Quereres IV

Quereres IV 

Boletim da XIX Jornada da EBP-MG

"O que quer a mãe, hoje? Sintomas contemporâneos da maternidade"

 

Quereres IV está no ar! Iniciamos este Boletim convidando a todos os interessados no tema da jornada a comparecerem no dia 11 de junho na seção Minas da EBP para assistirem à II Noite Preparatória onde será trabalhado o Eixo Temático "Ser mãe e os complexos familiares da atualidade". Nesta ocasião contaremos com as intervenções de Ana Lydia Santiago e Sérgio Laia com a coordenação de Cristina Drummond.

Sérgio Laia nos dá uma prévia do que irá trabalhar: 
"Título: O que MEDÉIA nos ensina sobre as mães de hoje?
Argumento: Tomando como base a tragédia MEDÉIA, escrita por Eurípedes, e algumas versões posteriores, trata-se de discernir por que Lacan pôde considerá-la “a mulher de verdade” e em que ela se aproxima e se diferencia do que o Seminário XX evoca com o termo “a patroa”. Em seguida, procurar-se-á averiguar o que ensina, com relação às mães de hoje, essa personagem, assim como a tragédia que ela encarna."

Assistam também ao vídeo do "Programa Opinião Minas" do canal Rede Minas que teve a participação de Sérgio de Campos, Diretor Geral da EBP-MG e Maria Inácia Freitas, coordenadora da comissão de parcerias onde puderam falar sobre o tema "Ser mãe hoje" além de fazer um panorama sobre a jornada.

Cristiana Pitella de Mattos nos envia sua contribuição. Em seu texto, ela trabalha a partir da pergunta "ter filho torna uma mulher mãe?". Ilustrando com algumas vinhetas clínicas esse tema que toca a subjetividade de cada uma quando se depara com a decisão em lançar mão da ciência.

Leiam também a coluna "Você sabia que?" com histórias e curiosidades sobre a maternidade.
Finalizando esta quarta edição de Quereres, trazemos a bibliografia da Jornada da ECF (École de la Cause Freudienne) "Être Mére" (em francês) localizando em Freud, Lacan, Miller, pós freudianos e colegas da AMP onde o tema da maternidade é trabalhado

Boa leitura!
Miguel Antunes
Coordenador do Boletim Quereres

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Vídeo do "Programa Opinião Minas" do canal Rede Minas que teve a participação de Sérgio de Campos, Diretor Geral da EBP-MG e Maria Inácia Freitas, coordenadora da comissão de parcerias onde puderam falar sobre o tema "Ser mãe hoje" além de fazer um panorama sobre a jornada.


https://www.youtube.com/watch?v=Ab7kDKmwmBk





Assista ao Programa completo Parte 01 e Parte 02

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Mamãe filha da ciência, mãe filha de um desejo

                                                      Cristiana Pittella de Mattos

             


As mulheres alcançaram há muito realizações possíveis para além da procriação, destinos pulsionais e objetos diversos de satisfação. O ato sexual e a fecundação uma vez disjuntos leva a mulher em sua constituição subjetiva a encarar a maternidade como uma escolha, colocando em jogo o desejo: ter filho torna uma mulher mãe?.


Algumas mulheres quando alcançada certa idade sem a realização da maternidade, querem conservar sua fertilidade e procuram o congelamento de óvulos para garantir o não envelhecimento do mesmo e a possibilidade de ser mãe, de ter filho, numa boa hora. Não importa para algumas se estão ou não com um parceiro, para outras é a chance de encontrar um dia algum e formar uma família e, também, a garantia da produção de um filho mesmo que independente.

Temos visto cada vez mais mullheres lançando mão dos recursos da ciência e suas técnicas para ter filhos. Seja pela inseminação artificial seja pela fertilização em vitro, essas técnicas elevaram as possibilidades de procriação. Todo um campo clínico nos é aberto pelas questões subjetivas que se colocam para cada uma quando estão diante da decisão, dos efeitos e consequências do uso dessas técnicas de reprodução.

Outras por motivos diversos de infertilidade, diante a impossibilidade de engravidar, recorrem à procriação medicamente assistida permitido-lhes uma superação da esterilidade. Outras ainda, procuram por uma questão de escolha sexual.

Em alguns casos não se consegue detectar as razões da dificuldade da mulher, ou do casal, para engravidar. Elas trazem a dor das diversas tentativas que geram um sofrimento tanto pelos procedimentos exigidos e executados em seu corpo quanto pela expectativa e espera de poder gerar um filho. Malgrada a promessa, o que sobrevém é sempre contingente. Um tempo é necessário na análise para que um trabalho de elaboração possa daí advir dessas experiências que lhes deixam marcas.

