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Boletim da XVII Jornada da EBP-MG

III Encontro Preparatório da XVII Jornada da EBP-MG 



 "A política do inconsciente e a política da psicanálise"







A proposta desse III seminário preparatório provocou uma discussão animada entre os integrantes da comissão científica. O debate instalou-se entre nós quando conversávamos sobre o contexto em que Lacan proferiu a frase "o inconsciente é a política" e cotejamos com as elaborações de J-A.Miller, em Lacan e a Política, quando disse que "a psicanálise é o avesso da política". Para uma Jornada que elegeu como tema a política da psicanálise anotei essa empolgação no coração da comissão como um bom presságio. Eis aqui, então, o veio em que a política toca os analistas! Sim, pois o analista, quando analista, não está no mesmo lugar do mestre, a política que o orienta é outra. Com os quatro discursos, Lacan esclarece que o inconsciente se demonstra no discurso do mestre e o discurso analítico é justamente o seu avesso. Vamos, então, esclarecendo que a política da psicanálise não é aquela da promessa política do amo, dos ídolos, dos líderes e é justamente a subversão dessa política que interessa à experiência analítica. Uma política que virando o mestre pelo avesso visa a queda das identificações, para que a causa de cada um encontre seu justo lugar de agente do desejo. 

Mas no mundo globalizado, onde o discurso do mestre foi consumido pelo discurso capitalista, qual lugar para a política da psicanálise enquanto ação lacaniana?

Essa conversa nos interessa e os colegas Henri Kaufmanner e Lucíola Macêdo, marcam presença na próxima quinta-feira às 20h30 na sede da EBPMG, momento em que irão trazer suas contribuições ao tema, cotejando a relação subversiva que insiste, ainda mais, entre a política do inconsciente e a política da psicanálise, nos tempos que correm.

Conversei rapidamente com Henri, ainda a pouco, e ele me contou que andou vasculhando O Seminário, livro 14 – Lógica do Fantasma - e encontrou uma linha guia que lhe permitiu retomar a clínica como lupa de leitura da assertiva lacaniana "o inconsciente é a politica". Da sua investigação, deixou-me a seguinte dica: "Lacan ocupava-se da maquina original que coloca em cena o sujeito. Se voltarmos a esse seminário, encontramos Lacan ocupando-se em mostrar como que um significante que apriori não significa nada, que não tem identidade, pode vir a representar o sujeito, ou como o inconsciente se apresenta mais além do impasse apresentado pelo Cogito Cartesiano. Está em jogo a politica que permite dar ao corpo um destino diverso da simples anatomia." Esse desenvolvimento, pareceu a Henri, adequado aos impasses de nosso tempo e é nessa trilha que pretende nos levar a conversar.

Lucíola, numa breve conversa ao telefone, me contou que está em pleno trabalho, e que tomou como norte da bússola a ideia de que a biopolítica produz uma desordem no real. O "consumo como a máscara da biopolítica", trazida por Newton Bignotto na última preparatória, a fez pensar na biopolítica como figura do não todo e interrogar quais as consequências disso para a clínica de nossos dias. Diante desse cenário, propõe investigar se a posição de extimidade como índice do impolítico é uma orientação que convém à política da psicanálise na era da globalização. Como podemos esperar, quando Lucíola toma a palavra, ela convidou para estar consigo na mesa, além dos convivas “da casa”, muita gente bacana, a começar por Michel Foucault, Giorgio Agamben, Primo Levi e Antonio Negri.

Eu não perco essa conversa, entre Henri e Luciola, por nada desse mundo! E convido você para estar conosco nessa quinta-feira, esquentando as turbinas para nossa Jornada em Outubro.

Atenção! @DDIto por Novidades!!! Confira ainda, nesse número, as últimas notícias de Lilany Pacheco sobre o prazo de entrega de trabalhos. E se você ainda não enviou o seu trabalho para a XVII Jornada, para sua inspiração e de todos aqueles @DDitos por bibliografias, estamos anexando duas contribuições de leitura: uma sobre o Racismo nosso de cada dia, publicada na última Revista Almanaque Online, pelo colega Luis Tudanca (EOL). Ele desenvolve a ideia de que a política da psicanálise é a política do sintoma, fazendo uma leitura super  interessante sobre o que entende como o impolítico  na psicanálise de orientação lacaniana. Outra contribuição foi enviada pela colega Lucíola Macêdo (EBP), a partir de uma contribuição redigida para o Boletim UM por UM, a partir da qual desenvolve o tema "Extimidade: entre psicanálise e política". Ali, a autora segue interrogando se as políticas que orientam suas ações em reivindicações fundadas em traços identitários, movidas pela impossível justiça distributiva dos gozos, sem levar em conta o princípio de extimidade, não estariam promovendo apenas o assistencialismo e a vitimização

