Boletim da XX Jornada da EBP-MG "Jovens.com; Corpos & Linguagens"
02 e 03 de Setembro de 2016
Iniciamos esta edição do #qqpega 11 com boas notícias: vai ter festa!!! Nos dias de hoje, os encontros entre os amigos mais íntimos, regados por boas conversas, tira-gostos e bebidas, têm sido nomeados por "Resenha". Para comemorar este acontecimento que é a nossa XX Jornada da EBP-MG, convidamos todos a aderirem a esta festa que estamos preparando com muito cuidado. Então, #VemPraResenha. Nos próximos boletins traremos mais informações e detalhes sobre como aderir à esta Resenha. Fiquem atentos para não ficarem de fora!
Nesta edição, disponibilizamos a entrevista realizada por Sérgio de Campos com o "Tio Maurício", sem dúvida, uma das personalidades mais importantes no cotidiano belorizontino no que diz respeito à infância e juventude, sobretudo no que toca estes jovens e crianças com trajetória de vida nas ruas. Um entrevista que toca no íntimo da realidade brasileira e que nos ensina. (Leiam a entrevista logo abaixo deste editorial)Dando continuidade às entrevistas realizadas durante o X Congresso da AMP, que aconteceu em abril deste ano, na cidade do Rio de Janeiro, Cristina Drummond conversou com as colegas Ondina Machado e Angela Batista e vocês poderão conferir em vídeo e também na transcrição em nosso Blog.
Lembramos que as inscrições ainda podem ser feitas em duas parcelas. E pela grande quantidade de trabalhos endereçados à Jornada, sugerimos que façam logo sua inscrição!
Uma boa leitura!
Miguel Antunes
Coordenador do Boletim #qqpega
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Vida de Rua
Sérgio
de Campos – Bom dia, eu estou aqui com o Maurício Pereira, um grande amigo que
ele tem uma história longa com a educação de jovens. Eu o convidei para gente
ter uma conversa sobre os jovens com os quais ele tem uma experiência desde
1980 como Educador de rua, que passou a trabalhar com a Pastoral do Menor em
1988 e em decorrência desse trabalho ele recebeu vários prêmios e títulos, entre
eles, o de Cidadão Honorário de Belo Horizonte, incluindo a condecoração da
medalha da Inconfidência pelo então, governador, Itamar Franco. Maurício
recebeu dos meninos o apelido carinhoso de “Tio Maurício”.
Bem
Maurício, um bom dia! Essa entrevista é para Escola Brasileira de Psicanálise –
Seção Minas Gerais visando a XX Jornada cujo tema é Jovens.com: corpos e linguagens. Então, para abrir nossa conversa,
eu gostaria que você fizesse uma retrospectiva de seu trabalho dizendo como é
que você vê a juventude de hoje, na qual você lida, e como é que você a via na
década de oitenta, na época em que você começou?
Maurício
Pereira – Bom dia, Escola Brasileira de Psicanálise. Bem, eu posso dizer da
experiência com a juventude com a que eu tenho lidado. Trata-se da juventude que
se encontra na realidade de rua, com os meninos e meninas de rua, não de uma
outra classe social. Quando tenho contato com os meninos de classe média,
classe média-alta, é para dizer um pouco dessa realidade nos colégios particulares,
por exemplo, como tenho falado nesses últimos anos em colégios católicos.
Então, o que tenho como experiência é mais uma militância ou uma prática como
educador da Pastoral do Menor, educador de rua. Meu universo é o universo da
rua, então o que eu posso dizer é a partir da rua. É verdade que os meninos que
eu tenho encontrado desde então na rua são aqueles que vêm das periferias mais pobres,
todos eles marcados por uma desestrutura familiar; junto a isso, existem as
carências, não só a nível do corpo, mas do afeto; além da presença da violência
dentro da família, a violência contra a mãe, a violência contra a própria
criança, vinda de pais que na maioria não são pais biológicos – mas, homens que
chegaram na vida dessas mulheres também marcadas por profundas carências. Então,
a relação com a criança, com este homem que poderia ocupar uma relação pai e
filho, está também comprometida, já que ele chega também desarrumado na sua vida
psíquica, na sua vida social. Muitos já envolvidos com o alcoolismo e outros
desarranjos que vem da sua própria trajetória, muitas vezes de pobreza e de ter
vivido violências.
