@DDito 15


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Boletim da XVII Jornada da EBP-MG

O ritmo é intenso, rumo a nossa próxima jornada, nos dias 26 e 27 de outubro de 2012. A comunidade analítica mineira se prepara com entusiasmo e muito trabalho. A força dessa Jornada e o alcance de sua responsabilidade pode ser medida pela qualidade das 56 propostas de trabalhos que foram enviadas para Comissão Científica, de varias cidades de Minas Gerais e Estados Brasileiros. Restam, agora, menos de 200 inscrições para ocuparmos as vagas disponíveis reservadas no Espaço Cultural Centoequatro. Se você ainda não fez sua inscrição e  deseja garantir um acento nesse movimento da política de orientação lacaniana, o momento é agora!

O último seminário preparatório sobre o eixo "Todos Adictos?" foi instigante e muito esclarecedor. Antônio Beneti e Elisa Alvarenga sustentaram o testemunho contundente sobre as coisas de fineza na era do direito ao gozo, demonstrando que o universal de nossa época não é mais o que era. A discussão foi animada e pudemos esclarecer o que está em jogo para a política da psicanálise, quando as respostas subjetivas iteram, mais e mais, em torno das relações de objeto, dispensando a referência fálica e os ideais. A farmácia da vida cotidiana abre sua maleta como modo de responder aos impasses do novo mundo. Mas qual é a resposta da psicanálise frente a um mundo sem exceção? Recolhemos, na clínica da vida cotidiana, a consequências!

J-A Miller afirmara que “a prática da psicanálise muda, então, de acento. Trata-se de reconduzir a trama do destino do sujeito, da estrutura aos elementos primordiais fora de articulação, quer dizer, fora de sentido, e podemos concluir, uma vez que eles são absolutamente separados, absolutos: reconduzir o sujeito aos elementos absolutos de sua existência contingente”[i].

Trata-se aqui, da era do direito ao gozo. Por certo, a compulsão que marca a vida contemporânea diz de um mundo que gira sem cessar em torno do objeto a no zênite social. Sim, a ordem simbólica não é mais o que era.  De modo contundente, a variedade dos casos clínicos e vinhetas institucionais encaminhados para a XVII Jornada testemunham a atualidade do sintoma de nossa época, bem como, traz a evidência de que não existe sujeito sem instituição. Portanto, a experiência da psicanálise é política, porque não acontece alijada da força de elementos essencialmente disjuntos, a saber: a experiência do Outro e aquela do gozo.  Aqui, o dispositivo analítico opera como um conector, desse grampo retira a força de sua política.

A política da psicanálise não recua frente aos impasses de sua época, na era do direito ao gozo. A força com que a XVII Jornada da EBP-MG está se instituindo entre nós, diz ainda do engajamento libidinal daqueles que, pelo rigor de sua experiência analítica, apostam na importância da psicanálise de orientação lacaniana tomar a palavra, dar seu testemunho, quando o que está em jogo, no âmago das questões da sociedade, são as escolhas forçadas da pulsão.

Lilany Pacheco, coordenadora da comissão científica dessa Jornada e leitora assídua do Boletim @DDito, endereçou-nos ressonâncias da noite preparatória "Todos Adictos?", sob a forma de duas questões. Confira a seguir, essa nota, juntamente com as contribuições de Elisa e Beneti.

Boa Leitura!

Fernanda Otoni - Coordenadora da XVII Jornada da EBP-MG


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Ressonâncias da Preparatória "Todos Adictos?"



