Iniciando este boletim Quereres XX, lembramos a todos que ainda restam algumas vagas e que as inscrições devem ser feita o quanto antes!
Para esta edição, Jorge Pimenta nos enviou seu texto produzido a partir da entrevista/testemunho de Clélia Lara Barcellos, mãe
de Maria Auxiliadora Lara Barcellos, a Dora, presa, torturada e exilada pela
Ditadura Civil-militar brasileira. A entrevista consta de um vídeo produzido
pelo Programa Memória e Poder da
Assembléia Legislativa de Minas Gerais em 10 de abril de 2007. O texto acima
fez parte da atividade “Peças Soltas” da Biblioteca da Seção Minas Gerais da
EBP, em 26 de setembro de 2015. Coordenação: Laura Rubião; Responsável: Lúcia
Grossi, a quem o autor agradece pelo convite.
Tanto o vídeo quanto o comentário de Jorge tocam na dor de uma mãe que perdeu sua filha nos anos de chumbo que o Brasil viveu. Vale a pena ler o texto e assistir as duas partes do vídeo, cedidas pela TV Assembleia de Minas Gerais.
No último domingo, na coluna "Em dia com a Psicanálise" do Jornal Estado de Minas, foi publicada uma reportagem" sobre a XIX Jornada da EBP-MG. Para conferir, basta clicar aqui
Ainda nesta edição de Quereres, logo após o texto de Jorge Pimenta, vocês poderão conferir a segunda nota da Comissão de Livraria divulgando as duas últimas Revistas Curinga, 39 e 40.
Boa leitura!
Miguel Antunes
Coordenador do Boletim Quereres
No último domingo, na coluna "Em dia com a Psicanálise" do Jornal Estado de Minas, foi publicada uma reportagem" sobre a XIX Jornada da EBP-MG. Para conferir, basta clicar aqui
Ainda nesta edição de Quereres, logo após o texto de Jorge Pimenta, vocês poderão conferir a segunda nota da Comissão de Livraria divulgando as duas últimas Revistas Curinga, 39 e 40.
Boa leitura!
Miguel Antunes
Coordenador do Boletim Quereres
Quem é essa mãe? ou Quando ser mãe é subversivo![*]
Jorge A. Pimenta Filho
jpimentaf@gmail.com – EBP/AMP
Introdução
Uma
mãe, Clélia Lara Barcellos, que não abriu mão da função de amparar sua filha. A
filha Maria Auxiliadora Lara Barcellos – a Dora, militante política em Minas
Gerais, guerrilheira do grupo VAR-Palmares, ex-estudante de Medicina da UFMG,
plantonista no Hospital Galba Veloso, que foi presa, torturada e banida do
território nacional quando tinha a idade de 23 anos. E que, depois de passar
por quatro paises, chegou finalmente à antiga Alemanha Federal, onde concluiu
seu curso de Medicina e onde fatalmente pôs fim à própria vida no dia 1 de
junho de 1976, atirando-se
na linha do metrô de Berlim, depois de um longo processo de sofrimento psíquico.
Naquele momento, Dora tinha 31 anos e, se viva estivesse, hoje teria 70 anos de
idade!
“Incluida
como subversiva”
Vejo
esse “caso”, se assim podemos tomá-lo, inscrito no Eixo III: Função materna e mãe simbólica – da XIX Jornada da Escola
Brasileira de Psicanálise, Seção MG, que distingue:
“Então, em virtude do
tempo escasso no convívio entre mães e filhos, é justo indagar como estamos no
que concerne à mãe simbólica e a questão do dom? No jogo simbólico, entre
presença e ausência, quando o objeto está ausente, surge o apelo da criança; no
entanto, diante da presença do objeto, o dom nasce, essencialmente, por detrás
da relação objetal e se expressa sob o signo de amor”.