Então,
esses meninos não veem para rua, não acabam na rua por opção. É sempre uma
realidade perversa que os empurra para a rua. Com efeito, por uma questão de
sobrevivência na rua, este menino necessita de um grupo, de um grupo que o
sustente, sustente no grupo sua própria trajetória e que ele encontre nesse
grupo um reconhecimento e uma aprovação. Então, quando o menino age, é o grupo
que age, e isso para ele se configura como uma força que ele detém. Então esses
meninos que, no tempo, da hoje extinta FEBEM, eram meninos que viviam na rua,
onde a maioria não encontrava condições de voltar para casa, pois não
encontravam um ambiente propício. Por consequência, esse menino incorporou a
rua à sua própria vida. Esse menino se tornou um objeto de uso e de abuso, não
era reconhecido como pessoa, mas como objeto, como prontuário, como número de
um prontuário na FEBEM.
Muitos
se engajaram na luta de fazer esse menino um sujeito que fosse reconhecido, que
tivesse um espaço, um lugar, um território de convivência e que fosse possível
uma reinserção social. Assim, nasceu o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA),
levando em conta que este menino poderia ter um futuro e que ele poderia se desviar
das vicissitudes que ameaçavam esse futuro. É claro que todo um trabalho foi
realizado para que a sociedade se organizasse para que pudesse receber esse
menino.
Sérgio
de Campos – O ECA trouxe impactos significativos na vida dos meninos de rua?
Maurício
Pereira – O ECA é da década de 90. Uma grande questão para esse menino que
caíra na marginalidade, na criminalidade, era pedido que ele se transformasse;
entretanto, a sociedade não se transformava para esse menino. Portanto, nisso
havia uma grande incoerência. Afinal, não se tratava mais de se livrar dos
meninos de rua, mas o ECA trouxe a possibilidade de uma construção de um caminho
junto à família, quando é possível, de retornar à família, para que ele possa seguir
um curso normal de convivência, seja dentro da família, da comunidade,
garantindo-lhe os direitos, que ele tenha escola e trabalho, quando ele estiver
numa idade adequada. O próprio município também foi se organizando com suas
políticas públicas para tentar promover o adolescente para que ele pudesse ser
inserido não só no mundo da educação, mas também no universo do trabalho, de
modo que este menino pudesse construir o seu caminho. Assim, durante todas
essas décadas, o que podemos presenciar que este fenômeno, se podemos chamá-lo
assim, de meninos e meninas de rua, inobstante terem tido inúmeros avanços,
houve retrocessos e descaminhos, tal como a presença do crack que acarretou um
processo de intensa destruição, retirando desse menino o mínimo de possibilidade
de futuro.
Sérgio
de Campos – Então, no que concerne à questão das drogas, o que mudou no panorama
da rua nos últimos trinta anos? Pode-se dizer que a droga estava presente há
trinta anos. Mas, a entrada do crack, há dez anos, mudou o panorama na rua?
Maurício
Pereira – Há trinta anos tinha os meninos de rua. Hoje, temos duas realidades: os
meninos de rua e os meninos na rua. A Pastoral do Menor, mas também o Movimento
Nacional dos meninos e meninas de rua e as igrejas católicas foram se
envolvendo, não apenas com os meninos de rua, mais efetivamente, mas também com
os meninos na rua, que são aqueles que descem para praticar mendicância ou realizar
pequenos trabalhos, mas que voltam para comunidade, haja vista que ainda
possuem um vínculo com a família e que ainda estão nas escolas.
Muito
bem, os meninos assim chamados, meninos de rua, que não voltam mais para casa,
eles começam a criar um vínculo com a rua, na medida em que a rua começa a ser
incorporada à vida deles. É necessário ressaltar que um dos aspectos, embora de
maneira paradoxal, que dá força a este menino sobreviver na rua é a droga. A
droga o ajuda, vamos dizer, entre aspas, "numa luta de resistência". Trata-se de
uma resistência à fome, à solidão, ao desafeto, ao desamparo, à violência, não
apenas a violência entre eles, mas a violência contra eles e também a violência
advinda deles. Então, a droga vem dar a eles, entre aspas, essa força necessária
até para não - como se usa uma expressão de rua - para não "olhar de cara” a rua.
