@DDito 3
Boletim
da XVII Jornada da EBP-MG
Neste número, aqueceremos os motores para o Primeiro Seminário Preparatório da XVII Jornada da EBP-MG, que acontecerá nesta quinta-feira, dia 24 de maio, na sede da EBP-MG, às 20h30, com a presença dos colegas Sérgio de Castro, Diretor da EBP-MG e Fernanda Otoni, Coordenadora dessa Jornada.
Para tanto, confira em nosso Quiz as questões feitas por Jorge Pimenta à nossa convidada internacional, Agnès Aflalo, AME da École de la Cause Freudienne e da Associação Mundial de Psicanálise, autora do livro L´assassinat manqué de la Psychanalyse, cuja edição brasileira será lançada por ocasião da Jornada.
Ainda neste número, em Flash, leiam a entrevista realizada com Agnès Aflalo, publicada no jornal Le Monde, e traduzida por Samyra Assad e Márcia Bandeira, a propósito da polêmica sobre o tratamento do autismo por psicanalistas e por psicoterapeutas na França: Relatório sobre o autismo: excluir os psis para melhor engordar os laboratórios?
Para tanto, confira em nosso Quiz as questões feitas por Jorge Pimenta à nossa convidada internacional, Agnès Aflalo, AME da École de la Cause Freudienne e da Associação Mundial de Psicanálise, autora do livro L´assassinat manqué de la Psychanalyse, cuja edição brasileira será lançada por ocasião da Jornada.
Ainda neste número, em Flash, leiam a entrevista realizada com Agnès Aflalo, publicada no jornal Le Monde, e traduzida por Samyra Assad e Márcia Bandeira, a propósito da polêmica sobre o tratamento do autismo por psicanalistas e por psicoterapeutas na França: Relatório sobre o autismo: excluir os psis para melhor engordar os laboratórios?
Lucíola Macêdo
p/ Equipe Editorial @DDito
Quiz com Agnès Aflalo
Jorge Pimenta: Se o inconsciente é
ético e não
ôntico, como manter essa
proposição se o simbólico
contemporâneo está
em queda livre?
Agnès Aflalo: Só há psicanálise possível se o psicanalista fizer existir o inconsciente. Isso comporta fazer falar o analisante e fazer existir a repetição.
JP: Os que querem uma psicanálise
cientificizada tentam desembaraçar-se do
conceito freudiano de pulsão, entre
outros, em nome do que se designou como sendo o pensamento. Como mantermos o
combate da psicanálise
recusando sua transformação em uma
psicologia?
AA: Para manter o combate, é preciso psicanalistas, cada
vez mais numerosos. Então é necessário fazer uma análise e ir até o seu final lógico.
JP: O modelo biopsicosocial propõe
um sujeito avaliado, a partir de sistemas de consenso, mas a psicanálise
de orientação lacaniana
não recusa a avaliação
com o final de análise e o
passe. Então como
distinguirmos nossa proposta das neurociências?
AA:
Para a ciência médica, o
sintoma é objetivo. Em psicanálise, não é o caso, pois
o psicanalista faz parte do sintoma. Com efeito, o sintoma responde a quem lhe
fala e segundo o modo que temos de nos endereçarmos à ele. Se é um mestre
quem lhe fala, o sintoma torna-se ainda mais opaco e mais intenso. Quando é um
psicanalista, então o sintoma murcha. A psicanálise tem o
rigor da ciência, mas não é uma ciência. O real em jogo não é universal,
ele é singular. As
palavras mestras que fazem um destino para o sujeito são também singulares.
O fim da análise procede como a ciência de uma demonstração. Mas essa
demonstração vale para um único caso. Quando a demonstração é bem
sucedida, há uma nomeação de AE.
Flash: entrevista com Agnès Aflalo
Relatório sobre o autismo: excluir os psis para melhor engordar
os laboratórios?
