Enxame #1 - 2. Pingos nos is



  


A transferência e o declínio do sujeito suposto saber

Laura Rubião





Agradeço à Diretoria da EBP-MG e em especial à Fernanda Otoni pelo convite para coordenar nossa próxima jornada, ao lado de Simone Souto que estará à frente da comissão de orientação.
É com muita alegria que convidamos todos a participarem da XXII Jornada da EBP-MG – O inconsciente e o mestre contemporâneo: o que pode a transferência? Um tema instigante que inspira o trabalho de articulação entre o que ressoa da subjetividade de nossa época e os impasses atuais da experiência analítica.
Vou fazer uma breve intervenção  em torno dessa pergunta que está em nosso título e que tem um alto valor clínico para, em seguida, apresentar de um modo geral a organização do trabalho que já segue animado entre nós.
Lacan apreende da manobra socrática no Banquete o caráter sutil do engodo presente na dialética do amante e do amado, que localiza o desejo para além da demanda que sempre quer dar consistência ao objeto de amor. Ele enfatiza a figura emblemática de Sócrates, comparável às pequenas caixinhas talhadas com a imagem dos Silenos que dentro, portavam um objeto precioso, fonte de cobiça e atração: Agalma. (Lacan, 1961,p.154) A transferência se apoia então na suposição de saber, a partir do jogo com esse objeto velado, que porta o segredo e a eficácia da causa do desejo. O mestre antigo toma como bússula na educação dos jovens certa paixão pela ignorância – é por saber que nada sabe que Sócrates pode levar adiante o método maiêutico, que consiste em fazer vir à luz o saber latente no discurso de seus interlocutores. De fazer brotar, portanto, um sentido novo a partir da fala. Este seria o primeiro paradigma lacaniano da transferência, baseado na relação do sujeito dividido com o mestre, suposto detentor do saber.
Dez anos depois, no seminário XVII, Lacan redimensiona os efeitos do discurso do mestre e denuncia, ao formular a crítica aos estudantes revolucionários,  a subvenção do saber pelo discurso da Ciência que, tragado pela lógica do Capital, tende a fazer de toda experiência matéria de uma contabilidade totalizadora. O mestre moderno nos diz Lacan, não quer saber nada sobre o desejo, ele quer apenas que isso funcione.( Lacan, 1979/70, p.100.)
 Foucault localiza na passagem entre o século XVII/XVIII, o que se pode reconhecer como uma relação inédita entre discurso, poder e as formas de vida do cotidiano. (Foucault, 1977/2006, p.2013) Em algum momento, o discurso do mestre passa a se interessar pelos pequenos conflitos do cotidiano recolhidos de vidas comuns, indignas de qualquer ato trágico ou glorioso (vidas sem passado ou história).  Pesquisando arquivos de instituições asilares e prisionais, ele localiza os dramas de homens comuns com seus vícios banais, com seus ínfimos deslizes subjetivos no cenário cotidiano dos conflitos de familia. “Esposos injuriados ou espancados, fortuna dilapidada, conflito de interesses, jovens indóceis, vigarices ou bebedeiras”  – (Foucault, 1977/2006, p.214)  o gozo, em sua futilidade, passa a ser objeto de vigilância, registro e punição. Nesse momento já não estaria em jogo a experiência redentora da palavra no confessionário, com a qual o Cristianismo havia elevado o cotidiano à dignidade da culpa, a palavra não se endereça mais a nenhum saber suposto (como também, de alguma maneira, se dava no procedimento socrático). O que parece contar, por si só, é o próprio gozo, que entra diretamente no que Foulcault chama de “a grelha eficaz” do poder administrativo/ burocrático orquestrado pela ciência. (Foucault, 1977/2006, p.219)    O fato de que a banalidade do gozo possa se tornar matéria de interesse da sociedade do controle, para além do espaço privado do confessionário mediado pela palavra, dá lugar aos anseios de um poder absoluto que pode espreitar qualquer um a qualquer momento, dissipando os limites da intimidade dos sujeitos.
