L'INCS #5 - 2. O QUE HÁ DE NOVO?






Pabllo Vittar, um corpo e suas faces



Lisley Braun Toniolo



Pabllo Vittar é o nome que o maranhense Phabullo Rodrigues da Silva se deu no despontar de sua carreira como cantor e compositor. Aos 13 anos, ainda no Maranhão, servia-se dos cultos na igreja e das festas de aniversário da família para cantar, algo que sempre o capturou. Aos 15 já cantava na noite maranhense, passando a transitar com “roupas de mulher”, identificando-se inclusive para sua mãe e irmã como um “menino homossexual”.

Foi morando em Uberlândia que se vestiu como uma drag pela primeira vez,  aos 17 anos, no intuito de divulgar a festa de uma amiga na porta de uma boate. Em terras mineiras, a partir de seus 18 anos, Phabullo passa a se montar como drag para cantar em seus shows, iniciando também uma série de concursos de beleza na área, o que culminou em alguns prêmios.

Com o sucesso batendo à porta, Phabullo, agora Pabllo Vittar, abandona a faculdade de Design de Interiores na Universidade Federal de Uberlândia para viver sua carreira musical. Em 2017 Pabllo atinge sucesso internacional e se tornou a drag queen mais ouvida no Spotify recentemente.

Pabllo constantemente é inquirido sobre o gênero de seu nome artístico e porque não adotou um nome feminino, ao que responde: “Pabllo é quem eu sou, e minha drag é uma parte de mim, não preciso de nome feminino para ser drag”. Ou ainda, “Eu acho que meu nome, por si, já é meu alter-ego [...]. E um nome não define quem você é. Eu sou Pabllo Vittar. A Pabllo Vittar”.

Sobre a parte de sua vida na qual performa uma drag, podemos destacar o entrelaçamento entre a política do corpo e um modo de gozo. No campo social, situa o lugar das “bichas afeminadas” na luta pelos direitos LGBT: “Ser afeminado é revolucionário no sentido de dar a cara a tapa. As bichas afeminadas é que estão na posição de frente, elas que levam o baque primeiro, que são apontadas”. Em alguns momentos, Pabllo cita publicamente um episódio de sua adolescência na escola quando um colega lhe atirara um prato de sopa quente na cara por achá-lo afeminado.

Ao mesmo tempo atribui ao universo feminino “milhões de facetas”, sendo essa “soma de características” o que o atrai e o encanta. Estar “montada” revela uma potência: “coloco uma peruca no cabelo, ninguém me tomba”. “Eu quando tô montada me sinto completa, me sinto confiante”. Contudo, nos alerta que sem o cílio postiço se sente “uma doida de peruca”.

Pabllo, com essa “parte” de sua vida que denomina “o feminino”, nos confronta com uma infinitização de cores, formas e nuances para desenhar uma mulher que, por mais que se sirva de atributos deveras fálicos no intuito de se ver “completa”, nunca é a mesma. Vale lembrar que o cantor não se situa como trans, requisitando um outro gênero ao corpo. Contudo, ao montar-se como drag para trabalhar cotidianamente com a sua música, lembra-nos que a sexualidade está aí, no encontro do corpo com a linguagem. Encontro do qual o corpo resulta recortado em órgãos que só descobrimos para que servem “pouco a pouco” (Miller, 2003).








O que há de novo?



Sabemos que a existência de drags acompanha a história do teatro e remonta à antiguidade. Especula-se que o próprio termo drag teria sido trazido por Shakespeare em notas de rodapé de suas peças, nas quais as mulheres eram encenadas por meninos adolescentes. O termo seria a sigla de “dressed as girl” (Amanajás, 2015).  Porém, tais notas nunca foram encontradas.

Outra hipótese remete às drags do século XVIII, que precisavam “arrastar” seus pesados vestidos para poder representar as mulheres. Em tais contextos culturais, o vestir-se como mulher ora tinha a função de substituí-las em cenários que lhes eram negados, ora serviam como meio de ironizar o feminino (Racca, 2017).

Foi a partir dos anos 60 que, imersas na onda pop, as dragsi passaram a se organizar e se apresentar em bares, alcançando em 70 e 80 as mídias e o teatro. As referências incontornáveis de suas performances são Madonna, Marilyn Monroe, Betty Davis, Barbra Streisand, Cher, Diana Ross, entre outras “divas” da última metade do século XX.

Desde os anos 90 os modos de expressão drag se diversificam, distribuindo-se em lipsyncs (dublar música de cantoras conhecidas), voguing (estilo de dança) ou provocações e caricaturas do próprio “universo gay” (Amanajás, 2015) – o que culminou no estabelecimento de uma linguagem irreverente e própria, bastante trendy na contemporaneidade.     

A novidade reside no fato de a expressão artística drag ter se tornado, nos anos 2000, uma cultura drag, onde o que está em jogo muitas vezes é mais performar como drag (a personagem) do que alcançar um “ser mulher”. Nessa cultura, montar-se como drag se tornou um modo de vida que não se restringe aos bastidores das madrugadas, entrando pelas janelas e participando de nosso cotidiano também em plena luz do dia. Não sem os holofotes.

Pabllo surge nesse momento de novidade, com um trabalho autoral também inserido na cultura pop, sendo sua música amplamente disseminada, principalmente entre os jovens.



O que há “de novo”?



Pabllo nos orienta que um nome, uma peruca, um sapato, ou mesmo um gênero não define quem você é. Lacan nos alertara ao longo de todo seu ensino, quando propõe um corpo que não coincide com a própria imagem, não sendo apreendido inteiramente por um eu (O estádio do espelho, 1949). Ou quando nos fala sobre o sujeito dividido (Seminário XI), que só pode aparecer nos intervalos da cadeia significante. E também ao nos brindar com seu conceito de falasser, atestando nossa saga de tentar bordejar o desencontro entre gozo da fala e gozo do corpo (Miller, 2016). O que permanece o mesmo é que o inconsciente é consubstancial à sexualidade (Lacan, Seminário XI, p.144), fato que convoca cada um a inventar saídas diante do real da não relação (Seminário XX). E como vemos nas letras de Pabllo, montada ou não em sua drag, o amor e o desencontro permanecem.



Seu amor me pegou

Cê bateu tão forte com o teu amor

Nocauteou, me tonteou

Veio à tona, fui à lona, foi K.O






Referências



Amanajás, I. Drag queen: um percurso histótico pela arte dos atores transformistas. Revista Belas Artes. 2015. Disponível em: http://www.belasartes.br/revistabelasartes/downloads/artigos/16/drag-queen-um-percurso-historico-pela-artedos-atores-transformistas.pdf

Lacan, J. (1949). O estádio do espelho como formador da função do eu. In Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.96-103.

Lacan, J. (1963-1963). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.

Miller, J.A. A invenção psicótica. In: Opção Lacaniana. N.36. Belo Horizonte: EBP MG, Maio de 2003.

Miller, J.A. O inconsciente e o corpo falante. In: AMP. Scilicet: O Corpo Falante – Sobre o inconsciente no século XXI. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2016. p.19-32.

Racca, Stephanie. A brief history of Drag Queens. https://www.theodysseyonline.com/history-drag-queens





Entrevistas com Pabllo Vittar

https://www.youtube.com/watch?v=aUvF8UeiW8M






i Nesse texto refiro-me às drag queens, contudo, é importante ressaltar a existência das drag kings, ou seja, mulheres que performam o masculino e que também lutam pelo seu reconhecimento sócio-cultural.


http://jornadaebpmg.blogspot.com.br/2017/09/lincs-5-3-o-que-nao-se-escreve.html

Jornada EBP-MG