Da pulsão à transferência e retorno
Seminário preparatório à Jornada da EBP-MG em 11.08.2011
Elisa Alvarenga
Tentarei abordar hoje com vocês, na perspectiva de um Seminário preparatório para as Jornadas da EBP-MG, as modalidades de satisfação da pulsão antes, ou fora da análise, a satisfação na própria análise e a satisfação no final da análise, retomando a clássica questão colocada por Lacan no Seminário 11, de como o sujeito vive a pulsão depois da análise. Parto de uma discussão suscitada por Eric Laurent no Encontro Brasileiro de 2008 no Rio de Janeiro, sobre a felicidade. À página 76 do seu livro publicado recentemente por ocasião do Encontro Americano, Laurent afirma: “a felicidade fora da análise e a felicidade depois dela não estão em continuidade. Interessei-me então pela diferença entre duas passagens de Lacan, a primeira, em Televisão, em que ele diz que o sujeito é sempre feliz e a segunda, nas suas Conferências Norte-americanas, onde diz que, quando o sujeito está feliz de viver, é suficiente. A primeira afirmação, para mim, diz respeito à satisfação pulsional que o sujeito retira do sintoma, da fantasia, do sofrimento etc. Já a segunda parece relacionada com uma satisfação com o resultado da análise, a partir de uma mudança, ou de uma aceitação, de seu modo de gozo. Nesse sentido, interessei-me em abordar duas situações bem distintas, se não opostas: a satisfação pulsional de um jovem infrator entrevistado na Seção Clínica do IPSM-MG, que se encaixa no primeiro eixo da Jornada, ou seja, “a precariedade das elaborações diante do imperativo de satisfação”, e a satisfação obtida por um AE no final de sua análise, onde poderíamos investigar o segundo eixo, ou seja, “ressonâncias da interpretação frente ao silêncio da pulsão de morte”. Entre as duas situações, podemos localizar a relação de cada sujeito, nessas diferentes situações, com um analista, ou seja, a questão da transferência, que foi formulada por Sérgio Laia no folder da Jornada a partir da sentença introduzida por Jacques-Alain Miller em 2004 em Comandatuba: “primeiro o amor, depois o saber”, para falar da transferência nos sintomas atuais, proposta como terceiro eixo da Jornada. O que haveria de comum ou de radicalmente distinto entre a entrevista com um jovem infrator e a transmissão de um AE?
Aproveito a oportunidade de indicar-lhes a leitura, a propósito do tema do próximo Congresso da AMP, que é também o tema da Seção Clínica do nosso Instituto e que inspirou o tema de nossas Jornadas, de uma entrevista realizada pela equipe editorial do Almanaque com Cristina Drummond, que está sendo publicada no site do Instituto. Vocês verão que Cristina é muito clara ao nos explicar o que seriam as transformações da ordem simbólica e suas conseqüências para a nossa prática no século XXI. Ela nos diz por exemplo que a precariedade do simbólico se manifesta na maneira frágil como os sujeitos contemporâneos se inserem no mundo, retratada nos desempregados, nas crianças que recusam a escola, nas crianças agitadas, nos sujeitos errantes, nos refugiados, na violência, nas novas constituições familiares, nas maneiras de intervir sobre os corpos, nas formas de agrupamentos, no culto do imaginário. A insatisfação, muitas vezes chamada depressão, que cresce em nosso mundo, é um índice da busca desenfreada pelo gozo, da intolerância às frustrações, da incapacidade de projetar o futuro e esperar ou construir soluções singulares, já que a presença maciça do discurso da ciência quer propor um modo de vida para todos. Cristina diz ainda que os sintomas neuróticos e os fenômenos psicóticos não se apresentam da mesma maneira que no século XIX e início do século XX, quando a clínica psicanalítica foi construída por Freud.
