L'INCS #2 - 3. O QUE NÃO SE ESCREVE





O gozo é particular e rebelde a toda normativização

 Boletim L’incs entrevista Cristina Drummond (AME-AMP)



L’Incs:  Há algo de novo na sexualidade dos seres falantes em sua articulação com o Incs?
O que eu penso que há de novo são as novas formas de sexualidade desarticuladas do inconsciente. O que eu quero dizer com isso?
Sabemos como Freud construiu sua ideia de que a diferença sexual, assim como a relação sexual, não têm inscrição no inconsciente. O que há é um significante que nos permite falar de sexuação, isto é, um processo de construção, para cada falasser de sua relação com a sua sexualidade. Ela implica numa escolha real do modo de gozo entre uma repartição de dois modos distintos de uso do falo no laço com o outro sexo. Essa construção é uma inscrição no Outro e se dá a partir da castração, ou seja, de uma inscrição da falta no simbólico.
O que encontramos atualmente são múltiplas escolhas por uma sexualidade que não cabe nessa partilha, ou ainda, falasseres que se declaram homossexuais sendo que na verdade são mais assexuados ou vivem sua sexualidade de modo solitário, sem relação com um outro corpo. Estamos no tempo, tal como afirma François Ansermet, do gênero fluido. Segundo ele, “não é fácil situar a diferença de sexos, ela não é nem cromossômica, nem genômica, nem endócrina, nem morfológica, nem cerebral, assim como também não é apropriada pelo gênero ou pelas atribuições sociais”[i]. Certamente isso não deixa de ser uma consequência da mudança do simbólico em nossa contemporaneidade, assim como da intromissão do discurso da ciência no real.
Cada sujeito busca se situar da sua maneira própria diante da diferença dos sexos, para além das referências anatômicas ou dos ideais que acolhiam a partilha homem/mulher nos discursos estabelecidos. Isso implica nas cada vez mais frequentes intervenções feitas no corpo, a serviço dos sistemas de gozo. É uma tentativa de operar sobre o real através da ciência.
A teoria queer aponta a disjunção entre identidade sexual e gênero e o que ela sublinha e que podemos dizer que está inteiramente de acordo com o último Lacan, é que o gozo é particular e rebelde a toda normativização.
Assim, diante da diferença dos sexos que a psicanálise fundou em sua relação com o inconsciente e o que não se inscreve nele, cada falasser constrói hoje sua solução,  o que se apresenta na atualidade de uma maneira bastante distinta daquela que podemos datar nos anos 80.

L’Incs . Na Revista Curinga 09, de 1997 sobre o tema "Os enigmas do masculino" encontramos seu texto "A virilidade", no qual você pergunta se os homens estariam sendo menos viris. Podemos dizer que antes se falava do viril, hoje de virilidades. Além desta pluralização, há algo de novo nessas virilidades?

Orientados pelo Édipo, a virilidade é o resultado de um processo que necessariamente passa pelo pai, cuja função precisa ser encarnada.
Com o declínio da paternidade vemos essa função se pulverizar e se encarnar de distintas formas. A consequência é essa, a de virilidades no plural. Lacan nos ensinou que a sexualidade faz furo no real na adolescência e que esse real deverá ser tratado por meio de semblantes.
Quando o falasser não conta com o recurso fálico, ele poderá construir sua virilidade por meios distintos dos da castração. Isso me parece se evidenciar nas cada vez mais frequentes saídas toxicômanas dos homens.
Entretanto, se o falasser conta com o recurso fálico, este mostra ter dificuldades para ser sustentado.
Essa questão tem incidências no imaginário masculino contemporâneo, com corpos cada vez mais sarados, tatuados, indicando uma busca de sustentação pela via da parada fálica. Além disso, tem também incidências no real. Assim, vemos recrudescer no mundo a violência contra as mulheres, o que não deixa de evidenciar que o conjunto dos que se incluem na categoria de fálicos é marcado pelo traço da segregação. Penso que isso é uma consequência da dificuldade de se sustentar a insígnia da virilidade marcada pelo fálico sem rechaçar o gozo outro.

L’Incs:  E o feminino, de certo modo sempre novo e surpreendente, há aí alguma novidade especifica advinda da subjetividade de nossa época?

O feminino está articulado ao campo do não todo fálico, o que tem muitas afinidades com nosso mundo contemporâneo.
Por um lado, esse saber fazer com o nada parece tornar as mulheres mais aparatadas para enfrentar a desordem simbólica que enfrentamos na atualidade. Por outro, Lacan nos indicou que o fálico para a mulher deve passar pela condescendência com a posição de objeto de desejo para um outro corpo. Esse acesso ao falo me parece curtocircuitado na atualidade, o que implica numa maior dificuldade de acesso ao que é propriamente o campo do feminino.
A ciência possibilita o caminho da maternidade sem parceiro, sem pergunta pelo desejo, e as posições histéricas se apresentam como afirmações de uma posição fálica que dispensa se defrontar com a falta de representação significante da mulher. São dificuldades maiores para se enfrentar o não todo, me parece.
Isso se mostra nas cada vez intensas rivalidades femininas, nos frequentes distúrbios alimentares, no aumento das depressões e frustrações amorosas, no império das imagens e do corpo com a imposição superegoica de gozar cada vez mais.








[i] Ansermet F. , “Identidade sexual” in: Scilicet O Corpo falante - sobre o inconsciente no século XXI ,
Escola Brasileira de Psicanálise , RJ, 2016

Jornada EBP-MG