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Boletim da XVII Jornada da EBP-MG

   
Como todos sabem, realizaremos um Fórum no interior da XVII Jornada da EBP-MG, cuja tarefa é participar do debate atual contribuindo para a construção de saídas, lá onde o impasse na nossa sociedade se apresenta. Em Minas, desde a VII Conversação realizada no IPSMMG, temos conversado com os gestores públicos, pesquisadores e trabalhadores concernidos em torno da questão da política para álcool e drogas. O impasse é evidente e atravessa o cotidiano de diversos setores da nossa sociedade. A força política da EBP-MG junta-se aos demais interessados rumo ao primeiro Fórum de Orientação Lacaniana, com o tema "Drogas: para além da segregação." 

Mas como assim? O que seria um Fórum de Orientação Lacaniana? O que o distingue dos fóruns militantes, por exemplo? Como é seu funcionamento e qual é a sua visada?

Para elucidar essas e outras questões, Eric Laurent, autor do tema do nosso primeiro fórum, bem como, um dos nossos consultores nesse assunto, concedeu-nos uma entrevista muito viva e eloquente por ocasião do VIII Congresso da AMP em Buenos Aires. O modo pulsante através do qual ele nos entrega a sua leitura do momento atual, marcando a posição e responsabilidade da psicanálise de orientação lacaniana no mundo, tal como ele é, provoca ainda mais o nosso engajamento decidido rumo a realização desse Fórum em Minas Gerais.

Por que um Fórum de Orientação Lacaniana, agora, e sobre as drogas? Porque o momento atual nos pede para interrogar “O tratamento das escolhas forçadas da pulsão”. 

Afinal, "as pessoas que não fumam, comem"! Boa leitura, 


Fernanda Otoni
Coordenadora da XVII Jornada da EBP-MG


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O Tratamento das escolhas forçadas da pulsão


Entrevista com Eric Laurent concedida à coordenação da XVII Jornada EBP-MG, por ocasião do VIII Congresso da AMP - Buenos Aires, em 24 de abril de 2012.


Fernanda Otoni: “A política da psicanálise na era do direito ao gozo” é o tema que anima a comunidade da EBP-MG rumo a sua XVII Jornada, em outubro de 2012. Frente as configurações do contemporâneo é fundamental que a psicanálise de orientação lacaniana marque sua presença e contribuição nas discussões públicas ao seu redor.

Em Minas, particularmente, desde a VII Conversação realizada no Instituto de Psicanálise e Saúde Mental (IPSMMG), temos conversado com os gestores públicos, pesquisadores e trabalhadores concernidos em torno da questão da política para álcool e drogas. O impasse é evidente no cotidiano que atravessa diversos setores da sociedade e que convida-nos à um engajamento responsável, ou seja, como a psicanálise pode contribuir à esse debate? Qual é a resposta da política da psicanálise frente aos impasses de sua época?

Animados por esta orientação, a comissão cientifica, decidiu dar lugar, no interior da nossa XVII Jornada, à um momento político inédito, a saber, o primeiro Fórum de Orientação Lacaniana da EBP-MG – “Drogas: para além da segregação”.

Algumas perguntas apresentaram-se frente à realização desse Fórum e pareceu-nos importante esclarecer ao público e a nós mesmos, o que é um Fórum de Orientação Lacaniana? Por certo, não é um fórum como os outros. O que o distingue, por exemplo, de um fórum militante tão comum nas arenas políticas? Quais são os seus princípios, seu modo de funcionamento e qual é a visada de um fórum sustentado pela política lacaniana?

Eric Laurent: Creio que um Fórum de política da psicanálise não tem uma definição preliminar. Não há essência do Fórum. Um fórum é a lista do que já existiu como tal. Os fóruns de orientação lacaniana começaram, foram organizados por Jacques-Alain Miller, no momento onde houve um ataque contra a psicanálise, através da vontade de regulamentar as psicoterapias, inclusive a psicanálise. Era uma tentativa de defini-la fora das escolas que lhe são próprias, unicamente a partir de diplomas universitários. Houve a necessidade de responder a esse ataque direto à formação do psicanalista.