A preparatória para a XVII Jormada da EBP_MG, Eixo Todos adictos? foi brilhantemente animada por Antônio Beneti e Elisa Alvarenga, ambos com propostas inovadoras para pensarmos esse que será o tema do Forum "Drogas: Além da Segregação". Ao escutar o trabalho destes dois colegas da EBP_MG, fiquei com questões que gostaria de compartilhar com os leitores des Blog.
A intervenção de Beneti sobre o uso abusivo dos anestésicos na contemporaneidade, sugere, neste contexto, uma modalidade de gozo que ele denominou "gozo anestésico". Como pensar o gozo anestésico, dentre as modalidades de gozo propostas por Lacan em seu Seminário, livro 20?
Elisa Alvarenga, por sua, vez, além de sugerir uma distinção interessante sobre o uso dos termos "toxicomania" e "adição", propõe, de modo ousado, pensar o gozo da droga dada a repartição sexual proposta por Lacan, também em seu Seminário, livro 20. Após escutar as modalizações dos usos aditivos dos objetos relativas a exceção fálica e a ausência de exceção fálica para pensar a distinção possível do uso de drogas pelas mulheres me ocorreu perguntar se, além das proposições apresentadas por Elisa Alvarenga, em alguns usos que os homens fazem da droga não vislumbraríamos  a busca de acesso ao gozo feminino, gozo místico, e, por outro lado, do lado das mulheres, quem sabe poderíamos situar o uso de drogas como uma defesa ao gozo feminino uma vez que as mulheres estão estruturalmente expostas a ele?

Lilany Pacheco - Coordenadora da Comissão Científica da XVII Jornada da EBPMG


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TODOS ADICTOS
( A farmácia sinthomática da vida cotidiana contemporânea )