A máquina burocrática do registro e da avaliação avança em nossos dias por meio de uma aparelhagem técnica cada vez mais refinada que pretende instaurar, seja uma escuta absoluta (rastreamento digital de dados pessoais), seja um olho onipotente e voraz que visa uma transparência definitiva do laço social, de modo que nada mais pudesse conservar sua opacidade. Se o objeto está no comando e o mais de gozar é o capitalista do sonho contemporâneo, qual o estatuto do inconsciente hoje? Lacan afirma em Televisão que o “inconsciente é o trabalhador ideal do capitalista”  (Lacan, 1973/2003, p.517))- se ele não julga, não pensa e não calcula é porque coloca em jogo um objeto incomensurável, o mesmo que inspira a série infinita de objetos de consumo mas que, na vertente da análise, só pode ser abordado pelo viés contingente da invenção sintomática de cada um.  Tanto o analista quanto o capitalista lidam com um objeto estranho, fonte de um gozo infinito como assinala Miller em Uma Fantasia (Miller, 2005). A diferença crucial estaria no modo de operar com este objeto, uma vez que a lógica do capital, prima por querer fazê-lo encarnar em objetos prontos para o consumo, enquanto na análise o que está no horizonte é o efeito do real capturado pelo mais gozar que ele veicula. (Lacan, 1969/70-1992, p.146)
Gérard Wacjman se pergunta pelo lugar da psicanálise em tempos em que se teria perdido o direito ao escondido e chega a  evocar o resgate de um espaço que devesse permanecer velado. (http://www.dailymotion.com/video/xf0cj7) . Mas seria o caso de reativar os poderes da caixinha de Sócrates que escondia o objeto agalmático como operador velado da causa do desejo na transferência?  Reabilitar a eficácia de uma escuta capaz de renovar os poderes do mestre tradicional pela via da doação de sentido, não seria vetar o uso contingente a que o dispositivo analítico pode se prestar no mundo contemporâneo?  Serge Cottet nos traz um exemplo sugestivo do paciente de Raymond Cahn que, durante anos, frequentou o consultório do analista, sem se mostrar permeável à técnica da interpretação (Cottet 2002/2017, p. ). O analista, que não pôde suportar a persistência desse “autismo a dois”, comunica sua ineficácia ao paciente. Este, após se calar por 3 meses, traz um sonho que foi prontamente interpretado à luz da ‘caixa Kleiniana’. O efeito disso é a deflagração de um delírio de fragmentação corporal e auto referência.  O analista, nesse caso, se esquiva de fazer um uso original do dispositivo, apegando-se à sua função tradicional ancorada na interpretação e no sentido.
O analista multiuso pode ser o lugar de alojamento e recolhimento de um modo de gozar ao qual se pode simplesmente testemunhar, sem recorrer ao domínio do objeto escondido pela via da restauração da suposição do saber.
Esperamos avançar esse ano sob a bússola da pergunta que figura no título de nossa jornada: o que pode a transferência? desprovidos dos efeitos de qualquer sentimento de impotência, para seguirmos em direção ao ponto de impossibilidade situado por Freud e Lacan como intrínseco ao ato analítico que, como avesso do discurso do mestre, aponta em direção ao real.
Sabendo que isso não funciona e que só podemos falhar de uma boa maneira, como adverte Miller, convidamos um time afiadíssimo para poder avançar nesse terreno ao mesmo tempo denso e sensível à nossa prática, no qual decidimos apostar como um campo promissor de investigação. Nossa Jornada terá lugar no Hotel Mercure nos dias 19/20 de Outubro e desde já contamos com precioso de Anamaris Pinto e Graciela Bessa à frente da comissão de livraria, de Andréa Eulálio como coordenadora da comissão de acolhimento, de Cristiana Pittella na comissão de conexões, de Luciana Silviano Brandão à frente da comissão de infraestrutura, de Ludmilla Féres, na comissão de transmissão, de Rachel Botrel na coordenação da Secretaria e de Simone Souto na comissão de orientação . A todas e às suas equipes eu agradeço imensamente o aceite do convite e posso dizer, com segurança, que uma estreita parceria já se anuncia entre nós, ao lado da diretoria , no desejo de levar adiante  esse projeto.
Referências
  1. Cottet, S. (2002) A Clínica da miséria. In: Revista Curinga, n. 44. Belo Horizonte, Out/2017.
  2. Foucault, M. A vida dos homens infames. In: Estratégia, Poder-Saber. Ditos e Escritos IV. .Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006, p.203-222
  3. Lacan, J. (1961) O seminário, livro 8: A transferência. Rio de Janeiro; Jorge Zahar Ed., 1992.
  4. Lacan, J. Televisão. In: Outros escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
  5. Miller, J.A. Uma fantasia; In: Opção Lacaniana, n. 42, 2005.
  6. Wajcman, G. Entrevista a Marie Hèléne Brousse. In. http://www.dailymotion.com/video/xf0cj7





    O inconsciente e o mestre contemporâneo: o que pode a transferência?