Portanto, a droga faz o papel de um véu sobre a rua. Quando a gente diz “ele
está de cara” - que é uma expressão bem da rua - é quando o menino não está sob
efeito de droga. Então, a abstinência, de certa forma, retira dele a coragem de
roubar e de transgredir.
O
menino na rua pede, mas o menino de rua não costuma pedir. Isso para ele
ocasiona certa humilhação. Ele tem esse recurso de tomar, de roubar. O menino
na rua não, o menino na rua é aquele menino que está numa prática de
mendicância ou em alguns pequenos trabalhos como ser lavador de carro, vendedor
de amendoim ou engraxate, por exemplo. Hoje, vemos menos meninos engraxando
sapatos e vendendo amendoim ou as meninas vendendo flores nos lugares mais
centrais da cidade. Bem, muitos desses meninos estão mergulhados na vida da rua
e tem a vida de rua mergulhada neles. Há 15, 20 anos, as drogas
preferidas deles eram a cola de sapateiro, o tíner, que ainda se usa muito na
rua, e a maconha bem menos. O uso de cocaína já esteve mais presente e
desapareceu em virtude do preço. A cocaína injetável trouxe um problema muito
sério que foi a transmissão do HIV e por consequência a AIDS. Para utilizar a
droga injetável, compartilhavam a mesma seringa de um para o outro, às vezes
entre 8, 9, 10 meninos. Assim, a AIDS foi muito marcante há vinte anos. A droga
de hoje que se usa e que ocasiona a dependência quase que imediata é o crack.
Aparentemente, parece ser uma droga barata, mas pelo uso e o abuso frequente, em
razão da da fissura, da abstinência, este menino é forçado pela dependência a
ser um menino mais violento, já que ele necessita da droga, de maneira que ele
rouba e pode se tornar violento em razão do desespero. Ele se utiliza para
roubar de instrumentos que podem trazer risco de morte às vítimas, não se esquecendo
que ele é uma vítima.
Na
verdade, a droga ganhou força nos últimos anos, não é só na rua, nas
periferias, e nos aglomerados, de maneira que se acentuou assustadoramente o
tráfico de drogas. As comunidades vivem o drama das guerras de gangues, das
disputas pelas “bocas de drogas” como se costuma dizer. E lá quem estão? Estão
os meninos, como peões num jogo de xadrez. Os meninos, que há poucos dias
empinavam pipa, brincavam de bolinha de gude, mas que já nos seus 12, 13, 14
anos são convidados a entrar no tráfico. E o ganho enorme e imediato. Conheço
meninos que entraram no tráfico, porque faltou o gás em casa e ele, vendo os
outros meninos, colegas, vizinhos que já estão no tráfico resolvendo as
questões de carência, eles aderem rapidamente. Ademais, há o apelo do consumo, o
fato de ostentar um tênis de marca, uma blusa de grife, dele ter um bom
aparelho de celular é um apelo irresistível. Todos esses fascínios do consumo
também chegam a estes meninos, de ter uma boa tela de TV em casa, todos esses
atrativos começam a provocar nesse menino a busca de facilidades que estão aí
diante dos olhos dele, ofertadas pelo capitalismo. Se hoje não vemos tantos
meninos na rua é porque esses meninos estão no tráfico. Só que você não os vê,
você só vai vê-los se você for lá, se você subir aos aglomerados, aí sim, você
vai se assustar. Nós podíamos dizer que em décadas anteriores esses meninos
formando grandes grupos na rua assustando a população. Hoje, não percebemos
esse fenômeno. Esses meninos, hoje, estão armados nas periferias.
Sérgio
de Campos – Você está dizendo então, que a droga reconfigurou a sociedade no que
concerne a esses meninos de rua? O bolsa família, de alguma maneira, produziu
algum impacto? Por exemplo na mudança dessa sociedade dos meninos de rua?
Maurício
Pereira – Em contrapartida, é necessário constatar também que houve, por parte
do poder público na última década, uma ação social contundente em relação à
miséria, à questão habitacional que fez com que esse fenômeno, meninos de rua, do
ponto de vista quantitativo, esvaziasse. Eu posso dizer, exatamente, porque eu
frequento as comunidades e estou sempre nas periferias, é claro que isso teve um
peso. Teve um peso, mas não podemos absolutamente desprezar um certo resultado.
