Boletim da XVII Jornada da EBP-MG
Muitos colegas
andam por aí dizendo que “essa jornada dá vontade de escrever” ou, ainda, "lembrei de um caso,
logo que soube o tema dessa jornada”. Essas respostas sinalizam a amarração entre a
clínica e a política pois
é disso que se trata na experiência analítica.
O entusiasmo que estamos encontrando em torno dessa
jornada, seja nas atividades da EBPMG, nos encontros dos cartéis ou em espaços
de supervisões da rede, dentre outros, faz-nos apostar naqueles que estão
falando que a XVII Jornada "acertou no ponto".
Faça a inscrição o quanto antes, pois o espaço tem limitação de vagas e caravanas do interior de Minas anunciam a sua chegada. Já fomos informados sobre a montagem de postos de inscrições em franco movimento, desde Montes Claros e Ipatinga. Outros municípios também iniciam a mobilização de suas comitivas para participar desse evento da política da psicanálise.
Faça a inscrição o quanto antes, pois o espaço tem limitação de vagas e caravanas do interior de Minas anunciam a sua chegada. Já fomos informados sobre a montagem de postos de inscrições em franco movimento, desde Montes Claros e Ipatinga. Outros municípios também iniciam a mobilização de suas comitivas para participar desse evento da política da psicanálise.
É isso aí! "Essa jornada eu não perco por nada desse mundo” seguem comentando os mais jovens bem como os que estão na estrada já a
algum tempo. Para acolher todos vocês,
estamos cuidando para fazer uma
jornada em condições de abrigar essa diversidade pulsante que sustenta a
psicanálise de orientação lacaniana.
E o tempo não para! Continuamos recebendo valiosas contribuições
para o @DDito de vários colegas, e assim vamos
preparando a conversa para o nosso encontro no espaço Centoequatro. As contribuições desse número ficaram por
conta da nossa convidada da ECF, Agnès Aflalo, e da nossa colega Maria Rita Guimarães, da EBPMG.
O texto da Agnès, que sugerimos para leitura, foi publicado no
Lacan Cotidiano, n. 210, e lança luzes sobre a aliança bombástica
entre o discurso capitalista e a ciência, que mudou o mundo, levando a
civilização à mundialização. Agnès lança a idéia que o discurso capitalista opera a partir
de uma foraclusão da castração. Super interessante suas elaborações.
Já a colega Maria Rita Guimarães, enlaçada ao eixo "o
inconsciente é a política", serve-se da pergunta de Jean Claude Milner "desde
quando, como e porque falar política?", para apresentar uma pequena vinheta extraída da sua
experiência no CIEN, cuja conversação, realizada numa creche, pode testemunhar
que “para que haja política é preciso que os seres falem política".
Até o dia 20 de agosto aguardamos o seu trabalho. As inscrições
estão abertas e as vagas são limitadas. Não perca esse trem!
Fernanda Otoni
Coordenadora da XVII Jornada da EBP-MG
CHAMADA PARA ENVIO DE
TRABALHOS
Caros colegas, o prazo de enviar os
trabalhos que comporão as mesas simultâneas e plenárias da XVII Jornada da
EBPMG, está chegando! Já recebemos alguns trabalhos!
Estamos esperando sua contribuição!
Abraços,
Lilany Pacheco
LEITURAS DO MOMENTO ATUAL
Da civilização à mundialização
Agnès Aflalo
Depois do fim da segunda guerra mundial, o mundo mudou. E essa mudança
pode ser ordenada a partir do conceito de discurso formalizado por Lacan (1).
Os avanços dos discursos do capitalismo e da ciência permitem compreender seu
alcance.
O discurso capitalista e seu sujeito
Como cada discurso, o do capitalismo reflete uma perda de gozo
impossível de recuperar. Essa perda de gozo é sempre percebida como roubo, e
seu retorno, sempre localizado do lado do Outro, o mestre. Freud descreve os
mesmos deslocamentos da libido no circuito da pulsão. Mas, Marx é o primeiro a
amarrar junto os dois deslocamentos desconhecidos da libido, o que fez Lacan
dizer que ele é o inventor do sintoma. Esse sintoma descoberto pela
psicanálise, no momento de sua emergência, vale ainda hoje. O obscurantismo
cientificista do XXI° Século pode bem decidir por o ignorar, mas isso não o
impede de existir.
Esse discurso capitalista, rejeita a perda primeira de gozo e prorroga a
recuperação de gozo. O sintoma reitera sem cessar o duplo movimento de recusa
da perda de gozo e de sua recuperação, a fim de o totalizar, de que ele não
falte. É o estereótipo fundamental do sintoma. Esse discurso executa, então,
uma foraclusão da castração. À época de Freud, o mal estar na civilização se
centrava essencialmente na perda, de modo que, hoje, a mundialização se centra
sobretudo no segundo tempo da recuperação de gozo sem limites. Para Lacan, o
discurso do inconsciente deve ser esclarecido com esse discurso capitalista.
