Enxame #1 - 3. Zumzumzum do mestre



 
Agamben com Nietzsche: o contemporâneo é o inatual

Márcia Rosa



Depois de enfatizar que a contemporaneidade é uma relação singular com o próprio tempo, que adere a ele e, simultaneamente, dele toma distâncias, Agamben interroga: “de quem e de que somos contemporâneos?” Essas perguntas, ele as extrai das Considerações Intempestivas ou Inatuais (1874), nas quais Nietzsche busca acertar contas com seu tempo, tomar posição em relação a ele. Neste livro, o jovem filólogo coloca em questão a glorificação da cultura histórica que lhe era contemporânea na Alemanha do final do século XIX, considerando-se, portanto, inatual. Depois de diagnosticar a “febre histórica”, ele diz “lançar uma ação intempestiva contra esta época, sobre esta época, (...) em beneficio do tempo que há-de-vir”. (Nietzsche, 1874/1976, p. 102-103).

Inspirando-se aí, Agamben localiza a sua exigência de atualidade e a sua contemporaneidade em relação ao presente em uma desconexão: “pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo, aquele que não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual; mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e apreender o seu tempo”. (Agamben, 2005-2006/2015, p. 58).

Impossível não evocarmos aqui os comentários do psicanalista Lacan em seus Escritos, quando situa o engajamento do psicanalista na sua prática. Ao lermos o jovem Lacan com Nietzsche, percebemos que o psicanalista não alcançará em seu horizonte a subjetividade de sua época (Lacan, 1953/1998, p.322) sem que tenha experimentado, em relação a ela, uma desconexão, uma dissociação.

Frente a isso, pode-se perguntar: em que pontos o sujeito em análise adere e em quais outros ele se dissocia, se desconecta de sua época? De que modo ele é inatual? Aqui faço a hipótese de que, essa desconexão é resultante do próprio percurso da análise.

A propósito, lembro Miller (2013) quando se refere à identidade sinthomal do falasser, produzida no trabalho analítico mais além das escórias herdadas do discurso do Outro. Miller observa que não se trata de que alguém se apresente de saída, sem mais nem menos, em seu ser de sinthoma. Isso acontece, mas justamente quando acontece não há distância, e, portanto não se pode fazer nada com isso. (p. 140-141)

Lacan localiza na identificação com o ser de sinthoma a presença de um certo tipo de distância a qual indica que há um percurso do inconsciente ao sinthoma, observa Miller (2013). Assim, é ao introduzir uma desconexão na identificação ao seu ser de sinthoma que o falasser abre a possibilidade de poder se fazer e se refazer ai.

Aí, e somente aí, ele se tornaria contemporâneo?

Referências

AGAMBEN, G. (2005-2006) Qu’est-ce que le contemporain? Barcelona: Novoprint, 2015

LACAN, J. (1953). “Função e Campo da Fala e da Linguagem no inconsciente”. Escritos:JZE, 1998.

MILLER, J.-A. (2007). El ultimissimo Lacan. Los cursos psicoanalíticos de Jacqeus-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 2013.

NIETZSCHE, F. (1874). Considerações Intempestivas. Lisboa: Editorial Presença, 1976.





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