O inconsciente e a diferença sexual: o que há de novo?
Ludmilla Féres Faria
Coordenadora da XXI Jornada EBP-MG.
Em Sapiens[1],
Yuval Noah Harari (2016) conta que, há 100 mil anos, pelo menos seis espécies
de humanos habitavam a Terra. Hoje existe uma só: nós, os Homo sapiens.
Esse é o mote para o que o autor desenvolverá nesse instigante livro: como
conquistamos o planeta; por que nossos ancestrais se reuniram para criar
cidades; como passamos a acreditar nos deuses, nas leis e a ser escravizados
pela busca da felicidade. Harari nos conta que, embora os sapiens já
habitassem a África há 150 mil anos, apenas por volta de 70 mil anos atrás eles
começaram a dominar a Terra e a levar as outras espécies humanas à extinção.
Segundo
Harari, a maioria dos pesquisadores acredita que as conquistas dos sapiens
foram produtos de uma revolução nas suas habilidades cognitivas, que
possibilitou que se comunicassem de uma forma sem precedentes. Ele realça que a
característica verdadeiramente única da nossa linguagem é a capacidade de criar
ficções. Ou seja, para o historiador, o uso da linguagem não apenas para se
comunicar foi o que nos separou das outras espécies e transformou a vida do
homem.
Não é
necessário, portanto, passar pela psicanálise para saber que a linguagem é o
fator que mobiliza, mas também desorganiza o homem. Diferente dos animais,
cujos instintos asseguram a sobrevivência, o homem precisa passar pela demanda
articulada à linguagem, endereçada ao Outro, para satisfazer suas necessidades
vitais. Assim, a demanda do Outro, ou seja, sua oferta, se impõe sobre essas
necessidades, transforma-as em pulsões, que recortam as superfícies corporais
em zonas erógenas. Esse circuito faz do
homem um animal doente e desnaturaliza sua sexualidade.
Lá
onde, nos animais, está a reprodução como objetivo, no homem está o
mal-entendido. Nesse sentido, o homem ou a mulher se distinguem de macho e
fêmea. Tais postulados se coadunam com as afirmações freudianas sobre a existência
de uma só libido, de natureza masculina – o que Lacan sublinha ao destacar que
o falo é o único ponto de referência para os dois sexos no inconsciente. O falo
será, por isso, o pivô da ambiguidade sexual: dois sexos anatômicos, mas um só
princípio do sexo no inconsciente – o falo.
Mas,
então, como a diferença sexual se inscreve no inconsciente? Primeiro, podemos
dizer que há no inconsciente uma definição da diferença sexual que vem do
imaginário, que se formula da seguinte forma: ter ou não ter o órgão. No
segundo momento, o Outro vem ratificar, no Simbólico, essa diferença: é menino
ou menina? Mas mais tarde, a criança terá que se haver com essa questão.
Se apenas um significante
ocupa essa função decisiva na subjetividade do sujeito, o significante fálico,
tudo o que se pode dizer do gozo passa por esse pedaço do corpo do homem, tanto
para o homem quanto para a mulher.
E se
o inconsciente não sabe nada do Outro sexo, podemos perguntar como um gozo que
não é fálico, pode ser alcançado pelo tratamento analítico. Lacan se empenhou
nessa questão e, com as fórmulas da sexuação, introduzirá um novo modelo de
funcionamento para orientar sua clínica sobre a questão da diferença sexual. Assim,
ele define a partilha dos sexos de acordo com duas modalidades de gozo que não
são simétricas. O gozo fálico, do lado “imaginariamente” masculino, corresponde
a uma experiência de satisfação vivida como um conjunto fechado. E o “gozo
Outro”, do lado “imaginariamente” feminino, corresponde à lógica de um conjunto
aberto, chamado por Lacan de Não todo.