O capitalismo fez emergir um novo sujeito. Ele é efeito da linguagem,
mas não é mais assujeitado ao significante mestre que é recalcado. É dizer que
os significantes do Outro social não o identificam mais. Constatamos isso, em
particular, com o homossexualismo e o autismo, questões sintomáticas do DSM
hoje. Esses sujeitos recusam a segregação induzida pelo discurso dominante que
os encaixa respectivamente na classe da perversão ou das psicoses. Essas
palavras mestres, usadas demais, não indexam mais o real em jogo e são
rejeitadas.
Mais geralmente, o sujeito capitalista recusa a autoridade do mestre. E
«a crise de autoridade» nomeia esse fenômeno do declínio do Mestre em todos os
níveis de nossas sociedades democráticas. Ou, a função das palavras mestres, é
também a de mortificar o gozo. Quando a palavra mestre é recalcada, a
mortificação de gozo – castração – não opera mais. A consequência no nível do
corpo é decisiva. Não há mais nenhum limite à produção de objeto «a»
mais-de-gozar. É a exploração à morte. Pois não é mais somente o ter que é
concernido, mas também o ser. O sujeito está mais entregue à palmatória do
mestre absoluto quando ele não está identificado à um mestre em particular. A
morte é o único principio de limitação do gozo quando a castração não opera
mais.
O capitalismo tem conhecido duas grandes modificações nesses últimos
trinta anos. Primeiro, ele se mundializou. Seguramente, depois da queda do muro
de Berlim, as nações comunistas reuniram-se à economia de mercado. É
então legitimo dizer que não há mais civilização, mas mundialização na qual os
sujeitos padecem sobretudo das adições sem limites fundadas sobre a recuperação
ilimitada do mais de gozar. Em seguida, o capitalismo se «cientificizou» - o
capitalismo financeiro deveria ser chamado de capitalismo cientifico. Seu
sujeito é o proletário generalizado, pois não tem nada que lhe permite fazer
discurso, como o mostra o fenômeno dos Indignados. Não é mais necessário
localizar o proprietário na usina para extrair um mais de gozar. A crise
financeira de 2008 o mostrou, basta o fazer brilhar nas aplicações com
aparência de ganhos de cassino, e reduzidos à algumas equações matemáticas
opacas (titrisação) para o transformar em SDF (morador de rua) na oportunidade
da primeira crise de confiança. O fenômeno de solidão e sua satisfação autista
dá uma ideia da expansão do fenômeno no mundo.
O discurso da ciência e seu sujeito
Com a ciência, o significante mestre também não funciona mais. A mais, a
ciência diminui o efeito de uma série das funções do discurso : o
significante é reduzido a seu efeito de letra – as matemáticas só utilizam as
letras – e o objeto (a) mais de gozar é rejeitado; lá, o trabalho dialético
da verdade não é mais possível porque a divisão do sujeito é neutralizada. A
castração não opera mais. A verdade e o real singular da libido estão
disjuntos. O único real em jogo neste discurso obedece as leis universais e não
à uma causa singular: é o real do organismo a distinguir-se daquele do corpo. O
discurso analítico mostrou seguramente, desde sua emergência no século XX,
que o corpo é sempre um corpo falante, o que não é evidentemente o caso
do organismo que é do domínio da ciência.
O sujeito da ciência data do cogito e não é outro coisa que um vazio. É
um sujeito puro. É decisivo o perceber, pois a ciência não precisa mais
recorrer à intuição corporal. Ela dispensa o corpo. Ela opera somente sobre o
organismo e seu real. Este sujeito puro da ciência não existe em lugar nenhum,
mas ele faz apreender que a ciência vela a parte do sujeito que se expressa na
fantasia e que é correlata ao objeto a. O sujeito assim neutralizado na sua
divisão passa a ser universalizante. Se presta sempre mais à lógica das
classes. A liberação do corpo provoca uma disjunção entre o corpo e o objeto a,
entre o universal do corpo e o particular do objeto a. O objeto a é um conjunto
vazio; é, então, incorporal. Quando é rejeitado, ele se coloca a correr
sozinho, separado dos corpos. Mas está também pronto a retomar os corpos na
primeira curva. É o caso de cada objeto a natural ou industrial.