Sirvo-me, aqui, primeiramente, do que nos disse Jésus
Santiago em um dos Seminários Preparatórios da XIX Jornada, quando nos trouxe a
observação de que “mãe é aquela que encarna o amor, por excelência, o cuidado,
o afeto à sua prole: uma oferta que gera no Outro a demanda”.
“Foi
um misto de tristeza e alegria, pois assim sabíamos onde ela estava presa, mas
viva”. Foi o que disse Clélia quando pode localizar e falar com
sua filha, presa e torturada em 21 de novembro de 1969 nas dependências do
Exército Brasileiro na cidade do Rio de Janeiro. Em 23 de janeiro de 1971, depois de mais de
um ano presa, Dora sai exilada do Brasil, banida do território nacional,
compondo um grupo de 70 militantes, liberados em troca do embaixador suíço
Giovani Enrico Bucher, sequestrado em 7 de dezembro de 1970, pela VPR –
Vanguarda Popular Revolucionária.
O que escutamos desse relato/entrevista nos leva a indagar o
que é de fato a função materna de uma mãe simbólica. Clélia Lara Barcelos é a
mãe que ousou retomar o significante subversiva
que nomeava a experiência simbólica e política de sua filha para também se
nomear e ameaçar gritar “sou subversiva” em nome do amor àquela
que foi massacrada pelo terrorismo do Estado ditatorial.
Nos
relata Clélia:
“Quando ia para o Rio ficava na casa de
parentes de meu marido e um dia vendo que eles falavam mal dela, ameacei sair
para o lado de fora da casa: ‘se vocês continuam a dizer isso, saio e grito: eu
sou subversiva!’. [Risos] Era o jeito que tinha para ajudar minha filha a aguentar o rojão, senão
ela não ia aguentar. Minha família, meus irmãos, meus parentes não queriam que
eu falasse dela, de sua luta e de seus companheiros. Esse povo todo era contra
a gente. Vocês lembram disso, não é? Foi a Igreja que fez com que muitos saíssem
para a rua com terços nas mãos apoiando o Golpe de 1964”.
Parece-nos que diante do desamparo
do sujeito, essa mãe – com o seu
próprio desamparo – cuida e oferta à filha aquilo que o conservadorismo do
pai e suas vacilações, mas também o horror e o medo dos familiares não
permitiam. Muito antes da filha ser presa, no momento em que se acirravam suas
condições de segurança, antes mesmo dela sair de Belo Horizonte, Clélia dissera
à filha:
“Se
você for presa eu me suicido”.
Quando
a filha já estava no Chile, a mãe teve de fazer um enorme esforço para arrumar
dinheiro para visitá-la: Diz Clélia: “O dinheiro que tinha de minhas costuras e
dos doces que fazia e vendia não era suficiente para comprar a passagem, e tive
que dar pensionato.”.
Como
nos indica Christian Dunker[1], podemos nos valer da
categoria clínica do desamparo – Hilflosigkeit – termo freudiano
muito caro à nossa clínica psicanalítica.
“Trata-se
nada menos do que redefinir a política a partir dessa afetação de nossos corpos
e de superar a parceria covarde e mórbida (...) entre medo e esperança”...
(...) “pois viver sem esperança (...) é construir corpos políticos que
ultrapassem a demanda de amparo. Sujeitos que não tenham medo de perder o que
já estava perdido desde sempre. O que há para perder são nossos predicados,
nossos adjetivos identitários, nosso amor-em-si, que nos determinam como “alguém”. É
resistir a consagrar sua existência e ser determinado apenas como um indivíduo
proprietário de conquistas, traços e adereços de identidade.”
Na história de Dora, relatada por sua mãe, Clélia, vemos que
diante do pai que chora e não consegue falar um “a” quando pode rever a filha,
antes de sua partida ao exílio como banida e apátrida, surge a figura da mãe
como suporte e fortaleza. “O pai dela chorou o tempo todo e não falou
um ‘a’ com ela”. E ela dizia: ‘pai não chora por que agora vou ser livre,
porque lá no Chile vou terminar meu curso de Medicina, vou passear e quero que
um dia vocês me encontrem lá’”.
