O gozo sexual e a
multiplicidade estrutural[i]
Elisa Alvarenga
“Só existe, por experiência feita, uma
estrutura, quaisquer que devam ser seus condicionamentos particulares. Constata-se que o gozo sexual não pode ser
escrito, e é disso que resulta a multiplicidade estrutural, para começar, a
tétrade, na qual se designa alguma coisa que a situa, mas que permanece
inseparável de um certo número de funções que, em suma, nada têm a ver com o
que pode especificar, em termos gerais, o parceiro sexual”[ii].
A
multiplicidade estrutural começa então pelos quatro discursos, a tétrade, mas
não especifica o parceiro sexual. Desde a lição V deste Seminário, Lacan retoma
“A carta roubada” de Edgar Alan Poe, de uma perspectiva um pouco diferente
daquela do seu texto dos Escritos, na medida em que, para além da estrutura
lógica que engloba a relação entre os significantes, interessa a Lacan
localizar o gozo, e notadamente, a função do falo e o efeito feminizante da carta
sobre aquele que a detém. Se essa carta pode ter esse efeito feminizante, diz
Lacan na lição VI, é porque o mito escrito, Totem e tabu, nos aponta que é impensável
dizer A mulher, porque não podemos dizer todas as mulheres. Nas lições
seguintes do Seminário XVIII, Lacan começa a construção de suas fórmulas da
sexuação, na tentativa de definir, a partir da imiscuição do gozo, as posições
do homem e da mulher. Não por acaso, Miller nomeará a lição VIII, “O homem, a
mulher e a lógica”, e finalmente, a IX, “Um homem, uma mulher e a psicanálise”.[
.....]
Se
Homem e Mulher não se definem pelas diferenças anatômicas e tampouco, nesses
tempos de crise da identidade e do desejo, pelos ideais do sexo, tais como
definidos pelas coordenadas da metáfora paterna e da significação fálica que
dela decorre, o que seria a “multiplicidade estrutural” da qual fala Lacan
nesta época de “gênero fluido”, tal como propõe François Ansermet[iii]?
[ .....]
Em
primeiro lugar nos surpreendeu encontrar o mesmo termo – a multiplicidade – nas
formulações de Judith Butler em seu livro Problemas
de gênero – feminismo e subversão da identidade. Em que a multiplicidade
promovida pela filósofa norte-americana difere da multiplicidade estrutural da
frase de Lacan que ora comentamos? Para Butler, “se as ficções reguladoras do
sexo e do gênero são, elas próprias, lugares de significado multiplamente
contestado, então a própria multiplicidade de sua construção oferece a
possibilidade de uma ruptura de sua postulação unívoca”[iv].
Ela propõe então mostrar que o sexo, não mais visto como uma “verdade” interior
das predisposições e da identidade, é uma significação performaticamente
ordenada que liberta da interioridade e das superfícies naturalizadas, e pode
ocasionar a proliferação parodística e o jogo subversivo dos significados de
gênero [......] Ela quer subverter e
deslocar as noções supostamente naturalizadas e reificadas do gênero que dariam
suporte à hegemonia masculina e ao poder heterossexista. Ela considera portanto
que o ser falante está em condições de escolher um gênero, ou desconstrui-lo,
tomando a identidade de gênero como socioculturalmente determinada e construída
como um ato intencional e performativo. O que ela não leva em conta é o fato de
que a escolha do sexo é forçada por determinações do inconsciente e pela
montagem pulsional própria de cada sujeito. Diante da crise da diferença dos
sexos, nossa colega Leda Guimarães pergunta: até que ponto a anatomia deve
continuar sustentando o binarismo homem-mulher? É possível prescindir do falo
como operador de diferença e da partilha entre os sexos[v]?
Jésus
Santiago começou a responder a essas questões ao nos propor, na sua Introdução
ao Seminário da Jornada, que o masculino e o feminino são semblantes: Lacan inclui
o gozo do Um no inconsciente, mas não a diferença sexual. Assim, Jacques-Alain
Miller, nas suas aulas publicadas sob o título de “uma distribuição sexual”,
mostra como essa distribuição é ironicamente fluida e inconsistente, a partir
mesmo do que a categoria do não-todo tem de infinito e inconsistente. As
categorias do homem e da mulher chegam a se inverter a partir de uma psicologia
fluida. [......]Freud já notava, em seu tempo, que a identificação sexual não
corresponde necessariamente a uma escolha de objeto, o que Lacan destacou
especialmente no seu Seminário 20. Podemos ter assim homens heterossexuais
femininos, ou homossexuais bem masculinos. Assim como nas mulheres a
homossexualidade não se manifesta necessariamente como virilidade. Sabemos, por
outro lado, o quanto os sujeitos histéricos do sexo feminino podem ser viris,
assim como as insígnias da virilidade podem paradoxalmente feminizar um homem[vi].