O interesse por essa jornada está surpreendente, já superamos a marca de 14000 acessos ao blog da nossa jornada, e isso, em apenas esse ano!!! As inscrições estão sendo feitas, há colegas vindo de várias cidades de Minas Gerais e diversos estados do Brasil. E você já fez sua inscrição? Até o dia 23 de agosto você pode parcelar sua inscrição em até três vezes. Não perca tempo, as vagas são limitadas!!! Garanta o seu lugar o quanto antes e participe desse movimento da política da ação lacaniana!

Um abraço,

Fernanda Otoni - Coordenadora da XVII Jornada da EBPMG


@DDitos  por Novidades  
Prazo para envio dos trabalhos

Devido a inúmeros pedidos dos colegas, foi prorrogado o prazo final para entrega dos trabalhos para o próximo domingo, impreterivelmente. A política dessa jornada tem sido a de acolher a diversidade cujo desejo é o de discutir a política da psicanálise na era do direito ao gozo! Mas, tem limite: o prazo final será DIA 26 DE AGOSTO. Fique atento ao prazo e envie o seu trabalho!

Lilany Pacheco – Coordenadora da Comissão Científica da XVII Jornada da EBPMG


@DDitos por Bibliografia

O racismo nosso de cada dia
Luis Tudanca

(...) há uma ideia de Lacan sobre a qual não se deve desviar que é sua definição de política, porém sua definição de política em relação à psicanálise. Lacan diz textualmente: “O sintoma institui a ordem em que se revela nossa política, implica por outra parte que tudo o que se articula por esta ordem, quer dizer a ordem do sintoma, seja passível de interpretação”. Assim o que Lacan indica – e ele não se afastou nunca disso –, e que faz com que Miller retome todas as discussões sobre a política e a psicanálise nesse ponto, gira ao redor de três termos: política, sintoma e interpretação. Isso quer dizer que em Psicanálise, a política é a política do sintoma, e com isso o outro passo que agrega Lacan é, se a política da Psicanálise é a política do sintoma, a única ferramenta que dispomos para essa política é a interpretação.

Porque de alguma maneira, e essa é a segunda parte, deve-se pensar a política já não somente a partir da psicanálise: a política em geral é ação. Vocês podem ler a multidão de filósofos políticos que, pelo positivo ou negativo, sempre vão indicar que política é ação. Assim, o importante é pensar qual ação política, a cada vez. Sem esquecer a perspectiva de que a ação política deve estar dirigida a ler um sintoma e interpretá-lo, essa é a política da psicanálise. Não é pouco ler um sintoma, e interpretá-lo pode interferir diretamente no real de uma situação, não se deve pensá-las como algo no qual se se coloca fora da política concreta, ao contrario, isso é política concreta, e pode fazer mudar as políticas.

(...) o mundo está basicamente dividido em duas raças. essas duas raças podemos traduzir como dois bandos, dois grupos, e Foucault pensa que isso constitui a essência mesma de nossa sociedade. Na Argentina pode ser River e Boca, pode ser peronismo e antiperonismo, os millerianos e os antimillerianos... Isso é essencial na sociedade contemporânea, não ocorria tanto na sociedade antiga. Inclusive quando se produziam guerras, nunca havia exatamente essa questão de dois bandos, isso é o que constitui um racismo contemporâneo, é o que eu chamo o racismo nosso de cada dia. Essa fórmula, para aqueles que alguma vez rezaram o Pai Nosso recordarão que há uma parte que diz ”o pão nosso de cada dia, nos dai hoje”. Faço uma ironia com essa fórmula, tomo da oração maior da religião cristã essa frase e a transformo em “o racismo nosso de cada dia”.



Extimidade: entre psicanálise e política
Lucíola Freitas de Macêdo

Na esteira do debate sobre as políticas do sintoma na civilização[1], proponho a discussão sobre a política da psicanálise face ao furor identitário próprio a este início de século, terreno fértil não somente para políticas pautadas no comunitarismo identitário[2], sustentadas nas reivindicação de grupos legitimados por um modo de gozo, quanto para o apelo sedutor das falsas ciências e do DSM-V, malgrado as denúncias de conflitos de interesses e de suas alianças nefastas com a indústria farmacêutica, a medicalização generalizada da vida e da infância, a imperícia dos diagnósticos, temas recorrentes na mídia contemporânea. O canto das sereias que a lógica do consumo, maior aliada desta segunda vertente, faz ressoar, é o da promessa de que o mal estar, o que rateia, e não funciona conforme a regra, tem seu lugar no corpo, e mais precisamente, no cérebro, podendo ser corrigido e/ou excluído pelo uso de medicamentos e outros artifícios.

