Mulheres psicanalistas falam sobre a experiência da maternidade.
O Boletim Quereres fez a primeira rodada de entrevistas com analistas da Escola Brasileira de Psicanálise - Seção Minas Gerais, sobre a experiência da maternidade. Vocês poderão ler no Blog da Jornada as entrevistas respondidas por Simone Souto, Helenice Saldanha de Castro e Cristiane Barreto.
Trazemos também o texto que Elisa Alvarenga escreveu por ocasião do lançamento da tradução do livro "Être Mère" organizado por Vera Avelar Ribeiro, que ocorrerá em breve. Clique ter acesso ao texto
No último dia 10 encerrou o primeiro prazo para as inscrições com desconto e possibilidade de parcelamento em até três vezes. Quem esteve na Seção Minas pôde presenciar o grande movimento na secretaria das pessoas se inscrevendo. A movimentação é grande também dos colegas além das fronteiras belorizontinas, virão pessoas de Goiás, Rio Grande do Norte, Rio, São Paulo e etc... Garanta seu lugar! Inscrições
Boa leitura!
Miguel Antunes - Coordenador do Boletim Quereres
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Como
foi sua experiência com o real da maternidade?
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| Simone Souto |
A maternidade me colocou, muito cedo,
diante do furo que advém do não recobrimento entre o ser mãe e o ser mulher. Em
outras palavras, ser mãe permitiu que eu pudesse constatar o limite da
maternidade como saída para a feminilidade, assim como a impossibilidade de ser
toda mulher e / ou toda mãe. Somado a isso, o fato de ter sido muito cedo, por
um lado, presentificou o real sob a
forma de um certo desamparo diante da situação, mas por outro, presentificou o
real como contingente, isso é, como a inscrição de uma maneira singular de
lidar com o tempo.
A
sua experiência com a maternidade concorda que a mãe será "mais
louca" ou "menos louca" conforme a posição que seu filho ocupa
em sua fantasia, entre a mulher e a mãe? Por que?
Lacan, em Televisão diz que o universal
do que as mulheres desejam é a loucura. Portanto, podemos dizer que a loucura
está no universal, a loucura aparece quando se quer atingir o todo, seja do
lado da mãe (aquela que tem) seja do lado da mulher (aquela que não tem).
Dizendo de outra maneira, quando se tenta atingir o todo fálico, ou, por outro
lado, quando se tenta fazer o todo fora do falo, a loucura se apresenta. Com
relação à posição ocupada pelo filho, a diferença que me parece fundamental é,
como nos lembra Lacan no Seminário 20, se o filho ocupa o lugar de objeto ou se ele ocupa o lugar de quem tem o objeto.
A criança que é olhada pela mãe, tem o objeto a, o que não significa que ela ocupe o
lugar de objeto. Isso é determinante no que diz respeito não só ao menor ou
maior grau de loucura da mãe, mas também do filho.
O
que quer a mãe quanto ao pai de seu filho?
Que ele ocupe o lugar de pai, mas que
cuide para que ela não seja toda do filho.
Simone
Souto
10/08/2015
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| Helenice Saldanha de Castro |
Como
foi sua experiência com o real da maternidade?
Como
nos lembrou Jésus Santiago, em sua apresentação no seminário preparatório à
Jornada da EBP-MG, para Freud a experiência com a maternidade coloca em xeque a
forma como a mulher ali em questão lida com o nó da castração.
Talvez
tenha sido por essa razão que ao receber o convite para participar dessa
entrevista e ter acesso às perguntas, me vi numa difícil situação de ter de
falar assim na lata de algo tão íntimo e crucial na minha vida. Mas decidi arriscar.
Valendo-me
então da premissa freudiana, diria que antes de me engravidar prevalecia a
crença de que ser mãe comprometeria o ideal em jogo do que era uma mulher,
portanto, nesse sentido a maternidade vinha acoplada a uma perda fálica. O
consentimento para ter um filho só se tornou possível a partir do encontro com
um parceiro que fez vacilar esse ideal de mulher sustentado numa identificação
maciça com o falo (fez vacilar o que eu chamaria aqui de um casamento com o
olhar do pai).
Já
com o nascimento de meu filho, pude experimentar a célebre divisão entre a mãe
e a mulher. Do lado da mãe, uma imensa satisfação e um sentimento de amor até
então inéditos, mas também uma angústia de como cuidar daquela criança, sem
comprometê-la demais com os sintomas e as fantasias maternas. Do lado da
mulher, o impasse diante do ideal todo fálico que a parceria amorosa e a
maternidade, apesar de abalarem, não eram capazes de apontar o caminho para uma
saída menos neurótica.
Portanto,
posso dizer que a experiência com o real da maternidade me levou principalmente
a fazer análise. Antes de engravidar, já tinha um pequeno percurso analítico,
porém não tenho dúvida que o nascimento de meu filho me fez engajar de forma
decidida em minha análise pessoal.