Antonio Beneti

Nesse nosso contemporâneo do a maior que I,  ditadura do mais de gozar ascendido ao Zenith social( J. A.  Miller em “Uma Fantasia” ) encontramos um Todos aditos?. Por outro lado, na época da primazia do Simbólico, encontramos Freud com sua “Psicopatologia da Vida Cotidiana”, primazia do inconsciente na época de um I maior que a. Hoje, primazia do Real, dos objetos + de gozar, poderíamos falar, considerando apenas as substancias químicas enquanto tais,  de uma “Psicofarmacologia da vida cotidiana”, uma “Farmácia da Vida cotidiana”?.
Daí meu interesse no campo das adições pelo que chamei “Farmácia contemporânea”, excluindo os objetos midiáticos e os objetos químicos ditos “drogas ilícitas”.  Centrando a questão nas drogas ditas “lícitas”, de prescrição médica.
Hoje, é difícil o paciente sair de uma consulta médica sem uma prescrição de ansiolíticos, antidepressivos e, hipnóticos. Ou estabilizadores do humor, “normalizadores” do humor naturalmente bipolar... Afinal já nascemos chorando e, com o decorrer da vida vamos rir, chorar, etc... Hoje isso não pode mais ocorrer, sobretudo se nos excedemos um pouco nisso...  Fora do campo médico, no “Vox populi”, as receitas de um vizinho, amigo ou familiar, para o outro, é prática cotidiana intensa, sempre sustentada pela “internet Vox”...   Caracterizando um certo “auto tratamento” da dor de existir contemporânea, marcada por um excesso de mais de gozar. Dores oriundas das separações, perdas, “desbussolamento” quanto aos ideais da cultura do século passado, etc...
O fato é que chegam cotidianamente em nossa clínica  sujeitos de todos os tipos demandando medicação. Isso na medida em que temos uma formação psiquiátrica prévia que nos autoriza o ato de prescrever psicofámacos. O psiquiatra contemporâneo transformou-se numa mescla de farmacêutico-representante dos laboratórios, da indústria farmacêutica. A psiquiatria do século passado, que faleceu nos anos 80, não era assim. Medicava-se pouco, em última instancia, os psicóticos e aos neuróticos recomendava-se uma psicoterapia. Pelo menos essa era a orientação que recebi no início dos anos 70.  Em nossa - clínica, há cerca de 15 anos, não recebíamos visitas de representantes de laboratórios. Eles se limitavam a frequentar os hospitais. Hoje invadiram nossa praia, com presença maciça nos consultórios.  Cerca de 80% dos casos chegam medicados. Hoje, por ex., uma jovem de  28 anos, sobrevivente da lógica da vida amorosa, em posição sinthomática de devastação amorosa, nos chega  medicada desde os 13 anos. Diz que o antidepressivo  e o ansiolítico que tem utilizado não acaba com algo que tem dentro dela e que a empurra a atos que a prejudicam e aos que a amam. Ninguém segura essa pulsão... diríamos. É assim, também, que chegam crianças, em idade escolar, “ritalinizadas” e  jovens adolescentes já “viagrados”...para enfrentar a dor da angústia no encontro com o Outro sexo.
O problema se acentua na medida em que colegas analistas de excelente formação analítica, no nosso Campo, também demandam medicar seus analisantes em determinados momentos da cura analítica... Anestesia geral, desde que esses fármacos não são nada mais, nada menos, que anestésicos da dor de existir contemporânea.  E, quiçá, da angústia dos analistas diante das psicoses ordinárias e desbussolamentos neuróticos, tipo devastações amorosas.                               
As drogas entram aí, saturando o vazio da causa do desejo, sede da não relação sexual, causa do humano. O consequente paradoxo desta operação é que quanto mais se repete o consumo para suturar a inexistência da relação sexual, mais se faz evidente a dita inexistência. Sucesso flash e fracasso da medicação. É assim que nosso colega, Ernesto Sinatra, lê o fenômeno, nas Jornadas do TyA, em B. Aires, em abril passado ( “Todos adictos?”).
