L'INCS #6 - 1. EDITORIAL

Pedro Moraleida (1977 – 1999): Inibição, Repetição e Angústia, s/d.







Por Lisley Braun Toniolo



Eis O Boletim L’Incs #6, a última edição prévia à XXI Jornada: “O inconsciente e a diferença sexual: O que há de novo?”



Lançado em meio a acontecimentos sociais sombrios nos quais imperam o retorno da censura à arte e à nudez, o L’incs #6 realiza em seus excelentes textos o exercício constante e sempre renovado de olhar para seu tempo sem moralizá-lo ou temê-lo, fazendo caber o mal entendido da linguagem e o real do gozo que marcam o encontro entre os falasseres. Certos de que não há psicanálise quando a censura dita as regras, somos guiados pela curadoria de Raimundo Jorge Mourão pelas preciosas imagens de Pedro Moraleida, gentilmente cedidas por seus pais.



Começamos interessados em “O que há de novo?”, onde Sérgio de Mattos em seu texto “O nu e as cabeças voadoras” nos brinda com um alerta essencial: “Estar à altura do horizonte de sua época não é deixar-se devorar por ela”. Deparamo-nos com as desgraças que acometem as cabeças voadoras em seus excessos e desencontros, bem como com a graça concedida ao corpo nu pela religião desde que despido também da libido. Sérgio nos faz então um convite para, a partir da psicanálise, vislumbrar a graça no corpo do falasser, vestido de linguagem e de sua libido.



Na rubrica “Textos de Orientação”, Bernardo Micherif Carneiro trabalha “O ‘ser’ autorizado”, interrogando quem confirma a validade da eleição do próprio sexo? O autor nos orienta que a sexuação não está apenas no terreno do semblante, mas que traz consigo a dimensão “incurável” presente em todo sintoma.



Elaine Maciel entrevista o psicanalista Fabian Fajnwaks na rubrica “O que não se escreve?”, recolhendo a novidade do discurso da diversidade. Fabian situa a diversidade das nomeações que indicam o modo de gozo sexual diante da queda do simbólico.  O laço social contemporâneo se transforma,  cabendo ao analista separar-se da perspectiva edípica e normatizante, não calçando a medida fálica no singular que se apresenta nas nomeações trazidas pelos sujeitos que nos procuram.



“O que se escreve” nos apresenta o texto “As identidades, uma política, a identificação, um processo e a identidade, um sintoma”, no qual Marie-Hélène Brousse trabalha os desdobramentos que o termo “gênero” produz na cultura. Lembra-nos que as identidades, ainda que cada vez mais plurais, não deixam de operar na dimensão da cadeia significante que o Outro nos entrega. Adverte-nos, contudo, que à psicanálise é essencial a dimensão do corpo e do gozo,  o que é contemplado na mais singular identidade, a sintomal.



Temos também Natalie Wulfiing realizando uma interessante provocação em seu texto “Nenhuma mulher no século 21”, ao percorrer na psicanálise e na arte os efeitos do desinteresse crescente em relação à diferença sexual no século XXI. Ela nos oferta uma cuidadosa investigação que questiona de maneira lúcida os universais em nosso tempo para pensar a clínica atual.



Na rubrica Conexões, Fabrício Ribeiro e Margaret Couto relatam as marcas deixadas pela apresentação de dois casos clínicos atendidos na Clínica Escola da Faculdade Newton Paiva.  Os casos trouxeram à tona duas inexistências que nos orientam: a ausência de diferença sexual no inconsciente e o real da não relação.



Temos ainda a nota de Lucia Mello “Uma criança é abusada. Efeitos de uma fantasia materna” onde retoma a seção clínica no Laboratório de Pesquisa da PUC Minas na qual o caso de uma criança realça como o abuso pode residir e se materializar na interpretação que o Outro faz daquilo que do real se agita no corpo infantil. A atividade contou com as participações e comentários de Lilany Pacheco, coordenadora da comissão de Conexões e Ludmilla Férez, coordenadora da XXI Jornada. 



E a resposta que não quer calar em “O que vem por aí?” é “a Jornada”! Nos dias 27 e 28 de outubro recolheremos os ecos desse trabalho que temos acompanhado nos boletins ordinários e extraordinários, nas preparatórias, nas conexões pela cidade e nas reuniões das mais diversas comissões. Neste aguardado encontro com Pierre Naveau, apostamos em ressonâncias inéditas que nos permitam inventar diante do novo que se apresenta na relação entre o inconsciente e a diferença sexual, sem prescindir daquilo que não se escreve. Boa leitura e boa Jornada a todxs!







Jornada EBP-MG