Os fóruns eram o lugar onde tomaram a palavra aqueles para quem a psicanálise ou a orientação psicanalítica, em sentido amplo, queria dizer outra coisa que uma psicoterapia. Tomaram a palavra aqueles que, de horizontes diferentes da cultura ou de outras disciplinas, podiam testemunhar que a psicanálise, para eles, não era redutível a uma psicoterapia formatada, protocolizada, universitarizada, proposta como um modelo para a formação do psicanalista.

Esses fóruns permitiram dar e fazer ouvir a palavra, de pessoas que vieram de horizontes políticos muito diversos, pessoas de esquerda, de direita, pessoas do centro, pessoas do centro direito, do centro esquerdo, enfim, de todo o espectro político francês, ou ainda de pessoas vindas de disciplinas que tem relações com a psicanálise e também de cientistas, pessoas de campos à priori distantes, que podiam ao mesmo tempo testemunhar por contingências diversas o quanto o encontro com a psicanálise fora importante para eles.

Quando eu falo dessa variedade, isso é importante, é para localizar a diferença entre os fóruns militantes e os fóruns psicanalíticos. Um fórum militante tem por objetivo produzir dois campos: a política obedece à lógica das classes - há a classe dos que estão conosco e a classe dos que estão contra nós. É necessário dois campos para fazer um enfrentamento clausewitziano, é preciso dois campos na lógica das classes e do confronto político, enquanto que a idéia de discurso, segundo Lacan, é uma subversão dessa lógica. Tocamos nessa outra lógica, quando nos aproximamos dos temas próprios ao mal estar na civilização, dos fenômenos que tocam ao gozo, o que se chama em sociologia e no jornalismo " as questões de sociedade". Isso não quer dizer nada diferente, senão o fato que ninguém tem uma resposta à essas questões. Nós as chamamos de "questão de sociedade" porque não há respostas claras possíveis. Esses são os sintomas que dividem profundamente a política e que fazem aparecer a incapacidade de reduzir esses sintomas sociais, esses sintomas que resistem na organização social, a um tratamento político segundo a lógica do campo. Isso escapa!

Sobre questões como a da gestação assistida de crianças, há pessoas de esquerda que são contra, há pessoas de direita que são contra, há aquelas de esquerda que são a favor, há aquelas de direita que são a favor, no centro é a mesma coisa, e sobre o leque do tabuleiro político, por exemplo, isso se divide.

O fórum psicanalítico precisamente é feito para fazer aparecer o quanto a coisa não é redutível a uma lógica de campo, a uma lógica de classe. O quanto a questão que é abordada atravessa por suas aporias todos os discursos, o discurso do mestre, a política, o discurso universitário, os saberes e as disciplinas universitárias. É um tanto freqüente que na universidade as pessoas não estejam de acordo, ainda mais sobre essas questões. E pelo que Lacan chamava de discurso da histeria, um modo de interrogar um certo status da reivindicação feminina na sociedade, as coisas também não são exatamente situáveis. Não se pode repartir os sintomas da sexuação, não se pode fazê-los entrar facilmente numa histerização da questão do sexo.

O fórum deve ser construído de modo a fazer aparecer uma diversidade. Por exemplo, o ultimo fórum que aconteceu na França era "O fórum das mulheres". Ele era dedicado a uma mulher encarcerada, Rafah Nached, psicanalista encarcerada pelo seu carrasco Hafez al-Assad. Vieram falar nesse fórum a favor de R.N. uma eminente candidata de esquerda, Martine Aubry, que na época estava na lista dos candidatos à presidência da republica, mulheres políticas de direita, intelectuais considerados como intelectuais de direita e de esquerda, mulheres portadoras de um feminismo moderno, como a diretora da revista "Elle", ou então feministas conselheiras na Prefeitura de Paris, ou conselheiras do candidato François Hollande, na época. Uma enorme diversidade que podia testemunhar a favor do que havia de intolerável na forma como Rafah Nached era tratada. E isso fazia aparecer, fundamentalmente, esse caráter heterogêneo do discurso em geral.

