Jasmine: A irrupção de uma
mulher de verdade
Elizabeth Medeiros
Lisley Braun Toniolo
O filme blue Jasmine, de Woody Allen, foi
exibido no quarto encontro da mostra de Cinema e Psicanálise, uma co-realização
da Fundação Clóvis Salgado e da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas
Gerais. Mais uma vez o Cine Humberto Mauro esteve lotado e acolheu a proposta
de conexão da psicanálise com a cidade. Ao final da sessão, Antônio Teixeira,
nosso colega e membro da EBP-MG, fez comentários preciosos sobre o filme e
causou um debate vivo na plateia presente.
O filme nos conduz através da história de Jasmine, uma mulher rica que perde todo o seu
dinheiro e vai morar em São Francisco com Ginger, sua irmã proletária, em
condições muito diferentes das que vivia até então. O reencontro com sua irmã,
também adotiva e a perturbadora vida que passa a levar em São Francisco a
partir da perda de tudo que a sustentou como mulher, atraem nosso olhar para
essa comédia que não deixa de exibir o caráter dramático dos impasses que a protagonista
enfrenta na relação com o outro. Jasmine, encenada por Cate Blanchet, ainda que
perpassada por uma marcada antipatia, nos captura em sua trama, fazendo de sua
história mais um excelente filme do diretor.
Antônio Teixeira, por
sua vez, também nos captura protagonizando um interessante comentário no qual
propõe que nesse Wood Allen lacaniano é a queda dos semblantes que
está em jogo. Para tanto, primeiramente nos conduz à inevitável ligação entre Blue Jasmine e A Street Car Named Desire
(Uma Rua Chamada Pecado), drama de Tennessee Williams e dirigido por
Elia Kazan (1951). Antônio pontua como em ambos os filmes é da ruptura dos
semblantes que se trata, ou seja, daquilo que humaniza e cria relações de
sentido no que recebemos do real.
Voltando-se para Blue Jasmine,
mostra como por muitos anos ela se manteve no semblante da frivolidade,
estabilizada em um casamento milionário permeado pelas trapaças de seu marido
Hal, das quais ela nada queria saber desde que seu lugar como esposa estivesse
garantido. Até que, diante da paixão do marido por uma amante e seu pedido de
divórcio, a protagonista teve de se haver com um real inédito que abalara o
semblante que até então a sustentara na vida. A vida vira, então, às avessas,
quando ela denuncia ao FBI os crimes
fiscais do ex-marido, recusando antes qualquer possibilidade de negociação com
este. Jasmine perde tudo e recorre à família, na costa oposta à cidade de Nova
Iorque, onde viveu seus anos dourados de consumo e status social.
Como nos alerta Antônio, o que Jasmine exibe
para Hal, tal como Medeia para Jazão, é justamente o sem limite que aponta para
o que Lacan nomeia uma vraie femme, uma mulher de verdade, que se manifesta
justamente na ruptura do semblante fálico. Após se deparar com a castração proveniente
de tal ruptura, novos semblantes se tornam necessários para que seja possível reencontrar
um lugar no laço social e na vida.
Sempre cercada por sua mala Louis Vuiton,
Jasmine encontra um novo parceiro e, para se enlaçar a ele, acaba se servindo
de uma série de mentiras que lhe fariam parecer ser outra mulher. As mentiras
caem, desta vez não por sua própria denúncia, e os efeitos de mais essa perda,
além do ódio que seu filho acabara de revelar nutrir pela mãe, a lançam na
loucura e na asfixiante cena final – sozinha, no parque, ao som de Blue Moon.
Quanto mais quente
melhor
Juliana Saragá
Diferença sexual e gênero. Este foi o tema do X
Simpósio da Liga Acadêmica de Psicanálise da Faculdade de Ciências Médicas de
Minas Gerais (FCMMG), realizado no último dia 24 de junho. Para tratar do
assunto, os acadêmicos convidaram a coordenadora da XXI Jornada da Escola
Brasileira de Psicanálise - MG, Ludmilla Féres Faria, já que a temática
perpassa pelo tema central da Jornada deste ano. Na ocasião, o gatilho para a
discussão se deu a partir do filme “Some Like It Hot” ( EUA, 1959), em
português, “Quanto mais quente melhor”, estrelado pela eterna
diva-símbolo do universo feminino, Marilyn Monroe. O enredo se desenrola no final dos
anos 20, quando dois músicos presenciam a execução de um mafioso em Chicago e,
para não serem mortos, disfarçam-se de mulher e vão tocar em uma orquestra
feminina. Joe vira Josephine e Jerry, Daphne. Elas se tornam “amigas” de Sugar
Kane (Marilyn Monroe) que busca conquistar um milionário. A palestrante inicia
trazendo um questionamento de Clotilde Leguil, autora do livro "Ser e
Gênero", já que o filme trata a questão de gênero com leveza e
naturalidade, diferente das contemporâneas tensões e intolerâncias que versam
as atuais discussões. Ludmilla segue ainda trazendo a leitura da psicanalítica
sobre a questão, desmistificando o olhar preconceituoso, muitas vezes atrelado
inadequadamente à psicanálise.