O que vemos nestas comunidades são fragilidades que não foram certamente
resolvidas. A desestrutura familiar ganha força. É claro que esta política
habitacional tem um peso, ajudando muitas famílias no seu pobre poder de
compra. É claro que isso influenciou, sem dúvida nenhuma! É claro que as
políticas sociais como a “Minha casa minha vida” e a “Bolsa família”
influenciaram positivamente, com um peso significativo, pois esses meninos foram
crescendo num ambiente onde eles foram se sentindo mais reconhecidos em termos
de ter um espaço, um território com mais dignidade, habitação, escolas e
infraestrutura. É claro que podemos agregar à assistência, à saúde, à educação
das escolas, às creches, às UMEI's. Não
podemos negar isso. Tudo isso, em seu conjunto, tem o seu valor e faz o
contrapeso ao tráfico de drogas atenuando a realidade.
AS
UMEI's, que são creches municipais, têm em seu conjunto o papel de fortalecer as
relações entre as pessoas, não apenas dentro da família, mas na comunidade,
proporcionando uma consciência política, em termos de que "eu posso ter uma vida
melhor", que há uma perspectiva, embora muitas vezes muito fragilizada porque,
como eu pude dizer, a questão do tráfico de drogas tem ganhado forças, e por
trás do tráfico, estão meninos que buscam no tráfico resolver seus problemas,
inclusive os problemas de dentro de casa. É claro que isso não é incentivado
pelos pais, absolutamente. A maioria dos pais se manifestam contra a entrada
dos filhos no tráfico com indignação e preocupação, haja vista que a
estatística de mortes no tráfico é altíssima, pois os nossos adolescentes não
estão chegando aos 20 anos. A presença da morte na vida desses meninos de forma
violenta é constante e tem se apresentado sob a forma de uma estatística
elevada. O que está por trás disso? Trata-se de uma estatística assustadora. Por
quê? Porque o tráfico é extremamente perverso no sentido de que quando um jovem
pega uma droga, e digamos que esse jovem não conseguiu pagar, ou porque a polícia
apreendeu a droga, ou porque essa droga foi roubada por outro, ou porque esse
menino vendeu e não foi pago, então ele acaba pagando com a vida. E quando ele
não paga com a vida, que é uma situação extrema, a família dele é despojada de
seus bens. E isso também traz problemas sérios, a situação dentro da família de
desespero, de necessidade de deixar o lugar e acaba que este menino, que teve
sua vida poupada, porque a família foi despojada de seus bens, esse menino não
pode mais voltar para comunidade. Então, o que fica para este menino? Fica: ou a
rua ou então ele se junta em outras periferias, em outros aglomerados, em
outros grupos. Trata-se de uma realidade bastante dura e triste. O que se
evidencia é uma falta de perspectiva para os nossos adolescentes, para as
nossas crianças, para os nossos jovens, cujo futuro é profundamente ameaçador.
Se
ele é menor e for preso vai enfrentar a superlotação no Centro de Internação
Provisória, os abrigos, os lugares das medidas determinadas, onde ele estará até
por três anos, de modo que ao fim e ao cabo, ele voltará para a comunidade. Quando
ele atinge a maioridade, ele enfrentará a superlotação nos presídios. A
superlotação produz consequências terríveis, como as rebeliões e o contato
direto com as lideranças do tráfico que exercem a influência, não só no ambiente
interno da prisão, mas também fora com seu poder de comando.
Sérgio
de Campos – Maurício, mudando um pouco o rumo da nossa conversa, gostaria de
saber como é que você observa as relações amorosas e sexuais na adolescência
desses meninos e meninas. Como você percebe a partilha sexual, as primeiras
experiências sexuais e seus laços amorosos?
