@DDito 5
Boletim da XVII Jornada da EBP-MG
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A sala estava pulsante, alguma coisa buliçosa agitava os
corpos que buscavam tomar assento. As cadeiras foram insuficientes... Aconteceu!
Estava na hora de colocarmos em debate a política da psicanálise.
Será que a psicanálise está correndo o risco de desaparecer
do serviço público? Interroga Barreto. Nos dizeres de Célio Garcia, no fundo de
seu coração de analista, esperamos que a psicanálise possa contribuir com a
política levando-a a conviver com a diversidade, no interior dela mesma, e sem
ocupar uma posição dominante, como ressalta Sergio Laia.
Essa é a nossa aposta!
Como podem ver a preparação para os trabalhos da XVII
Jornada já começou, o entusiasmo é evidente. E as inscrições estão abertas!
No dia 24 de maio, o nosso colega Sérgio de Castro, Diretor
da EBPMG, abriu os trabalhos preparatórios, convidando-nos a considerar que a
psicanálise situa-se ao lado do direito ao gozo e lembrou-nos que no Fórum que
realizaremos, no interior da Jornada, interrogaremos uma outra política: a da
segregação. São temas que se articulam, se elucidam. Após Sérgio abrir a pista,
pude entrar na conversa e apresentar que há algo de novo na XVII Jornada que
estamos inaugurando, não há como recuar, pois no momento atual não é mais suficiente
cochichar no ouvido dos príncipes.
Célio Garcia, Sérgio Laia e Francisco Barreto enviaram suas
perguntas, via iphone e skype, fazendo presença na ausência. Jesus Santiago,
Henri Kaufmanner, Lucíola Macêdo, Paula Brant e Elisa Alvarenga, ao vivo,
tomaram a palavra e apresentaram suas inquietações. Essa conversa interessa
muita gente, de vários lugares da cidade e de varias gerações.
Para você que não pode estar conosco nesse primeiro
encontro preparatório, o @DDito 5, misturando textos e vídeos, registrou na íntegra
a conversa que iniciamos.
Participe das preparatórias, faça sua inscrição e envie-nos
o seu artigo. Atenção para com os prazos e junte-se a nós!
Afinal, mineiro que é mineiro não perde o trem, uai!
Fernanda Otoni - Coordenadora da XVII Jornada
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Abertura dos Seminários da XVII Jornada
EBP-MG
Sérgio de Castro
Boa noite a todos e bem vindos à abertura dos trabalhos
preparatórios à XVII Jornada da EBP-MG, intitulada “A política da psicanálise
na era do direito ao gozo” e ao 1º Fórum de Orientação Lacaniana da EBP-MG, que
se chamará “Drogas: mais além da segregação”.Ele acontecerá paralelamente e no
interior de nossa Jornada.
Como é possível que vocês já tenham percebido, trata-se de
temas que se articulam e , de certa forma, se elucidam, sem propriamente se
superporem.
Podemos dizer que a psicanálise se situa do lado do
direito ao gozo. Como não se trata de uma prática normativa, ela conduzirá
sempre a algum tipo de “absolução” para dizê-lo como Miller, do gozo, mas dando
a ele um destino sempre além de soluções coletivas. Talvez possamos dizer que o
dispositivo mesmo do passe não deixa de veicular uma política com relação ao
gozo: cerni-lo, em seus fundamentos irredutíveis à fala, no que chamaremos
então de sinthoma. Não estaríamos aqui no exercício – apresentado inclusive- do
direito ao gozo?