Ter filho hoje nunca foi tão possível e almejado, vemos a criança objeto causa de desejo tornar-se muitas vezes uma mercadoria exigida, um imperativo superegoico, para a constituição de uma família.
O discurso da ciência ao operar uma disjunção entre a sexualidade e a procriação, acaba também por destituir a autoridade e a tradição podendo dispensar os pais das funções de proibição e autorização junto a seus filhos. Lacan mostrou que a modificação que a ciência introduziu no discurso do mestre leva a uma tirania do saber e o discurso do capitalista mostra que o trabalho do saber científico está sempre produzindo objetos mais de gozar. 

Algumas mulheres, mães angustiadas, não sabem o que fazer com seus filhos, sentem-se impotentes, desorientadas e muitas vezes descrentes pois já recorreram a vários manuais, especialistas, objetos e staffs ofertados pelo mercado para cuidarem de seus filhos. Revelam-se mais consumidoras. Verificamos quão difícil é muitas vezes para essas mulheres encarnar o Outro da demanda e interpretar os apelos do filho, ou ainda, dispensar cuidados que portem a marca de um desejo que não seja anônimo. Ora são permissivas demais e se desresponsabilizam ora impera uma exigência autoritária, higienista, sem dar lugar ao desejo e ao gozo.
Um ponto em comum entre elas ao falarem de seus filhos e da dificuldade com eles, é o destaque que dão de que eles foram concebidos por procriação medicamente assistida, ou ainda, como nos apresentou uma delas, seu filho de 7 anos: “meu filho é um bebê de proveta”. O espanto do analista ao escutá-la permitiu-lhe falar desse filho inquieto e agitado que ela não conseguia acolhê-lo de um modo um pouco mais particularizado.
Muitas carregam consigo uma dor comum: sentem-se inferiores enquanto mulher por não ter podido ser mãe “naturalmente”.
Um dos primeiros desafios enquanto analista tem sido aquele de localizar as possibilidades de cada uma - de cada sujeito -, se descolar dos saberes prêt-a-porter , dos nomes petrificantes retirados do encontro com o discurso científico e interpretar o que lhe ocorre e também com seus filhos.
Ao encontrarmos essa possibilidade mostrou-se interessante delimitar como isso ocorreu em alguns casos, com cada mulher, pois, curiosamente, essa abertura para um saber inconsciente tem possibilitado a elas autorizarem-se mais enquanto mãe.
- uma delas vai interrogar o próprio modo como se apresentava “sou uma mamãe filha da ciência”. Ela não conseguia dirigir-se ao filho dando-lhe um lugar de sujeito - sempre achava que ele estava doente e levava-o de medico em medico. Ela vai articular seu desejo de filho à lembrança de ficar quando criança olhando o pai pediatra atender os pacientes em sua casa no interior. Ela remarca o quanto ele era afetivo e conversava com as crianças. Em seguida, enfatiza a importância de sua escolha por um homem - seu marido e pai de seu filho. É um médico renomado que ao conhecê-la disse-lhe que ela seria uma mulher com quem ele queria ter seus filhos. Haveria uma degradação do pai provocada pelo encontro com o discurso da ciência? Vemos que a filiação para a psicanálise não se esgota na concepção, nem no nascimento nem na família… Essa mulher ao conseguir articular seu desejo na rede dos significantes que a constituiram, e de um saber mais singular, pode proximar-se de seu filho e ter não só um outro olhar mas dispensar outros cuidados a ele. O dispositivo analítico parece ter permitido retificar e recuperar a dimensão simbólica do pai, pois ao retomar essa particularidade de sua história, uma filha de um pai médico e não da ciência, e mulher de um homem médico que faz dela mãe de seus filhos, ela pôde se autorizar no lugar de mãe. 
- Outra mulher cuja modalidade familiar é homoafetiva, vai conseguir encontrar um lugar e modificar a relação com seu filho. Ela associa em sua análise o fato de não ter encontrado palavras nem conseguir olhar o proprio pai ao decidir não mais esconder sua escolha sexual, à sua dificuldade em aproximar-se do filho concebido pela parceira com um amigo. Ela verifica que não havia realmente “adotado” seu filho e o “abraçado ainda como mãe”. 
- uma outra procura análise porque gostaria de ter outro filho mas não sabe se conseguirá passar outra vez pelos procedimentos exigidos para uma procriação medicamente assistida. Sua filha tem atualmente 3 anos e “o ideal” é que ela possa ter outro para que a família fique “completa”. Por trabalhar muito fica pouco com sua filha e quando tem tempo fica muito angustiada pois não tem paciência. Queixa-se muito do “marido que não participa”…pois “um pai tem que participar”. O marido que não participa localiza sua insatisfação enquanto mulher… e ela pode ver como a filha brinca com o pai. É essa divisão mãe / mulher que ela pode colocar em sua análise a trabalho e estar mais disponível para a filha.











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