O que significa que temos uma questão cotidiana: qual a estratégia de manejo dessa demanda para colocar o sujeito em condições de suportar o ato analítico e suas consequências, nossa política da psicanálise?
Um colega me disse: “Faço algo meio perverso, medico um pouco e, vou preparando...” . Vindo de onde veio, de um analista rigoroso , de longos anos na experiência, podemos, mais além de sua crueldade crítica superegóica, dizer que na verdade , várias vezes devemos manter a medicação até que o sujeito possa suportar a dor de existir nesse contemporâneo e prescindir dos anestésicos... Mesmo porque, muitas vezes, o sujeito nos solicita a diminuição ou retirada desses anestésicos, mas não a suporta. Logo depois retoma o uso dizendo que ficou mal com a abstinência. Na verdade, não da droga, mas dessa parceria.
Então, qual política, estratégia e tática: um semblante de médico anestesista, considerando sempre o lugar e função da droga, caso a caso. Considerando sempre essas pílulas nas 3 dimensões do RSI, conforme nos orienta Eric Laurent em “Como engolir a pílula"[ii].  
A ditadura do Nome-do-pai ocultava a ditadura do mais de gozar. O consumo de pastilhas anestésicas atinge quase todos. Recordo-me de uma entrevista de Mário Quintana: o entrevistador o surpreende meio jururu, algo tenso, e lhe comunica essa observação. Mário confirma. O entrevistador lhe sugere um Frontal... E, Mário retruca: “prefiro um Lexotan, um verdadeiro clássico... Frontal me dá uma dorzinha em faixa na fronte". Cada um com seu anestésico preferido, a partir de suas singularidades. Então, caso-a-caso.                   
No auge dessas terapias medicamentosas, segregacionistas, da exclusão do sujeito, encontramos o que estou provisoriamente chamando de gozo anestésico. Uma parceria sinthomática anestésica da alma: são anestésicos da alma. Não se medica o desejo. O desejo é avesso à química. No seminário 23 , Lacan se refere à alma enquanto sinthoma (sinthome). E, sabemos como as “desamarrações” sinthomáticas são dolorosas, na experiência analítica e na própria vida cotidiana, fora da transferência.
Miller, em seu texto “Efeito de retorno à psicose ordinária”[iii] nos diz de “ uma desordem  no mais íntimo do sentimento de vida do sujeito” . Aí ele nos fala de tripla externalidade (corporal, social e subjetiva) para o diagnóstico de psicose ordinária.
Aqui, é a corporal que nos interessa. Aí encontramos, por exemplo, as toxicomanias nas psicoses ordinárias. Na tentativa de solução sinthomática de uma desordem na maneira como o sujeito experimenta, vivencia, o seu corpo. O corpo como Outro, “Você não é um corpo, você tem um corpo”. O medicamento enquanto “grampo químico”, na tentativa de  prender o corpo para o sujeito  se apropriar do próprio corpo, prender seu corpo a ele mesmo. Tal como as tatuagens, os piercings, o Viagra, e as “bombas” que fazem corpos “bombados”. Na construção de um “fazer crer compensatório”, CMB ( compensatory make believe ) com relação  à forclusão generalizada, fazendo  o Um, singular a cada um.
Lembremo-nos de Freud e a anestesia fatal de sua insuportável dor de existir, no final da vida, vitimado por um câncer que já havia lhe custado 25 cirurgias bucais.  Quando a vida não valesse mais a pena, conforme o seu pacto com Max Schur, seu médico, a injeção de morfina viria anestesiá-lo para sempre. E, assim foi feito. Isso, sem nos esquecermos de seus anos de cocaína, quando a dor de uma solidão terrível, às voltas com o caminho que trilhou, de invenção da psicanálise, que o atormentava dolorosamente.
Enfim, gozo anestésico... base das terapias medicamentosas contemporâneas, segregativas do sujeito do inconsciente.
Aldeia da Cachoeira das Pedras, 16 de setembro de 2012