Publicação: 11/03/2012 (Jornal Le Monde)
A psiquiatra e psicanalista Agnès Aflalo esclarece
algumas implicações e não-ditos do recente relatório sobre o autismo. Le Monde
“Não consensuais” e “não pertinentes”. Eis como o novo
relatório sobre o autismo considera as abordagens psicanalíticas e
psicoterapêuticas. A Alta Autoridade de
Saúde (La Haute Autorité de Santé – HAS) recomenda preferencialmente uma
abordagem “educativa, comportamental e desenvolvimentista”. Concretamente: não
é recomendável que os autistas se relacionem com psicanalistas, ou com pessoas
orientadas pela disciplina freudiana, mas é aconselhável encaminhá-los aos
adeptos das terapias cognitivas e comportamentais (TCCs)... Esclarecimentos
sobre certas implicações e não-ditos deste relatório com a psiquiatra e
psicanalista Agnès Aflalo, médica-chefe do CMP crianças e adolescentes de
Bagnolet e autora do “Assassinato sem sucesso da psicanálise” (Ed. Cécile
Defaut)[1].
MQ: Agnès Aflalo, inicialmente a senhora poderia
precisar, em algumas palavras, as diferenças entre as abordagens psicanalíticas
e comportamentais do autismo?
AA:
O modelo das TCCs é o cão de Pavlov, condicionado através de um adestramento a
responder às ordens. Daí a idéia das TCCs de fazerem o mesmo com humanos... e
em particular com os autistas, como faz o método ABA. E hoje eles querem impor
a todos esse método! Quanto aos psicanalistas, eles não propõem um
adestramento. Eles apostam na dignidade humana. Eles partem do que existe e
inventam com cada paciente a resposta que lhe convém, a ele e somente a ele e
também com os autistas. Atenção, os psis não são contra os medicamentos, mas
somente quando estes forem necessários ou úteis. Portanto, não é para todo o “espectro
autista” tal como é forjado hoje. O sob-medida vai contra a abordagem
pretensamente científica que as TCCs promovem...
A
respeito da abordagem psicanalítica do autismo, eu proponho aos nossos leitores
a esclarecedora Entrevista Coletiva da Escola da Causa Freudiana, publicada no
site “A Regra do Jogo” (La Règle du Jeu).
MQ: Depois do escandaloso documentário Le Mur, recentemente condenado pela
justiça, uma denúncia, (mais uma vez) sobre a psicanálise. Mas por que tanta
fúria?
AA: Simplesmente
porque a psicanálise atrapalha os bons negócios de alguns... ou pelo menos não
os favorece. Há trinta anos, a saúde pública vem se reduzindo cada vez mais a um mercado no qual reina a
lógica do lucro, não é mais um espaço
orientado pela lógica do bem comum. E os grandes artesãos desse desvio não são
outros senão os laboratórios farmacêuticos e seus “amigos” no campo psi: as
TCCs, que “recortam” as doenças com questionários, onde para cada sintoma
corresponde um medicamento...
MQ: A senhora poderia ilustrar esse desvio?
AA: Em 1980, quando
apareceu nos Estados Unidos o DSM-III (a terceira edição do Manual de
diagnóstico dos distúrbios mentais, que serve de referência em escala mundial
para essas questões), o autismo era considerado muito raro: ele dizia respeito
somente a duas ou quatro pessoas em 10.000. Mas, no DSM-V (ainda não publicado,
mas cuja versão preliminar “vazou” em 2010), o campo do autismo se estendeu
consideravelmente, sob o nome de “Espectro do transtorno autístico” (STA) e
abrangeria, a partir de então, mais de
2% das crianças de idade escolar... Passamos então de 0,02 a 2% das crianças!
MQ: A quem esse aumento dos efetivos favorece?