Este objeto a não é inerte. É um pouco como um buraco negro; é um objeto
«que quer». Peguemos o exemplo do objeto a olhar e sua relação ao corpo. O
olhar capta sempre mais os corpos nas nossas sociedades de vigilância, do lado
de fora, nas ruas com as câmeras sempre mais numerosas, mas também em casa com
as telas de televisão ou de computador sem contar o dos telefones celulares e outros
tabletes portáveis em todos os lugares, e o tempo todo. Dito de outra forma,
este objeto a tem um efeito de empuxo-ao-gozo sobre o corpo, do qual ele não
pode ficar separado muito tempo. Quando ele faz o retorno sobre o organismo,
ele se manifesta, então, em todos tipos de adições que fazem os sintomas
contemporâneos. É o mesmo objeto olhar insaciável que perscruta a vida privada
do Seu Zé e Dona Maria, nos jogos televisionados chamados de
"bigbrothers/reality show"; é também este objeto que se satisfaz das
vicissitudes da vida privada de nossos mestres modernos cuja midiatização é
exigida sem prazo.
Mas quando o espelho midiático não consegue mais o tamponar, o ideal
esperado não aparece, a decepção é aí assegurada. O ideal do homem normal está
sem dúvida no ar da época. Mas, esta ficção que reúne contém, também nela
mesma, a semente da dispersão ulterior. Apagado por um tempo somente, ele não
cessa de reaparecer e de se manifestar, em particular, como a pequena diferença
na qual cada um se apega como à seu bem o mais precioso. Acrescentamos que o
sujeito da ciência, libertado do corpo, é também um sujeito sem vergonha.
Seguindo o mesmo princípio, a emancipação do objeto oral provoca epidemias
mundiais de obesidade ou de anorexia, desde a mais tenra idade.
A ciência e o capitalismo estão unidos para o melhor e para o pior. Eles
engendraram os maiores progressos da humanidade. Mas, as profundas modificações
que eles impõem aos discursos geram também novas formas de mal estar. A
avaliação veio reforçar este mal estar mundializado. O mal estar contemporâneo
não conhece mais as fronteiras tradicionais e é por isso que é justificado de
falar hoje de mundialização e não mais de civilização.
Tradução: Fernanda Otoni de Barros-Brisset
Como responder aos corpos que falam:
responsabilidade política em questão do inconsciente
Maria Rita Guimarães
“L'acte politique, ramené à son minimum essentiel, ce
sont des corps parlants”. Jean-Claude Milner
“Como responder”: a
questão nos é familiar. Estamos sempre à sua volta, em busca de uma resposta
que nos conforte no exercício de nossas atividades no CIEN. Interessou-me,
portanto, pensá-la no âmbito da responsabilidade política em relação ao
inconsciente.
Se nossa resposta
está na raiz da responsabilidade que nos concerne quanto ao ato solitário de
sua enunciação, tal fato não é contraditório à prática interdisciplinar. Como
nos transmitiu Judith Miller, as diferentes disciplinas não se reúnem para
compor um saber total, absoluto. Disso resulta a primeira lição a seguir:
saber-não-saber, posição subjetiva daquele que aceita o vazio como estrutura do
ser falante.
Portanto, não temos
as respostas a partir de “uma visão de mundo- Weltanshaung, seja ela
progressista ou humanista, baseada na ilusão de deter um saber que dá as
soluções dos problemas.”
Deduzimos assim que
trabalhar no sentido do saber-não-saber mantém a lógica do impossível que
desloca para longe de nossa aposta o Ideal totalitário, permitindo-nos o
reconhecimento da existência da pulsão e suas vicissitudes, as vicissitudes do
sujeito.
O inconsciente é a política
Jean-Claude Milner
afirma, na contracapa de seu livro A política das coisas: “Para que haja
política é preciso que os seres falem política”. Dito isto, o autor abre
diversas questões: “desde quando, como, por que falar política?” para, em
determinado momento, explicitar: “Falar política, é, pois, uma técnica do
corpo.” Essa expressão “técnica do corpo” é , pouco depois, “ explicada” pelo
autor como “ouvir, falar, reunir, dispersar, e sua legitimidade é ter parado
com o desejo de matar os outros.” Alinhamos tal afirmativa ao pensamento
de Jorge Aleman para quem o sentido primeiro da política é o que
fazer com a pulsão de morte, com o excesso de vida que já não é vida, é um
saber-fazer com o encontro do real da alíngua e corpo do vivente.
Lacan nos diz que “
o inconsciente é a política”, enigmática frase que J.A. Miller traduz da
seguinte maneira:“Dizer que o inconsciente é a política, é primeiramente
situá-lo na dimensão transindividual , como o implica o próprio fato de
abordá-lo numa relação analítica.”
