O gozo é particular e rebelde a toda normativização
Boletim L’incs entrevista Cristina Drummond (AME-AMP)
Boletim L’incs entrevista Cristina Drummond (AME-AMP)
L’Incs: Há algo
de novo na sexualidade dos seres falantes em sua articulação com o Incs?
O que eu
penso que há de novo são as novas formas de sexualidade desarticuladas do
inconsciente. O que eu quero dizer com isso?
Sabemos como
Freud construiu sua ideia de que a diferença sexual, assim como a relação
sexual, não têm inscrição no inconsciente. O que há é um significante que nos
permite falar de sexuação, isto é, um processo de construção, para cada
falasser de sua relação com a sua sexualidade. Ela implica numa escolha real do
modo de gozo entre uma repartição de dois modos distintos de uso do falo no
laço com o outro sexo. Essa construção é uma inscrição no Outro e se dá a
partir da castração, ou seja, de uma inscrição da falta no simbólico.
O que encontramos atualmente são múltiplas escolhas por
uma sexualidade que não cabe nessa partilha, ou ainda, falasseres que se
declaram homossexuais sendo que na verdade são mais assexuados ou vivem sua
sexualidade de modo solitário, sem relação com um outro corpo. Estamos no
tempo, tal como afirma François Ansermet, do gênero fluido. Segundo ele, “não é
fácil situar a diferença de sexos, ela não é nem cromossômica, nem genômica,
nem endócrina, nem morfológica, nem cerebral, assim como também não é
apropriada pelo gênero ou pelas atribuições sociais”[i]. Certamente
isso não deixa de ser uma consequência da mudança do simbólico em nossa
contemporaneidade, assim como da intromissão do discurso da ciência no real.
Cada sujeito busca se situar da sua maneira própria diante
da diferença dos sexos, para além das referências anatômicas ou dos ideais que
acolhiam a partilha homem/mulher nos discursos estabelecidos. Isso implica nas
cada vez mais frequentes intervenções feitas no corpo, a serviço dos sistemas
de gozo. É uma tentativa de operar sobre o real através da ciência.
A teoria queer aponta a disjunção entre
identidade sexual e gênero e o que ela sublinha e que podemos dizer que está
inteiramente de acordo com o último Lacan, é que o gozo é particular e rebelde
a toda normativização.
Assim, diante da
diferença dos sexos que a psicanálise fundou em sua relação com o inconsciente
e o que não se inscreve nele, cada falasser constrói hoje sua solução, o que se apresenta na atualidade de uma
maneira bastante distinta daquela que podemos datar nos anos 80.
L’Incs . Na Revista Curinga 09, de 1997 sobre o tema "Os enigmas do masculino" encontramos seu texto "A virilidade", no qual você pergunta se os homens estariam sendo menos viris. Podemos dizer que antes se falava do viril, hoje de virilidades. Além desta pluralização, há algo de novo nessas virilidades?
Orientados
pelo Édipo, a virilidade é o resultado de um processo que necessariamente passa
pelo pai, cuja função precisa ser encarnada.
Com o
declínio da paternidade vemos essa função se pulverizar e se encarnar de distintas
formas. A consequência é essa, a de virilidades no plural. Lacan nos ensinou
que a sexualidade faz furo no real na adolescência e que esse real deverá ser
tratado por meio de semblantes.
Quando o
falasser não conta com o recurso fálico, ele poderá construir sua virilidade
por meios distintos dos da castração. Isso me parece se evidenciar nas cada vez
mais frequentes saídas toxicômanas dos homens.
Entretanto,
se o falasser conta com o recurso fálico, este mostra ter dificuldades para ser
sustentado.
Essa questão
tem incidências no imaginário masculino contemporâneo, com corpos cada vez mais
sarados, tatuados, indicando uma busca de sustentação pela via da parada
fálica. Além disso, tem também incidências no real. Assim, vemos recrudescer no
mundo a violência contra as mulheres, o que não deixa de evidenciar que o
conjunto dos que se incluem na categoria de fálicos é marcado pelo traço da
segregação. Penso que isso é uma consequência da dificuldade de se sustentar a
insígnia da virilidade marcada pelo fálico sem rechaçar o gozo outro.
L’Incs: E o feminino, de certo modo sempre novo e surpreendente, há aí alguma novidade especifica advinda da subjetividade de nossa época?
L’Incs: E o feminino, de certo modo sempre novo e surpreendente, há aí alguma novidade especifica advinda da subjetividade de nossa época?
O feminino
está articulado ao campo do não todo fálico, o que tem muitas afinidades com
nosso mundo contemporâneo.
Por um lado,
esse saber fazer com o nada parece tornar as mulheres mais aparatadas para
enfrentar a desordem simbólica que enfrentamos na atualidade. Por outro, Lacan
nos indicou que o fálico para a mulher deve passar pela condescendência com a
posição de objeto de desejo para um outro corpo. Esse acesso ao falo me parece
curtocircuitado na atualidade, o que implica numa maior dificuldade de acesso
ao que é propriamente o campo do feminino.
A ciência
possibilita o caminho da maternidade sem parceiro, sem pergunta pelo desejo, e
as posições histéricas se apresentam como afirmações de uma posição fálica que
dispensa se defrontar com a falta de representação significante da mulher. São
dificuldades maiores para se enfrentar o não todo, me parece.
Isso se
mostra nas cada vez intensas rivalidades femininas, nos frequentes distúrbios
alimentares, no aumento das depressões e frustrações amorosas, no império das
imagens e do corpo com a imposição superegoica de gozar cada vez mais.
[i] Ansermet F. , “Identidade
sexual” in: Scilicet O Corpo falante
- sobre o inconsciente no século XXI
,
Escola Brasileira de Psicanálise , RJ, 2016
Escola Brasileira de Psicanálise , RJ, 2016