O Não todo corresponde a um espaço
definido pela impossibilidade de circunscrever o universal. Por um lado, é conectado
com o falo (do lado do homem), cujo regime de libido é limitado, mas também
conectado com o significante da falta no Outro S (A/), em sua relação com a castração no Outro. Portanto, o gozo
feminino está não todo sujeito ao regime fálico. A raiz do não todo é que ela esconde um gozo
suplementar do qual a mulher nada sabe a não ser que sente, o que leva Lacan a
dizer que “na mulher não toda, há sempre algo nela que escapa ao discurso” (LACAN, 1972-1973/1985).
Lacan sai, assim, da
lógica simétrica, na qual o falo dividia os que têm e os que não têm, para
entrar numa perspectiva que é assimétrica. O que significa que não
precisam exatamente escolher um lado ou o outro a partir da imagem corporal,
mas devem se “localizar em algum ponto do continuum entre
os polos masculino-feminino e recalcar tudo o que não se encaixa bem nele” (Vieira, 2016). Ou seja, as formulas da sexuação retiram
o caráter estático da repartição sexual e demonstram “a plasticidade dessas duas categorias”[2].
Essa plasticidade é o que permite Miller no seminário “O ser e o Um” afirmar
que Lacan, em seu último ensino, introduz uma mudança de perspectiva levando o
gozo feminino ao regime do gozo como tal. É o gozo reduzido a um acontecimento
de corpo, fora do discurso, e “que Lacan generalizou estendendo-o, em um
segundo tempo, ao homem” (Miller,
2010-2011).
O
dito acontecimento se produz de maneira contingente e não dependerá de lei nem
de causa alguma. É fruto da ressonância corporal, do encontro do corpo com os
significantes do enxame de lalíngua. Miller demarca que Lacan introduz
uma anterioridade ao Outro, à família, aos pares, o “Um só”.
Isso
significa que, do lado desse Um, do lado do gozo, isso não fala. E o problema
passa a ser como sair dessa solidão do gozo do Um para relacionar-se com o
Outro. O que está em jogo é o corpo que funciona sem o Outro, unido a seu
próprio gozo, e que se exibe de diversas formas. Podemos nos perguntar o que,
no mundo atual, favorece a saída desse gozo solitário.
Quais
os efeitos dessa mudança de paradigma na prática analítica? Se a interpretação
supõe o Outro, como escrevê-la no registro do Um? Como pensar a experiência
analítica diante desse Um?
Dado
que não há um modo de relação sexual escrito, programado universalmente,
busca-se apagar as diferenças ou encontrá-las nos comportamentos, no look, nos neurônios, a partir de
distinções como: “homens são azuis, mulheres, rosa; mulher tem mil neurônios, o
homem, um só.” O que propicia o aumento da segregação.
O
analista deve, portanto, estar atento para não se deixar capturar por essas
identificações imaginárias ofertadas a todo tempo e tampouco rechaçá-las de forma
a poder perceber o real em jogo que não se deixa apreender.
Nossas
Jornadas já estão em curso. Hoje fica demarcado o ponto de partida para os que
querem se juntar a nós nessa pesquisa sobre o inconsciente e a diferença
sexual: o que há de novo?
Referências
FREUD, S. A organização genital infantil: uma
interpolação na teoria da sexualidade. (1923) In: ___. Edição standard brasileira das obras
psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 19. 2. ed. Rio de
Janeiro: Imago, 1987. p. 179-187.
HARARI, Y. N. Sapiens:
uma breve história da humanidade. Porto Alegre: L&PM, 2016.
LACAN, J. O Seminário, livro 20: Mais, ainda. (1972-1973)
.Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
MILLER, J.-A. A fantasia. Opção
lacaniana, São Paulo, n. 42, p. 7-18, fev. 2005.
______. Seminário L’un-tout-seul. 2010-2011. Inédito.
VIEIRA, M. A. A anatomia e seus destinos. Colóquio da EBP- RJ. 23/09/16.
VIEIRA, M. A. A anatomia e seus destinos. Colóquio da EBP- RJ. 23/09/16.