    Simone Souto
    Diretora de Orientação da
    XXII Jornada da EBP-MG





    O tema escolhido para a próxima Jornada da EBP–MG situa-se na sequência de uma investigação sobre o inconsciente iniciada na Jornada anterior. Se antes o inconsciente foi abordado pelo prisma da diferença sexual, agora interessa-nos discutir as formas de sua manifestação na época do mestre contemporâneo e, acima de tudo, como a psicanálise tem respondido, sob transferência e, também, fora dela, às incidências desse modo de dominação.

    Sabemos, desde Freud e com Lacan, que “o verdadeiro mestre é o Inconsciente”[1]. É ele quem governa nossa vida psíquica, nossos sintomas, ordenando, para cada um, a realidade em que vivemos e nossa relação com o mundo. Em nossos dias, a queda dos significantes mestres, ou seja, dos significantes que ordenavam a nossa civilização e que funcionavam como parâmetros claros de nossos ideais e de nossas formas de satisfação, tem promovido profundas modificações nos laços sociais e em nosso modo de viver. O mestre não é mais o mesmo, ele se tornou muito menos evidente, muito mais opaco e, nessa mesma medida, ainda mais inatacável. Desvestido dos ideais, dos sentidos e das significações de outrora, como localizá–lo? Onde ele está? Como nomeá-lo? O mestre contemporâneo apresenta-se como um significante (S1), sozinho, apartado do sentido, isto é, sem o elemento que o tornaria passível de ser compreendido, interpretado. Dessa forma, sem os recursos para localizar os modos de gozo da época a partir do sentido, o mestre fica reduzido, em nossos dias, a um agente da vontade de gozo, um imperativo que prolifera no escuro e se multiplica como um enxame, outorgando seu valor de comando às variadas formas de gozar. Como esclarece Miller[2], seja qual for o elemento que ocupe o lugar dominante no discurso do mestre na contemporaneidade – o sujeito do individualismo democrático ($), o objeto a situado no zênite social, ou o S2 sob a aparência da burocracia ­– em última instância, é sempre o “S1 que definitivamente sustenta o discurso do mestre”[3] 

    Esse imperativo de gozo está em consonância com o estilo capitalista conferido pela sociedade de consumo ao discurso do mestre. Na atualidade, o sujeito encontra-se diretamente confrontado com objetos de gozo capazes de compensar uma falta que os valores não cobrem. O discurso do mestre, modificado pelo capitalismo e em seu pacto com a ciência, fabrica os semblantes a serem gozados por todos ou, como diz  Lacan, os “mais gozar forjados”[4] e que geram um gozo uniformizado. Esse gozo, incidindo diretamente sobre o sujeito, transforma-o, por sua vez, também, em objeto a ser contabilizado, cifrado. Nesse funcionamento, o mais gozar, por um lado, é reintegrado, é o que se chama acumulação de capital, mas, por outro lado, ele aparece somente como aquilo que se pode contar e, uma vez que o contamos, ele se dissolve rapidamente: o que se conta são os resíduos do gozo. Assim, o objeto, por antecipação, chama frequentemente outro, “revelando sua vocação sempre iminente de dejeto”[5].  O cúmulo dessa lógica, onde o que é descartado retorna como capital, pode ser observado a partir de um dos principais problemas de nossa época: os refugiados. Essas pessoas, “barradas, triadas e cadastradas, terminam sendo literalmente negociadas, como os 72 mil sírios, ‘imigrantes irregulares’ que a Turquia receberá, com 6 bilhões de euros, prometidos até 2018 e provenientes da União Europeia”[6]. Conforme lembra-nos Miller, referindo-se a  Kojève, “o programa agora é conhecido: é a extinção da falta, a reabsorção das diferenças, o caminho do homogêneo”[7] e, podemos acrescentar, com o consequente recrudescimento da segregação que toda homogeneização comporta.