Outra política- e da qual trataremos no Fórum- será a da
segregação. Ela comportará sempre a criação de coletivos, articulados em torno
de um modo de gozo que se definirá, por sua vez, por determinado significante
mestre, ou S1. Acho importante observar que tal segregação poderá ser auto
imposta, uma auto segregação, ou seja, os sujeitos submetidos a ela dirão se beneficiar
dela de alguma forma. Grupos como “Mulheres que amam demais”, alguns tipos de
comunidades gay, certos grupos de usuários da internet, grupos de portadores de
síndromes produzidas na contemporaneidade – pelo DSM, por exemplo-, onde seus
componentes se apresentam socialmente como “portador de transtorno de déficit
de atenção e hiperatividade”, tendo sua vida profundamente alienada em torno de
tais significantes etc. Trata-se aqui de casos de auto segregação onde, a fim
de evitar a angústia que abrir mão de tais S1 produziria, permanece-se numa
espécie de garantia de que nenhuma outra questão em sua vida poderia ser
relevante. Mas podemos falar também, como nos interessará no Fórum, de grupos
segregados a partir de um outro social, via de regra em nome da ordem pública,
que poderá cobrir um espectro que iria da polícia a políticas públicas de
coloração higienista, como as que vemos se articularem nos dias atuais,
especialmente no que diz respeito a usuários de drogas.
Tais grupos, via de regra, serão passíveis de algum tipo
de sanção, que poderá ir da prisão a internações compulsórias etc. Em todos os
casos citados o que podemos constatar serão sempre tentativas de criarem-se
soluções identificatórias que visarão soluções coletivas, sempre em detrimento
de um enfrentamento propriamente singular do gozo em questão. Portanto, uma
política da psicanálise necessariamente visará um mais além da segregação, quer
dizer, um mais além das soluções coletivas e identificatórias. Se entendermos a
prática analítica como a prática que visa modificar a posição do sujeito com
relação a seus significantes mestres, interessará pois flexibilizar, fazer
vacilar a rigidez de tais soluções coletivas no que elas estarão sempre a
serviço de exigências superegóicas e mais ou menos aliadas a pulsão de morte. A
partir daqui podemos entender também a ênfase colocada por Eric Laurent, em
recente entrevista concedida a Fernanda Otoni para o Boletim @dditto nº 2, na
distinção entre um Fórum psicanalítico e um fórum militante. Creio poder dizer
que um Fórum psicanalítico, ainda que capaz de propor ações e intervenções,
deverá tentar se situar sempre além de soluções coletivas (que serão portanto
segregacionistas) tanto quanto, como tentarei indicar, além do que poderemos
chamar de paradigma problema-solução.Segundo o filósofo e lingüista Jean Claude
Milner, em debate com Jacques-Alain Miller a partir de questões surgidas,
justamente, num Fórum de Psis em Paris no ano de 2003, tal paradigma “começa
por estabelecer que há um problema; começa-se levantando-o. Porque? Por que
surge uma queixa na sociedade. É inútil tentar saber se essa queixa é ou não
fundamentada; se ela é maciça, ela se estabelece como se fosse um axioma”. E
daí demanda-se, geralmente aos políticos, uma solução. Ora, tais soluções, uma
vez formulado assim o problema, será ela também, via de regra, segregacionista.
No mesmo debate, Jacques-Alain Miller responderá a seu amigo Milner dizendo:
“Há um problema? Quem o diz? Deve-se considerar que é um problema porque o
outro lhe diz? Mas também não se pode dizer sempre que “isso não é um problema”
(à la Magritte). Mas , admitindo-se que é um problema, a solução será a não
solução, o impasse, mas admitido, consentido”.
Sempre achei tal passagem – estamos numa lição do curso de 2003-2004 de
Jacques-Alain Miller publicada no Brasil no opúsculo intitulado Você quer
mesmo ser avaliado?- de um agudo poder de dissolução. Dissolução de
respostas de vocação universal, identificatórias e, enfim, segregacionistas. Um
Fórum psicanalítico, portanto, – diferentemente de um fórum militante, seja ele
de direita ou de esquerda- deverá conceber propostas e ações, que visem colocar
em questão, ao ouvir pessoas das mais diversas procedências e matizes
ideológicos, soluções identificatórias coletivas, quer dizer,
segregacionistas.Abrir novas questões, mais que tentar soluções que visem
fechar as que se produziram até então. De certa forma, ao tentarmos sair do que
indiquei que seria o paradigma problema-solução, deveremos sempre tentar evitar
qualquer espécie de furor em produzir respostas e soluções. Convém lembrar que
o horizonte de toda solução, ao tentar solucionar definitivamente aquele
problema, seja também a solução definitiva, quer dizer, a final. E soluções
finais e definitivas, bem, estas já sabemos bem a que conduzem e o que as
orientam.