O caso discutido na Conversação Clínica do Instituto que me interessou comentar com vocês foi o de um jovem entrevistado por Ana Lydia Santiago, comentado por Mariana Vidigal no Núcleo de Psicanálise e Direito e retomado numa Conversação Clínica do Instituto por Rachel Botrel e Cristiana Pittella de Mattos. A difícil abordagem acabou surpreendendo a todos quando ele mesmo pediu para passar novamente por uma entrevista de orientação psicanalítica, pois este jovem, de 18 anos, parecia não se interessar por nada, a não ser pela satisfação do próprio ato infracional. Reticente, ele explica que não pode falar sobre o assunto, sigiloso, ao que a entrevistadora responde com o seu interesse por ele e pelo seu desejo por carros, que ele roubava, motivo da sua internação em um Centro Socioeducativo e porta de entrada na entrevista. Esta se desenvolve no sentido de explicitar o quanto ele guarda as coisas consigo, pois não quer falar da mãe, que acredita tê-lo jogado fora, nem dos episódios em que se depara com a maldade do Outro: professoras que gritam, polícia que maltrata, assassinato do pai, morte do primo drogado, falação de patrão. Diante da sua reticência, a entrevistadora não cede, consegue fazê-lo falar, embora com reservas, e comenta: “você guarda muita coisa com você”. Ele replica: “de ruindade eu guardo mesmo”. E ela: “você acaba virando um cofre de ruindade, tem que soltar um pouquinho”. Essa nomeação me pareceu fundamental para o que se segue: ele afirma que um homem quer matá-lo e a solução, pensa, é matar o outro antes que o mate. Fica evidente a prevalência do imaginário diante da precariedade das elaborações simbólicas, deixando o sujeito à mercê de um real sem lei. Ele não pensa no futuro, não consegue dizer o que quer fazer na vida, e Ana Lydia vai provocando sua fala a partir dos dados que ele traz, revelando a sua perplexidade diante de um desejo esmagado pelos imperativos superegóicos de gozo. Quinze dias depois, no entanto, ele pede para falar com aquelas pessoas novamente. A transferência, se é que podemos chamá-la assim, aparece nas entrevistas mais produtivas com a psicóloga e na segunda entrevista, que ele já não quer encerrar. Ali onde só havia ato, a psicanálise introduz o gosto pela fala, a partir de uma nomeação: “cofre de ruindade”.
Outros casos atendidos em Instituições, médicas ou psiquiátricas, mostram que a enunciação surgida na entrevista com um psicanalista introduz outras possibilidades para o sujeito, com maiores ou menores desdobramentos conforme suas particularidades. À satisfação pulsional pura e simples acrescenta-se a satisfação de falar. Uma modalidade de transferência instituída a partir da pulsão, que vai da pulsão ao amor e, quem sabe, ao saber. Uma chance para o sujeito, a partir da oferta e mesmo da insistência de um psicanalista. Diante da precariedade das ficções simbólicas e da falta de ideais, a psicanálise trabalha para construir sintomas. Ali onde o Outro aparece como mau, gozador, nossa questão é como tratar da violência de maneira distinta dos discursos que medicam, encarceram ou alimentam o sentido. A interpretação, pela via de uma nomeação, nos permite localizar um modo de gozo e nos afastarmos de uma leitura que vitimiza o sujeito ou o mantém no anonimato.
Interessa-me então pensar como a nomeação, pelo analista, possibilita, não apenas a entrada na transferência, mas também a saída. É o que tentarei comentar a partir de alguns fragmentos de passe, e em especial o de Silvia Salman, AE argentina que escutamos em nosso último Congresso em Tiradentes. Silvia demonstra, de maneira especialmente clara, aquilo que Jacques-Alain Miller vem trabalhando em seu curso de 2011, e que nos apresentou no seu texto divulgado recentemente como argumento para as Jornadas da NLS em 2012, “Lire un symptôme”.
Sílvia tem vários textos apresentados e publicados nas Revistas das Escolas da AMP, entre os quais cito: “Un inconsciente analizado: quando el sintoma ya no se encuentra animado por el fantasma”, “Ânimo de amar” e “El significante desanimado”, mas me referirei também a dois textos que tratam do tema que me interessa abordar aqui hoje, a relação entre a pulsão e a transferência, que Silvia me indicou, o texto “O avesso do amor”, publicado por Sérgio Laia no Correio da EBP n. 68, e “Lo que resta de la transferencia al final del analisis”. No seu Seminário realizado em Cali em maio de 2011, sobre “Os signos do gozo na transferência”, Silvia ressalta que o ato do analista não é tanto o que o analista faz, mas o ato que autoriza o analisante a fazer uso do que se desdobra na transferência.