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Não-todo adictos!
Elisa Alvarenga
Agradeço a Fernanda e Lilany pelo convite e pelo tema que me propuseram para trabalhar esta noite aqui, junto com o Beneti, que tem uma experiência de longa data com as toxicomanias. “Todos adictos!” nos faz pensar às adições como modo de gozo prevalente na contemporaneidade, a partir do que Lacan chamou de subida ao zênite do objeto a, e do que Miller retoma como Um do gozo que se repete, sem sentido, como acontecimento de corpo. O gozo da droga afeta o corpo, e nesse sentido, me parece interessante começar por uma reflexão sobre os termos, a partir do que Beneti nos adiantou no boletim enviado por Fernanda no domingo, chamando para este Seminário preparatório. Porque Beneti preferiu usar o termo toxicomania em lugar ou junto com o termo adição?, me perguntei. Seria indiferente usarmos um ou outro termo?
O termo adição, que figura na fórmula “todos adictos”, é o termo usado por Miller nas suas “Intuições Milanesas II”, comentadas aqui por Henri e Lucíola da última vez. Miller as associa ao “frenesi do não-todo”, das patologias em que se valoriza o sem-limite da série, onde há menor efetividade da metáfora paterna e pluralização dos S1, e mesmo sua pulverização. O DSM vai tentar classificar o inclassificável, no esforço de introduzir uma terapêutica da medida, da contabilidade de um comportamento mensurável. Temos por exemplo as dietas, muito em voga para tratar os excessos, contando calorias. Assim, uma das maneiras de tratar os excessos de maneira geral, chamados adições, é a tentativa de medi-los e corrigi-los: tantas horas de computador, tantas refeições por dia etc. Entende-se assim que é mais fácil falar e tratar de adições quando a substância ou prática é acessível a todos. O consumo de maneira geral entra nesta categoria, consumo de comida, bebida, moda, internet, TV, sexo etc. Se acrescentamos às adições a classificação, a medição e o controle, nos aproximamos das terapêuticas comportamentais, que aplicam um saber aos excessos a tratar. Já as toxicomanias, nas quais o produto é muitas vezes proibido e os resultados terapêuticos bem mais modestos, faz-se apelo à psicanálise, na medida em que o fracasso aponta uma orientação pelo real. Enquanto as adições parecem convocar um saber que serviria para todos, as toxicomanias singularizam e resistem ao saber universalizante. Por isso me parece mais interessante falar de toxicomania que de adição, embora adição nos dê uma ideia precisa do Um que se repete: 1+1+1.... mas que não se adiciona.
Isso significa, no meu modo de entender, que o que nos orienta como discurso não é o Nome-do-Pai como instância simbólica ou os ideais, mas antes o que esta Jornada diz bem com a expressão “direito ao gozo”. Por isso retornei às “Intuições milanesas”, pois Miller nos dá aí indicações precisas sobre o que temos chamado de feminização do mundo, um mundo que não está mais orientado segundo a lógica masculina das tábuas da sexuação, mas segundo a lógica feminina.
O que isso quer dizer? Se do lado masculino temos a exceção paterna (Ex-Fx), que permite que se forme um conjunto (VxFx), do lado feminino, não havendo uma exceção que diga não à função fálica (-Ex-Fx), não nos é possível formar um conjunto consistente, mas um conjunto aberto, não-todo (-VxFx), onde um pé está conectado à função fálica e outro não. E porque não localizar o título proposto para esta noite do lado masculino das fórmulas da sexuação (VxFx), onde todos estão marcados pela função fálica, já que estamos falando de todos adictos? Justamente porque, quando falamos de adições, o que está em jogo é o objeto a como objeto de gozo da pulsão, e não o falo como objeto do desejo, objeto que está intimamente articulado com a castração, com a falta e com o fantasma que tenta velá-la.
Se Lacan disse que na toxicomania há uma ruptura do casamento com o falo, creio que podemos pensar que, também nas adições contemporâneas está em jogo uma certa ruptura com o falo, que é curto circuitado em função de uma relação mais direta com o objeto a. Assim o objeto oral, nos sintomas alimentares, o objeto anal, como objeto de consumo facilmente descartável, o objeto olhar, presente nas adições à internet, à pornografia, aos reality shows e a tudo que vicia através das imagens, consumidas pelo olho ávido do expectador, o objeto voz, presente nos aparelhinhos que todos temos hoje em dia, desde os telefones e i-pods aos mais diversos modos de comunicação por meio da voz, que agora se conjugam às imagens.
Me parece interessante resgatar uma observação de Eric Laurent, de que nem todas as adições são equivalentes, e que o empuxo-à-morte presente em algumas adições de maneira explícita está bem mais temperado em outras. Não apenas nas diversas formas de toxicomania, onde uma droga não vale a outra, mas também nas diversas adições: ser viciado em trabalho, como muitos de nós talvez sejamos – um pouco – não é o mesmo que ser viciado em crack, por exemplo, mesmo que em alguns casos as duas coisas possam eventualmente andar juntas.