Maurício
Pereira – Bom, o sexo pode surgir muito cedo para um menino ou menina de rua e
é quase como algo da esfera da necessidade, como comer e beber. Muitos lidam
como uma necessidade imediata, sem adiamentos que precisa de ser satisfeita. O sexo
entra nisso como algo inevitável, algo que ele não se preocupa, não se questiona
e começa-se muito cedo. Tem crianças de 9, 10 anos que já tem uma vida sexual,
e lidam como a sexualidade como se fosse fosse uma brincadeira. É claro que
depois a coisa ganha uma dimensão maior, mais exacerbada, aí já existe uma
relação de parceiros…
Sérgio
de Campos - Sim, é, me interessa um pouco que você fale dessas parcerias
amorosas…
Maurício
Pereira – O sexo pode ter uma conotação muito perto da natureza, como
assinalei. No entanto, muda radicalmente quando se estabelecem as parcerias. É
na relação de parcerias que surge uma coisa bastante interessante que é a
fidelidade. Os meninos de rua levam a serio a fidelidade e se respeitam muito.
Na rua, um menino não mexe com a menina do outro. Há um respeito e um temor, a
não ser que essa menina migre para outro grupo.
Sérgio
de Campos – Então, você não vê um fenômeno que acontece entre os jovens nas
classes sociais mais elevadas, essa história do “poliamor”: uma menina que
namora vários, permutando os namorados ou namorando vários ao mesmo tempo. A
fidelidade não está muito na moda entre as classes mais favorecidas. Não se
fala muito nisso...
Maurício
Pereira – (risos)
Sérgio
de Campos – Como é que você vê isso aí?
Maurício
Pereira – Bom, na rua existe isso. A fidelidade é um valor. A não ser que haja
entre o casal um rompimento, aí ambos estão liberados, então outro pode chegar,
se aproximar. E muitas vezes como eu já vi, o outro que chega se dirige ao
antigo parceiro ou parceira para pedir uma espécie de permissão para escutar um
“vai nessa”… “não dá mole” como diz na gíria da rua (risos) “num dá mole”, quer
dizer, isto não é um problema. O que gera a violência é quando há uma
infidelidade. A fidelidade na rua é um valor, a fidelidade de um amigo, de um
amor, porque nisso pode estar em jogo a vida do menino. Mesmo quando o menino
ainda está perdido na droga, porque o crack compromete todas as suas relações,
falar de uma relação estável na rua parece um absurdo, porém ela existe.
Sérgio
de Campos – Realmente, isso é uma novidade (risos).
Maurício
Pereira - Pois é, a fidelidade existe, e ela é pautada pelo respeito. Por quê?
Porque temos que considerar que na rua há uma vida em grupo, os jovens não
estão dispersos. Por exemplo, se um menino consegue comida num restaurante, a
comida é compartilhada, pois ela é de todos. Existe um compromisso de grupo, um
comprometimento com o Outro. O que não é admitido, não é admissível, é a
exploração. Nenhum menino dentro do grupo explora o grupo. O menino tem que ser
corajoso na rua, porque não existe essa coisa de encostar no outro - a não ser
que ele esteja machucado ou esteja doente, aí os próprios meninos do grupo ou
os educadores dão assistência. Os meninos de rua adotam animais de estimação
que são pequenos animais. Existe uma relação de amor na rua, mas ela fica
comprometida pela própria fragilidade da rua.
Sérgio
de Campos - E se tem um grupo, tem líder. Então, eles funcionam com líder ou são
grupos sem líder?
Maurício
Pereira - Mais interessante, é que essa questão do líder já foi mais acentuada.
Hoje, praticamente não se fala em líder de grupo.
Sérgio
de Campos - É uma relação fraterna… São grupos fraternos?
Maurício
Pereira – Houve um declínio do líder de grupo. Há vinte anos você ainda
encontrava líder de grupo. Antes, chegaram a existir grupos exclusivos de meninas
de rua onde haviam uma líder. Hoje, o que há de novidade é que o líder é o
próprio grupo, é o próprio grupo que lidera. Quando acontece de ter líder, a
liderança está partilhada numa espécie de núcleo duro.
Sérgio
de Campos - E os grupos são mistos?
Maurício
Pereira – São mistos. Nestes grupos mistos, existem as meninas que não tem parceiros
e dependendo de como elas transitam no grupo, elas são bastante respeitadas. Você
não escuta falar em um grupo estável que há abuso ou violência sexual sobre uma
determinada menina. Isso não é algo que é permitido no grupo. O que o grupo não
aceita é infidelidade. Se um roubo é feito junto, a consequência deve ser assumida
conjuntamente. Assim, o próprio grupo é que assume.