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Há algo de novo na XVII Jornada da EBPMG
Fernanda Otoni de Barros-Brisset
A XVII Jornada, isso, não sai da nossa cabeça. Estamos todos adictos à essa
causa. E esperamos chegar em outubro, com um número ainda maior de pessoas
inscritas a esse movimento da política lacaniana, adicionados à Jornada.
Inauguraremos um novo conceito de Jornada.
Não sabemos se será a primeira de uma série ou se toparemos essa
empreitada uma única vez. É uma novidade para todos nós, uma experiência onde
buscamos demonstrar a contribuição da psicanálise à sua época, conjugando sua
força clínica e epistêmica à sua força política.
O funcionamento dessa jornada privilegiará a conversação sobre impasses
atuais que interrogam nossa sociedade. Impasses que tem dividido e embaraçado a
arena política e as conseqüentes deliberações de interesse público. São
questões de sociedade que não tocamos sem provocar a discórdia da linguagem, a
diversidade de discursos. E isso quer dizer que são questões sem respostas,
conforme esclareceu Laurent em sua entrevista "o tratamento das escolhas
forçadas da pulsão", publicado no @Ddito 2.
É com esse espírito que realizaremos nosso 1° Fórum de Orientação Lacaniana
“Drogas: para além da Segregação”, onde a questão da legalização,
descriminalização, tratamentos e políticas públicas estarão em pauta. Essa
conversa nos interessa de perto. Como ensina Miller, a psicanálise lacaniana,
não é de direita, nem de esquerda, não é reacionária, nem revolucionária. Ela é
subversiva, ela visa a subversão do sujeito. Estamos esclarecidos que "é
muito mais quando o sujeito é subvertido que ele é removido de sua matriz
imaginária, que ele sai da gaiola de seu narcisismo, é que ele tem uma chance
de fazer frente a todas as eventualidades"[1].
Essa é a visada da psicanálise de orientação lacaniana, seja na ação da
psicanálise pura ou aplicada, seja, na Escola ou na ação dos analistas na
cidade.
Onde se fizer ouvir a ordem de ferro, ali o analista opera na produção de
uma brecha, por onde o sujeito possa advir, como condiz à experiência
analítica. De intervalos, lacunas, no espaço de um lapso: é com isso que a
psicanálise se vira. "Lacan é contra tudo que for a favor", esclarece
Miller. É contra toda ordem totalitaria e a segregação que o acompanha, os
ideais de homogeneização e do pensamento único, esse rolo compressor sem limite
e sem furo. A causa de cada sujeito é
única, sem par. Tanto mais desejável que os pensamentos sejam vários, as possibilidades
múltiplas, os recursos diversos, para que cada um possa se servir ao seu modo.
Nessa linha, informamos que a nossa convidada internacional, Agnès Aflalo,
não fará conferências. No lugar da palavra de um só abriremos à conversa entre
vários. Nossa Jornada dará lugar a uma entrevista ao vivo com Agnès Aflalo,
sobre temas da atualidade, tal como a polêmica atual sobre o tratamento do
autismo, sobre o DSM-V, a medicalização da população, a regulamentação da
psicanálise, as políticas universalizantes e comportamentais para controle da
população, etc.
Agnès tem se destacado por sua participação vibrante e decidida, de
fundamental importância nos debates públicos, levando a contribuição da
psicanálise nos fóruns da comunidade européia. Será um prazer recebe-la para
participar conosco da conversação sobre questões que impactam a nossa
sociedade.