Clélia,
mesmo não podendo “ver” a filha morta, pois o que retornou ao Brasil foram suas
cinzas numa urna, pode, entretanto, dar uma sepultura à filha, pois enterrar
seus mortos e venerá-los conforme os mais dignos sentimentos simbólicos dos
seres humanos é fundamental para todo falasser:
Na chegada no aeroporto,
eu não pude ver ela, pois já haviam se passado 18 dias de sua morte. Na
condução da urna para o cemitério, seguiram diversas viaturas policiais e no
velório eles (os policiais) ficavam vigiando... maior antipatia desse povo! E aí no outro dia eu
falei algumas palavras no momento do sepultamento dela:
“Você minha filha teve uma
vida curta, mas viveu intensamente. Viveu mais do que muitos que vivem 100 anos.
Nesse momento me lembrei do que ela me disse: ‘Com certeza se eu não falasse alguma coisa agora eu seria uma
covarde’. Pois ela falava e eu disse:
você não é a palmatória do mundo e ela me respondeu: ‘Pode demorar 500
anos, mas a história do país só muda assim devagar com o sofrimento de quem tem
força para sofrer’. Minha filha aqui você
vai ficar eternamente, pois aqui é o seu lugar e agora ninguém mais põe a mão
em você.”
Como
nos indica Arantes[2],
a inscrição produzida pela tortura não se apaga. “As consequências do excesso e
da crueldade produzidas pela tortura não se extinguem e nada do que uma vez se formou pode perecer”. E ainda que
“estas
inscrições não são mensuráveis, não há recurso técnico
para medir a dor do desamparo, a lembrança da humilhação, a desconstrução da
própria imagem perpetrada a cada momento e a todo momento dentro das salas de
tortura. Não se extinguem essas lembranças. Muitas vezes retornam, incidem
sobre o corpo, materializam-se como adoecimento precoce e intermitente.
Escorrem pelas lágrimas, em palavras liquefeitas. E pior, abraçam a morte como
último refúgio do apagamento da dor.”
O que
sucedeu a Dora, nos faz lembrar também do que aconteceu com outro militante das
causas do povo, Frei Tito de Alencar Lima. Ele, também, não resistindo às
intermináveis dores físicas e, principalmente, psíquicas pôs fim à vida enforcando-se
em 7 de agosto de 1974 em uma árvore do bosque ao redor do convento de Eveux na
França.
Fora
Tito mesmo que ouvira de um de seus torturadores: “agora você vai conhecer a sucursal do inferno” e durante a sua
permanência no DOI-CODI (OBAN), a certa altura um torturador mandou que o frei
abrisse a boca para receber a hóstia
sagrada, e nela introduziu um fio elétrico, para o horror e o sofrimento do
frade.
Tal
como Tito, parece que a presença da tortura e suas devastações sobre o corpo e a
alma acompanhou Dora por todo o tempo, desde sua saída do Brasil onde foi
torturada no Quartel da PE no Rio de Janeiro, passando pelo Chile, México,
Bélgica, França e finalmente Alemanha...
Quanto
à Clélia, essa mãe que cuidou de sustentar os cuidados assinalados por um
interesse particularizado, a partir de suas faltas, de amor a essa filha, nos
faz recordar uma outra mãe que, em circunstâncias parecidas, lutou enormemente
para conseguir localizar o corpo do filho torturado, morto e desaparecido –
Zuzu Angel.