Desde
o Seminário XVII, Lacan fala do efeito feminizante do objeto a como causa de
desejo sobre o homem – pelo afeto que ele experimenta pela incidência do
discurso sobre ele[vii].
Já a mulher, na instituição da mascarada, se produz como objeto. “É aí que vem
se inserir a vasta conivência social que converte o que podemos chamar de
diferença dos sexos ao natural em sexualização da diferença orgânica”[viii].
É essencial fazer esses lembretes no momento em que coloca a questão do lugar
da psicanálise na política, diz Lacan, pois não há discurso que não seja do
gozo.
Assim,
Lacan nos dá instrumentos para nos orientarmos na direção do tratamento dos
sujeitos que querem escolher seu sexo, numa clínica diferencial da certeza: “Um
órgão só é instrumento por meio disto em que todo instrumento se baseia: ele é
um significante. É como significante que o transexual não o quer mais, e não
como órgão. No que ele padece de um erro... Sua paixão ... é a loucura de
querer livrar-se desse erro, o erro comum que não vê que o significante é o
gozo e que o falo é apenas o significado. Existe apenas um erro, que é querer
forçar pela cirurgia o discurso sexual”[ix].
São
situações que nos remetem ao quinto paradigma do gozo promovido por
Jacques-Alain Miller: o gozo discursivo[x],
onde a relação entre o significante e o gozo é primitiva, originária. Nenhuma
representação identificatória é completa e por isso tende a se repetir. O gozo
é representado pelo significante, mas essa representação não é exaustiva e
introduz o objeto a como mais de gozar, insistente e tirânico. Para François
Ansermet, é o que leva o sujeito à certeza, nem sempre assimilável à psicose,
mesmo se leva o sujeito a uma cirurgia.
Do
quinto paradigma do gozo avançamos em direção ao sexto, a não relação, que nos
reenvia à frase que nos cabe comentar. Há disjunção do significante e do
significado, do gozo e do Outro, do homem e da mulher. Temos aqui o primado da
prática, e mesmo de uma pragmática, com a possibilidade de invenções.
O
paradigma da não relação toma o gozo como um fato: não há relação sexual, mas
há gozo. Há Um, gozo que aparece como fundamento do individualismo
contemporâneo. O gozo fálico é uma figura desse gozo Uno, que faz obstáculo à
relação. Assim como o gozo da fala, modo de satisfação específico do corpo
falante, há também o gozo do corpo próprio e o gozo sublimatório, todos fazendo
obstáculo à relação com o Outro. A não-relação é um obstáculo ao conceito de
estrutura, diz Miller, pois a estrutura é algo que está escrito, que não cessa
de se escrever, e se apresenta portanto como uma necessidade, a priori. Seu
limite aparece no gozo sexual do Outro como ser sexuado, porque há aí um
encontro contingente. A estrutura comporta furos, e neles há lugar para a
invenção: é aqui que entra a psicanálise. A estrutura furada não seria a
estrutura dos nós, promovida por Lacan a partir do Seminário 20, para além da
estrutura tetrádica dos discursos, re-significando assim, a posteriori, essa
frase sobre a multiplicidade estrutural?
Tem me chamado a atenção, na experiência
clínica, a dificuldade dos sujeitos de escolherem, na sua juventude, o sexo do
objeto sexual – para além de sua própria, precária, identidade sexual. Talvez
possamos falar aqui de crise nas identidades sexuais, muito em voga hoje em dia
e bem representada nas inúmeras categorias utilizadas para identificar-se
sexualmente no facebook, que crescem a cada dia: masculino, feminino, andrógino,
trans, travesti, transgênero, queer, intersex, nenhum, neutro, pansexual, gay,
lésbica, bissexual, poliamoroso, flexível, cissexual, etc.
Uma
pluralidade de figuras e opções não são exceções em nossos tempos. Assim,
homossexuais masculinos e femininos podem escolher um parceiro do mesmo sexo,
sem que isso os impeça de eventualmente se encantarem com um objeto amoroso ou
sexual do sexo oposto. E há muitos exemplos de sujeitos que, em uma determinada
encruzilhada de sua vida, mudam sua escolha de objeto hetero para homossexual
ou vice-versa. Ou ainda, há aqueles que não conseguem ou não querem definir seu
próprio sexo.