    Assim como a figura do mestre, as formas de manifestação do inconsciente também se modificaram e as mutações às quais o mestre foi submetido no âmbito do coletivo ressoam também no individual e, consequentemente, na experiência analítica. Nesse contexto, a psicanálise, conhecida desde Freud por ter revelado que os sintomas são portadores de um sentido inconsciente a ser decifrado, tem se deparado, no estado atual da civilização, com sintomas que não querem dizer nada a ninguém e se apresentam como um modo de satisfação do qual não se quer abrir mão. Sintomas que se manifestam no corpo sob a forma de acontecimentos diversos, acontecimentos que podemos qualificar de insensatos não só porque são desprovidos de sentido, mas também porque são comandados por um imperativo que ordena uma satisfação sem limites e que muitas vezes faz prevalecer a pulsão de morte em detrimento da vida. O inconsciente apresenta-se, portanto, nessa vertente, tão inapreensível quanto o mestre contemporâneo.  Se ele não tem um sentido, como tratá-lo, ou mesmo como se opor a ele?  Pois seria “um contrassenso pensar que uma análise conduz alguém a seguir seu inconsciente”, bem ao contrário, “uma análise conduz a uma atualização do inconsciente, precisamente para desativar tudo que obscurece o sujeito em sua vida pessoal e social, as tendências as mais sombrias e as mais deletérias, que descobrimos em nós como mais fortes que nós”[8]. Portanto, o analista certamente se submete ao discurso do inconsciente, mas, como sublinha Miller[9] com relação ao discurso do mestre, ele se submete para subvertê-lo, sendo a transferência a única estratégia da qual ele dispõe para vencer essa batalha.

    Por conseguinte, os casos que atendemos hoje em dia nos colocam diante da questão de como conduzir um tratamento analítico no qual o inconsciente aparece menos em sua vertente de sentido e mais em sua vertente real e libidinal ou, em outros termos, nos colocam diante da questão de como conduzir um tratamento analítico quando a fala analisante se apoia mais na vertente do significante como produção de gozo do que em seu efeito de significação.

    Na XXII Jornada da EBP-MG, pretendemos, então, recolher, em nossa prática, os índices dessa mutação do inconsciente na época do mestre contemporâneo no que concerne à forma de apresentação das neuroses, às configurações da estabilização e da suplência nas psicoses, ao modo de instalação da transferência, aos fenômenos que se apresentam fora do laço transferencial, assim como na concepção que fazemos da interpretação na experiência analítica.  

       


    EIXOS DE TRABALHO


    Eixo I: As neuroses sem Édipo: qual lugar para o analista?

    Hoje em dia, observamos, cada vez mais, a existência de neuroses nas quais se, por um lado, é possível localizar uma inscrição da castração, por outro, constata-se que o gozo do sintoma não se deixa apreender pela significação edípica.  Prevalece nesses casos  a determinação significante sobre o corpo, trata-se do sintoma desatrelado do sentido e que não aparece encoberto pelas significações correlatas de uma primazia dada ao pai em outros tempos: o pai não é mais o detentor de um sentido capaz de resolver o enigma do gozo. Assim, somos levados a considerar uma estrutura neurótica cujo sintoma não seria mais tecido na trama edípica. É interessante notar que o próprio Freud, em sua conferência “O estado neurótico comum”[10], faz menção a uma neurose desse tipo, denominada “neurose atual”. Nela, os sintomas “se manifestam predominantemente no corpo”[11], mas, ao contrário das psiconeuroses de transferência, “não possuem nenhum sentido, nenhum significado psíquico”[12]. Freud a considera como uma espécie de núcleo da neurose, isto é, o substrato, o osso, o cerne de todo sintoma neurótico. Será que essa descrição das “neuroses atuais”, feita por Freud no início do século XX, pode nos ajudar a esclarecer as “neuroses atuais” do século XXI? Nessa mesma vertente, também Lacan, no Seminário 23, faz menção à “histeria rígida” como uma nova forma de apresentação da histeria na qual o sintoma se realiza “de um modo real”[13]. Esse modo real nos remeteria ao sintoma histérico, não mais em sua plasticidade derivada  de sua inserção nas significações, mas como iteração do mesmo, do Um-sozinho que não se liga a nada. Podemos situar, nessa mesma direção, algumas manifestações do gozo na neurose obsessiva: a agressividade e alguns mecanismos de defesa nela  encontrados, tais como o isolamento e o tabu de tocar que, hoje, não fazem apelo à decifração, colocando-se em perfeita consonância com nossa época.
    Por fim, uma chave de leitura imprescindível para situar o que seria uma neurose sem Édipo diz respeito ao novo lugar que Lacan confere ao falo, não como resultado da metáfora paterna, testemunho dos efeitos de significação, mas como um semblante que dá testemunho de um real[14]. O falo nessa nova posição, conforme propõe Laurent, estaria “fora da metáfora paterna”[15], ou seja, separado de toda significação edípica.
    Fora do Édipo e, portanto, das imagos parentais, que lugar dar ao analista? Podemos falar de uma “desedipianização” da transferência?     