Como vêem, tem algo de novo nessa Jornada. Uma passagem de Miller,
publicado nos diários das Jornadas de 2009 na ECF, serve bem ao nosso momento
atual: “Nessa jornada haverá risco, não há rotina nisso. (...) No entanto não é
uma tentativa gratuita e caprichosa, as contingências nos levaram até aqui,
trata-se de um ensaio que articula vários elementos inéditos."
O local da Jornada é inédito: "A política da psicanálise na era do
direito ao gozo” vai acontecer no meio da cidade, na praça da Estação, no
Espaço Cultural 104, onde era o antigo chão de fábrica de tecidos. Até agora, o
que temos são espaços abertos, um vão vazio, aguardando a montagem que
inventarmos. O que vamos tecer nesse novo lugar, não sabemos ainda ... será por
certo um tecido acolhedor...um lugar que nos convide a falar com o Outro de
nossa época, como propõe Judite Miller.
Convidamos para ocupar esse espaço de conversação entre nós, todos os que
desejarem estar conosco para interrogar e fazer vacilar o pensamento único e as
respostas higienistas, segregativas para o controle das populações. As últimas
conversações realizadas pela seção clínica do IPSMMG, tem demonstrado que
acolher a diversidade é um modo de fazer surgir o irredutível, o elemento
invariável em torno do qual giram os diversos discursos, e é essa evidência que
faz abrir na ordem de ferro, uma porosidade viva, por onde opera nossa força
política em favor do um por um.
Informo que as inscrições estão abertas!
Estamos oferecendo, aqui também, uma diversidade de modos para realizar
a sua inscrição nessa Jornada. Faça à
sua maneira. 4x, 3x, 2x ou de uma única vez. Ao gosto do freguês. Se você
estiver mais longe e não sabe como se aproximar, onde ficar, o que fazer,
estabelecemos uma parceria com a A&C Viagens para que ela ofereça diversas
opções para você encontrar o seu jeito de chegar e participar.
J-C.Milner pondera, vocês verão adiante, que as leis de mercado se
reduzidas a si mesmo não devem fazer medo, elas podem ser úteis. E por isso mesmo, num ano de política,
não faltarão também aqui os mosquitinhos para panfletagem, que já se encontram
à disposição de vocês. Divulguem junto a seu campo transferencial. Não há
rotina, portanto, façam como desejar, inscrevam-se e envie seu trabalho, com a
sua força única, inserindo-o nesse movimento da política lacaniana. Vários colegas de BH e do interior de Minas,
bem como de outros Estados do Brasil estão se arrumando para vir. Assim
esperamos realizar uma Jornada marcada por uma conversa animada e forte, por
sua heterogeneidade.
Quanto ao tema dessa Jornada, uma primeira apresentação vocês encontrarão
publicada na agenda deste semestre. Não pretendo repeti-la. Os argumentos e
eixos de investigação para envio dos trabalhos para a comissão científica estão
publicados no @DDito 1. Aliás, sigam o @DDito, pois estamos lançando no boletim
o que há de novo, o que está acontecendo no momento atual de sua organização,
com textos, entrevistas, bibliografias diversas e informações de um modo geral.
Adicione-se também ao nosso facebook e twitter. Insira ali seu comentário, sua
sugestão, participe!
Para hoje, trouxe alguns elementos que recolhi das leituras e conversas que
tenho feito com diversos colegas sobre o tema. Apresento-lhes algumas considerações,
enlaces frouxos entre recortes de leituras.
Melhor dizendo, inquietações.
Como a psicanálise pode contribuir e intervir no campo da política? Qual
tem sido a sua influência? Podemos constatar que a psicanálise de orientação
lacaniana, cada vez mais, tem participado dos debates políticos, lançado sua
palavra, tornado público seu testemunho. De Freud a Lacan, o que mudou? A
relação da psicanálise e a política continua a mesma, no século XXI?