Concordo
que a mãe será “mais louca” ou menos louca” conforme o lugar que ela dará ao
filho em sua fantasia. Essa questão me
fez pensar que a loucura da mulher fica mais explícita, quando ela se torna
mãe, pois como assinalei acima, essa experiência estará sempre articulada à
maneira como a mulher lida com a castração e portanto, com a tentativa de recobri-la
imaginariamente através do que Freud nomeou de Penisneid.
Sendo
assim, algo da loucura será sempre inerente à maternidade, pois se por um lado
a substituição do Penisneid pelo desejo de filho (onde o
filho ganha um investimento fálico por parte da mãe) é essencial para a
criança, por outro lado, esse investimento não comporta um cálculo exato e
algum resto para mais ou para menos permanecerá. Se então essa relação entre a
mãe e seu filho não vem com manual de instrução, caberá a cada mãe construir a
medida de sua loucura.
A
partir da minha experiência, diria que o pai de meu filho foi crucial para
conter algo do excesso da loucura da mãe, porém essa função só foi possível de
ser exercida devido ao fato desse pai contar como homem para a mulher ali em
jogo.
Todavia,
se é fundamental essa borda dada pelo pai à relação da mãe com o filho,
parece-me que em muitos casos é mais difícil para o homem lidar com uma certa
loucura da mulher, mãe de seu filho, que não tem como ser totalmente
enquadrada. E acredito ser essa certa loucura o que pode dar um colorido
feminino e singular à maternidade.
Helenice Saldanha de Castro
10/08/2015
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Uma
“mãe freudiana” – aquela que desejava ter um filho! Um filho homem. Isto
define, ou melhor, foi a primeira definição que dei frente a minha experiência
com a maternidade e o seu enlace com a psicanálise. A maternidade, o nascimento
do meu filho, me possibilitou dedicar às questões do feminino de forma mais
tranquila, com menos medo frente ao inapreensível do gozo. E decidida a ser uma mulher, viva. Engravidei
a partir da descoberta de um problema ginecológico sério, motivo da principal
causa de infertilidade irreversível. Curiosamente, engravidar seria uma forma
de tratar, o que não consenti que acontecesse, justo pelo enorme desejo que
tinha de ser mãe. Desta forma, inverti a recomendação médica e me tratei para
que pudesse ficar grávida. Se “ao real
nada falta”, experimentei-o de uma forma única quando do nascimento do meu
filho: nada faltava! Menos porque tenha experimentado o “todo” da completude,
mas sim por proporcionar um conforto ao encontro com a falta. Frente ao meu
filho ser o que era e existir me possibilitando ser uma mulher que pôde ser
mãe, eu não queria mais nada! A divisão estava posta na própria lógica de uma
equação: ser mãe não era tudo, mas nada me faltava. Uma satisfação que me proporcionou
um encontro com o “cessa de não se inscrever” – na vertente da mãe e na
vertente da mulher. Foi o registro do possível, amortecendo o medo fantasmático
sustentado pelo estatuto do desejo impossível. Para a minha mãe fora impossível
ter filhos homens, por um fator enigmático para a medicina, uma síndr’ome, na
qual a gestação, de feto masculino, se interrompia. O sétimo mês de gravidez -
um natimorto e um bebê que sobreviveu apenas ao parto-, dois dramáticos
episódios de ausência materna, por internações hospitalares, um deles mais
marcante por sua longa duração e pelo mais evidente risco de morte materna, e,
de certa forma, da filha que esperava (imaginariamente e na sua fantasia, um
filho, ao mesmo tempo que a volta da mãe).
A sua experiência com a maternidade
concorda que a mãe será "mais louca" ou "menos louca"
conforme a posição que seu filho ocupa em sua fantasia, entre a mulher e a mãe?
Por que?
Sim.
A minha vertente “mais louca” enquanto mãe surgiu quando o hiato entre a mãe e
a mulher mais se apagara. Retorno de uma penumbra, o opaco do gozo, na ocasião
de uma tragédia familiar e o medo da morte. Fui e sou, o que serei a partir da
equação proporcionada pelo meu parto – uma mãe e uma partida. Com a análise e o
jogo que se modificou em mim, o significante partida instalou o giro da divisão
– uma mãe dividida-, a mãe do desejo e a mãe do amor. Uma mulher, viva e não
toda, onde não se instalava a certeza neurótica frente ao destino do que não se
inscreve. A frase de Lacan “A psicanálise é uma chance, uma chance de voltar a
partir”, tem, para mim, um emblema
singular. Manter a pergunta lançada pelo título da nossa próxima jornada “O que
quer a mãe, hoje”, tipifica o que pode uma análise: instalar, respostas
pontuais, ao querer, imbricamento – (dispor coisas de modo que umas se
sobreponham, em parte, às outras) entre desejo e demanda, a cada vez, hoje.
Entre a mãe e uma mulher.
O que quer a mãe quanto ao pai de seu
filho?
Uma mãe persiste em querer um pai para o
seu filho. Quero que o pai do meu filho não se demita da função de transmitir
ao meu filho o sabor pela vida, a importância de não recuar frente a um enigma,
tampouco frente às dificuldades, alojando o seu desejo num bom lugar. E,
sobretudo, que continue digno do seu respeito e amor.
Cristiane
Barreto
13/08/2015