“O avesso do amor” indica uma orientação que é para Silvia, num tratamento levado até o final, a análise da transferência. Essa expressão, utilizada por Lacan no texto “A direção do tratamento”, adquire aqui toda a sua relevância, e mostra, nos seus relatos de passe, o quanto essa análise da transferência com seu segundo analista, realizada na análise com o terceiro analista, lhe dá a chave de sua fantasia e a leitura do seu sintoma.
Trago então alguns elementos da construção feita em análise por esta AE, para quem a morte do seu segundo analista havia coincidido com uma grave doença de sua mãe. A reconstrução feita nesta análise revela que a menina, abandonada pelo desejo da mãe, havia feito uma grave e precoce anorexia, que levou os médicos a indicarem uma mudança de cidade que foi benéfica para a revitalização do desejo paterno. Nos seus passeios e fotos com o pai, recebe dele a nomeação que a salvou da mortificação precoce: “meu desenho animado”. Essa nomeação evidencia, não apenas a importância do olhar paterno para dar vida à menina, mas também o caráter desse corpinho que escapole, tal qual um desenho animado, modo de nomear no gênero masculino. É esse olhar que agarra e dá corpo que Silvia reproduzirá na relação com o parceiro amoroso, com quem estava e não estava ao mesmo tempo, sempre fugidia, assim como na relação com o segundo analista, que não aceitou sua primeira demanda de análise. Tendo se tornado seu supervisor e professor, ele aceitou sua segunda demanda, mantendo-a, porém, durante anos, numa posição face a face. Com o terceiro analista, buscado após a morte do segundo, Silvia irá aos poucos desvendando os traços que determinaram sua escolha de objeto, não apenas o parceiro amoroso, mas também o parceiro analista. O traço “fugidio”, ou arredio, como dizemos em português, nomeado pelo terceiro analista, deu-lhe uma pista para entender o que tornara aquela transferência tão poderosa. Assim deu-se conta do circuito pulsional que enodava o sintoma à fantasia, formulado na frase: “fazer-me agarrar (pelo olhar) para fugir”, sendo ela mesma a arisca na maneira de estabelecer seus laços.
Elucidava-se assim, nesta análise da transferência, o traço sintomático que se deslocava do parceiro ao analista, produzindo satisfação na transferência. Ao contrário, vislumbrava na experiência com o terceiro analista algo diferente: esse analista era alguém que não a deixava ir. Alguns efeitos foram então se produzindo: a saída do grupo do analista anterior e uma nova relação com a Escola, uma nova maneira de estar com o parceiro amoroso. A análise chega então a um ponto em que o analista a interroga: que mais? Como seguir? Por onde sair? Não sabia.
Veio então uma interpretação decisiva: “você ainda não encontrou o significante desanimado”, que orientou a análise até o seu final vários anos depois. Uma série de sonhos provocará a erosão do gozo concentrado no objeto olhar, todos ligados de alguma maneira ao analista e ao desinvestimento de sua relação com ele. Pensava que devia encontrar um significante para terminar.
Uma doença do pai, em que se depara com seu “olhar perdido”, provoca um alívio inesperado, formulado por Silvia como a extração do objeto, e a leva a concluir por “não mais fazer existir o olhar do Outro que a agarra”. Um sonho vem selar sua conclusão: viaja de metrô, o analista, esfumaçado e borrado recebe seu ticket e lhe diz que é o último. O analista confirma sua conclusão, interpretando: “Deixo você ir”. Se ele a deixa ir, ela interpreta, por sua vez, ninguém a mantém agarrada, tampouco o analista. Na próxima fatia de análise, um sonho traz um último significante: “encarnada”. Instala-se o silêncio e o mal-estar de querer fugir. Algumas sessões depois, o analista interpreta: “você já não tem nada para dizer, já pode falar”. Senta-se e começa a falar do ato que implica terminar a análise.