Não basta mais cochichar no ouvido dos príncipes!
Psicanálise, ciência e política no século XXI
Sabemos que alguém quando se submete à experiência
analítica, se afasta da vida pública para mergulhar na experiência singular que
acontece na “confidência dos dois parceiros”. Por essa via, diz Miller (2003), o
analisante pretende encontrar aí o alívio de alguns males íntimos, os
elucidando através dessa experiência.
Contudo, Freud já previra que a psicanálise iria além do que acontece
entre quatro paredes, que gradualmente ela produziria, mais adiante, na sociedade,
o que ele não hesitou em chamar de uma, elucidação
psicanalítica, e que resultaria "numa tolerância social inédita,
precisamente, no que diz respeito às pulsões."[2]
Miller (2003), à esse propósito comentara uma
decisão do Tribunal dos EUA que acabou com as leis que puniam as condutas
sexuais desviantes, pois a corte concluiu que o Estado, com a criminalização
das condutas sexuais privadas não acabaria com a sua existência e nem
controlaria o seu destino. Fui verificar como estava essa questão recentemente,
depois de dez anos, e não levei um segundo para descobrir que o casamento gay
está em discussão, inclusive, no epicentro da luta pela presidência dos EUA.
Parece incontestável que o acontecimento Freud
colocou a pergunta sobre o sexual na boca do povo. Ainda que não exista
consenso, fala-se disso. Se a política toca a matéria do gozo, a opinião do
povo se divide. A substância pulsional esparrama-se no tabuleiro, perturbando o
jogo político. Tem os que são contra, os que são a favor.
Barack Obama declarou ser favorável, seu
adversário, contra. O The New
York Times, do dia 11 de maio
de 2012, publicou uma matéria de Peter Baker afirmando que enquanto fartos dados apontam que
heterossexuais não querem casar ou adiam ao máximo o casamento, gays se
mobilizam para gozar desse direito. Enfatizava Baker, que da arena social e política aos tribunais, o
que pareceria impensável nos anos 90 está se tornando cada vez mais comum.
Homossexuais servindo ao Exército, casando e adotando filhos, enquanto a
geração mais jovem não entende o porquê de tanta polêmica. Exemplo de uma
tolerância social inédita frente a pulsão e seus destinos.
A influência política da psicanálise pode ser percebida a longo ou médio
prazo. Miller (2003) dirá que a “Sua influência é como um
contagio, uma dilatação tranqüila, a expansão de um perfume, um espírito
invisível (...) Alguma coisa teve lugar em Freud que é da ordem do
consentimento e não apenas da confissão”[3]. O mundo, hoje, é esclarecido quanto à força das
pulsões. Isso que se satisfaz de qualquer jeito. Essa elucidação, nós as
devemos ao acontecimento Freud.
Foi então, cochichando no
ouvido dos príncipes, na forma de uma dilatação tranqüila, que a psicanálise
contribuiu para mudar o mundo no século XX. Tempo florido simbolicamente, onde as
ideologias faziam marchas cujos slogans não nos deixam esquecer: "Paz e
Amor! Sexo, drogas e rock and roll! É proibido proibir! “A queima dos soutiens”
na praça pública, cuja queima nunca aconteceu, mas deu seu recado - “ideologia eu quero uma
pra viver”! Refrão cantado pelas caras pintadas que
marcaram no rosto as cores de um Brasil, sem Collor, em 1993. Movimentos que
exalavam odores, dentre eles
o perfume da psicanálise.
Souvenirs do século XX.
Contudo, o simbólico não é
mais o que era no século XXI e entramos numa nova era, onde é menos a
felicidade coletiva o que se busca e mais o gozo do eu sozinho. Miller (2003) constata que nós não estamos longe de ver
inscrito como um direito do homem, o direito às pulsões, a seu gozo em si. O
gozo passou a ser uma questão de política, o que era da ordem privada se tornou
publico e “a psicanálise não pode mais manter a mesma
distancia da política como o
fez no século das ideologias. Está em jogo, um vasto movimento, um destino da modernidade”[4].
