Nascimento de Vênus - Botticelli
O quadro do artista Rodrigo Mogiz nos chamou a atenção pela
ousadia, originalidade e estética, importou ainda, uma convergência, seu
trabalho ispirava-se no quadro de Boticelli, “o nascimento de Vênus” imagem
evocada por Lacan no seminnario 8 a tansferencia. Podemos dizer que se tratou
de um encontro feliz.
O Nascimento de Vênus pintura de Sandro Botticelli, óleo
sobre tela, data de antes de 1499.
Representa a deusa Vênus
emergindo do mar,
mulher adulta, da mitologia romana.
Botticelli se inspira em Afrodite
Anadyomème. Afrodite surgindo do mar. O quadro
é característico da renascença italiana e retoma segundo o gosto da
época, um tema da antiguidade, revisto através de uma nova sensibilidade. Vênus
normalmente deusa do amor carnal e selvagem é transformada, numa divindade frágil
e púdica, destacada das contingências terrestres, tornando-se Vênus celeste.
O nome Afrodite em grego: Αφροδίτη, Aphrodítē deriva da palavra aphrós,
que quer dizer literalmente “espuma”.
Dai surgiu a lenda de
seu nascimento das espumas do mar.
Está ainda ligado à
todos os fenômenos de ebulição. Na mitologia ela é o espírito da
criação, esposa de Éfeso, deus do fogo. Segundo a lenda, nasceu dos órgãos
genitais de Urano, seu pai, cortados e jogados ao mar a pedido da sua mãe. Espuma/sêmen.
É importante notar que o erotismo aí não brota de um encontro com o homem, mas
do encontro com o mundo: espuma, ondas, vento que despertam seus sentidos e a
acariciam. Afrodite é a sensual abertura ao mundo. Não é a sexualidade de um
homem e uma mulher é a sensualidade de um outro gozo, gozo feminino, excessivo,
deslocalizado. Afrodite é filha da castração de seu pai, mas não-toda, é aberta
a um gozo com o mundo que não se condensa ao regime da castração.
A
Vênus Afrodite de Lacan. Lacan
no seminário livro 8, a transferência[i]
- 1960-61 – ilustra na Vênus Afrodite, a imagem do falo recobrindo o objeto “erigido
no auge da fascinação do desejo”, corpo erigido, no mar acima das vagas do amor
amargo , diz ele- Vênus ou tanto faz, Lolita, diz Lacan. Girl = Phallus.
O que nos ensina essa imagem? Pergunta
Lacan?
Nos ensina que ali onde vemos o falo,
forma investida de todos os atrativos que a delimitam por fora, ali onde o supomos
sob o véu, é onde ele não esta.
Se o falo neste
seminário é tão importante para localizar a função do desejo, e do amor, é
porque ele “se encama justamente naquilo que falta à imagem.
Afrodite-me
Rodrigo é mais lacaniano
que Lacan de 1960/61. Perguntei a Rodrigo: Qual o nome de seu
quadro? AFRODITE-ME!
Afrodite-me: construções
poética que transforma um nome numa ação. Afrodite-me é uma conjuração ao gozo.
Rodrigo é pós seminário
20, mais ainda[ii]
- 1972-73 - ele intui com sua arte
desenvolvimentos do último ensino de Lacan. Sua obra é afreudisíaca (neologismo de Haroldo de Campos) traz o que excede a
forma, o excesso, o não-todo fálico.
Perguntei: Porque o bordado? “O bordado
foi uma questão com a arte, uma linguagem; como um desenho busquei a
irregularidade do bordado para aludir à espontaneidade, à contingência do traço.
Questionei a ideia de beleza perfeita, mostrando novas belezas do mundo contemporâneo,
decompostas, singulares, estranhas.
Em Afrodite-me, nasce um jovem fálico,
envolto em véu de espumas, bolhas, que transborda, elementos marinhos que
escapam, deslocalizados: tentáculos, algas, âncora, e um cavalo marinho: animal
macho que dá a luz.
Há também uma preocupação em propor
com Vênus/Afrodite-me, questões afetivas e relacionais presentes nas atuais discussões
sobre gêneros. Enquanto homem ele borda, no lugar de uma tradição onde isto era
típico das mulheres. O bordado, os nós, amarram e bordam os sofrimento dos
desencontros dos seres falantes sexuados,.
Para
finalizar
Freud fundou a grande dificuldade
entre os sexos na diferença anatômica. Tal problema, apresentava-se
consequentemente como a dificuldade crucial da experiência analítica,
atualizando-se na transferência. No psíquico, a biologia jogava um papel de
rocha de origem subjacente.
Eric Laurent no prefácio do livro de
Pierre Naveau, Ce qui de la reencontre
s’écrit[1],
expõe como Lacan deslocou o problema. O que separa o homem de uma mulher não é a
diferença anatômica, mas uma separação dos modos de gozo, reenviando a uma
dissimetria radical. Não há relação sexual.
O órgão fálico não serve à cópula, é
um obstáculo. E na mulher seu orgasmo é
experimentado como um gozo que não se localiza num órgão, que a toma como um
acontecimento de corpo e a transborda, sem que ela o possa dizer.
Essa dissimetria dos gozos é tão mais
importante que se impõe à anatômica, à ponto de alguns sujeitos desejarem
retificar a anatomia.
A consequência é a impossibilidade de
haver uma fórmula unívoca para o encontro sexual. O que advém daí é que existem
gozos no plural. Que podem se particularizam em várias formas de sexualidades e
encontros. A cada sujeito cabe escrever sua fórmula e tenta-la com um parceiro.
O trabalho de Rodrigo ilustra a
complexidade dessa situação.
Razão da nossa escolha por essa figura,
para ilustrar o cartaz das XXI jornadas da sessão Minas Gerais da Escola
Brasileira de Psicanálise.
[1] Naveau Pierre. CE QUI DE LA
RENCONTRE ‘S ECRIT. ÉTUDES LACANIENNES. Préface d’Éric Laurent. Edition Michèle. 2014.
Paris.