AA: Sabemos que,
em todo caso, para lutar contra o autismo, a HAS preconiza hoje TCCs associadas
a estratégias medicamentosas diversificadas, “úteis para diminuir ou suprimir
comportamentos inadaptados” à base de neurolépticos, de opiáceos, de carbonato
de lítio, de betabloqueadores, de antidepressivos, de “pílulas da obediência”,
de antifungicidas, de tratamentos hormonais, de vitaminas, de cálcio... Enfim,
um mercado lucrativo para os fabricantes de medicamentos. Em 2010, Carol
Bernstein, presidente da APA (Associação Americana dos Psiquiatras), não dizia
que era preciso “fazer com que os pacientes aceitassem os tratamentos
farmacológicos recém lançados”?
Já
disse antes que os psicanalistas não são contra ao uso de medicamentos para
acompanhar o tratamento do autismo, somente acho que, estendendo
consideravelmente o campo do autismo, estende-se oportunamente o mercado... Mas
tem mais. Ao assegurar atualmente a promoção de um “autismo genético”, o DSM
cria um novo mercado: o dos testes genéticos – faturados em alguns milhares de
euros e que, vamos apostar, serão em pouco tempo indicados por esses mesmos
laboratórios...
MQ: O que acontece com a independência da HAS e dos
médicos “especialistas” da França e de outros países que acabam de entregar
esse relatório? Essa virtude não é para eles um princípio fundamental? Aquele
que faz o Juramento de Hipócrates não declara: “Preservarei a independência
necessária ao cumprimento da minha missão”?
AA: Você se
lembra do escândalo do Médiator[2]... Esse caso que revelou os conflitos de interesses
entre os especialistas “independentes” e as empresas do tipo Servier, e que
fizeram com que Alain Bazot da UFC – Que Choisir dissesse que o sistema do
medicamento francês era “um sistema podre”. Já em 2009, o professor Philippe
Even, ex-décano da faculdade de medicina Necker em Paris e professor emérito da
Universidade Paris V (2), tinha declarado que os médicos especialistas
franceses eram alvo dos mesmos “conflitos de interesse” que os especialistas
americanos: “São as medicinas acadêmicas que asseguram a promoção dos
medicamentos (...) e isso acontece da mesma forma nos Estados Unidos. Dos 1200
especialistas que trabalham junto às agências nacionais de medicamento
francesas, mais da metade declaram ter ligações com as indústrias. 20% declaram
não ter nenhuma sem que isso seja verificado. Os outros não se pronunciam
apesar de serem obrigados a fazê-lo. As comissões de especialistas como nos
Estados Unidos, são ao mesmo tempo juiz e réu”... E, mais recentemente ainda,
você se lembra quando o próprio diretor da HAS, o professor Jean-Luc
Harousseau, teve que reconhecer (depois de ter assinado uma primeira declaração
de interesse público, que comprovava sua isenção em relação à indústria
farmacêutica), que ele tinha recebido mais de 200.000 euros a título pessoal,
de diversas firmas farmacêuticas, durante os três anos que antecederam a sua nomeação como diretor da
Alta Autoridade... Sem contar as somas recebidas pelas estruturas de pesquisa
que ele chefiava.
MQ: Esse professor Harousseau, que declara querer a
todo custo “avaliar” a psicanálise, mereceria ser ele mesmo avaliado quanto à
sua independência! Dito isso, quando ele diz hoje que esse relatório sobre o
autismo “marca uma etapa” e que, em matéria de tratamento do autismo, “nada
será como antes”, somos levados a acreditar nele... Assim como podemos
acreditar no deputado Daniel Fasquelle – autor de um projeto de lei em janeiro,
visando “a interrupção das práticas psicanalíticas no acompanhamento de pessoas
autistas” (em proveito exclusivo dos métodos TCCs...) – quando ele diz recusar
baixar as armas contra os psis, ele que seria membro do Clube Hippocrate, um
clube de parlamentares (cujo site estranhamente não está mais acessível)
notadamente sustentado pelo laboratório Glaxo Smithkline, um laboratório que
fabrica – entre outros – antidepressivos...
Tradução: Samyra
Assad e Márcia Bandeira