E Miller aponta o dedo na
direção da ciência, bem como
fez Lacan de 1973. “O
discurso da ciência tem consequências irrespiráveis para o que se chama a
humanidade. A psicanálise é o pulmão artificial com a ajuda do qual tentamos
assegurar o que é preciso de gozo no falar, para que a historia continue."
E Lacan continua: “se não fosse o estado de insuficiência e de confusão onde
estão os analistas, o poder político já teria colocado a mão nele”.[5] Lacan, naquela entrevista, alerta aos analistas que ficar na mão do poder político, retiraria deles qualquer
chance de ser o que eles devem ser.
O que devem ser os analistas?
"Compensatórios", dirá Lacan – os que trabalham para manter o buraco aberto para que não falte o ar. Operadores da
subtração. Em verdade, desde o seu inicio, a força política da psicanálise
recolhe seus efeitos exatamente por destituir a crença na solução universal, nos imperativos da tradição, no pensamento único, diluindo as
identificações em massa, sustentando
a vitalidade de um furo operante, um vazio pulsante. Portanto, lá onde vigora a
fórmula para todos a operação analítica, subverte, para que possa
acontecer por essa brecha a solução de cada um. Operar como “pulmão
artificial”, palavras de Lacan, é abrir lacunas para passagem no falar de um
gozo singular, assegurar esse direito de se manter vivo, frente ao poder
asfixiante e normatizador do discurso da ciência.
Isso quer dizer que a operação
analítica, a psicanálise é contra a ciência? Claro que não! Aliás, a
psicanálise é consequência da emergência da ciência, "ela mesmo seria
impensável antes da idade da ciência".[6]
Na última conversação que fizemos no Instituto de Psicanálise Saude Mental de Minas
Gerais[7], Jesus Santiago levantou uma pertinente questão:
Será que poderíamos falar de discurso da ciência? Ou só podemos falar de
discurso da ciência quando esta está enodada ao discurso capitalista. Essa
brecha que Jesus introduz entre discurso e ciência pareceu-me fundamental para
nossas elaborações quanto a política da psicanálise na era do direito ao gozo, pois
não me parece que podemos enfrentar os impasses trazidos por esse tema sem
tocar na ciência e no discurso capitalista.
A partir desse ponto de
inflexão, lançado por Santiago, lembrei-me da leitura recente que refiz de Jean
Claude Milner (2003), por ocasião dos Fóruns psis. Ele vai dizer que o “cientificismo”
e as leis de mercado quando reduzidos a si mesmo não devem fazer medo; podemos
fazer bom uso deles. “Mas quando a gente combina um com o outro, quando a gente
os confunde, um monstro surge”[8] E se ai juntarmos a
administração, encontraremos o estado atual da nação que se sustenta por esses
três vetores: o cientificismo, a ideologia de gestão guiadas pelas leis de
mercado e a regulação administrativa ilimitada. Segundo Milner, uma única
palavra mestre faz o laço entre eles: a avaliação.
“O avaliador administrativo tem todos os direitos
e reinvindica o direito ao respeito, pois ele faz tudo a luz da ciência. O
cientificismo o garante. O avaliador comerciante/mercadológico tem todos os
direitos , não somente aquele do mais forte, mas também o do mais sábio, ele
faz tudo em nome do bem publico. O grande funcionário o garante. O inventor de
regulamentações, tem todo o direito, sobre os corpos e sobre as almas, sobre as
coisas e sobre os homens; a lógica cientifica e a lógica contábil o garante.”[9]
Essa tríplice aliança, entre a ciência, o mercado
e a administração pública parece então transformar e reunir cada um desses
campos em função de um só discurso, o capitalista, que gira tendo como agente
os diversos índices do "mal viver", na promessa de produzir e
distribuir o bem viver para todos, escala infinita. O discurso capitalista a partir dessa aliança
passou a reger a lógica política, precisamente, fazendo sua injução no campo
das pulsões.