O que me parece interessante ressaltar, é que nós psicanalistas não somos higienistas, ou seja, não pensamos tratar o sujeito para que ele se livre de seus objetos de gozo. Pensamos, sim, que podemos conectá-lo ao Outro do inconsciente e moderar o gozo autista, abrir-lhe o horizonte para que ele tenha mais escolhas possíveis, introduzindo uma dose de contingência no necessário do sintoma, mas só saberemos o que é possível um a um. Como nos diz Miller, com o último ensino de Lacan, não pensamos em uma transformação radical do sujeito, mas em rearranjos do seu gozo, de tal maneira que o que era vivido por ele como um sofrimento, possa ser vivido com alguma satisfação.
A operação analítica é uma operação que caminha no sentido do não-todo, na medida em que descompleta, inconsiste, abrindo a possibilidade de que, ali onde o objeto se apresentava apenas na sua face de mais-de-gozar, possamos esvaziar ou desubstancializar o objeto, tanto quanto possível, para dar lugar à falta e ao desejo.
Os sujeitos que recebemos em tratamento, mais ou menos neuróticos no sentido freudiano do termo, costumam tolerar mal a experiência da castração, e tentam tamponar a falta – de amor, de gozo, de parceiros, de bens – com objetos mais de gozar, na tentativa de curto-circuitar o Outro. Mas como disse Eric Laurent, os objetos não deixam de ser maneiras de nos conectarmos ao Outro, e não devemos idealizar, nostalgicamente, uma relação com o Outro sem nossos dejetos: nossos sintomas, nossos fantasmas, nossos objetos de gozo. Há duas maneiras pelas quais o hedonismo contemporâneo encontra seus limites, diz Laurent: por um lado, a própria satisfação da pulsão é limitada, pois nunca está saciada e pede mais... ainda. É nesse sentido que a satisfação da pulsão, sem interdição, sem o limite dado pelo falo, que é uma função que introduz a falta, está do lado feminino das fórmulas da sexuação, enquanto aspiração a um gozo sem limites. A ausência de exceção, seja a exceção paterna, seja a exceção dada pela função fálica, pode escrever-se, penso, com a fórmula –Ex-Fx, que Lacan denominou, no seu Seminário “Les non dupes errent”, como uma ordem de ferro, na medida em que impera aí o mandato superegóico de gozo. Goze, sempre mais, e melhor, seja com que objeto for! “Todos adictos!”
A outra maneira pela qual o imperativo de gozo encontra seus limites, diz Laurent, é o amor, na medida em que o amor introduz a falta, um vazio, e que situa no Outro o objeto que falta. Mas o amor, o encontro amoroso, que cessa de não escrever o falo, é como tal contingente. Contingente, diz São Tomás, é aquilo que pode ser ou não ser, acontecer ou não. E uma vez que acontece, o falasser vai tentar repeti-lo, fixar o encontro, para que não cesse de se escrever, tentando transformar aquilo que foi um encontro, contingente, através da repetição, em algo necessário. Uma vez que o amor depende do Outro, esse encontro acaba sendo sempre faltoso, e é aí que o sujeito pode tentar evitar este encontro faltoso agarrando-se a um objeto mais-de-gozar.
Haveria uma diferença entre o objeto mais-de-gozar do fantasma neurótico, objeto, a meu ver, marcado pela falta fálica, e os objetos de gozo ofertados no mercado globalizado? Parece que sim, e nesse sentido poderíamos talvez repartir a expressão “todos adictos” dos dois lados da tábua da sexuação. Do lado masculino, onde podem estar tanto homens como mulheres, o todos de que se trata é um todos marcado pelo falo, onde o objeto é antes de tudo um objeto fantasmático. Estamos ainda no campo da neurose, por mais que, na contemporaneidade, a sexualidade do sujeito neurótico seja cada vez mais marcada por modalidades de gozo auto-erótico, que pretendem prescindir do Outro. Do lado feminino, pelo fato de que não há exceção paterna - -Ex-Fx –  temos o que Lacan chamou uma ordem de ferro, em que um supereu tirânico funciona como imperativo de gozo para todos. Se a droga nos introduz a um modo de ruptura com o gozo fálico, o gozo da droga afeta o corpo ao modo do gozo feminino, não localizado, gozo místico, como diz Laurent. Trata-se de um novo para todos, onde a existência da exceção está negada. Como observou Graciela Brodsky nas jornadas da EBP-SP de 2011, num mundo sem exceção, surge uma nova forma de universal, -Ex-Fx. O não-todo feminino –VxFx, já introduz uma relação com a exceção, não necessariamente o pai, mas uma função encarnada. –Ex-Fx, ao contrário, significa um para-todos da ordem de ferro, sem exceção, fundamentalista: em um mundo onde não há ao-menos-Um, não há não-todo. A ferocidade do gozo feminino, não limitado pelo falo, encontra-se aí, ferocidade do supereu materno que exige um máximo de rendimento para todos.