Quanto a primeira vertente, se nutre do vazio deixado pelos ideais em tempos em que o Outro não existe[3]. Seus efeitos se mostram, entre o empuxo à classificação como modo privilegiado de controle, e o empuxo identitário, em que soluções e amarrações imaginárias subsidiadas pelo sentimento de pertencer a uma classe e de encontrar um lugar no Outro induzem de bom grado a servidão voluntária ao mestre classificador e avaliador. A diferença reivindicada no plano identitário produz uma inclusão na classe ao preço do apagamento da singularidade do modo de gozo. A consequência dessa combinatória na cena contemporânea é a injunção de um simbólico enrijecido, calcificado pela pregnância imaginária, e desarticulado dos possíveis tangenciamentos e enlaçamentos ao real.

Neste estado de coisas, pensar a psicanálise no contexto das políticas orientando-se pela via da extimidade ganha sua pertinência. Acredito que a noção de extimidade tenha sido uma das interpretações de Lacan às políticas e discursos identitários que já despontavam no horizonte do século XX.  A perspectiva da extimidade remete ao estatuto do inconsciente, e responde em psicanálise ao princípio da não identidade de si consigo mesmo[4], ou, dizendo de outro modo, ao encontro com o Outro que agita o sujeito  no seio de sua  identidade consigo mesmo. Em “A instância da letra no inconsciente” Lacan interroga: “qual é esse Outro com o qual estou mais ligado que comigo mesmo, posto que no seio mais assentido da minha identidade comigo mesmo, é ele quem me agita?”[5]. O paradoxo do Outro interior implica em uma fratura na noção de identidade pessoal. Nessa perspectiva, na medida em que é absolutamente distinta da pura exterioridade, a extimidade designa um hiato, uma lacuna, no lugar em que se esperaria encontrar as vestes imaginárias da identidade de si consigo mesmo. Para Lacan, o inconsciente freudiano formalizou a incidência de uma estrangeiridade ineliminável na relação do sujeito com Outro, consigo mesmo, e com a língua. Esta é a raiz da noção de extimidade. Tudo o que se constitui e se constrói na civilização, como defesas e superestruturas a fim de recobrir o hiato indelével da identidade de si consigo mesmo, assim como aquele da alteridade do Outro, faz com que a tensão e a opressão próprias ao ponto de extimidade, sejam sentidas como vindas unicamente do exterior.

Sendo assim, políticas que orientem suas ações em reivindicações fundadas em traços identitários, sejam quais forem, sem levar em conta o princípio de extimidade, estarão em maior ou menor grau promovendo o assistencialismo e a vitimização, movidos pela impossível justiça distributiva dos gozos, tal como, por exemplo, as políticas quem visam distribuir lugares  exclusivamente orientadas pelo critério racial, que acabam por favorecer a inclusão sob o signo da segregação, de um apagamento do sujeito, e de um racismo às avessas. Dar um lugar à identidade no seio da extimidade, por outro lado, poderia propiciar um bom uso da identificação e de seu fator segregativo, mas também, estruturalmente separador.

Para concluir, valeria estendermos esse debate ao nosso próprio campo, uma vez que nos organizamos institucionalmente, e que, portanto, não estamos ao abrigo da tensão entre, de um lado, a multiplicidade das singularidades, e de outro,  o apelo ao universal próprio aos dispositivos institucionais, da cultura e dos saberes com os quais precisamos conversar, e pelos quais somos interpelados.


[1]MACEDO. Não existe sujeito sem instituição! IN: Almanaque On-line, n.8. Disponível em: http://www.institutopsicanalise-mg.com.br/psicanalise/almanaque/08/textos/Luciola.pdf
[2]LAURENT. Dois aspectos da torção entre sintoma e instituição. In: Pertinências da psicanálise aplicada, p. 237-249.
[3]MILLER & LAURENT. El otro que no existe y sus comités de ética. Buenos Aires: Paidós, 2005.
[4]MILLER. Extimidad,. Buenos Aires: Paidós, 2010, p.25-42.
[5]LACAN. A Instância da letra no inconsciente. IN: Escritos, p.528.

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