    Eixo II: O mito individual na psicose
    Alguns aspectos prevalentes nas psicoses nos dias de hoje como, por exemplo, a não inserção, o desligamento e a identificação ao dejeto, nos revelam a presença de um gozo não localizado, excluído do discurso e com o qual o sujeito se identifica. Trata-se justamente do que faz objeção ao laço social, isto é, de um gozo que se apresenta frequentemente como perturbador, inconveniente e insólito. Em contrapartida, observamos uma prevalência das nomeações ofertadas pelo Outro social, sustentadas em identificações horizontais que não se apoiam em uma identificação vertical referida a um ideal, tornando-se, por isso mesmo, propícias para a promoção da  inserção social a partir do que Lacan designou como “nomear para”[16]. São nomeações ligadas a uma função social, procedentes exclusivamente da identificação significante. Se, por um lado, tais nomeações podem servir à psicose como ancoragem, inserindo, de alguma forma, o sujeito em um laço social, em um grupo, por outro lado, como nos demonstra Miller[17], elas procedem por uma exclusão do gozo. Assim, o Outro social, apoiado no mestre contemporâneo e em suas instituições, tende a excluir o que há de mais próprio e singular em cada um, seu modo de gozo. A identificação reina sem divisão, é o que podemos chamar de adaptação que, não raramente, resulta no retorno do pior, pois o gozo excluído acaba por se alastrar no escuro. Se podemos pensar na identificação como uma orientação possível para o tratamento da psicose, isso não deve se dar às custas de uma exclusão do gozo. Miller, no texto “A salvação pelos dejetos”[18], esclarece de forma muito precisa a diferença entre as identificações produzidas unicamente a partir das nomeações ofertadas pelo Outro social e aquela que pode advir de um tratamento orientado pela psicanálise. Neste último, segundo ele, não se visa unicamente obter uma identificação ao significante mestre, trata-se também, de obter “uma identificação de gozo no lugar do Outro, quer dizer, o equivalente do que a fantasia proporciona tanto ao neurótico como ao perverso”[19]. Desse modo, é preciso “desprender do gozo uma parcela que possa constituir objeto e, inicialmente, objeto de uma narração, de um roteiro – como o roteiro de uma fantasia – de uma storytelling, de uma lenda, daquilo que Lacan chamava de ‘mito individual’ e que pode fazer as vezes de fantasia”[20].Nesse contexto, o que toma o primeiro plano são as experiências passíveis de dar lugar a diferentes modos de gozo e não as certezas obtidas das identificações[21].
    Interessa-nos, portanto, recolher da nossa pratica com as psicoses essas pequenas inserções no discurso, que podem ser construídas sob transferência, esses pequenos enunciados do impossível, passíveis de localizar o gozo de uma forma diferente daquela oferecida pelo mestre contemporâneo e, também, da tentativa de criar um pai através do delírio.