Zuleika Angel Jones, estilista de moda, através de
seu denodado esforço lutou para tentar localizar seu anjo, seu filho Stuart
Angel Jones, ativista do Movimento Revolucionário 8 de Outubro - MR-8, que desapareceu
depois de ter sido preso em 14 de junho de 1971. Zuzu passou a usar sua moda
como forma de protesto fazendo - como ela mesma dizia - "a primeira coleção de moda política da história", usando,
ao lado dos anjos, as figuras de crucifixos, tanques de guerra, pássaros
engaiolados, sol atrás das grades, jipes e quépis. O uso dessas imagens como
metáforas foi a solução que encontrou para simbolizar, em seu trabalho, a
história [da busca] de seu filho.[3]
Zuzu, também uma mãe simbólica que pagou com seu
corpo essa procura impossível, pois em 14 de abril de 1976, na Estrada da
Gávea, à saída do Túnel Dois Irmãos (RJ), morreu, vítima de um acidente
automobilístico, de fato um atentado terrorista que pôs fim a sua vida.
“Uma
semana antes do acidente, Zuzu deixara na casa do cantor e compositor Chico
Buarque, um documento que deveria ser publicado caso algo lhe acontecesse. "Se eu aparecer morta, por acidente
ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho",
dizia. Sua força e coragem inspiraram ao compositor, em parceria com Miltinho
do MPB4, a música "Angélica", cuja letra pergunta, "quem é essa
mulher?".[4]
Angélica [Chico Buarque]
Quem é essa mulher
Que canta
sempre esse estribilho?
Só queria
embalar meu filho
Que mora na
escuridão do mar
Quem é essa
mulher
Que canta
sempre esse lamento?
Só queria
lembrar o tormento
Que fez o
meu filho suspirar
Quem é essa
mulher
Que canta
sempre o mesmo arranjo?
Só queria
agasalhar meu anjo
E deixar seu
corpo descansar
Quem é essa
mulher
Que canta
como dobra um sino?
Queria
cantar por meu menino
Que ele já
não pode mais cantar
Quem é essa
mulher
Que canta
sempre esse estribilho?
Só queria
embalar meu filho
Que mora na
escuridão do mar.
[*]
Texto produzido a partir da entrevista/testemunho de Clélia Lara Barcellos, mãe
de Maria Auxiliadora Lara Barcellos, a Dora, presa, torturada e exilada pela
Ditadura Civi-militar brasileira. A entrevista consta de um vídeo produzido
pelo Programa Memória e Poder da
Assembléia Legislativa de Minas Gerais em 10 de abril de 2007. O texto acima
fez parte da atividade “Peças Soltas” da Biblioteca da Seção Minas Gerais da
EBP, em 26 de setembro de 2015. Coordenação: Laura Rubião; Responsável: Lúcia
Grossi, a quem o autor agradece pelo convite.
[1]
DUNKER, Christian I. Lenz – Matar ou
morrer?, in CULT, 205, ano 18, São Paulo, Editora Bregantini,
setembro 2015:60-63.
[2]
ARANTES, Maria Auxiliadora de Almeida Cunha – Tortura: testemunho de um crime demasiadamente humano, São Paulo :
Casa do Psicólogo, 2013.
[4]
Idem, ibidem.
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Vejam as Publicações da Escola
Brasileira de Psicanálise - MG
A novidade da Curinga 39
“Trauma nos Corpos,
Violência nas Cidades” que renova com trabalhos que prestam uma homenagem ao
nosso estimado e honroso colega Célio Garcia, cujo nome é sempre evocado quando
se trata de trazer para o debate a psicanálise e suas “interfaces”.
E o INEDITISMO da 40 !
Trazendo surpresas com os trabalhos dos nossos colegas em torno do tema da XIX
Jornada da Escola Brasileira de Psicanálise MG “O que quer a mãe, hoje?”. Pergunta que no mundo contemporâneo traz uma proliferação de
respostas que indicam a ausência de recobrimento da feminilidade pela
maternidade. Advêm daí formas diversas de vivenciar a maternidade, com
modalidades matizadas desde as loucuras maternas, que
não se confundem com as mães efetivamente loucas, até as soluções encontradas
no meio-termo entre a mãe e a mulher.