Que conseqüências podemos tirar disso, para responder à nossa pergunta divulgada por Fernanda no último domingo: haveria uma especificidade nas adições das mulheres em relação às dos homens? Com o declínio da função paterna temos uma maior precariedade da função fálica, e é isso que chamamos de feminização do mundo. Mas isso ainda não nos diz como cada homem ou cada mulher se relaciona com esta função.
É assim que podemos ler os sintomas contemporâneos, do lado das mulheres, como mais ou menos devastadores conforme se articulem, ou não, a uma inscrição do falo, como função de castração, no Outro. O que está em jogo, portanto, não é o ter ou não ter o falo, que reparte os homens e mulheres, mas a maneira como a relação com o Outro é vivida por cada um, um Outro mais ou menos barrado. A segunda clínica de Lacan, continuista, nos permite ler os sintomas femininos mais ou menos articulados à lógica fálica. Penso, por exemplo, que muitos sintomas podem ser lidos através da identificação a um homem: mulheres viciadas no trabalho, alcoolistas em posição viril, mulheres que usam drogas para ir trabalhar e sustentar os filhos com o tráfico, p. exemplo. Em outras, tenta-se fazer existir o todo através de sintomas onde o gozo se reitera, sem sentido, nas anorexias, bulimias e toxicomanias. O uso de drogas pode ter também a função de contornar uma obesidade mórbida, associada ao humor depressivo. A presença de uma referência fálica, no horizonte, extraída da história dessas pacientes e resgatada no tratamento, pode introduzi-las a uma suposição de saber no inconsciente e permitir a construção de um fantasma. Ainda que seja um fantasma masoquista, já é uma saída de uma relação mais devastadora com a pulsão de morte.
Há casos em que a adição, toxicomania ou alcoolismo, estão associados a atos transgressivos, sem culpa, que fazem apelo à lei. Assim aquela paciente que tem uma compulsão para roubos e falcatruas, e que não pode não mentir. Uma outra, jovem homossexual, rouba o cartão de crédito do pai e gasta tudo o que não tem. Nesse último caso, a precariedade da função fálica se revela no momento da ruptura da parceria amorosa, como “depressão” e passagem ao ato suicida. 
A situação parece mais delicada quando não há uma referência fálica, simbólica, e temos um funcionamento localizável do lado feminino das fórmulas da sexuação. Ali onde falta uma referência paterna mais presente, vemos aqueles casos em que a relação com a mãe é realmente devastadora. Assim aquela paciente que, depois de ter conseguido estudar e ter uma profissão, casar-se e ter filhos, perde tudo ao preferir o uso do crack. Ela atualiza uma perda sofrida aos 17 anos, por ocasião de um aborto, realizado por exigência da mãe. O imperativo materno, que resulta no gozo da privação, repete-se fora de sentido e alastra-se de maneira devastadora.
Um caso em que a referência paterna está tomada do lado feminino como imperativo de gozo do supereu, funciona como empuxo ao gozo da droga de maneira mortífera. A paciente, após presenciar o assassinato do pai traficante que a levava em suas andanças e a impedia de estudar até os 10 anos de idade, tem na adolescência um mau encontro com a sexualidade: ao contar para a mãe que foi violentada pelo primeiro namorado, foi por ela brutalmente espancada. Aos 21 anos começa a usar crack sem limites – vozes lhe dizem para se drogar - vende suas coisas, rouba e acaba passando alguns anos na prisão. Após a morte da mãe, já com 30 anos, chega ao hospital psiquiátrico, em estado precário: escuta a voz da mãe lhe dizendo para se matar. “Eu sou esquizofrênica, estou aqui por causa da minha esquizofrenia”.
Diferentemente dos pacientes que se nomeiam toxicômanos e se sustentam nessa identificação, ela se nomeia esquizofrênica e assim justifica sua não responsabilidade pelo que lhe acontece. Só lhe restou uma identificação ao pai do gozo, que marca seu corpo nas estereotipias de malandra. Ela encontrou no diagnóstico de esquizofrenia uma ancoragem e nos anti-psicóticos um apaziguamento. Ela responde porém melhor à descrição das monomanias evocadas por Eric Laurent, onde o consumo é limitado a uma só droga, diferentes das toxicomanias e também da esquizofrenia. Valorizar os sintomas psicóticos permite, neste caso, enlaçá-la ao Outro, ao qual pede guarida e tratamento para não morrer.
Finalmente, temos os casos em que o uso da droga desencadeia um quadro francamente psicótico e revela a forclusão do Nome-do-Pai. Pode ser mais fácil tratar essas pacientes, nas quais os fenômenos delirante-alucinatórios localizam o sujeito, e o gozo da droga fica em segundo plano. O que me parece interessante ressaltar é a seriação da experiência, uma clínica continuista que permite ao praticante orientado pela psicanálise diferentes manejos, e às pacientes diferentes invenções.



[i] MILLER.  Coisas de fineza, lição de 10 de dezembro de 2008.
[ii] Revista Clique 01 - Abril de 2002
[iii] Opção Lacaniana online nova série. Ano 1 • Número 3 • Novembro 2010.







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