L'INCS #3 - 4. TEXTO DE ORIENTAÇÃO









O que é o que é?

                                                                                  Lucíola Freitas de Macêdo


“Chamemos heterossexual por definição aquele que ama as mulheres, qualquer que seja o sexo próprio”.


Trocando em miúdos: um papo com Lacan

Para Lacan, heteroshomo não concernem estritamente à repartição sexual ou às escolhas de objeto, já que “a realidade é abordada com os aparelhos do gozo”(LACAN, 1985, p.75). Como bem demonstrou Jésus Santiago na abertura dos Seminários Preparatórios, a diferença sexual não se inscreve no inconsciente, e masculino e feminino são apenas semblantes. Se a realidade do inconsciente é sexual, isso se dá pela via do gozo do Um, esse que itera, e irá se alojar no sinthoma.

O divertido dessa definição de Lacan, é que ela não se presta a totalizações, bagunçando completamente os cinquenta tons de categorias existentes hoje para designar a multiplicidade das identidades de gênero (andrógino, pansexual, heterossexual, homossexual, transgênero, cisgênro, bissexual, intersex, gênero neutro, gênero flúido ...) evocados por Elisa Alvarenga no último seminário preparatório.

Traçado o horizonte, voltemos à página 467 de “O aturdito”, (LACAN, 2003, p.467) em seu vigoroso esforço de poesia, pois encontramos nessa página um verdadeiro dicionário, que se revela sob a forma de verbetes, a começar por esse que estamos comentando essa noite. Lacan dirá algo mais em seu exercício de definir o indefinível, com toda a sua exuberância quanto ao uso da equivocidade do sentido. Vejamos, com Lacan, o que é o que é!

1      O que é uma mulher? “Uma mulher não é toda... por ela ser a única a ser ultrapassada por seu gozo, o gozo que se produz pelo coito”. Isso não exclui que um homem, em seu modo de gozar, pode ser uma mulher.

2      E o que é o gozo de uma mulher?  “Mesmo que se satisfaça a exigência do amor, o gozo de uma mulher a divide, fazendo-a parceira de sua solidão, enquanto a união permanece na soleira”.

3      E quanto ao homem, do que é que ele goza? “Em que se confessaria o homem servir melhor à mulher de quem quer gozar senão para tonar seu esse gozo que não a faz toda dele; para nela o re-sucitar?”

4      Mas o sexo, o que é?  “Aquilo que se chama sexo... é propriamente, respaldando-se no nãotoda, o heteros, que não pode ser estancado com universo”.

      Até que chegamos ao amor...  o que é amar? “ Eu disse “amar”, e não prometido a elas por uma relação que não há. É justamente isso que implica o insaciável do amor...”.

Amar, então, é amar que os caminhos não cheguem jamais e nem completamente à outra metade, esse amor não une metades, não se obstina em compatibilizar o Ser e o Um, apenas heteriza-se, dissipa-se, “na melodia do meiodito”.

            Eis que os verbetes se reduzem e se logificam em sua radical simplicidade numa desconstrução do gênero dessas que ao meu ver, nem mesmo Judith Butler arriscou: heteros corresponde apenas ao nãotoda, ao que é outro; homo corresponde nada mais que o que é semelhante, ao mesmo; qualquer que seja o próprio sexo ou a escolha de objeto em questão. Homo e heteros não correspondem a identidades, mas a modos de amar e de gozar, e mais...  ainda, a modalidades do dizer, segundo o modo de fazer ou não fazer universo.

6)      Só mais uma perguntinha: o que é que o universo tem a ver com tudo isso?

E por falar em amor e estrelas... elementos de astrologia lacaniana

Para saber o que o universo está fazendo no meio disso tudo, iremos à próxima estação, que a meu ver, é um dos mais belos capítulos dos seminários de Lacan, estabelecido por JAM com o título “O amor e o significante”, trata-se do capítulo IV do seminário 20, mais, ainda. É ali que de meio dizer em meio dizer (ao sair daqui leia esse primor de capítulo!), Lacan se esmera em transmitir que amor é esse, que reconectando-se ao gozo sexual, se faz insaciável; esse amor que “não faz universo”. Lacan irá trazer nada menos que Copérnico para essa conversa. Sim, ele mesmo, o astrônomo que no século XIV trocou o centro do universo de lugar: não mais a terra, mas o sol. Lacan dirá que não faz a menor diferença trocar o centro de lugar, pois o que se aloja no centro “é essa boa rotina que faz com que o significante guarde, no fim das contas, sempre o mesmo sentido... dado pelo sentimento, que cada um tem, de fazer parte do mundo, quer dizer, de sua familiazinha e de tudo o que gira ao redor”; mundo esse no qual as insurreições (‘falo mesmo para os esquerdistas”), provoca Lacan, permanecem dentro de uma concepção de mundo perfeitamente esférica! Já a subversão, “se ela existiu em algum lugar e em algum momento, não é ter-se trocado o ponto de rotação do que gira, é ter-se substituído o isso gira por um isso cai, em referência a Kepler e ao foco da elipse, no qual no ponto oposto e simétrico, não há nada (LACAN, 1985, p.58).

Foi justo aí que se marcou o impasse dessa cosmologia que consiste na admissão de um mundo, impregnada da função do ser, que no discurso analítico deverá ser abandonada (LACAN, 1985, p.60). Para objetar a esfera e o centro, assim como a concepção de amor que daí deriva, Lacan recorrerá à escrita matemática e à teoria dos conjuntos, que lhe permite abordar o Um de outra maneira, que não seja pela via da complementariedade, da completude ou do ideal, “uma vez que todo mundo sabe que jamais aconteceu entre dois, que eles sejam só um”, e que o amor “não faz ninguém sair de si mesmo”. O verdadeiro problema do amor, colocado por Freud ao introduzir o amor narcísico, “é de como é que pode haver um amor por um outro” (LACAN, 1985, p.65).

Pensar por essa via proposta por Lacan, nos levará a uma lógica outra, heteros, que não nega os binarismos nem os monismos, mas não faz disso o centro da questão. Ele a descentra. Seu mérito está em não incorrer a generalizações, deslocando centrismos, sejam eles quais forem, no próprio corpo das definições que propõe, destotalizando e deslocalizando o que concerne ao campo dos gozos, do amor e da sexuação.

Referências:

LACAN, Jacques. O aturdito (1972). In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p.448-497.

LACAN, Jacques. O Seminário 20: mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.









A mulher, como heterus e o amor como luz-guia: o que se inventa aí?

Débora Matoso



Vaga Carne é uma peça – escrita, dirigida e encenada por Grace Passô – e que tem como personagem uma voz, e cenário, o corpo de uma mulher. Essa voz vagueia e pode ocupar diferentes matérias: humanas e não humanas. A voz passa a habitar o corpo de uma mulher. Encontro que se traduz em puro estranhamento. Até então, essa voz, nunca havia deixado de se reconhecer enquanto um fluxo sonoro. Mas a voz entra em um estado de completa perturbação ao se ver, paradoxalmente, invadida pelo corpo da mulher. Vaga Carne serviu-nos de porta de entrada para transmitir algo de “chamemos heterosexual, por definição, aquele que ama as mulheres, qualquer que seja seu sexo próprio.” (LACAN, 2003, p. 467). Dessa frase que está publicada em O aturdito (1972) o amor e A mulher, como heterus, ou seja, o diferente, foi o que serviu-nos como luz-guia.

Em O aturdito Lacan joga com a homofonia, que por si só já atesta o equívoco. Na liçao “Letra de uma carta de almor”, do s. 20, ministrado entre 72/73 mesmo ano de O Aturdito, Lacan afirma que “um discurso como o analítico visa ao sentido.” Para fazer surgir “justamente a ideia de que esse sentido é aparência.” (LACAN, 2008, p. 85).

Sigamos em direção à nossa investigação: ama as mulheres qualquer que seja seu sexo próprio, assim Lacan define o heterosexual. Com quadro da sexuação, indica as possibilidades de inscrição da parte homem e parte mulher para os seres falantes. “Quem quer que seja ser falante se inscreve de um lado ou de outro.” (LACAN, 2008, p.85). No ensino lacaniano o que está em questão seria ter como refente, a partir das fórmulas da sexuação, a inscrição fálica – todo e não-todo – e para todo ser falante. Ao localizar que se trata de uma orientação ao ser falante, Lacan disfaz qualquer relação direta com a questão de homem e mulher enquanto gênero. A todo ser falante seu sexo próprio. “O homem, uma mulher, eu disse da última vez, não são nada mais que significantes.” (LACAN, 2008, p.45). Isso está na lição “O amor e o significante”, mais adiante em “Letra de uma carta de almor”, Lacan irá colocar a questão da diferença sexual em termos do gozo fálico e não-todo fálico. Ao inscrever-se na parte mulher, por exemplo, implica ao ser falante, ausentar-se de qualquer possibilidade de universalidade. Vale dizer que tal inscrição, por um lado ou outro, é marcada por uma escolha forçada.

            Vaga Carne nos inspirou a aproximar esse “corpo de mulher” da versão lacaniana da mulher como heterus, ou seja, Outro, para qualquer que seja seu sexo próprio. Lacan, recorre ao equívoco da língua francesa para traduzir o impossível que concerne A Mulher articulando-a à dimensão de verdade. “A gente diz mulher”, em francês, “on la dit-femme / diffâme”. (LACAN, 2008, p. 91). Ou seja, lá onde se diz mulher, o que se escuta é difamação. Resta sempre algo mal-dito aí.



E o que se inventa aí?,  uma conversa com Ed Marte[1]



            Ed Marte é uma figura pública de Belo Horizonte marcada por particularidades: um homem de barda que se veste com peças do vestuário feminine e se nomea “não-binário”. Ocorreu assim convidá-lo a conversar!

Para Ed Marte, queer e não-binário são praticamente a mesma coisa. Ele entende que Judith Butler também constrói essa relação entre performatividade queer e não-binário, ou seja, que não se identifica com nenhum dos gêneros ou mesmo que transita, trans, entre os dois. Eu não me identifico a um só gênero, me sinto masculino e feminino. Muita gente me pergunta se não deveria ser Ed e Vênus, daquela história de que as mulheres são de Vênus e os homens são de Marte. Respondo: claro que não. A invenção desse nome começou em 2007 quando trabalhei na montagem da peça Pode ser que seja só o leiteiro lá fora, de Caio Fernando Abreu. Minha personagem era o Alice Cooper, uma figura trans. Algo indefinido no sentido de não se assumir nem como homem tão pouco como mulher. Havia também a inspiração no cantor Alice Cooper, claro, artista marcado por sua androgenia. Uma fala de Alice que me influenciou era assim: “as pessoas têm a obrigação de oferecer no mínimo um visual”. Ed diz que sempre gostou de vestir coisas diferentes e se preocupar com o visual. Outra referência citada por ele que o ajudou na construção de seu “corpo político” foi a obra de Qorpo Santo. Já o trabalho com performance ganhou consistência a partir de 2011. A performance aconteceu junto com o movimento Praia da Estação. Foi aí que comecei a andar de maiô pelas ruas. Antes disso eu não saia de maiô, apesar de tê-los em casa. Eu tinha algumas peças como saias e vestidos, às vezes até usava. A primeira performance que fiz, anunciada assim como performance, foi em evento chamado Intromissões Poéticas (2011) cujo tema era As mulheres. Tudo isso foi acontecendo e eu não localizo um ponto de virada. O ponto de virada não seria a invenção do nome Ed Marte?, pergunto. Na época não percebi, de forma consciente, como uma virada. Talvez inconsciente, pode ser sim um marco, pois as coisas foram acontecendo de forma intuitiva e natural. Teve influência da praia da estação e do momento político das lutas nas ruas. Mas na época não houve algo como assim como uma definição do tipo "Agora eu sou Ed Marte". Eu simplesmente comecei a ser e viver essa liberdade do corpo político.

A ideia de trazer a referência a Ed Marte foi no sentido de tomá-lo como um acontecimento que areja, ensina e ajuda a pensar. Pareceu-me que a “transformação” que Ed diz ter vivido, se deu ancorada em algumas das referências que ele cita em nossa conversa. Mas principalmente na invenção desse nome Ed Marte, marcada pela potencia disruptiva da experiência que passa pelo corpo. Algo de um saber-fazer com o heterus. Ed Marte, com seu nome e seu corpo sustenta-se num espaço trans. Onde o “e” serve como conector. Ele é um e outro ao mesmo tempo. Lógica que dispensa uma posição de exceção fálica como norma, mas não sem orientação.



Referências:

ABREU, Caio Fernando. Pode ser que seja só o leiteiro lá fora. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2017. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento496564/pode-ser-que-seja-so-o-leiteiro-la-fora>. Acesso em: 28 de Mai. 2017. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7.

LACAN, Jacques. O aturdito (1972). In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p.448-497.

LACAN, Jacques. O Seminário 20: mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

Trema!: “Vaga Carne”, um cenário para a voz – Grace Passô https://youtu.be/KxCp2A1mqG0. Acesso em: 28 de Mai. 2017.





http://jornadaebpmg.blogspot.com.br/2017/06/lincs-3-5o-que-se-escreve.html









[1] Agradeço imensamente a Ed Marte pela possibilidade da conversa. Sua gentileza e transmissão deixaram marcas.

Jornada EBP-MG