Encarnada, ao avesso do desenho animado, é um significante novo que não faz parte da série e é um índice de uma satisfação correlativa de ter um corpo que se possa agarrar. É também um modo de nomear o desejo do analista disposto a encarnar, para cada analisante, o objeto que lhe convenha. Um sonho durante o passe fala de um corpo de mulher construído com restos de mulher.
Vemos então a pulsão construir o seu trajeto em torno do objeto olhar, inicialmente o olhar do pai que dá vida a seu corpo nomeando-o “desenho animado”. Esse corpo arredio formará suas parcerias com o objeto amoroso ou com o parceiro analista a partir desse traço: “fugidio”. É o encontro com um analista “encarnado”, ou seja, que a agarra em ato, que evidencia a satisfação encontrada no sintoma, “fugidia”, e sustentada pela fantasia, “fazer-se agarrar pelo olhar”. Esse encontro começa a desmontar seu circuito pulsional e revela a satisfação subjacente ao seu modo de amar. O amor de transferência vai aos poucos sendo analisado na relação com o terceiro analista, até que possa desprender-se daquele que supunha que a agarrava. Do analista como objeto olhar passa ao analista como furo, consistência lógica cuja função é capturar o gozo que se evacua do campo do Outro. Esta trajetória implica uma separação da satisfação pulsional que se articulava ao Outro. Silvia indica que há separação do objeto mais-de-gozar, o olhar, mas o analista permanece como causa deste percurso.
O que permite então a saída da transferência? É a interpretação do analista, que agrega um vazio de significação, que produz um efeito de furo. Trata-se do que resta do significante uma vez que o sentido foi abolido. “Você ainda não encontrou o significante desanimado” produz este efeito de falta de sentido, que a analisante levará ainda um tempo para subjetivar. Não se trata da emergência de um significante novo, mas de um novo modo de existência do significante, separado do sentido. Para Silvia, uma vez obtido o efeito de furo, desaparece o lugar de causa encarnado no analista e torna-se possível a separação na transferência. É então que surge o significante “encarnada”, quando a causa do desejo se encarna no analisante que se torna analista. O parceiro já não é o analista, mas a própria psicanálise.
O caso de Silvia Salman coloca muito em evidência a relação com o parceiro analista e a importância da interpretação enquanto nomeação do gozo. Foi o que me levou a me interessar pela “Soirée dos AE” sobre a nomeação, acontecida na Escola da Causa Freudiana, no dia 8 de março de 2011, com a presença de Eric Laurent e publicada na Revista La Cause Freudienne n. 78. Na sua introdução à fala dos AE, Laurent ressalta que, na análise, ficamos inicialmente bem contentes que o dispositivo analítico nos revele que nosso destino está nos nomes e que temos aí todo um saber à nossa disposição. Até o momento em que o analista aponta, de alguma maneira, que tudo aquilo era apenas convenção, pura contingência, azar... “Você ainda não encontrou o significante desanimado” é um exemplo disso. É por isso que devemos tomar distância das letras e da poesia para tomar o caminho dos matemas. Laurent aponta que o analista pode dizer a seu analisante “você é isso”, ao passo que ele mesmo não acredita no ser.
O caso de Anne Lysy, retomado por ela nesta “Soirée”, nos traz mais um exemplo de nomeação feita pelo analista e suas conseqüências: “Vous êtes une coureuse!” Ela que se queixava de viver correndo, esgotada. A interpretação não dava sentido, mas criava uma nova realidade, fazia equívoco: a “coureuse”, a que corre o tempo todo, não era uma corredora de homens, e era justamente o que lhe fazia questão e problema: seu apego indefectível ao homem amado. “Coureuse” introduzia também a sexualidade ali onde ela era pretensamente ausente. Essa interpretação foi seguida de outras, que apontavam para sua energia, seu jeito cheio de vida, remetendo-a à maneira como era na infância. Acontecimento de corpo que aponta a atividade incessante da pulsão e sua forma de satisfação. A “coureuse” pensava que, na análise, era do analista que ela tirava sua energia, cuja fonte estaria então no Outro, como se ela fosse um balão ligado a um soprador. Esta “coureuse” foi um nome entre outros para dizer do que não muda, apesar do que mudou completamente, fazendo desconsistir a palavra do Outro e possibilitando o desapego do homem-tutor. A nomeação indica uma solução, um modo de ser mais do que um impasse. Trata-se de uma nomeação sinthomática, como o é, penso, a nomeação “encarnada” para Silvia Salman. São nomeações que designam um novo modo de viver a pulsão, que inclui o corpo, bem presente. São diferentes de nomeações que interpretam um modo de gozo sintomático sustentado por uma fantasia, como “fugidia”, no caso de Silvia. Já na entrevista de orientação psicanalítica, retomando, o “cofre de ruindade” me parece ser uma nomeação que incide sobre a satisfação pulsional do jovem infrator e abre uma porta para a transferência.