Jorge Aleman, recentemente
numa entrevista ao Jornal Clarin (26/04/2012), também procurou distinguir a
concepção primeira de ciência e o que ela se transformou. Ele dirá que “a
ciência - no sentido moderno de sua acepção – tinha alguma relação com a
verdade. Na experiência da ciência estava o descobrimento, a subjetivação, a
fundação de um novo lugar. Através da ciência sempre aparecia um novo objeto no
mundo.” Contudo, parece ter havido uma mudança sensível aos que bem observam as
reversões da historia. Hoje, a ciência acontece menos no primeiro sentido de
sua acepção; testemunhamos um investimento maciço em uma prática científica de
caráter protocolar, acéfala, aquela que está empenhada em produzir tecnologia.
Mas a ciência não é uma técnica, afirma Aleman.
“A técnica não tem nenhum
objeto. Ao contrario, é a integração de todos esses saberes a serviço de
destruir a impossibilidade, a serviço de produzir um novo tipo de realidade
onde o impossível não tenha lugar. Na ciência havia impossível, havia
limite."[10]
Digamos que a relação entre
ciência e verdade, na acepção
primeira do termo, alcançou o que Lacan
explicita no sem. XX: “na verdade, ha o gozo”. Frente à esse impossível, Miller (2003) afirma que a ciência franqueou os limites
deixados por Descartes, a saber: não tocar
na religião, na moral e na política.
Desde então, a partir dessa aliança, a ciência tornou-se outra coisa: um
serviço de utilidade pública. O que abriu o mundo a uma nova desordem. O mundo
hoje não é mais freudiano, ele é lacaniano.
E a tarefa incessante da falsa ciência, não é mais
lançar um novo objeto, mas fabricar em serie, infinitas réplicas do único
objeto que interessa: o objeto a no Zênite social.
Talvez, seja desde essa
virada, visando eliminar o impossível e alcançar o ilimitado infinito, que
vimos um desenvolvimento cientifico desenfreado visando novas tecnologias –
tecnologias voltadas para fabricação de toys para satisfação do imperativo de
gozo. A lista é sem fim, vai desde medicamentos, instituições de monitoramento
e controle, até ipads nova geração do infinito Google.
O impossível parece ser
possível. A resposta dos governantes e das suas comissões científicas, em
escala mundial, tem alimentado a aceleração do sistema burocrático e
tecnológico de gestão dos corpos – a biopolitica. Essa aceleração, segundo
Célio Garcia (2011), impulsiona um mundo que não pára para
pensar, não tem tempo a perder - o que produz, por efeito, respostas precárias
do ponto de vista simbólico, mas exuberantes atuações e compulsões. A clínica
dos novos sintomas a comprova. Contudo, em resposta, esses sintomas dessa época
tem sido avaliados e contabilizados em manuais cada vez mais excessivos nos
termos das suas classificações, gerando uma produção infinita de pílulas pela
indústria farmacéutica cuja turbina não cessa,
sem parar. Recurso importante com o qual o projeto de uma sociedade de controle
tem sido levado adiante.
A medicalização generalizada é
um exemplo, mas de modo geral, somos bombardeados cotidianamente por programas
de governo que visam a eficácia no controle das populações, cuja promessa é
distribuição da felicidade para todos. Sobre prometer o bem, a experiência
analítica nos ensina que isso leva ao pior.
Miller (2012a) nos lembra, que não encontramos em Lacan nenhuma palavra que nos fizesse
pensar que ele entretinha-se com a idéia de alguma cidade radiante, fosse ela
encontrada no passado ou vislumbrada em algum lugar futuro. Sem nostalgia, mas
também sem esperança. Aos olhos de Lacan, a política joga com a identificação,
ela manipula os significantes mestres, e é por ai, ela procura capturar o
sujeito. A parceria com os mestres está ai. Lacan concebeu o discurso do mestre
como o avesso do discurso da psicanálise, pois a psicanálise vai contra as
identificações do sujeito, ela os desfaz uma a uma, as faz cair como as cascas
de uma cebola.