Um fórum é tanto mais rico quanto ele faça aparecer esse irredutível às categorias preliminares dos discursos. Eu sei que uma das questões que vocês querem levantar é a legalização das drogas. É um tema, de fato, que escapa à classificação entre campos. A primeira revista de direita, primeiro think tank que defendeu a liberalização das drogas é o liberal "The Economist". Ao mesmo tempo vocês encontram pessoas de esquerda que são a favor da liberalização. Vocês encontram pessoas de direita, de forma oposta, como o presidente Nixon, que declarou a “War on drugs” em 1971, com os fracassos que nós constatamos 40 anos mais tarde. Nosso candidato a Presidência da República, François Hollande, pensava em seu programa legalizar a marijuana. Ele voltou atrás dizendo que seria colocar em perigo o estatuto do interdito. Ele mesmo está dividido entre uma coisa e outra. Há uma grande corrente, entre os especialistas e os cuidadores, com uma sensibilidade de esquerda ou de direita, que são mais a favor da liberalização. Ao mesmo tempo, há na esquerda uma outra corrente que pensa que isso é ainda Maio 68 demais, liberalização demais, que isso tudo vai contra a nova moralidade da esquerda que precisa ser construída contra os desvios da sociedade.

É um estado da questão que está muito heterogêneo, na Europa. É impactante ver inclusive que, atualmente, na America Latina que sofre particularmente com o impacto dessa "guerra", há uma demanda de liberalização que atravessa completamente os campos políticos. Na Cúpula de Cartagena, no mês passado, o portador da demanda de reconsiderar a questão foi o presidente da Guatemala, homem de direita perfeitamente convencido, eleito pelos temas da lei e da ordem. Depois de ter falado com o presidente colombiano, que é também um homem de direita apoiado pelos americanos, os dois constataram o fracasso completo do que aconteceu. Os dois estão muito preocupados com o estado atual do México. Esses presidentes não são verdadeiramente pessoas de esquerda, é o mínimo que podemos dizer. Porém, eles não estão menos preocupados com as consequências produzidas pela proibição das drogas. Ela repete, exatamente, o que ocorreu historicamente no quadro da proibição do álcool, durante os anos 20, nos Estados Unidos. Ela tinha então produzido um caos social, um reforço de todas as máfias, um banditismo que quase escapou de todo controle social. Foi preciso a construção de aparelhos de repressão que não existiam na época. Mas a verdadeira maneira como os EUA conseguiu acabar com todas as máfias foi legalizando o álcool.

Da comissão latino–americana de reflexão sobre essa questão, composta pelos antigos presidentes do México e do Brasil, participam homens como Fernando Henrique Cardoso, homem de esquerda favorável à legalização há muito tempo, e que influenciou nisso. Da mesma forma, é muito interessante, há nessa comissão homens de direita, como Vicente Fox, que tem também a idéia de pensar isso de outra forma. É muito interessante para um psicanalista ver como os diferentes campos são atravessados pela tolerância a respeito da pulsão ou então pela impotência da interdição. A atitude liberalizadora ou proibidora está repartida nas sensibilidades políticas. Há uma esquerda moral tanto quanto há uma direita austera.

F.O.: Interessante pensar nesses termos, pensar que a "guerra as drogas" sustentada pela reunião de diversas forças políticas moralizadoras, nos últimos 40 anos, garantiu seu lugar na agenda de diversos países. Hoje, estamos em melhor condição de localizar suas conseqüências. Testemunhamos seu fracasso… Surgem outros argumentos e forças. Na América latina, digo no Brasil, essa guerra foi armada, prioritariamente, da força criminalizante e segregativa que a impulsiona, produzindo um encarceramento de um número incontável de jovens e pobres, e hoje, cada vez mais jovens, que servem-se das drogas para seu próprio consumo, como modo de trabalho, comercializando-as na forma do tráfico, etc. Escutamos aqueles que sofrem das consequências dessa política mortífera e nos interessa perguntar e conversar sobre a legalização, mas também, colocar em debate as conseqüências da criminalização.