Eric Laurent comenta que o analista vai se servir do ser, e fazer da palavra um uso tapeador. A tapeação do analista, pela boa causa, consiste em fazer como se a palavra pudesse definir os seres, enquanto na verdade se trata de desfazer pela palavra o que se fez pela palavra. Vamo-nos servir da palavra, ser tolos do pai, do sentido, de todos os mecanismos conceituais ordenados pelos significantes-mestres, para melhor prescindir deles no final. Lacan evoca a poesia chinesa que procede pelo sentido e pelo furo. Furo em que? Furo produzido no sentido mas também furo produzido pela palavra no real do gozo. Silvia Salman mostra o efeito de furo na interpretação do analista que apontou para o final de sua análise: “Você ainda não encontrou o significante desanimado”. Não se tratava de encontrar mais um significante, mas de desinvesti-lo.
Laurent diz que se houvesse uma nomeação definitiva, isso poderia ser terrível, pois seria uma designação para sempre. Amarrações e desamarrações são maneiras de qualificar o vai e vem da pulsão. A nomeação sinthomática que o sujeito pode se fabricar no final da análise é suscetível de ser retomada de maneira nova, a partir de novos elementos de lalíngua que a reorientam ou deslocam. A nomeação designa a relação do sujeito com o furo do simbólico e é tanto mais necessária quando nos deparamos com os limites do simbólico, sua precariedade. Por outro lado, a nomeação, para a psicanálise, me parece tanto mais importante quanto, na contemporaneidade, com o declínio do Nome-do-Pai, essa precariedade se manifesta através de nomeações-para, como diz Lacan, a partir de uma ordem de ferro (cf. Les non-dupes errent, lição de 19.03.1974).
Concluindo, refiro-me ao texto de Jacques-Alain Miller citado no início, recentemente divulgado em Veredas, “Ler um sintoma”. Miller faz aí uma distinção entre escutar e ler um sintoma. Ler um sintoma consiste em desmamar o sintoma de sentido, depois de ter escutado seu sentido. É o estatuto da interpretação que muda, passando da escuta do sentido à leitura do sem-sentido. A disciplina da leitura, tal como propõe Miller, visa a materialidade da escrita, a letra enquanto ela produz um acontecimento de gozo que determina a formação dos sintomas. O saber ler visa este acontecimento inicial. Assim, a interpretação como saber ler visa a reduzir o sintoma à sua fórmula inicial, isto é, ao encontro material de um significante e do corpo, isto é, ao choque da linguagem sobre o corpo, como bem exemplifica o “desenho animado”. Parece-me que os exemplos que nos trazem os AE nos mostram, e especialmente o relato de Silvia Salman, que trouxemos com mais detalhe, o que Jacques-Alain Miller chama de ler um sintoma e apontam, para citar o título das nossas Jornadas, “como se analisa hoje”, nesta época em que a eficácia simbólica mudou, seja pelos avanços da ciência, seja pela precariedade das relações, seja pela prevalência dos acontecimentos de corpo, ou finalmente, seja pelo que da psicanálise já se banalizou e se tornou senso comum, perdendo sua eficácia.
Sérgio Laia abre a quarta intervenção, a cargo de Elisa Alvarenga, dos Seminários Preparatórios para a XVI Jornada da EBP-MG em Belo Horizonte.
Elisa Alvarenga apresenta seu texto "Da pulsão à transferência e retorno", no quarto Seminário Preparatório para a XVI Jornada da EBP-MG em Belo Horizonte.