    Eixo III: A pulsão fora da transferência e a causa triunfante
    Neste eixo, pretendemos discutir as manifestações da pulsão que não se encontram ligadas a uma fantasia ou mediadas pelo sintoma e que, portanto, apresentam-se como pura pulsão de morte. São situações que, como demonstra Miller[22], ultrapassam a zona do amor e do ódio inseridos de alguma maneira em um discurso, dando lugar a uma violência que não encontra nenhum substituto capaz de se interpor entre o sujeito e seu ato. Uma violência desligada de toda culpa, de todo tipo de mortificação ou castração e que, ao contrário, é acompanhada de uma sensação de triunfo que torna difícil e, por vezes, até mesmo impossível, qualquer intervenção. Podemos citar, como exemplo, os atos terroristas, assim como muitos atos racistas, os assassinatos imotivados, a violência do tráfico de drogas, etc... Embora de naturezas distintas, cada uma dessas situações apresenta a tirania de um gozo que, por atentar contra a vida humana, é inaceitável. Localizadas, pelo menos a princípio, fora de um campo transferencial, que posição esperar dos analistas com relação a essas formas de manifestação da pulsão?  O que pode eventualmente ser abordado pela psicanálise e o que só nos resta nos posicionarmos contra?

    Eixo IV: O amor que faz falar o sintoma: o parceiro analista
    Atualmente, encontramos cada vez mais, em nossa clínica, casos nos quais é possível identificar claramente o sintoma como uma presença real, um S1 isolado que fixa o gozo no corpo, apresentando uma forma de satisfação, um gozo enigmático,  que pode precipitar o sujeito até a análise.  No entanto, a via para o que poderíamos considerar “a solução do enigma”, ou seja, a via pela qual a experiência analítica se instaura e o inconsciente se realiza através da produção de um sentido torna-se cada vez menos evidente. Como resultado, nos deparamos, por exemplo, com uma dificuldade para localizar as entradas em análise e, consequentemente, uma eternização das entrevistas preliminares. 

    Nesses casos,  talvez seja preciso reconhecer, na  ausência de um sentido inconsciente, a presença de outro estatuto do inconsciente nomeado por Miller a partir de Lacan como  “inconsciente real”[23].Trata-se do inconsciente tomado a partir de “lalíngua” e que nos coloca diante de uma diferença fundamental entre o que pode ser considerado a falta de um sentido e o que podemos constatar como a presença de um sem sentido a ser manejado. São casos onde não se nota uma crença prévia no Outro, mas, ainda assim, constata-se, da parte do analisante, um endereçamento da palavra ao analista e, em contrapartida, é preciso, da parte do analista, uma aposta na palavra do analisante, mesmo que esta não esteja apoiada no sentido. Nesse contexto, as palavras aparecem em sua materialidade, em sua atualidade e não como representações inconscientes recalcadas.

    Para fazer falar o sintoma assim apresentado, isto é, como um gozo autoerótico que a princípio “não quer dizer nada a ninguém”[24], o analista conta apenas com o amor de transferência. A transferência passa, então, por uma inversão, na qual o amor é colocado em primeiro plano: não é o sujeito suposto saber que aparece como o pivô da transferência suscitando o amor, mas é a transferência que se torna o pivô do sujeito suposto saber: “para dizê-lo de outro modo, o que faz existir o inconsciente como saber é o amor”[25]. Colocando-se como um parceiro ao qual a fala pode ser dirigida, o analista suscita uma fala que, se, por um lado, implica um esforço para permanecer a mais próxima possível daquilo que se experimenta como gozo, por outro lado, convoca sempre e a cada vez à invenção de uma palavra agalmática capaz de atravessar o real do sintoma possibilitando, dessa maneira, “o transporte do inconsciente para fora da esfera solipsista”[26].
    Trata-se, portanto, do amor que faz existir o inconsciente como falasser, permitindo a passagem do gozo do Um para o gozo da fala, o que não necessariamente resulta em uma produção de sentido.  Essa forma de conceber o inconsciente a partir do amor recoloca a importância da psicanálise no mundo do mestre contemporâneo porque, ao fazer ressoar a fala, a experiência psicanalítica pode oferecer outra maneira de viver a inexistência da relação sexual e o autoerotismo, uma maneira que não cura a solidão do Um, mas que comporta uma abertura para o encontro com algo mais, com um mais ainda..
    Quais as implicações dessa forma de conceber a transferência? Quais são seus impasses? O que muda com relação ao lugar do analista? Como pensar a entrada em análise? E, os finais de análise, o que eles nos ensinam a esse respeito?    