E.L.: Eu dizia, há alguns meses, em uma intervenção que eu tinha feito numa conferência que ocorreu na Bahia, sobre essa questão da droga, que a posição atual da comissão interamericana de estudos sobre isso, estava, justamente, além do falso debate entre a proibição e a liberalização. Nós estamos agora mais além, porque o fracasso da guerra “War on drugs” é reconhecido por todos. E ao mesmo tempo, todo o mundo vê que a legalização sem freio, daria também um "empuxo à morte" tão grande quanto a proibição. São as duas faces do supereu. Tanto o gozar sem entrave quanto a tolerância zero produzem as duas faces de um mesmo apelo à morte. Esse empuxo à morte verifica-se, encarna-se especialmente bem com a droga, que vai junto com o tráfico de armas, que vai junto com a morte. Sobre o laço entre a droga e a morte, é só ver o Cartel Zeta no México, as coisas abomináveis cometidas no controle das zonas de droga que ultrapassam até os crimes racistas. Há um horror da pulsão de morte que se desvela e que é totalmente inimaginável.

Precisamos nos afastar tanto do supereu que diz goza e que empurra quanto daquele que diz não, o supereu policial, que mata em todos os tempos. Para se extrair disso é preciso considerar as diferentes substâncias tóxicas, uma por uma, e inventar qual seria o modo mais interessante de reduzir o dano que elas causam. Sobre a redução de danos você havia me passado um documento de trabalho redigido por um advogado e deputado brasileiro, Marcos Rolim, que sintetizou esse ponto, muito bem. Essa perspectiva, não de cura da humanidade dessas substâncias, nem bem do abandono da humanidade a esses tóxicos, mas a de redução dos estragos, consoa com a psicanálise. A psicanálise não promete a cura absoluta do sintoma, mas certamente a redução dos estragos, sua transformação em alguma coisa mais suportável para o sujeito.

F. O.: Diversos atores engajados nessa discussão ao apresentar os resultados de um trabalho feito na perspectiva da redução de danos e seus efeitos para os sujeitos que ai se beneficiam, têm sustentado, no debate atual, a necessidade de deslocar o problema das drogas do campo da política penal para o campo das políticas públicas de saúde e da assistência social. No lugar de se investir em policiamento ostensivo e encarceramento generalizado (as cifras são astronômicas para manter esse aparato), o investimento do governo deveria se dirigir para as políticas sociais e de saúde. O que você pensa sobre esse deslocamento, essa mudança de rumo?

E. L.: Eu creio que é uma armadilha opor a saúde e a justiça. Na perspectiva histórica ou "foucaultiana", a saúde é um exercício disciplinar. A saúde tornou-se, em nossa sociedade, o modo mais exemplar de disciplinar as populações. Ela consiste em trocar as leis, o sistema legal, pelo sistema das normas, das normas de saúde. Eu creio que o deslocamento das fronteiras entre saúde e justiça, constante nas nossas sociedades modernas, se é um deslocamento das fronteiras, digamos, é o deslocamento no interior de um mesmo problema. Evidentemente com consequências diferentes, mas é preciso não perder de vista que é um deslocamento em um mesmo campo.

Evidentemente, quando o sistema judiciário produz leis loucas sobre a criminalização da droga e de seus usuários, as consequências estão para além das normas. Nos Estados Unidos, as prisões estão preenchidas essencialmente por pessoas que tocaram na droga, de um modo ou de outro. Isso produziu um congestionamento enorme, elas estão 80% preenchidas por pessoas que tiveram uma relação com a droga, desde os simples consumidores até os revendedores de toda espécie, pequenos e grandes.[1]

F.O.: É assim também no Brasil…

E.L.: E como isso toca, particularmente, os pobres e os negros, então... Em razão desse encarceramento enorme, notaríamos que atualmente, uma criança norte americana tem menor chance de ser criada por seus dois pais do que no tempo da escravidão. É uma fórmula muito impactante para a América que sempre sangra das feridas, das consequências do que foi a escravidão. É uma segregação que se aplica, de fato, sobre os negros americanos e coloca um fardo muito pesado nessa criminalização louca.