Quando falamos no declínio dos ideais e da
metáfora paterna, não descartamos a função do sintoma, calcada nas marcas que
cada sujeito traz consigo. E diante da metonímia do desejo, a psicanálise busca
orientar-se pelo objeto da fantasia fundamental, a partir do qual pode emergir
um sujeito desejante, responsável por seu funcionamento pulsional, e a
circunscrição de um sinthoma. É bem diferente de definir sua identidade sexual
de maneira performática e intencional, pois implica um consentimento com as
marcas produzidas pelas palavras do Outro em seu corpo, determinando a escolha
forçada do seu sexo e de seu objeto sexual, no entanto aberta às contingências
dos encontros, entre os quais o encontro com um analista.
[i] Este texto é uma versão reduzida do
trabalho apresentado por Elisa Alvarenga em Seminário Preparatório para a XXI
Jornada de Psicanálise da EBP-MG.
[ii] LACAN, J. De um discurso que não fosse semblante, RJ, Zahar, 2009, p. 100.
[iii] ANSERMET, F. “Choisir son sexe: le
paradoxe du parlêtre”. Trabalho apresentado no X Congresso da AMP no Rio de
Janeiro em 2016.
[iv] BUTLER, J. Problemas de gênero, RJ, Civilização Brasileira, 2016, p. 68.
[v] GUIMARÃES, L. Editorial, in Arquivos da Biblioteca 13, RJ, EBP-RJ,
2017, p. 7.
[vi] MILLER, J.-A. Los usos del lapso, Buenos Aires, Paidós, 2004, p. 443-444.
[vii] LACAN, J. O avesso da psicanálise, RJ, Zahar, 1992, p. 152.
[viii]
Ibiden, p.
74.
[ix] LACAN,
J. ...ou pior, RJ, Zahar, 2012, p.
17.
[x] MILLER, J.-A. Os seis paradigmas do
gozo, in Opção Lacaniana on line 7, 2012.
Paradoxos
do gozo sexual em Lacan[i]
Maria José Gontijo Salum
A frase que orienta o Eixo II: “O gozo
sexual que não se escreve e a multiplicidade estrutural” consta da lição VI,
cujo tema é o falo (LACAN, 2009,
p.100). Em seu decorrer, somos apresentados
a questões referentes a esta função, donde se pode extrair considerações: há um
paradoxo no que concerne ao gozo sexual e este paradoxo incide, diretamente, na
maneira como ele entende o falo. Há uma dupla modalidade na função fálica. Por
um lado, ela é da ordem do necessário, do não cessa de se inscrever, mas também
se assenta no impossível – do que não cessa de não se escrever. Isso quer dizer
que é necessária a inscrição dessa função para que algo do gozo sexual se
inscreva, mas o próprio falo possui uma dimensão real, de não inscrição. Lacan realizou
discussões sobre o falo ao longo de toda a sua obra. Podemos acompanhar as
diferentes matizes que essa função adquire no decorrer de seu ensino.
Em discussão anterior sobre o tema da realidade
sexual do inconsciente, Jésus Santiago apresentou “o masculino e o feminino como máscaras no nível do que se
apreende como a sexualidade”. Segundo ele, “na elaboração das tábuas da
sexuação, a função fálica assume especial importância posto que o semblante
fálico se faz presente no inconsciente, em detrimento da diferença sexual que
não existe”. Ele apresentou a função fálica em sua dimensão de inscrição. Posteriormente
teremos a oportunidade de acompanhar o falo em sua dimensão real, no Eixo 4,
concernente à frase “o único real que verifica o que quer que seja é o falo”
(LACAN, 2007, p.114). Pode-se considerar que nessa lição há elementos que
fundamentam o estatuto paradoxal do gozo sexual e da função fálica.
Irei me
valer de alguns pontos destacados por Lacan, para desenvolver a formulação do
Eixo II, mas antes, gostaria de marcar referências sobre A carta roubada e Totem e tabu que Lacan utiliza, a fim de preparar sua tese: o gozo
sexual não se escreve. Ele usa o conto de Edgar Alan Poe para destacar como a
função fálica aparece articulada ao discurso. Nesse Seminário, retoma sua
afirmação de que uma carta sempre chega ao seu destino. Lacan trabalha com a
duplicidade presente no significante lettre:
carta e letra. Ressalta que a ausência de referência ao conteúdo da carta,
torna notável o efeito que ela exerce sobre seus detentores, a saber, efeito de
feminização ao ser tocado pela carta – letra. Distingue a carta em sua dimensão
de letra do S1: a letra é o significante de que não há Outro S(A). Já em
Totem e tabu afirma que, mesmo que Freud
não tenha formulado a impossibilidade da relação sexual, esse é o elemento que destacará
em sua leitura do mito freudiano. Diferente da estrutura mítica abordada por
Lévi-Straus, onde tudo é escrito, de acordo com Lacan, Freud introduz o
impossível: o pai que possui todas as mulheres. É impossível dizer “todas as
mulheres”. Ao recorrer à lógica dos quantificadores para localizar como o gozo
se estrutura, Lacan parte do “...ao menos um” para estabelecer o particular, ou
seja, a multiplicidade. Passemos aos pontos a serem desenvolvidos.