Sérgio
de Campos - Então a fidelidade é um valor que abrange todos os aspectos? O
sexual, o amoroso, a amizade, o pacto, o econômico… enfim, todo partilhado.
Maurício
Pereira – Compartilha-se tudo! Porque o grupo está implicado.
Sérgio
de Campos - E há punições em casos de traições?
Maurício
Pereira - Ah bom… há punições, porém, hoje vemos muito menos, porque praticamente
essa relação de respeito e fidelidade é o que sustenta um grupo e garante a sua
sobrevivência. O grupo pode se desfazer diante de um real. Existem momentos de
impacto que fragiliza o grupo, e pode ocasionar sua dispersão. Por exemplo, quando
um menino recebe uma droga de uma boca de droga vizinha e que não paga. Esse
fato, razão do medo da morte, pode alterar o corpo desse grupo e ele se
dispersar. Outro fato é a presença da polícia. Existem situações delicadas com
a presença da polícia. Mas, esse grupo pode se reencontrar num outro lugar, particularmente,
se não houve traições e infidelidade. Então, o grupo se reconhece e acolhe os
que estão dispersos reunificando-se. A traição em relação à polícia é
imperdoável e o traidor recebe a alcunha de “dedo-duro” ou de “X-9”. Portanto,
a fidelidade garante a sobrevivência, ela é um valor porque ela oferece
garantia, então "eu te respeito porque nós precisamos, nos necessitamos". Isto
não é algo refletido, algo discutido, isso se vive como uma espécie de pulsão
gregária, da horda, se posso me expressar assim. Se hoje não vemos grandes
grupos de trinta quarenta meninos de rua, eles continuam existindo em pequenos
grupos.
Há
algo digno de nota. É o fato de que não interessa formar grandes grupos, pela
razão de não ser estratégico, pois isso colocaria o grupo em ameaça. Com
frequência, os grupos maiores sempre sofrem denúncia. A sociedade pressiona e
a polícia chega. Então, os pequenos grupos têm sua sobrevivência mais garantida.
Existe uma inteligência que vem dos comandos em relação a ação da polícia, que
sempre é de desmantelar as bocas de drogas. Existe uma inteligência subliminar
que não aparece, como aparece o menino de rua. Essa inteligência está dentro da comunidade,
porém oculta, escondida. É como um jogo de xadrez, os peões aparecem, mas a rainha
e o rei, de onde provém o comando, estão protegidos pelos peões e raramente
aparecem.
Sérgio
de Campos - E quem são esses reis e rainhas?
Maurício
Pereira - São os jovens que cresceram e se tornaram adultos dentro da
criminalidade e que têm uma trajetória em instituições prisionais, porque é dentro das prisões que se especializam. Dentro das prisões, eles se especializam,
se articulam, têm tempo para pensar, arquitetar a partir de dentro para fora. Hoje,
os presídios se tornaram grandes escolas do crime, onde o jovem encontra com
os mestres e por consequência, se empoderam. É um grande desafio extrair estes
jovens do tráfico, visto que se tornaram fortalecidos ao longo da trajetória da
criminalidade.
Sérgio
de campos – Por mais de uma vez, conversamos sobre a psicanálise e você me
disse que já teve a experiência de se analisar. Então, pergunto-lhe em que a
psicanálise pode ajudar nesse seu trabalho, em que ela lhe ajuda na escuta com
esses meninos? Como é o seu trabalho de escuta com esses meninos?
Maurício
Pereira – Bem, eu percebo que a psicanálise pode ajudar muito com a escuta
desses meninos. Posso dizer de uma escuta que implica o Outro, uma genuína
escuta, o que quer dizer que alguém que escuta o Outro é alguém que conhece a
realidade de onde ele provém, que tem a sensibilidade, que tem uma abertura,
que conhece seus códigos, que existe uma relação de respeito, que pode
instituir uma subjetividade para que esses meninos possam construir narrativas
e, por consequência, uma história de vida de alguém que busca ocupar o lugar de
sujeito. Nisso, psicanálise pode trazer uma grande contribuição. Assim, quando
a escuta se articula com a compaixão, o amor e o respeito pode ser de grande
ajuda para esses meninos.
Sérgio
de Campos - Muito obrigado, Maurício.
Entrevista estabelecida por Thaís Brito