Esta é a
formulação estrutural do inconsciente: ele é coordenado ao discurso do Outro,
ou seja, o inconsciente é uma relação ou qualquer coisa que se produz numa
relação.O coletivo, o social mantêm as funções de grande Outro. Consideramos
a política como aquilo que tem a ver com a questão do laço? Se
assim for, a linguagem, a palavra, o corpo, estão incluídos aí, pois pensamos o
vínculo articulado ao social.
Esse caminho nos
pode ajudar a localizar o ponto em que insistimos em não confundir o trabalho
no CIEN com o trabalho analítico, porém mantendo a ideia de que explorar as
modalidades do laço social é da mesma ordem que explorar o sujeito do
inconsciente.A aposta do CIEN vai em linha contrária á lógica totalitária que
impede que a implicação subjetiva. Sem essa, não há experiência do
inconsciente, já que não há o sujeito que é, afinal, o suporte da experiência.
Na ausência de experiência do inconsciente, apenas há a gestão dos corpos.
Diferença entre experiência política do inconsciente
e política da gestão
Tomemos uma vinheta
prática. A conversação se dá numa creche localizada em uma favela de Belo
Horizonte, que acolhe grande contingente de crianças, de variadas idades, da
comunidade.
A problemática
abordada era antiga e insolúvel: as crianças de tenra idade faziam birra ao
entrar na creche. ”Ás vezes, a mãe ameaça, noutras bate, raramente dá uma bala,
quase sempre dá uma moedinha”.
A moeda é o coração
do problema: mãozinha fechada, a criança não a deixa sob nenhuma sedução,
apelo, argumentação ou ameaça dos professores/cuidadores. “Como deixar uma
criança tão pequena com uma moeda?” perguntam-se. Sabem do perigo, sabem que o
uso da força para “arrancar” esse precioso objeto da mãozinha fechada não traz
nada além de choro, cena de birra e a mostração agressiva.
A impotência bateu,
primeiramente, à porta dos responsáveis pela administração da creche após terem
esgotados os recursos que tinham à mão, todos da ordem que chamaremos de
política da gestão, contrapondo-a ao termo experiência.
1- Primeira atitude
da direção da creche foi a proibição sumária de que criança trouxesse
moeda. Logo, com o descumprimento da regra por parte das famílias que
argumentavam: “precisamos trabalhar, por esta razão precisamos da creche, que
precisa compreender que temos horário, que o mais rápido é dar a moedinha, já
que eles (os filhos) entendem que é trabalhando que trazemos dinheiro para
casa, pra dar pra eles.”. Uma mútua e dissimulada hostilidade ganhou
terreno entre as partes, quando a creche passou a aplicar “ advertência” às
famílias.
2- Seguiu-se outra
estratégia, igualmente analisada como fracasso. A extensão de sua
aplicabilidade foi diminuída, já que abrangia apenas as crianças a partir de 4
anos. Cada moeda trazida era recolhida em um cofre – comprado para esta
finalidade- e o valor atingido, após certo tempo, seria utilizado em uma
“festa” na creche. No processo dessa estratégia algumas cenas imprevistas
aconteceram, desnorteando os responsáveis, como a atitude comovente de um
menino que “empacava” à saída, indagando por sua moeda. Outras crianças
passaram a dizer em casa que a creche “pedia” uma moeda aos pais para dar uma
festa, causando desconforto para todos.
3-No momento em que
se iniciaram as Conversações do Laboratório a-PALAVRAR com os profissionais da
creche o que vigorava é que cada professora adotasse a conduta que melhor lhe
parecesse, por sua conta e risco, fato que provocava sentimentos de “ser má”,
“sentir-se angustiada”, “sentir-se omissa”, por aí afora.
Os testemunhos foram
escutados como respostas particulares oferecidas ao problema do valor da moeda
para os pequeninos, e também na visada de que cada responsável chegasse a
elaborar algo da particularidade do sujeito que tinha sob seus cuidados, sem
que se resvalasse para uma identidade comunitária e /ou que tal particularidade
fosse anulada em referência a um sentido ordinário, ou uma lógica
preconceituosa, tipo: “são crianças pobres e gostam de dinheiro”. Sem que as
instruíssemos com os termos, a condução orientada para a experiência do
inconsciente permitiu o exame de situações em que, observado caso a caso, a
moeda em seu valor de fort-da permitia à criança suportar a separação da mãe,
ao vir para a creche. Esta “reserva de libido” fora do corpo, mantida pela
moeda, facilitava para a criança o que Eric Laurent chamou a “ acomodação dos
restos da mãe que parte”. No horizonte, caso por caso, abriu-se a
possibilidade, através de atividades de fala, do estabelecimento de uma cadeia
metonímica de objetos, e, por esta trilha, a substituição da moeda por um
brinquedo, ainda que fosse modesto, simples e pobre.