    Eixo V: Interpretação: a heresia do analista.
    Se o sintoma, na época do mestre contemporâneo, apresenta-se cada vez mais refratário à interpretação pela via do sentido, quais seriam, então, as possibilidades de intervenção do analista?
    Conforme nos esclarece Miller[27], a psicanálise transcorre no âmbito do recalcado e de sua interpretação graças ao sujeito suposto saber. Mas, no século XXI, trata-se para a psicanálise de explorar outra dimensão: a defesa contra o real sem lei e fora do sentido. Segundo Miller[28], o inconsciente do último Lacan está no âmbito do real, de modo que, para entrar no século XXI, nossa clínica deverá pautar-se, como matriz da operação analítica, pela desmontagem da defesa contra o real. A defesa qualifica a relação inaugural do falasser com o real: diante do real, o falasser responde criando, como defesa, um sintoma. Mas, no que concerne ao sintoma, a defesa está do lado do gozo e não da representação recalcada. Nesse sentido, tomar a desmontagem da defesa como matriz da operação analítica significa operar a partir de intervenções capazes de incidir sobre o gozo e não apenas sobre o sentido. Por isso, no último ensino de Lacan, a interpretação ganhará um novo estatuto: sem sentido, sem valor e muito mais próxima de um fazer que de um saber. A interpretação torna-se “corte”, “equívoco”, “manipulação”[29], incidindo sobre a materialidade e a substância de lalíngua como um forçamento a partir do qual um psicanalista pode fazer ressoar outra coisa que o sentido.            
    Portanto, podemos dizer que, em contraposição aos pós-freudianos, o analista lacaniano não se define por sua neutralidade, ele é habitado por “um desejo de alcançar o real, de reduzir o Outro a seu real e liberá-lo do sentido”[30]. Dessa forma, se a interpretação pode ser considerada a heresia do analista, é porque ela atualiza, a cada vez, sua escolha pelo real. Vinhetas e situações clínicas poderão nos ajudar, então, a esclarecer como o analista interpreta hoje.

    Por fim, gostaria de fazer uma menção ao novo filme de João Moreira Sales que se chama “No intenso agora”. Nesse filme ele reúne, além de outras, imagens de maio de 68 na França e de uma viagem de sua mãe, uma turista de classe alta, conservadora e profundamente católica, à China de Mao Tsé Tung. È comovente como esse cineasta ao reunir acontecimentos aparentemente tão distintos, o faz não pela via dos ideais em jogo; o que ele coloca em primeiro plano é a intensidade do momento vivido tanto pelos jovens de 68, como por sua mãe, que anos mais tarde colocará fim a própria existência, mas que aparece, nessas imagens, “muito alegre” e “plenamente ancorada na vida”[31]. Sabemos que muitos dos que participaram de maio de 68 também se colocaram a questão de como sobreviver ao fim daquele momento, e que alguns efetivamente não sobreviveram. Como sobreviver ao fim de um momento de grande alegria, intensidade e satisfação? Na época do mestre contemporâneo, essa é uma questão que, por vias diversas, está cada vez mais presente. Se, por um lado, a prevalência do gozo em nossos tempos, nos leva, no que concerne às respostas da civilização, à expectativa de que esse gozo não pare e de que tudo funcione, o que não raramente resulta em desencanto, por outro lado, o gozo, estando em primeiro plano, nos coloca mais diretamente  diante da constatação de que a dissolução da intensidade é intrínseca a esse mesmo gozo.  A intensidade do gozo, como bem ressalta o título do filme, é atrelada ao agora, ao momento, ao acontecimento, ao encontro, à manifestação de uma nova existência que se extingue, acaba, mas que, como ressalta o cineasta, “deixa o sentimento de que, se pôde existir em um momento, poderá existir em outro momento também”[32], embora sempre de outro jeito, de outra forma. È apostando nesse ratear, que também é marca do tempo em que vivemos que, a meu ver, a psicanálise, pela via da transferência que abriga a contingência, poderá fazer frente ao mestre contemporâneo e desfazer a aparente e imperiosa necessidade na qual ele se sustenta. 






