”, op. cit.
[16] Miller,
J.-A. La naturaleza de
los semblantes, Buenos Aires; Paidós, 2001, p. 57 (traduzido
livremente).
[17] Cf. Laurent, E.
“Semblantes e sinthoma”. In A
psicanálise e a escolha das mulheres. Belo Horizonte:
Scriptum, 2012, p. 208.
[18] Brousse, M. H.
“Feminismo”. In Scilicet
dos Nomes do Pai. AMP, 2006, pp. 55-56.
[19] Lacan, J. O Seminário, livro 23: o sinthoma.
Rio de Janeiro: Zahar, 2007, pp. 101-114.
[20] Laurent, E.
“Conferencia: El sinthome”. In Consecuencias,
Revista digital de psicoanálisis, n.13/14.
[21] Cixous, H. Portrait
of Dora. London: John Calder/ Dallas: Riverrun, 1979, p. 66
(traduzido livremente).
[22] Laurent, E. ibid., p. 2.
[23] Ibid., pp. 40-41.
[24] Brousse, M. H.
“L’homosexualité au pluriel ou quand les hystériques se passent de leurs hommes
de paille”. In: Elles
ont choisi: les homosexualités féminines. Paris: Ed. Michèle,
2013, pp. 21-35.
[25]Lacan, J. O Seminário, livro 23: o sinthoma,
op. cit., p.102.
[27] Cixous,
H. La risa de Medusa:
ensayos sobre la escritura. Barcelona: Antropos, 1995, p. 129.
[28] Entrevista a
Betty Milan: http://bettymilan.com.br/artigos/publicados/90-63-helene.htm.
[29] Ibid.
[30] Ibid.
[31] Cixous,
H. La risa de Medusa,
op. cit, p. 41.
[32] Moser, B. Clarice, uma biografia. São
Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 13.
[33] Ibid.
[34] Prado, T. M. “O
nada como causa em Clarice Lispector”. In Opção lacaniana, São Paulo, Edições
Eólia, n. 52, set.2008, p. 59.
[35] Lispector, C.
“Lembrar-se do que nunca existiu”. In A
descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco,1999, p. 385.
[36] Lispector,
C. A paixão segundo
G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 67.
[37] Ibid. p. 178.
*Texto
originalmente publicado em:

