L'INCS #2 - 6. CONEXÕES






Elle, entre o silêncio e o ruído do real sexual



Lisley Braun Toniolo



O filme Elle de Paul Verhoeven (2016) protagonizou nosso segundo encontro de “Cinema e Psicanálise” no Cine Humberto Mauro, no dia 05 de maio. As poltronas do cinema foram todas ocupadas, vivificando nossa proposta de conexão com a cidade tendo em vista o tema de nossa XXI Jornada “O inconsciente e a diferença sexual: o que há de novo?”. O comentário preciso de Cristina Vidigal nos lançou importantes questões.

Elle, Michèle Leblanc, nos conduz por seu cotidiano agora marcado por um acontecimento que inaugura o filme, um estupro. Cena imersa em violência, a qual seu gato assiste em silêncio. Um silêncio que se repete quando ela junta os cacos, toma banho e segue sua vida. Michèle é mãe de um jovem, amante do marido de sua melhor amiga e sócia, ex-mulher de um escritor fracassado, proprietária de uma empresa de games, filha de um pai que cometeu um crime de horror na França e de uma mãe que não lhe esconde seu apetite sexual. Nesse caleidoscópio de imagens do modo como se faz mulher, ela desliza com sua frieza constante. Em diversos momentos, é invadida pelas ruidosas memórias e fantasias que circundam a cena inicial.

Cristina Vidigal nos aponta estarmos diante de um híbrido entre real life e videogame, permeado por um violento erotismo, onde a heroína toma para si a tarefa de enfrentar o vilão, instituindo uma cadência de superação de obstáculos repleta de sangue, esperma, estilhaços. Deparamo-nos com o corpo imagem de Michèle, que após cada cena de violência se reconstitui sem maiores danos, como se ganhasse uma nova vida no jogo.

Cristina delineia que na real life Michèle é marcada pela estranheza e pelo ceticismo, sempre nos surpreendendo pois sustenta sua diferença, escapando à expectativa dos demais, à crença. Se a crença permite-nos suportar as contradições cotidianas, o movimento de Michèle é outro, ao mapear a crença dos demais extremamente sensibilizada para capturar o fetichismo da modernidade. Seu ceticismo repudia e fascina as pessoas, nessa trama que muitos críticos consideraram imoral.

Como pano de fundo, uma fotografia dela ainda menina, seminua na cena do crime paterno, nos lança um olhar vazio, ampliando o sem sentido e fazendo insistir a pergunta sobre sua posição naquilo que ocorreu: vítima ou parceira do pai? Uma fotografia que ordena e condensa o que está em jogo, fazendo ressoar a “pequena psicopata” e sua perplexidade diante do ocorrido.

Essa memória que também desvela um esquecimento, pode ser acessada por todos no google, permitindo encadear outras imagens, tornando-se, nas palavras de Cristina, uma stalker que sempre a assalta, tomando-a desprevenida. A fixidez dessa imagem, por outro lado, não a paralisa. A personagem afirma “a vergonha não impede ninguém de fazer nada”. No debate percebemos que Elle sabe que o que está em jogo é da ordem do sexual e que as fantasias, assim, têm sua função.

            Nesse filme também estamos diante do híbrido entre o homem e o monstro, contradição que Michèle não consegue suportar, mas que a captura em sua própria versão de mulher e monstra, uma pergunta para a qual ela não tem resposta e tampouco responde como vítima, ainda que o seja. Freud situa a moral como um dos “diques anímicos contra os excessos sexuais” (Freud, 1905) e esclarece antes de serem estabelecidos a criança pode ser induzida “a todas as transgressões possíveis”, tornando-se perversa polimorfa. E por isso a tendência à transgressão estaria presente nos seres humanos, algo que não escapa aos olhos de Michèle. Para Lacan (Sem.XI), a pulsão é sempre parcial, de maneira que apenas por um acaso conduz à reprodução. Verhoeven ilustra magistralmente como o encontro entre os corpos é sempre um choque, partindo do mais singular e estranho que atravessa a cada um. Um filme imoral que testemunha uma série de modos de gozo onde o obsceno se presentifica tanto no mais íntimo, quanto no silêncio que habita os corpos na cidade, no laço social contemporâneo.



Referências



Freud, S. (1905) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Edição Standard. Brasileira das obras completas, vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1976.



Lacan, J. (1963-1964/1988). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.




De um príncipe a uma menina

Cristiana Cardoso Pittella

 

A partir de uma vinheta clínica acompanhamos o trabalho de uma menina, cuja dificuldade com o saber está ligada ao impasse que ela encontra entre a posição fálica de ser o príncipe da mamãe e tornar-se mulher. Sua pergunta refere-se ao real do sexo, sou homem ou sou mulher?  e ao que se passa entre os casais, entre um homem e uma mulher.

O saber e o pensamento passam pelo corpo, pela castração e, para esse sujeito, no momento de latência houve uma sexualização do pensamento que lhe impedia ter um bom desempenho escolar. Ao dar lugar na análise a esses pensamentos que afetam seu corpo e sua existência, ela pode enfrentar com mais firmeza sua dificuldade com o saber e com o corpo. Passa a se responsabilizar por encontrar saídas que lhe sejam possíveis e mais próprias para o seu sobrepeso - índice de sua tentativa de encontrar um lugar no Outro como menina -, e se esforça mais na escola, faz novos laços com as meninas circulando mais. Ela começa a subjetivar a falta, não sem angustia, a partir da hiância que se abre acerca de seu lugar junto ao par parental procurando subjetivar seu corpo de menina. Ora queria algo que lhe aproximasse da irmã para ser uma menina desejável aos olhos dos pais, ora queria ter algo parecido com os pais para distinguir-se da irmã, ora ela tentará fazer escolhas próprias, singular. Ela diz o quanto é difícil saber sobre sua existência castrada, como é conflitante sua relação com a mãe e poder assim seguir seu próprio caminho de mulher e construir sua feminilidade. Ao conseguir pelo trabalho da análise ceder algo do gozo e encontrar um lugar mais distinto e privado, como menina, ela tem podido elaborar sua separação do lugar de falo. A descoberta da castração, quando a menina subjetiva que a mãe não pode lhe dar o que ela pede - pois a própria mãe, uma mulher, está afetada pela falta fálica -, é um ponto de virada no desenvolvimento da menina. Ela “luta” por isso. Luta para ser escutada, para falar, para manter seu lugar e laço com a análise. Ora diz que não quer saber, ora diz que o outro não acredita em seu saber.

Os efeitos são surpreendentes quando se da a palavra à criança, ela pode sair da posição de objeto de cuidados, para alguém que quer cuidar de si e almeja um futuro para cuidar também de outros, “ora no desejo de ter um filho, ora de cuidar das crianças e animais”. É preciso escutá-la, dar lugar a seu saber e dar respostas que autorizem as saídas que ela encontra para tratar seu mal estar e invenções para a falta do significante feminino. Pois para o inconsciente só há um sexo, o fálico. Ela pode ser uma menina do jeito dela ... “tomar o caminho sozinha”, servindo-se do pai. Não é uma estrada reta, é cheia de curvas de idas e voltas.






Nota: Atividade da Comissão de Conexões da XXI Jornada da EBP-MG realizada em parceria com PUC-MG, em 15/05/2017, coordenação de Suzana Faleiro Barroso.







                                         
 


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