@DDito 12
Boletim da XVII Jornada da EBP-MG
Caros colegas,
Como ensaio e um ótimo aperitivo à nossa XII
Jornada, tivemos na última quinta-feira dia 23 de agosto, na sede da EBP-MG o
III Seminário Preparatório. Dois belíssimos trabalhos nos foram apresentados
pelos colegas Henri Kaufmanner e Lucíola de Freitas Macedo. Henri nos brindou
com uma interessante discussão acerca da política e o inconsciente e Lucíola
nos apresentou o seu texto “A biopolítica como
figura do não todo e a política da psicanálise na era do direito ao gozo”,
abordando a questão da política da psicanálise.
Henri Kaufmanner no início de sua
fala nos chamou a atenção de que a articulação da psicanálise e a política é
uma articulação cuidadosa e que temos uma primeira referência inicialmente nos
trabalhos de Freud, que aborda a influência da política no inconsciente,
especialmente em “Psicologia de Massas e Análise do Eu”, “O Eu e o Isso” e ”Mal
estar na civilização”. Situou que existe a preocupação de Lacan com a política,
sobretudo a partir de seu Seminário 14 – “Lógica da fantasia”, de 1966-1967 e
no seu texto “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da
Escola”, onde a aborda três linhas de fuga, a primeira falando do registro
simbólico e a precariedade do pai, na segunda linha de fuga aborda o imaginário
para falar das instituições analíticas e por último, a linha de fuga
referenciada ao registro do real onde vai falar do campo de concentração e sua
relação com o remanejamento dos grupos sociais pela ciência e a universalização
(mundialização) que ela introduz. Na “Proposição”, Henri Kaufmanner destaca a
importância que Lacan dava naquele momento para a questão da fantasia e sua
travessia como critério do passe em que o sujeito se coloca entre
menos-fi (-φ) e o objeto a; sujeito para o qual a incidência da linguagem produz
uma defasagem entre corpo e gozo e que aí nessa fratura ele se constitui.
Lucíola de Freitas Macedo problematiza ao longo de
seu texto - tomando referência no trabalho de Jacques-Alain Miller “Intuições
Milanesas”,a instigante analogia entre a estrutura do Império, concebida
e amplamente desenvolvida por Toni Negri (2002) e a estrutura do não todo, tal
qual proposta por Lacan em O aturdito, escrito de 1972. Diz Lucíola
que a estrutura do Império assim como o fenômeno da globalização – ambas
- se inscreveriam na lógica do não todo. Ressaltando que consideramos o
fenômeno da globalização como subproduto da biopolítica, tal como foi elaborado
por Foucault. Afirma, ainda, Lucíola que sob a égide da globalização não
vivemos sob o reinado do pai e que a estrutura do todo cedeu àquela do não todo
e não há mais nada que esteja em posição de interdito.
Vocês terão a oportunidade de conhecer, na íntegra,
o teor da apresentação de Henri Kaufmanner assistindo o vídeo anexado a esse
@DDito. Também lerão o texto completo escrito por Lucíola de Freitas
Macedo.
Jorge Pimenta
Equipe Editorial @DDito
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A biopolítica como figura do não todo e a política
da psicanálise na era do direito ao gozo
Lucíola
Freitas de Macêdo
Antecedentes
Antes de
entrar mais diretamente em nosso tema de trabalho, gostaria de relançar, a
partir de nosso próprio campo, alguns pontos cruciais da fala do professor
Newton Bignoto a propósito do tema de nossa última preparatória “Homogeneidade
e exceção na política”. Parece-me especialmente interessante para a nossa
discussão, o modo como Bignotto localiza uma espécie de cisão entre a política
clássica, fundada, na lógica fálica, sob os auspícios das diferentes figuras da
exceção (encarnada no mundo grego pela figura do legislador, na Idade Média
pela figura do Rei, e na modernidade pelo soberano), e o traço homogeneizador
da cultura contemporânea, o consumo. Digo cultura ao invés de política
contemporânea porque ele parece defender que a busca da homogeneidade é uma
pretensão pré-política, pois que apaga a diferença como elemento constituinte
do corpo social e da política desde a Antiguidade Clássica até o Estado
Moderno, como também, sua figura fundante, a exceção. Não poderíamos, portanto,
falar rigorosamente de política quando estamos no reino da homogeneização.
Bignotto defende que o imperativo “todos iguais pelo consumo” se sustenta num
modo de identificação pré-político, uma vez que resulta na eliminação da
diferença como elemento de coesão social, e o que estaria no horizonte do homem
reduzido ao organismo e à sua condição pré-política, é, não propriamente o
horizonte da política, mas o que Michel Foucault chamou nos anos 70 de
biopolítica.
O caminho
feito por Bignotto levou-me a retomar um artigo que escrevi há alguns anos - A
biopolítica como política da angústia - à luz do que temos discutido
neste momento de preparação para a nossa Jornada. Nesse texto, retomo a
proposição de Miller em suas “Intuições Milanesas”, da globalização como figura
do não-todo na contemporaneidade, a partir da qual proponho e interrogo o
problema da biopolítica como figura do não-todo na psicanálise e na
política.
Em
psicanálise, quando falamos de homogeneização, estamos nos referindo à
homogeneização dos modos de gozo, o que não deixa de confluir com a tese de
Bignotto, ao localizar o consumo na contemporaneidade como uma das máscaras do
totalitarismo e da pretensão de homogeneidade.
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