    [1] MAHJOUB, Lilia. Éditorial. Quarto. Revue de l’École de la Cause Freudienne, ACF, en Belgique, n.58, décembre de 1995, p. 5.

    [2] MILLER, Jacques-Alain. “Questão de Escola: sobre a garantia”. Pronunciada no dia 21 de janeiro de 2017 na “Tarde da Garantia” da École de la Cause Freudienne e difundida pela lista eletrônica EBP-VEREDAS no dia 2 de março de 2017.

    [3] MILLER, Jacques-Alain. “Questão de Escola: sobre a garantia”...

    [4] LACAN, Jacques. O seminário. Livro 17: o avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: Zahar, 1992, p. 76.

    [5] MILLER, Judith. La resistible  ascension du gadget. Bibliothéque Confluents : la psychanalyse et le gadgets. Paris: ACF-Île de France, juin de 1994.

    [6] ROSA FILHO, Silvio. Fim de uma zona de espera sem fim. Cult, n. 220, novembro 2017, p. 55.

    [7] MILLER, Jacques-Alain. Bonjour sagesse. Barca!, n. 4, 1995, p. 193.

    [8] ALBERTI, Christiane. Il n’y a que ça , le lien social. Lacan Quotidien, n. 732, 4 juillet de 2017 Disponível na internet (acesso em 10 de dezembro de 2017):

    [9] MILLER, Jacques-Alain. “Questão de Escola: sobre a garantia”...

    [10] FREUD, Sigmund. O estado neurótico comum (1917). In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XVI. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 441.

    [11] FREUD, Sigmund. O estado neurótico comum (1917)..., p. 451.

    [12] FREUD, Sigmund. O estado neurótico comum (1917)..., p. 451.

    [13] LACAN, Jacques. O seminário. Livro 23: o sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 102.

    [14] LACAN, Jacques. O seminário. Livro 23: o sinthoma (1975-1976)..., p. 101-114.

    [15] LAURENT, Éric. Falar com seu sintoma, falar com seu corpo. Argumento para o VI ENAPOL. (22 e 23 de novembro de 2013). Disponível na internet (Acesso em 10 de dezembro de 2017):

    [16] LACAN, Jacques. Le séminaire. Livre XXI, leçon du 19 mars de 1974 (inédito).

    [17] MILLER, Jacques-Alain. Le salut des déchets. Mental, n. 24, avril 2010, p. 9-15.

    [18] MILLER, Jacques-Alain. Le salut des déchets...

    [19] MILLER, Jacques-Alain. Le salut des déchets..., p. 14.

    [20] MILLER, Jacques-Alain. Le salut des déchets..., p. 14.

    [21] Ver: LAURENT, Éric. O avesso da biopolítica. Uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2016.

    [22] MILLER, Jacques-Alain. Crianças violentas. Opção lacaniana, n. 77, agosto 2017, p. 26.

    [23] Ver: MILLER, Jacques-Alain. El ultimísimo Lacan (2006-2007). Buenos Aires: Paidós, 2013.

    [24] MILLER, Jacques-Alain. Sutilezas analíticas (2008-2009). Buenos Aires: Paidós, 2011, p. 106. 

    [25] MILLER, Jacques-Alain. Uma fantasia. Opção Lacaniana, n. 42, fevereiro 2005, p. 18.

    [26] MILLER, Jacques-Alain.  Intuições Milanesas II. Opção lacaniana on line, nova série, ano 2, n. 6, novembro de 2011. Disponível na internet (Acesso em 10 de dezembro de 2017):

    [27] MILLER, Jacques-Alain. O real no século XXI. Opção lacaniana, n. 63, junho 2012, p. 11-20.

    [28] MILLER, Jacques-Alain. O real no século XXI...

    [29] Ver: MILLER, Jacques-Alain. El ultimísimo Lacan (2006-2007)...

    [30] MILLER, Jacques-Alain. O real no século XXI..., p. 17.

    [31] João Moreira Sales - Entrevista a Ricardo Calil- Revista Bravo de dezembro de 2017- pg. 87


    [32] João Moreira Sales - Entrevista a Ricardo Calil..., pg. 90           
      
    http://jornadaebpmg.blogspot.com.br/2018/03/enxame-1-5ditos-e-escritos.html

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