Podemos muito bem ter normas de saúde que sejam loucas, elas também! As normas higienistas com seus aspectos perversos, ou as exigências de normalidade absurdas. O deslocamento das fronteiras justiça, saúde, deve ser feito com essa preocupação na cabeça. Aqueles que elaboram ou vão elaborar, o que há a elaborar, todo um novo corpo legal, deverão fazê-lo sendo sensíveis aos efeitos contraditórios, aos efeitos, como dizemos, perversos em certa medida, efeitos que a gente não calcula. É preciso estar atento a isso, às reversões dialéticas, é preciso manter os espíritos flexíveis.

F.O.: Muito interessante pois nos faz pensar, que se permanecemos no campo normativo e disciplinar, não recolheremos os efeitos de um deslocamento. Lembrei-me de uma situação que ocorreu recentemente, em março desse ano, quando a Comissão de Assuntos Sociais do Senado Brasileiro se preparava para votar o Projeto de Lei 111/2010, que permitiria a internação compulsória do usuário de drogas, bastando para isso a autorização de um laudo médico. Tal projeto de lei, no texto inicial apresentado por um senador, previa a prisão do usuário. Diante do debate atual, dois outros senadores, da oposição, "melhoraram" o texto original trocando a prisão pela "internação compulsória", o que, em verdade, em nada muda o seu aspecto normativo, disciplinar e, o destino segregativo.

E.L.: É um exemplo muito eloqüente isso que você diz. Em outros domínios, por exemplo, nos delitos e crimes sexuais, há os tratamentos obrigatórios. Uma sanção disciplinar obriga o sujeito a um acompanhamento médico ou a um tratamento com ou sem a sua concordância. Com a loucura, depois dos meados do século XIX, o momento de deslizamento das fronteiras, de fato, entre a saúde e a justiça, aconteceu. A passagem ao ato psicótico tem sempre colocado, bem entendido, muitos problemas. Segundo as oscilações da tolerância e da intolerância na sociedade, os sujeitos psicóticos foram colocados do lado da justiça ou do lado do cuidado da saúde, levando em conta as consequências sobre a ordem pública.

Atualmente, na França, leis muito repressivas sobre os sujeitos psicóticos foram adotadas. Chegamos também a uma concepção louca, onde praticamente todo psicótico pode ser considerado um criminoso em potencial. Isso produz efeitos traumáticos e de divisão nos trabalhadores da saúde, e paradoxos. Durante muito tempo, os médicos pediram que um criminoso psicótico fosse considerado como irresponsável. A irresponsabilidade permitindo tratá-lo nos estabelecimentos especializados. Considerando agora que os estabelecimentos especializados estão cheios e que faltam recursos, a psiquiatria está sem crédito, os médicos não querem mais isso. Eles consideram, ao contrário, que é preciso tornar responsável o maior número de pessoas para meté-las na prisão. Temos casos de pessoas, claramente loucas, consideradas como perversos narcísicos, o que permite torná-las responsáveis. Com isso elas vão à prisão e não congestionam o hospital. Do mesmo jeito, as confusões de doutrina fazem que, agora, é muito difícil dizer se um sujeito é louco, pois ele só pode ser louco segundo a neurologia. Em todo lugar a doutrina psiquiátrica está em crise, e, digamos, ninguém mais acredita na loucura chamada psicose: isso não existe mais.

Fizeram no norueguês que matou 70 pessoas, nesse verão, e que está sendo julgado atualmente na Noruega, uma segunda perícia psiquiátrica para mostrar que ele não é louco. Ele é cruel, mas ele não é louco. A prova é que ele escreveu mil páginas que são compreensíveis, coerentes. O fato de um delirante escrever sem fazer erros ortográficos não era considerado como o fato de que não havia delírio. Agora sim. Simon Baron Cohen de Cambridge que é um teórico das neuro-ciências, por outro lado, escreveu em uma tribuna que, verdadeiramente, não considerava que Breivik devia ser considerado um louco. Ele não era paranóico.

