Entrevista para o Boletim da Jornada EBP-MG
Simone Souto (AME/EBP-AMP)
1)
L’Incs:
Há algo de novo na
sexualidade dos seres falantes em sua articulação com o Incs?
Simone:
A articulação
da sexualidade com o inconsciente, a meu ver, possibilita sempre o surgimento
de algo novo: a experiência psicanalítica dá testemunho disso. No que concerne
à sexualidade e sua relação com o inconsciente, os seres falantes se dividem
entre os que se inscrevem do lado do gozo todo fálico, os que se inscrevem do
lado do gozo não-todo fálico e os que se situam fora do falo, ou seja, aqueles
cuja sexualidade não tem nenhuma relação
com a norma fálica. Essas três formas de se colocar com relação ao falo
possibilitam infinitas maneiras de identificação sexual. Cada época parece dar
mais lugar a este ou aquele posicionamento diante do falo. A multiplicidade de
identificações sexuais que encontramos hoje em dia, e o surgimento, a cada dia, de novas nomeações, são, a meu
ver, em sua maioria, invenções que se situam de forma não-toda com relação à norma fálica ou fora dela. Nossa época é
marcada por uma maior expressão e também aceitação dessa pluralidade sexual que
se encontra total ou parcialmente fora da norma.
2) L’Incs: Qual lugar para o amor no tempo do
apagamento das diferenças?
Simone: Nas formas atuais de
relação, o apagamento das diferenças que, em última instância, é o apagamento
da diferença sexual, pode ser situado no movimento de abolição da alteridade do
parceiro. As relações, hoje em dia, tendem a deixar de fora o que faz a
diferença, ou seja, o Outro sexo. Isso pode ser observado, por exemplo, no
“tanto faz” relativo ao sexo do parceiro; no que concerne a essa escolha, o que
escutamos muito, ultimamente, é que o sexo não faz diferença. A abolição da
alteridade aparece, também, nas relações que prescindem do corpo do Outro
utilizando, para isso, o recurso às imagens dos meios digitais e a outros
objetos oferecidos pela tecnologia. Nesses casos, a alteridade do parceiro é
substituída pelo gozo solitário, gozo autoerótico que provém da relação direta
com o objeto que se encontra à mão e não depende necessariamente de uma relação
com o Outro. Todas essas formas colocam, em nossa época, a meu ver, a
inexistência da relação sexual à céu aberto.
Sendo
assim, por um lado, podemos dizer que vivemos em uma época na qual não há lugar
para o amor, pois, sem alteridade, sem furo, o amor não tem onde se alojar.
Mas, por outro lado, o fato de que a inexistência da relação sexual seja mais
evidente em nossos dias, com a consequente prevalência do gozo do UM sozinho,
isso torna, a meu ver, a nossa época propícia ao surgimento do amor, uma vez
que com Lacan, no Seminário 20, podemos dizer que o amor também pode ser uma
forma de viver a não- relação sexual. Mas, qual amor? Lacan, no Seminário 20,
inventa uma palavra para designar o amor que não desconhece a impossibilidade
da relação sexual e que tem como condição a irredutível solidão do UM: amuro. Através do amuro, Lacan aproxima amor e gozo, pois o furo que instaura o gozo
irredutível do UM e que faz barreira à existência da relação sexual é, também,
ao mesmo tempo, o que pode vir a constituir-se como uma abertura para o
encontro, sempre contingente. Como diz Lacan “o encontro no parceiro dos
sintomas, dos afetos, de tudo que em cada um, marca o traço de seu exílio, não
como sujeito, mas como falante, do seu exílio da relação sexual”[1].Esse
encontro contingente pressupõe, no entanto, que os parceiros sejam tomados como
falasseres, isto é, como corpos
afetados pela fala.Trata-se do amor que faz existir o inconsciente como falasser ou, ainda, do inconsciente como
destino do amor, o que recoloca a importância da psicanálise em nosso mundo
porque, ao fazer ressoar a fala, a experiência psicanalítica pode oferecer
outra maneira de viver a não- relação e o autoerotismo, uma maneira que não
cura a solidão do Um, mas que comporta uma abertura para o encontro com um algo
a mais , com um mais ainda...
3) L’Incs: Se o inconsciente é a Política, como
pode o psicanalista não se transformar em um político no sentido comum - aquele
que gesta a comunidade para garantir a justa distribuição dos bens e de seus direitos-
e não perder, quanto à sexualidade, o que conta nas curas que dirigimos: o
inconsciente e o gozo.
Simone:
Para
responder a essa questão, eu começaria por outra questão: o que uma experiência tão íntima
e singular como a que acontece em uma análise teria a ver com algo que
poderíamos chamar de política? Miller, ao retomar a frase de Lacan o
“inconsciente é a política” nos leva a considerar o caráter “transindividual”
do inconsciente ao defini-lo a partir da política[2].
Assim, ele promove um deslocamento que passa, primeiro, por considerar a
política como o lugar do Outro até alcançar a perspectiva em que Outro é o
corpo. Portanto, no limite desse deslocamento, encontramos uma coincidência
entre o corpo e a política. Aqui, o corpo, como tal, não se reduz ao organismo,
trata-se de um corpo cuja existência depende do que nele acontece como efeito
de linguagem. Desse ponto de vista, podemos dizer que o inconsciente é a
política do corpo afetado pela linguagem, ou seja, é a política do corpo
falante, a política do falasser. Essa
forma de definir o inconsciente tem como efeito sua amplificação à medida que
possibilita, como nos diz Miller, “o transporte do inconsciente para fora da
esfera solipsista”[3],
ou seja, a transferência do que constitui, para cada um, o que lhe é mais
íntimo, mais singular: ao falar lalíngua
do corpo, é possível fazer ressoar, no coletivo, o inconsciente, o um sozinho.
Como demonstra Laurent, “essa perspectiva
clínica é também altamente política”, pois “limita as pretensões do Discurso do
mestre a se autorizar de um significante mestre ideal”[4],
uma vez que, da perspectiva dos modos de gozo, existe uma equivalência: embora
diferentes, um S1 vale tanto quanto outro. Desse ponto de vista, o que toma o
primeiro plano são as experiências passíveis de dar lugar a diferentes modos de
gozo e não as certezas obtidas das identificações. Todo problema é que, no
campo da política, isso não se sustenta facilmente no discurso e muito menos na
ação. A razão dessa dificuldade repousa no fato de que o discurso do mestre
está sempre aí para nos seduzir e nos acenar com um lugar garantido no Outro,
ou seja, o empuxo à identificação ao ideal, à formação de grupos e às paixões
coletivas é muito forte, reaparece a
todo instante e precisa ser constantemente tratado pelo discurso analítico.
Referências
[1] Lacan, Jacques (1972-1973/1985).
O Seminário, livro 20: Mais, ainda.
Rio de Janeiro: Zahar, p.198.
2 Miller, J.-A.
(2002/2011) Intuições Milanesas I. Disponível em:
3-Miller, J. -A. Intuições Milanesas II.
Disponível em:
4-Laurent,
E. (2016) O avesso da biopolítica: uma
escrita para o gozo. Rio de janeiro: Contra Capa, p. 219.