Com Lacan podemos dizer que a psicanálise é o avesso da política, da
ciência, de tudo que conspira a favor do discurso do mestre e da produção em
massa. O acontecimento Lacan, imprime no espaço público, uma desconfiança para
com os ideais, os sistemas, as crenças e as promessas que a falsa ciência
produz e que se espalha feito pólvora no campo da política. O psicanalista
quando é analista, não é um crente, não segue a procissão. Ele leva o sujeito à sua vacuidade primordial,
a um saber fazer com os furos que a linguagem faz no corpo, como modo de
acessibilidade ao seu direito ao gozo. Pois sabemos que o modo de satisfação,
as soluções sintomáticas se demonstram, um por um, sem igual e não encontram-se
nas prateleiras, nas vitrines ou portal de teses. Sem predição ou prescrição.
Concordo com Miller (2012b)
que a medida que a sociedade de controle é reforçada, impasses inéditos
dão à psicanálise uma nova urgência, tanto ao nivel terapeutico quanto
àquele do pensamento.
"Aquele que pratica
a psicanálise deve, logicamente, querer as condições materiais de sua prática.
A primeira, delas, é a existência de uma sociedade civil stricto sensu,
distinta do Estado. A psicanálise não existe ali onde não é permitido praticar
a ironia. Não existe ali onde não é permitido questionar os ideais sem sofrer
por isso. Em consequência disso, a psicanálise é claramente incompatível com
toda ordem totalitária. Ao contrário, a psicanálise faz causa comum com a
liberdade de expressão e com o pluralismo." (MILLER,2012a)
Se no momento atual não basta
mais cochichar no ouvidos dos príncipes, tomaremos a palavra para fazer vacilar
os semblantes, deslocando o empuxo maciço da oferta higienista, mercadologica,
normativa e homogeneizante que leva ao pior. Não temos a resposta sobre o que é
o bem, qual é a solução, etc. A resposta política da psicanálise são os
testemunhos públicos do passe e os fóruns de orientação lacaniana, contribuindo
junto aos demais atores na construção de soluções mais arejadas e que deixem
espaço para a invenção de um por um.
Então, a partir de agora, que cada um tome a palavra rumo às nossas
Jornadas, faça bom uso de sua liberdade de expressão para que não falte o
elemento surpresa. Desejo que essa Jornada seja surpreendente, como convém à
experiência analítica, e para tanto, conto com cada um de vocês!
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Veja a
conversa que aconteceu na 1ª atividade preparatória, em vídeo:
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Referências Bibliográficas:
MILLER, J-A.(2012a) Jacques Alain
Miller em Página 12. Disponível em http://ebp-sp.blogspot.com.br/2012/05/anguille-en-politique-jacques-alain.html. Ultimo acesso em maio de
2012.
MILLER, J-A (2012b) “Lacan disait
que lês femmes étaient lês meilleures psychanalystes. Et aussi les pires.” In. Lacan Quotidiene, nº 205, maio, 2012.
[7] Jesus Santiago participou como debatedor da Conversação “Adolescência e
Drogas: Um caso que atravessa toda a cidade”,
realizada no dia 12 de maio de 2012, na sede do IPSMMG.
[8] MILNER, J-C. Le grand secret de l’ideologie de l’évaluation. In: Nouvel Âne, nº 2, decembre-2003, p. 9.
[10] ALEMAN, J. Una
de las maneras de sustraerse a la técnica, es la política. Entrevista
disponível em: http://www.revistaenie.clarin.com/rn/ideas/Jorge-Aleman-politicas-en-Lacan_0_689331306.html
Consulta
feita em 22 de maio de 2012.