F.O.: Nossa, como isso é antigo! Num retorno a Foucault, em seu livro, “Eu, Pierre Riviere, que degolei minha mãe, meu irmão e irmã”, vimos que Esquirol e outros peritos, a pedido do tribunal, debruçaram-se também sobre um dossiê escrito por Riviere que expunha, com clareza e coerência, detalhes de sua vida e as razões de seu crime. A lucidez de seu escrito perturbou os peritos e os padrões diagnósticos da época. Esse embaraço classificatório sobre diagnósticos, prognósticos, responsabilidades, etc., parece vir de longa data, não é mesmo? O que a psicanálise pode oferecer à esse antigo e atual debate?

E.L.: Nós estamos em um movimento da civilização onde a única certeza vem da Ciência, onde a psiquiatria não existe mais, uma vez que ela é colocada dentro da neurologia, tudo o que concerne as passagens ao ato torna-se um grande enigma. Para tratar as questões dos tóxicos, as das passagens ao ato ou dos crimes sexuais, há a necessidade nos próximos anos de reconstruir um aparelho de pensamento médico-legal que vai atravessar as fronteiras dos Ministérios. Vamos assistir aos conflitos dos ministérios, ministério da saúde e ministério da justiça, entre medicina e polícia. Teremos, ao mesmo tempo, colaborações e tensões sobre linhas muito diversas. Será preciso poder pensar sobre isso mais além da oposição entre as duas vertentes do supereu. Os psicanalistas poderão ser muito úteis para dar uma maior flexibilidade às reflexões, sem no entanto fornecer a resposta sobre o que é preciso fazer. Ninguém sabe o que é o bem, como obter o bem, nem dos sujeitos nem da sociedade. Isso é objeto de uma negociação democrática como tal, sem a idéia de que haja uma boa resposta dada a priori, pré-fixada.

F.O.: Nossa conversa caminhou na direção de esclarecer que a política da psicanálise se faz sustentando a abertura à variedade, a heterogeneidade, fazendo aparecer o elemento irredutível à normalização, conforme constatamos também nos testemunhos dos AEs. É por essa via que a psicanálise encontrará sua posição na conversa com outros campos de discurso, visando contribuir lá onde o impasse se apresentar na sociedade, visando introduzir aí uma certa porosidade.

Pude reler recentemente, uma entrevista de Jacques-Alain Miller, sobre "Lacan e a Política", publicada na revista Cité, em 2005. JAM dizia, ali, que a psicanálise não se dirige ao homem da massa, mas a um por um. Que a psicanálise mudou o mundo, os exemplos são diversos, mas “o viés pelo qual a psicanálise mudou o mundo, mais do que uma influência direta sobre a política, foi sobretudo cochichando nas orelhas dos príncipes”, ou seja, a partir dos efeitos da psicanálise em cada um e que se passa de um por um. Porém agora, no momento atual, os príncipes não encontram-se no seu lugar de antes. A psicanálise vai a publico. Não basta mais cochichar no ouvido dos príncipes, a psicanálise de orientação lacaniana toma a palavra, apresenta-se. O que mudou na contemporaneidade, na era do direito ao gozo, que nos convida, aos analistas, a apresentar e sustentar no debate público essa variedade, heterogeneidade, a fazer furo no discurso maciço que não cessa de tudo querer normalizar?

E.L.: O que mudou na política é a nova sociedade das normas. A sociedade das leis recuou e temos, de mais a mais, a gestão do mundo pelas burocracias editoras das normas. As burocracias sanitárias são grandes fabricantes de normas de vida, com dificuldades, contradições. As variações classificatórias podem provocar "epidemias" terríveis. A última datada é a epidemia do autismo que faz com que uma doença que afetava, há 30 anos, uma criança em duzentas, agora, afeta uma em cinquenta, o que faz com que, com a dissimetria entre os sexos, temos agora um rapaz em trinta e cinco que é autista, numa sociedade desenvolvida. Jamais vimos isso, jamais vimos um aumento das cifras parecido na história da clínica.