Ponto 1: O gozo
sexual não se escreve: afirmação decorrente da frase “constata-se que o
gozo sexual não pode ser escrito, e é disso que resulta a multiplicidade
estrutural” que Lacan apresenta no início do parágrafo e o conclui afirmando
que não se pode especificar o parceiro sexual. Podemos afirmar que, do ponto de
vista da psicanálise, dizer que o gozo não pode se escrever equivale a dizer
que nada pode ser dito a respeito do parceiro sexual e Lacan acrescenta: disso
resulta a multiplicidade. Como não se escreve, a relação que o sujeito mantém
com o gozo é sempre singular, não existe um universal. Pode-se dizer que o gozo
se refere ao próprio sujeito e isso gera a multiplicidade. A multiplicidade estrutural
condena o sujeito a não poder especificar, em termos universais, o que é o
parceiro sexual. No plano universal, o mito que traduz o impossível: possuir
todas as mulheres. Para cada um, resta estruturar um modo de gozar. Poderíamos
falar de uma especificação do gozo a partir da fantasia, mas não a partir do
gozo sexual propriamente dito, do modo de gozo.
Ponto 2. O gozo
não é tratado diretamente. Lacan estabelece uma relação de causa e efeito: se
o gozo sexual não se escreve, isso quer dizer que, do ponto de vista da clínica
psicanalítica, ele não é tratado diretamente. Sabemos que, no decorrer da
história da psicanálise, alguns desvios foram feitos visando a tentativa de
tratamento, direto, do que é da ordem do gozo. Nesse aspecto podemos citar, algumas
dissidências do movimento psicanalítico, elencadas por Freud, e algumas críticas
que Lacan faz à Melanie Klein, especialmente. Ao se referir às pulsões, Freud
falou de seus destinos, ao que Lacan acrescentou que o gozo pulsional é do
registro do real, da ordem do impossível, do não cessa de não se escrever.
Assim, para abordar o gozo, precisamos de um ponto de apoio que diz respeito à estrutura
significante do sujeito.
Ponto 3 – A
simbolização do gozo sexual. No ponto anterior, Lacan afirmou que o gozo
não pode ser tratado diretamente devido à sua dimensão real, mas, logo em
seguida, paradoxalmente, ele se refere à simbolização do gozo sexual. É surpreendente
que, depois de dizer que o gozo sexual é algo que não pode ser escrito, logo
mais à frente ele se refira à simbolização do gozo sexual. Contudo, ele afirma
que essa simbolização não concerne ao gozo sexual propriamente dito, ela é
decorrente da interdição que incide sobre o gozo sexual. Ele acrescenta que tal
interdição está relacionada ao princípio do prazer, um princípio econômico, por
excelência. De acordo com Lacan, a incidência do significante sobre o gozo gera
uma mortificação, que ele nomeia gozo mortal. A interdição mobiliza o gozo
mortal, sendo uma forma em que o gozo se estrutura. Na sequência, Lacan irá
recorrer à lógica aristotélica para localizar a estruturação do gozo por meio
da função fálica. Para isso, ele fará a transposição das proposições lógicas
para os quantificadores matemáticos.
Ponto 4: Uma função para não escrever. Lacan ressalta que a lógica proposta
por ele é um escrito, não um discurso. Ele propõe a transposição da lógica
universal - afirmativa e negativa - para os quantificadores particulares. Nessa
passagem reside o paradoxo ressaltado no início desse texto. No que concerne à
relação sexual, ela não se escreve, resta a inscrição da função fálica. Se por
um lado se trata de um modo de inscrição, essa função, segundo suas palavras, existe
para não se escrever.
Referências:
Lacan,
J. (1971) O Seminário, livro 18: de um
discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009.
_____.
(1975-76) O Seminário, livro 23: o
sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.
[i] Este texto é uma versão reduzida do trabalho apresentado por Maria
José Gontijo Salum em Seminário Preparatório para a XXI Jornada de Psicanálise
da EBP-MG.



