L'INCS #1 - 6. CONEXÕES








Repulsa ao sexo de Roman Polanski 

A Psicanálise conversa com a cidade

Margarete Parreira Miranda

 “Repulsa ao sexo”, filme de Roman Polanski (1965), inaugurou a série de Cinema e Psicanálise, parceria EBP-MG e sala Humberto Mauro, em 7 de abril de 2017, com a presença da psicanalista convidada a encaminhar o debate, Lúcia Grossi. O filme conversa com o tema da XXI Jornada da EBP-MG e  durante o debate, na platéia, pudemos ouvir outros psicanalistas e convidados da cidade.

     O filme traz elementos importantes, a partir da personagem central Carol Ledoux, bela jovem manicure, que mora com a irmã em um pequeno apartamento na cidade de Londres. Carol vagueia meio autômata, meio sonâmbula, parecendo ausente ao mundo que a cerca. Polanski focaliza o olho da protagonista, enredando-nos em um deslocamento crescente, do vazio do olhar para fora do acontecimento vivido, ao estranhamento e horror. No movimento das câmeras convida-nos, ainda, a entrar nas cenas a partir do olhar de Carol. Tendo forte dependência emocional de Hélène, o desencadeamento da psicose de Carol avança quando a irmã e o namorado viajam. O alheamento inicial à convocação sexual masculina transforma-se, pouco a pouco, em respostas delirantes e violentas.

Grossi toma o conceito de pulsão em sua versão etimológica – trieb do alemão – diferenciando-a de instinto. A pulsão consigna o ser de linguagem, susceptível às invenções e desvios, se distinguindo do instinto dos animais, em seus registros biológicos, pré-determinados, repetitivos. A pulsão é uma montagem construída pelo sujeito a cada encontro contingente com o Outro, e não somente fruto de uma série de acontecimentos permanentes da infância que se atualizam depois. Se a pulsão de vida liga o sujeito ao Outro, a pulsão de morte re-pulsa, o recusa, não quer saber. Importante ainda elucidar que, para a psicanálise, existe a distinção do olho e do olhar. O olhar enlaça o sujeito, para além de sua função de ver.  Lacan designou como “estádio do espelho” a chance que teria o bebê de integrar o corpo originariamente vivido como esfacelado, na interação imaginária com o Outro. Em sua inserção na linguagem, entretanto, nem tudo será significado ou marcado simbolicamente, restando alguma coisa da experiência à margem da representação subjetiva.

     Duas colocações da platéia indicam o que a cidade quer saber sobre o sexual e a loucura: - “Carol teria sofrido abuso sexual, anteriormente, por isso sua repulsa traumática ao sexo?” E ainda: “O que dizer do comportamento machista dos homens do filme, ao abordarem sexualmente a protagonista?”

     Carol não pode operar a imagem de seu corpo no encontro com o Outro, no nascimento do laço social. Ali, algo se extraviou, se perdeu, e a vivência de esfacelamento corporal no transcorrer do filme vai se evidenciando. A repulsa ao sexo é a recusa ao laço com esse Outro, que é por ela tomado como invasivo. E assim, a psicanálise entende o traumático.     No seguimento do desencadeamento da psicose, a atriz alucina braços e mãos que a agridem e ataca fatalmente os corpos. Corpos despedaçados como o corpo de nossa personagem. Ela responde com golpes ao Outro que se aproxima ameaçador, na tentativa de apaziguar a angústia que a assola.

     Lendo o caso de Carol pelo viés da psicanálise, podemos também pensar a segunda colocação, de outro participante do debate, sobre os “homens machistas” do filme. Sem desconhecer e repudiando a violência de tais comportamentos para com as mulheres, pensamos que a maneira como a jovem protagonista recebia e respondia ao sexual, atendia às suas singularidades.

     Polanski nos coloca, dessa maneira, frente a frente com a loucura de seu tempo.

     Em nossos dias, podemos pensar que o contemporâneo produz um movimento cínico frente ao Outro abusivo?





Mãe só há uma - Anna Muylaert

Ludmilla Féres Faria




O filme “Mãe só há uma”(2016), dirigido por Anna Muylaert, foi comentado por Jésus Santiago, em 17/03/2016, numa atividade conjunta dos Núcleos de Psicanálise e Direito e Psicanálise e Medicina, em conexão com XXI Jornada da EBP-MG: “O inconsciente e a diferença sexual: o que há de novo?”. O Boletim L’incs apresenta, em primeira mão, alguns trechos desse instigante debate. Destacamos a forma precisa com que o diretor de Orientação de nossa Jornada, Jésus Santiago,   localiza, entre outras,  a diferença entre a abordagem das teorias de  gêneros e da psicanálise no tocante a  “plasticidade da posição sexual”. Após destacar a diferença entre semblante e artefato, bastante presente na narrativa, Jésus lança a hipótese de que o filme apresenta uma espécie de “rarefação da função fálica”. E termina perguntando qual seria a orientação de um psicólogo, de orientação psicanalítica lacaniana, num caso como esse?

Vejam abaixo alguns trechos do comentário, que será publicado na integra no próximo Almanaque, número 19, a ser lançado em agosto de 2017. Imperdível!!!



“Tem um ponto que chama a atenção que é o que os estudos de gênero tratam como sendo essa disjunção entre a identidade e a orientação. Como se o filme... o personagem Pierre, encarnasse isso que constitui uma espécie de desordem do que se instituiu como típico das relações entre os sexos, aqui não vai nenhum juízo de valor, simplesmente que a contemporaneidade apresenta toda uma dificuldade para lidar com essa disjunção da identidade sexual e da orientação sexual”.

“... Lacan chama de artefatos, pois enquanto  o semblante é uma composição do imaginário e do simbólico, no artefato temos uma dosagem maior de fatores imaginários, daí seu caráter de artificialidade, de pura maquinaria, que o sujeito Pierre faz uso”.

“... Me pergunto se nessa cena a gente não tem elementos para pensar aquilo que seria a diferença sexual... não a diferença sexual tal como ela é concebida pelos estudos de gênero, a diferença sexual inteiramente percebida no âmbito marcadores de gênero, aqui não, na psicanálise precisamos  de algo no âmbito da materialidade da pulsão, da própria operação da pulsão. Por isso que uma posição sexual para a psicanálise não se fixa em relação a um gênero, ela se desloca”

“...pergunto o que seria a orientação de um psicólogo, de orientação psicanalítica lacaniana, nesse caso. Certamente ele tomaria como ponto de partida uma aposta no sujeito, em primeiro lugar, acolher o consentimento do Pierre”




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Jornada EBP-MG