Esse tipo de epidemia, onde o critério classificatório é muito importante, difere de outras epidemias como aquela da obesidade que toca agora uma mãe de família sobre três nos Estados Unidos, tendo como um efeito secundário maior uma epidemia de diabetes, que faz disso a causa numero um de morte, nas sociedades desenvolvidas.

Esses fenômenos que as burocracias sanitárias devem gerir não podem ser regulados com a ajuda da lei. É muito mais a ajuda das normas e das modificações das normas que tentam conter o desenvolvimento de fenômenos de impasse na civilização, como disse Lacan. Por exemplo, a obesidade é multifatorial, a genética só explica, parece, 20%, pode ser 30% dos casos no máximo, então, estamos lidando com os fenômenos de sociedade: o desmoronamento das famílias, o fato de que não há mais norma sobre o objeto oral, que a gente come o tempo todo, que o junk food está por todo lado, que somos impedidos de fumar. Haverá então, uma geração com menos câncer de pulmão (o que é excelente) mas com muito mais diabetes. Porque as pessoas que não fumam, comem. O que a gente ganha de um lado, a gente perde de outro, etc.

As contradições, os impasses são enormes e tornam esses fenômenos muito difíceis de gerir. Daí uma demanda de solução simples. A primeira solução é, evidentemente, o medicamento. Mas vimos que depois de 40 anos de difusão em massa dos medicamentos psicotrópicos, as sociedades desenvolvidas não tem regulado os seus problemas de saúde pública, bem ao contrário. É muito mais o medicamento psicotrópico que tornou-se o problema.

O que mudou foram as dificuldades de gestão nas sociedades democraticas na época, chamada por Lacan, da "subida ao zênite do objeto petit a", quer dizer a questão do gozo. Nós não estamos mais no século XVIII onde falávamos da busca legitima pela felicidade. No século XXI é a busca do gozo que é um direito legítimo. O direito legítimo ao gozo provoca consequências na sociedade cuja complexidade não cessamos de descobrir.

A psicanálise, desde Freud, tem a idéia que a política é uma questão de identificação. Como lembrava Jacques-Alain Miller, a política, são significantes-mestres, quer dizer, identificações. O discurso do mestre gera significantes-mestres que são identificações que podem se cristalizar em impasses. A psicanálise pode ajudar para que essas identificações sejam suficientemente maleáveis para não provocar esses fenômenos de supereu ligados à vontade de manter uma identificação, apesar de tudo e contra todos. A gente o vê no supereu comunitário, que tenta manter o laço social sobre um único traço identificatório. E depois, inspira uma política de reconhecimento a todo preço dessa identificação, dissolvente potente do discurso comum. O laço social é então transformado em um enfrentamento de comunidades.

Na clinica psicanalítica, os psicanalistas têm a experiência de ver como os sujeitos, um por um, podem encontrar sua solução própria, para além dos grandes discursos identificatórios, do “prêt à porter” comum que cada um encontra na sociedade, nas identificações que lhes são transmitidas pela família, que lhe transmitiu o destino. Na experiência da cura, o sujeito procura uma solução viável ao exercício de seu direito ao gozo. É essa experiência que os psicanalistas podem transmitir a outras disciplinas, a outros discursos, para tentar flexibilizar as categorias comuns e torná-los aptos a acolher esses impasses do gozo que se manifestam numa dimensão totalmente inédita, no século XXI.


Transcrição: Pierre Brisset
Tradução: Fernanda Otoni
Revisão: Elisa Alvarenga




[1]Cf: www.drugwarfacts.org ainsi que les statistiques fournies par l’United States bureau of Justice statistics et son directeur Charken.

Jornada EBP-MG